‘Na África, indaguei rei da minha etnia por que nos venderam como escravos’

“Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem”, queixa-se o arquiteto baiano Zulu Araújo, de 63 anos, em referência à população negra descendente dos 4,8 milhões de africanos escravizados recebidos pelo país entre os séculos 16 e 19.

 

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

A convite de produtora, arquiteto fez exame genético e foi até Camarões para conhecer seus ancestrais

 

Araújo foi um dos 150 brasileiros convidados pela produtora Cine Group para fazer um exame de DNA e identificar suas origens africanas.

Ele descobriu ser descendente do povo tikar, de Camarões, e, como parte da série televisiva Brasil: DNA África, visitou o local para conhecer a terra de seus antepassados.

“A viagem me completou enquanto cidadão”, diz Araújo. Leia, abaixo, seu depoimento à BBC Brasil:

“Sempre tive a consciência de que um dos maiores crimes contra a população negra não foi nem a tortura, nem a violência: foi retirar a possibilidade de que conhecêssemos nossas origens. Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem.

Meu sobrenome, Mendes de Araújo, é português. Carrego o nome da família que escravizou meus ancestrais, pois o ‘de’ indica posse. Também carrego o nome de um povo africano, Zulu.

Momento em que o Zulu confronta o rei tikar sobre a venda de seus antepassados

Ganhei o apelido porque meus amigos me acharam parecido com um rei zulu retratado num documentário. Virou meu nome.

Nasci no Solar do Unhão, uma colônia de pescadores no centro de Salvador, local de desembarque e leilão de escravos até o final do século 19. Comecei a trabalhar clandestinamente aos 9 anos numa gráfica da Igreja Católica. Trabalhava de forma profana para produzir livros sagrados.

Bom aluno, consegui passar no vestibular para arquitetura. Éramos dois negros numa turma de 600 estudantes – isso numa cidade onde 85% da população tem origem africana. Salvador é uma das cidades mais racistas que eu conheço no mundo.

Ao participar do projeto Brasil: DNA África e descobrir que era do grupo étnico tikar, fiquei surpreso. Na Bahia, todos nós especulamos que temos ou origem angolana ou iorubá. Eu imaginava que era iorubano. Mas os exames de DNA mostram que vieram ao Brasil muito mais etnias do que sabemos.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação“Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo”, diz Zulu sobre chegada a Camarões
Zulu Araújo | Foto: DivulgaçãoPergunta sobre escravidão a rei camaronense foi tratada como “assunto delicado” e foi respondida apenas no dia seguinte

Quando cheguei ao centro do reino tikar, a eletricidade tinha caído, e o pessoal usava candeeiros e faróis dos carros para a iluminação. Mais de 2 mil pessoas me aguardavam. O que senti naquele momento não dá para descrever, de tão chocante e singular.

As pessoas gritavam. Eu não entendia uma palavra do que diziam, mas entendia tudo. Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo.

O povão me encarava como uma novidade: eu era o primeiro brasileiro de origem tikar a pisar ali. Mas também fiquei chocado com a pobreza. As pessoas me faziam inúmeros pedidos nas ruas, de camisetas de futebol a ajuda para gravar um disco. Não por acaso, ali perto o grupo fundamentalista Boko Haram (originário da vizinha Nigéria) tem uma de suas bases e conta com grande apoio popular.

De manhã, fui me encontrar com o rei, um homem alto e forte de 56 anos, casado com 20 mulheres e pai de mais de 40 filhos. Ele se vestia como um muçulmano do deserto, com uma túnica com estamparias e tecidos belíssimos.

Depois do café da manhã, tive uma audiência com ele numa das salas do palácio. Ele estava emocionado e curioso, pois sabia que muitos do povo Tikar haviam ido para as Américas, mas não para o Brasil.

Fiz uma pergunta que me angustiava: perguntei por que eles tinham permitido ou participado da venda dos meus ancestrais para o Brasil. O tradutor conferiu duas vezes se eu queria mesmo fazer aquela pergunta e disse que o assunto era muito sensível. Eu insisti.

Ficou um silêncio total na sala. Então o rei cochichou no ouvido de um conselheiro, que me disse que ele pedia desculpas, mas que o assunto era muito delicado e só poderia me responder no dia seguinte. O tema da escravidão é um tabu no continente africano, porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente.

No dia seguinte, o rei finalmente me respondeu. Ele pediu desculpas e disse que foi melhor terem nos vendido, caso contrário todos teríamos sido mortos. E disse que, por termos sobrevivido, nós, da diáspora, agora poderíamos ajudá-los. Disse ainda que me adotaria como seu primeiro filho, o que me daria o direito a regalias e o acesso a bens materiais.

Foi uma resposta política, mas acho que foi sincera. Sei que eles não imaginavam que a escravidão ganharia a dimensão que ganhou, nem que a Europa a transformaria no maior negócio de todos os tempos. Houve um momento em que os africanos perderam o controle.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação“Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.”

Um intelectual senegalês me disse que, enquanto não superarmos a escravidão, não teremos paz – nem os escravizados, nem os escravizadores. É a pura verdade. Não dá para tratar uma questão de 500 anos com um sentimento de ódio ou vingança.

A viagem me completou enquanto cidadão. Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.

Acho que os exames de DNA deveriam ser reconhecidos pelo governo, pelas instituições acadêmicas brasileiras como um caminho para que possamos refazer e recontar a história dos 52% dos brasileiros que têm raízes africanas. Só conhecendo nossas origens poderemos entender quem somos de verdade.”

Originalmente publicado aqui.

A SHARIA BATE À PORTA DO PALÁCIO DO PLANALTO

Logo após a iniciativa do parlamento francês prolongar a decretação do “estado de emergência” por 3 meses devido preocupação com a  ameaça terrorista que ronda o país, somos surpreendidos por manchete do jornal ‘O Globo’ esposando o intuito da liderança da comunidade muçulmana brasileira em recorrer à presidente Dilma numa tentativa de evitar o “extremismo “em nosso território.

Contudo, a manchete oculta o verdadeiro objetivo do texto, qual seja, promover a ideia de combate à islamofobia como lastro para a expansão do islã no Brasil através da taqyiia (estratégia de enganar não-muçulmanos). Dessa forma, creio ser apropriado destrinchar as sutilezas midiáticas clericais para islamizar nosso país.

Os líderes muçulmanos querem que o governo promova um seminário inter-religioso ainda no primeiro semestre de 2016, antes das Olimpíadas, isto, para “se preparar melhor contra a ação de radicais.”

Daí, vale a reflexão: um seminário inter-religioso promovido por muçulmanos será eficiente para inibir a ação de extremistas com o falacioso discurso da coexistência ou seria apenas uma estratégia tosca de arregimentar mais apoio ao islã de várias correntes religiosas que já aderiram ao discurso politicamente correto da islamofobia?

Ademais, não há necessidade mínima de se conhecer o corão ou a suna (tradição islâmica) para saber que qualquer muçulmano seguidor do “verdadeiro islã” jamais comungaria da ideia de respeitar os princípios éticos que regem a civilização judaico-cristã em detrimento da poderosa sharia (lei islâmica). De modo que, os chamados “extremistas” almejando tão-somente expandir sua fé conforme apregoada há 1.400 anos, certamente não se sensibilizariam com uma reunião de líderes religiosos verberando discursos ocos de convivência pacífica fundamentados em preceitos que contrariam irrefragavelmente os escritos islâmicos sagrados,  os quais são eternos, perfeitos e imutáveis sob a ótica muçulmana.

Porém, a proposta de seminário inter-religioso apoiado pelo governo brasileiro é uma estratégia eficiente para divulgar a mensagem ardilosa de “vitimização muçulmana”, que vem sendo explorada no meio acadêmico e na mídia, e acatada por líderes evangélicos em igrejas e programas de TV. Eu mesma já tive ferrenhos embates com pastores que defendem ardorosamente as ações muçulmanas.

A maior prova do verdadeiro propósito dos líderes muçulmanos está no próprio texto do jornal que destaca um sermão do xeque Abdul Hamid para cerca de 1.500 fiéis, o qual teria repetido  algumas vezes que “os muçulmanos jamais foram adeptos da violência, e lembrou que os árabes sequer produzem armas”, frisando, ainda que “seu povo nunca matou nem quando estava por cima, e apontou Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França e Israel como os maiores fabricantes de material bélico do mundo.”

Empolgado com a mentira, Abdul Hamid propalou: “O Estado Islâmico compra de quem? Quem criou esse grupo? Veja que a maioria nem é árabe. Então não somos nós que promovemos a guerra.”

Por certo, o xeque contou com o desconhecimento da maior parte dos ouvintes acerca da origem da doutrina que embasa as ações do Estado Islâmico, cria da al-Qaeda. Aliás, o grupo é composto apenas por jihadistas muçulmanos, que não necessariamente são árabes, sendo certo que, todos seguem literalmente o corão.

Quando foi indagado se concorda com uma ofensiva contra os jihadistas nos moldes dos bombardeios franceses, o xeque pacifista disse que “os muçulmanos jamais estarão em situação de guerra com ninguém e pediu que Alá tenha clemência.” Talvez, ele tenha sofrido uma “amnésia temporária” que o fez esquecer das carnificinas promovidas pela jihad islâmica, que desde os primórdios do expansionismo muçulmano massacrou mais de 270 milhões de cristãos, hindus, budistas e africanos. Afinal de contas, segundo a doutrina islâmica, o Ocidente é a “casa da guerra” que deve ser submetida pela jihad para se tornar a “casa do islã”

Aproveitando o “complexo ocidental de culpa” fabricado pelos defensores do pensamento islâmico, o xeque propala: “Ninguém lembra quando sofremos violência em nossas casas, nem abre a boca para condenar o que fazem contra nossas mulheres, mas estão sempre nos acusando de terrorismo.”

Pois é, o xeque deve ter esquecido qual a origem dos mais de 27 mil ataques terroristas no mundo desde os atentados de 11 de setembro, e o tratamento desumano outorgado às mulheres muçulmanas como uma especialidade de governos e facções terroristas islâmicas que, por acreditarem que a mulher vale menos que o homem, ordenam espancamentos e execuções se violarem o rígido código moral da sharia.

Na esteira de apoio, surge um representante da Sociedade Beneficente Muçulmana (SBM), Ahmed Ismail, que também condenou qualquer tipo de ataque ao Estado Islâmico, e frisou que “a Justiça cabe somente a Deus”. Todavia, nunca é demais lembrar que em setembro, Sami Isbelle, membro da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, esteve em um seminário sobre intolerância religiosa na igreja Batista Betânia vociferando discurso de apoio ao ex-presidente egípcio Morsi, “representante exemplar” da Irmandade Muçulmana, de onde veio os pilares do terrorismo islâmico moderno. Dessa forma, podemos complementar as palavras de Ahmed Ismail, afirmando que a justiça cabe somente a Deus e aos piedosos muçulmanos jihadistas componentes da Irmandade Muçulmana.

Enfim, não tenho dúvida alguma de que a carta redigida pelo Conselho Superior dos Teólogos e Assuntos Islâmicos no Brasil (CSTAIB), junto com a Sociedade Beneficente Muçulmana (SBM), será muito bem recebida no Palácio do Planalto porque, tal como a chefe da diplomacia anã brasileira, comungam da ideia de que não se deve combater a facção terrorista islâmica mais perigosa da atualidade, bem como acreditam que o terrorismo é apenas um “instrumento de justiça” a ser estabelecido contra o “Ocidente infiel” que permite muçulmanos viverem em suas terras sem exigir a submissão aos seus valores.

Por Andréa Fernandes

Artigo do jornal O Globo:

http://oglobo.globo.com/mundo/muculmanos-querem-ajuda-de-dilma-para-evitar-extremismo-18105760?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo

 

 

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Fobia? Que fobia?

Imediatamente após os atentados da sexta-feira 13, começou a grita politicamente correta contra a “islamofobia”, com a típica arrogância de quem nunca leu o Corão, mas paternalisticamente repete que os terroristas “o interpretam mal”. Evidentemente, é errado culpar a todos pelos atos de alguns, mas não é este o problema.

Pouco mais de 200 anos atrás, a França começou uma experiência social única: a construção de uma sociedade em que um dos elementos essenciais do homem como indivíduo e como ser social, a religião, estaria ausente. Aproveitando a separação operada pelo cristianismo entre o que é “de César” e o que é “de Deus”, a Revolução Francesa negou a este, no máximo tolerando-o como assunto de foro privado, e inserindo todo o social naquele. A religião foi expulsa da esfera pública, deixando um aberrante vácuo.

Com o fim das colônias, em meados do século 20, a imigração muçulmana levou à Europa enorme quantidade de gente para quem simplesmente não faz sentido a separação entre o que é de César e o que é de Deus. No Islã tudo é de Alá, inclusive o próprio César. O Corão é ao mesmo tempo catecismo, breviário, código penal, código civil, constituição e manual de vida, com minúcias que incluem com que mão se deve levar a comida à boca.

O Corão é ao mesmo tempo catecismo, breviário, código penal, código civil, constituição e manual de vida

Ora, a imensa maioria dos muçulmanos não leva a religião muito a sério: nisto eles são como a maioria dos católicos, budistas, xintoístas ou judeus. O problema é que o católico ou budista que leve a sério a religião irá provavelmente se trancar em um convento e não incomodará ninguém. Já o muçulmano que leve o Islã a sério se vê obrigado em consciência a derrubar o governo civil e substituí-lo por uma teocracia islâmica em que adúlteras são chicoteadas e o furto é punido com a amputação de uma mão. É possível diferir nos meios, mas não na busca da teocracia. O Islã levado a sério dá medo, e não se trata de uma fobia irracional.

Estatisticamente, sempre há quem leve a sério suas crenças, e a experiência francesa gerou multidões de radicais muçulmanos com certidão de nascimento e passaporte europeus. Milhares deles foram para a Síria juntar-se ao Estado Islâmico, mas muitos mais permaneceram na Europa com o coração em Meca. Alguns destes chacinaram uma multidão em Paris na sexta-feira 13. Outros virão: o Islã é incompatível com a democracia, e o problema é este.

 

 

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O regresso dos neoconservadores

Quando os Estados Unidos sofreram os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, uma palavra erudita ocupou as atenções da mídia. “Neoconservadorismo”. George W. Bush era influenciado pelos “neoconservadores” na resposta aos criminosos. E que resposta seria essa?

Simplificando uma ideologia complexa, o “neoconservadorismo” sempre defendeu que os interesses estratégicos dos Estados Unidos podem estar fora das suas fronteiras. De igual forma, as ameaças a esses interesses também.

Irving Kristol, um dos nomes mais importantes do movimento, gostava de lembrar que a participação americana na Segunda Guerra Mundial espelhava essa verdade: a rigor, o nazismo não era uma ameaça direta para Washington. Mas era uma ameaça para a Europa. E a segurança da América –econômica, estratégica, civilizacional– estava também no velho continente.

Igual raciocínio levou Bush para o Afeganistão e para o Iraque. Sobre o Afeganistão, nada a dizer: se o 11 de Setembro fora patrocinado pela Al Qaeda, era necessário destruir os campos de treino que Osama Bin Laden instalara no país do Taliban.

Mas o Iraque era um caso diferente: primeiro, porque a história das “armas de destruição em massa” cheirava mal para qualquer observador atento.

E, além disso, a remoção de Saddam Hussein significava a destruição da estrutura sunita do país e, pormenor importante, transformava o próprio Iraque em território de vinganças sectárias, sobretudo para a população xiita longamente oprimida pelo carniceiro de Bagdá.

Todos conhecemos o resto da história. Mas Patrick Cockburn, em “The Jihadis Return: ISIS and the New Sunni Uprising”, relembra alguns pormenores: entre 2006 e 2014, quando Nouri al-Maliki foi o premiê (xiita) do país, o Iraque poderia ter trilhado um caminho diferente –menos corrupção e alguma brandura para a população sunita.

Não aconteceu. Com a Síria em guerra civil, a mediocridade dos governos de Maliki foi permitindo que um grupo terrorista sunita –hoje conhecido pelo pomposo nome de “Estado Islâmico”– começasse uma luta em duas frentes: contra Bashar al-Assad, sim; mas também contra os xiitas do Iraque. As vitórias foram assinaláveis.

No livro de Patrick Cockburn, acompanhamos essas vitórias: Fallujah, primeiro; Mosul, depois. Mas acompanhamos mais: a total incapacidade dos Estados Unidos (e da Europa, claro) para evitar o desastre.

Barack Obama, convém lembrar, tinha a ambição caridosa de corrigir os erros do seu antecessor, retirando-se o mais depressa possível da região. Patético. A retirada apenas amplificava esses erros, entregando o território à selvajaria dos jihadistas.

Hoje, milhares de refugiados da Síria (mas não só) tentam abandonar o caos e entrar na Europa. Muitos morrem pelo caminho. E os que chegam encontram um continente atônito, que não sabe o que fazer com milhares de pessoas doentes e famintas.

O “Daily Telegraph”, em tom sério, até publicou um artigo no qual relembra aos incréus as soluções que têm sido pensadas para a crise dos refugiados.

Anote, leitor: espalhar 160 mil pela Europa inteira; comprar uma ilha no Mediterrâneo só para acomodar os infelizes; enviá-los para o Cambodja (uma ideia australiana); despejar dinheiro sobre o problema; ou transportá-los de avião para a Europa, de forma a evitar naufrágios e outros infortúnios.

Curiosamente, ninguém falou em alugar uma nave espacial e colonizar a Lua com eles. Entendo. Na Lua já habitam os líderes ocidentais, que preferem não ver o “óbvio ululante”: a crise dos refugiados só terá solução na origem. Ou, sem eufemismos, com novas ações militares contra o terrorismo jihadista.

A filosofia “neoconservadora” levou Bush para o Afeganistão (certo) e arrastou-o inutilmente para o Iraque (errado). E esse erro alimentou em Barack Obama o mesmo sentimento que os americanos tiveram depois da Primeira Guerra Mundial: um sentimento isolacionista, próprio de quem está cansado de ser a polícia do mundo.

Infelizmente, o mundo não tira férias quando os Estados Unidos decidem regressar para a toca. E não deixa de ser irônico que a filosofia “neoconservadora”, depois de todos os erros, seja hoje a única proposta realista para o problema: quando não tratamos dos problemas fora das fronteiras, eles acabam por cruzá-las com fúria e estrondo.

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O FIM DA REDE GLOBO! ACABOU… ACABOU… ESCREVE PERCIVAL PUGGINA

ACABOU! ACABOU!

Outro dia, escrevi sobre o comportamento abusivo de setores sociais que se consideram corregedores da opinião pública. Referia-me a grupos empenhados em nos instruir segundo seus próprios padrões de conduta. Estranhamente, percebi hoje, deixei de lado os autores e diretores de novelas da Rede Globo. Como fui esquecê-los? A explicação é simples: há muitas décadas não assisto novela alguma. Mas sei que foi constante e persistente o trabalho desses profissionais para impor à sociedade suas pautas e suas posições político-ideológicas, através da audiência da maior emissora de tevê do país.

Serviram à população, lentamente, doses crescentes de drogas que a tornasse dependente e destruísse seus princípios e seus valores. Muitos dos atuais males vividos pelas instituições nacionais, partindo da família, passando pelo sistema de ensino, até chegar à política e às instituições do Estado, resultam, em boa parte, do longo processo sobre o qual aqui escrevo. A discussão sobre ele é antiga e se resume, essencialmente, em saber quem reflete o quê: a novela expressa a vida ou a vida reflete a novela?

Essa dúvida eu nunca tive. Durante anos participei de um grupo que fazia palestras sobre a formação do senso crítico, para criar mecanismos de defesa no ambiente familiar e escolar, construindo trincheiras de consciências bem formadas. Com o passar dos anos, o grupo se desfez por motivos que nada tiveram a ver com a tarefa em si. Mas sinto uma ponta de orgulho em saber que, há tanto tempo, tivemos claro discernimento sobre para onde a nação estava sendo conduzida. Em entrevista que li lá pelo início dos anos 90, um dos maiores da profissão, filiado ao PCB, Dias Gomes, admitiu explicitamente que sua atividade profissional sempre estivera orientada nessa direção, inclusive durante os governos militares.

Por todas essas e por muitas outras, a matéria da Veja sobre a reação de Gilberto Braga e Dennis Carvalho, respectivamente autor e diretor da novela Babilônia, me fez muito feliz. Encantou-me o desalento da dupla que quis aumentar um pouco mais a dose da droga que serve à sociedade e obteve como resposta uma sólida rejeição. A novela virou o maior fiasco do horário em toda a história da TV Globo. Mas o melhor de tudo foi ler que a dupla está estarrecida com a “caretice” da população. “Nós estamos no século 21, em 2015, e de repente as pessoas ficam chocadas com coisas que não chocavam antigamente”, lamuriaram-se.

Mas não é a novela que imita a vida, senhores? Agora mudou tudo? A rejeição da sociedade a essa novela mostra que sempre foram vocês que estiveram conduzindo a população através da falta de caráter e limites de seus personagens. E agora, que os telespectadores lhes dizem – Basta!” – têm a audácia de atribuir a rejeição ao “politicamente correto”? Mas essa maldição do politicamente correto foi outra construção do mesmo plano sinistro que conduziam!

Esse ardiloso uso do poder da televisão também chega ao fim. Aquelas três novidades tecnológicas que mencionei outro dia – internet, telefone celular e redes sociais – estão derrubando o comércio de droga à população através da TV. As pessoas estão sabendo mais, lendo outras coisas, assistindo vídeos de formação, ampliando seu discernimento e percebendo que com a perda da noção de limites são perdidos, também, muitos dos mais valiosos bens de que todos podemos dispor para nossa felicidade.

* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site http://www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar.

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Brasileiros têm mais cachorros que crianças, segundo pesquisa do IBGE

Segundo dados divulgados pelo IBGE nesta terça-feira (2), o cachorro é, de fato, o melhor amigo do homem (e da mulher). Em 44,3% dos domicílios brasileiros há pelo menos um cachorro, com um total estimado de 52,2 milhões de cães.

Os dados valem para 2013. Isso significa que há mais cachorros de estimação do que crianças em domicílios brasileiros, já que, segundo o PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do mesmo ano, havia 44,9 milhões de crianças de até 14 anos no país.

A região sul do país é a que concentra mais cães de estimação, com 58,6% dos domicílios com um ou mais cachorros.

Dilson Silva/AgNews
Ellen Jabour caminhando com seu cachorro na orla da praia da Barra da Tijuca
Ellen Jabour caminhando com seu cachorro na orla da praia da Barra da Tijuca
Reprodução/IBGE
Cães e gatos no Brasil segundo o PNS 2013
Cães e gatos no Brasil segundo o PNS 2013

Os gatos, porém, ficaram para trás, povoando apenas 17,7% dos domicílios do país. A população total dos felinos é de 22,1 milhões, metade da de cães.

É a primeira vez que o IBGE divulga o número de cães e gatos no país com esta metodologia. A pesquisa revela ainda em quantos dos domicílios com animais de estimação estes foram vacinados contra a raiva.

Apesar de ser a região com mais cães, o sul é onde estes são menos protegidos contra a raiva, com apenas 63,5% de animais vacinados. No total, 75,4% dos domicílios têm bichos de estimação vacinados.

Os dados foram coletados pela Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), que também revela dados sobre doenças, estilo de vida e condições gerais das casas dos brasileiros.

Reprodução/IBGE
Animais vacinados para raiva em 2013 segundo o IBGE
Animais vacinados para raiva em 2013 segundo o IBGE

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Adeptos do islã, rappers aliam música e religião na periferia

Com rimas combativas e tentando diminuir preconceito, grupo Jihad Brasil reúne muçulmanos em favela de Embu das Artes

Por: Felipe Neves14/05/2015 às 19:48 – Atualizado em 15/05/2015 às 12:11

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César Kaab e o amigo Cláudio Omar, ambos de 40 anos na favela Cultura Física, em Embu das Artes (Foto: Felipe Neves)

César Rosalino, de 40 anos, fala por dez minutos até ser interrompido por uma voz melodiosa que ecoa de um dispositivo eletrônico no canto da sala.  É hora da Asr, a oração do meio da tarde, realizada todos os dias pelos muçulmanos. Ele pede licença e, por alguns instantes, faz o ritual que consiste em agachar-se, ajoelhar-se e proferir versos em árabe. Após a pausa, Rosalino, que cultiva uma longa barba grisalha, deixa o idioma de lado e volta para o português recheado de gírias ao qual está mais habituado. “Senta aí, mano. Vamos continuar a conversa.”

Rosalino é o criador do Jihad Brasil, grupo de rap que transmite em suas músicas os ensinamentos do Alcorão. Palestina, Islã e Paz e Carta ao Poder são títulos das letras que ele compôs com amigos para o primeiro disco do conjunto, Fragmentos de um Muçulmano. Combativos, os versos criticam ações militares dos Estados Unidos no Oriente Médio e problemas no Brasil.

A fé e a música compõem a história de vida do morador da favela Cultura Física, em Embu das Artes (Grande São Paulo). O rap, no entanto, entrou em sua vida antes do islamismo. Batizado na Assembleia de Deus aos 12 anos, ele frequentou a igreja evangélica durante a maior parte da adolescência. “Sofria um certo bullying na escola porque andava de terninho, com a Bíblia embaixo do braço”, diz Rosalino. “Achava que tudo era demônio”, brinca.

+ Veja os horários e o local de funcionamento da Mesquita Brasil

Na juventude, longe da fé cristã, conheceu um amigo que o apresentou ao mundo dos bailes de música negra, sensação na São Paulo da década de 1980. “Comecei a frequentar festas como Chic Show, Black Mad, Zimbabwe. Foi aí que conheci o rap de verdade.” Dali em diante, o contato de Rosalino com o ritmo que ganhava espaço no país se intensificaria.

No início dos anos 90, ele fundou o Reality Rap, sua porta de entrada na cena hip hop brasileira. Após deixar o conjunto e seguir carreira solo por algum tempo, Rosalino formou com amigos o Tribunal Negro, que, na virada para o século XXI, agregaria outros rappers para formar o Organização Xiita, primeiro trabalho de sua carreira com alguma inspiração islâmica.

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César Kaab na primeira mussala (espaço para orações dos muçulmanos) localizada em uma favela (Foto: Felipe Neves)

Apesar do nome, não havia muito de Maomé nas canções do grupo. “Dei esse título porque li em algum lugar que se tratava de algo radical, mas não tinha muita noção do que era. Até gravamos um disco chamado Guerra Santa, mas sem nenhuma referência ao Alcorão”. Com os atentados de 11 de setembro de 2001, Rosalino sentiu-se desconfortável com o que fazia e acabou abandonando o conjunto. “Precisava parar e ler algumas coisas.”

A fé do cantor ficou adormecida por algum tempo, mas o rap tratou reconectá-lo. À procura de uma batida para usar como base em uma de suas músicas, ele encontrou um Adhan (canto muçulmano usado para convocar à oração) que mudaria sua vida. “Eu me senti tocado ouvindo aquela canção e achei que ali era o momento de me reverter.”

+ Roteiro ecumênico por São Paulo: muçulmano 

A “reversão”, como os muçulmanos chamam a passagem para o Islã, aconteceu em 2008. Rosalino virou Kaal Luckman Abdul Al Qadir. A transição ainda marcou a criação do Jihad Brasil e a fundação da primeira mussala localizada em uma favela. O espaço, usado pelos muçulmanos para orar em direção à Meca, foi onde outro rapper do grupo, Cláudio Roberto, encontrou a religião.

Tímido ao conversar, Cláudio, que virou Omar Seth Ali, relembra o preconceito que sofreu nas primeiras apresentações do Jihad. “A gente se vestia a caráter e as pessoas estranhavam, chamavam de ‘macumba’. Um dos momentos mais difíceis foi na abertura do show dos Racionais que fizemos. Era uma praça lotada, tremi na base. Mas depois que ouviram o nosso som as pessoas passaram a gostar.”

Hip Hop Muçulmano
César Kaab e um vizinho, também muçulmano, realizando a Asr, oração do meio da tarde. Prática é obrigação diária no islamismo (Foto: Felipe Neves)

Rosalino diz que, apesar de conseguir admiradores, o grupo não pretende fazer dele um instrumento para conseguir fiéis ao Islã. “Não somos proselitistas. Ninguém precisa se reverter quando ouvir as músicas. A única intenção é fazer as pessoas refletirem e entenderem que o Islã é, antes do tudo, uma religião a favor da paz. Se eu conseguir isso, já estarei realizado”.

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