Há livros que nos fazem mal?

Em Lisístrata, comédia do ano 411 a.C., o dramaturgo grego Aristófanes põe na voz de uma mulher um apelo à paz: enquanto durar a guerra entre Atenas e Esparta, as atenienses recusam ter sexo com os seus maridos. O livro seria pouco depois proibido naquela que é uma das primeiras censuras literárias do Ocidente. Perigoso por propor uma alteração à norma de comportamento.

Muitos séculos depois, noutro país também do Ocidente, um grupo de estudantes universitários pede para que alguns clássicos da literatura, sobretudo da antiguidade grega e romana, que fazem parte dos programas curriculares, surjam com uma advertência na capa, chamando a atenção para o “perigo” para o “bem-estar mental” que representam os seus conteúdos, potencialmente causadores de sofrimento, trauma ou angústia.

Metamorfoses, do poeta latino Ovídio, é uma das obras que esses estudantes consideram conter “matéria perigosa”. O poema dividido em 15 livros é tido como um dos livros mais influentes da cultura e civilização ocidentais e narra a transformação exercida pelo tempo no homem e na sua história, cruzando ficção e realidade, e apresentando os mitos como essenciais na evolução humana. Deuses, homens, plantas, animais, elementos convivem fantasiosamente em histórias de amor, traição, incesto, punição, violência, morte, redenção, sem qualquer tipo de apreciação moral. Entre estes “interditos, está a descrição do rapto de Prosérpina, mulher de Plutão e filha de Deméter, que Ovídio começa a narrar assim: “Um dia colhia violetas e brancos lírios, e ia enchendo, com entusiasmo juvenil, cestas e o regaço, à compita com as amigas a ver quem colhia mais, quando Dite a viu e, quase em simultâneo, se enamora e rapta-a: tão precipitado era o seu amor. Aterrada, desata a deusa a chamar, com voz desolada, pela mãe e as companheiras, sobretudo pela mãe. Rasgando a parte de cima do vestido, a túnica soltou-se e as flores colhidas caíram por terra. E tal era a candura que presidia aos seus anos de menina, que até também a perda das flores consternou a rapariga.” (Cotovia, 2007)

O pedido aconteceu no início do Verão passado, veio dos estudantes da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, uma das mais prestigiadas do país, e foi rejeitado pela direcção, mas é simbólico em relação ao que se está a passar em muitas universidades nos Estados Unidos. Em Setembro do ano passado, a revista Atlantic publicava um artigo com o título O afago da mente americana, escrevendo que, “em nome do bem-estar emocional, os estudantes universitários exigem uma protecção cada vez maior em relação a palavras e ideias de que não gostam”, o que está, dizem os autores do texto, “a ser desastroso para a educação e para a saúde mental”. E dão mais exemplos. Os estudantes de Direito de Harvard pediram que não fosse ensinada a lei sobre violação. O problema, diziam, estava na palavraviolação (rape), que podia reacender o trauma em estudantes que pudessem ter sido vítimas desse tipo de abuso.

Absurdo? Os pedidos de protecção “literária” sucedem-se. Pouco tempo depois, a Aeon publicava um ensaio, partindo do facto de que a ideia de que os livros são perigosos é tão antiga como a literatura. “Não se fala tanto de ‘perigo’ político, mas moral ou mental. O romance de Chinua Achebe Quando Tudo se Desmorona (1958) está também entre os problemáticos por poder despertar instintos racistas ou reavivar o sofrimento de quem foi alvo de racismo; O Grande Gatsby, por estimular violência doméstica; Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, por poder levar ao suicídio, assim como A Piada Infinita, de David Foster Wallace, por narrar os sintomas da depressão crónica experimentada pelo autor e que o levaria a suicidar-se em 2006, dois anos após a publicação do livro. Fala de uma sensação que “é o motivo pelo qual quero morrer”. E define-a assim: “É como se não fosse capaz de encontrar nada fora dessa sensação e por isso não sei que nome lhe posso dar. É mais horror que tristeza. É mais horror. É como se uma coisa horrorosa estivesse prestes a acontecer, a coisa mais horrível que se possa imaginar, não, pior do que se possa imaginar porque há também a sensação de que é preciso fazer qualquer coisa de imediato para se deter aquilo mas não se sabe o que se deve fazer e de repente está a acontecer, durante o tempo todo, está prestes a acontecer e ao mesmo tempo está a acontecer.” (Quetzal, 2012)

Os campus universitários americanos parecem viver no pânico do trauma, na obsessão da linguagem politicamente correcta, de tal forma que — e lembra ainda o artigo da Atlantic — humoristas como Jerry Seinfeld estão a recusar dar espectáculos nas universidades, alegando que os estudantes “não são capazes de suportar uma piada”.

 

“Infantilização” da sociedade

“Estamos perante uma excessiva psiquiatrização da sociedade”, afirma Manuela Correia, psiquiatra, psicoterapeuta, com um vasto trabalho e investigação desenvolvidos na área do suicídio na adolescência e juventude, e uma leitora voraz. Conhece todas as obras aqui apontadas como “perigosas” e tenta responder a uma questão muito simples: há livros que nos fazem mal? Ou — recuperando a terminologia usada por quem pede protecção — há livros “perigosos”? E a outra pergunta que pode precisar de resposta mais complexa: o que é que este medo pode representar, não apenas para quem dele padece, mas para a sociedade que o alimenta e dele parece alimentar-se?

“Pode falar-se em três categorias de interditos: o político, o religioso e o moral. E no moral está o uso de drogas, o apelo à violência, a sexualidade, o incesto, a prostituição, os termos impróprios. E parece ser aqui que estamos neste momento”, diz, remetendo para um termo que vem da sociologia, e que no seu entender está a regressar: anomia social.

O conceito desenvolvido por Émile Durkheim no final do século XIX no livro O Suicídio (1897) refere-se à ausência ou falta de normas ou regras numa estrutura ou grupo social. “Foi criado numa altura em que por diminuição do impacto religioso e dos valores das sociedades conservadoras, com a pulverização de valores através do desenvolvimento de uma economia capitalista e da razão, houve um aumento dessa regulação. Houve uma anomia social. É um conceito que tem a ver com a perda da identidade nas sociedades e dos seus objectivos. A religião, bem ou mal, dá um fim, um sentido”, contextualiza.

 

 

A psiquiatrização excessiva do comportamento humano é a forma que as sociedades capitalistas — porque formalmente são laicas — têm para controlar a tal anomia social. Antes, ela era controlada pela religião e por um poder político muito vertical. Hoje, nas democracias, o poder político é mais transversal, e aí, como já aconteceu há uns anos, patologiza-se o comportamento e patologiza-se uma pessoa que saia da norma. É uma forma de controlar a sociedade. O movimento dos anos 1960 da antipsiquiatria tinha que ver com isso. A psiquiatria funcionava como polícia da sociedade.”

Esse controlo pela psiquiatria está a voltar através de uma tentativa de normalizar os comportamentos. “Para mim, os casos mais graves, nem são os adolescentes, mas as crianças”, afirma. Leva a que, por exemplo, “se confunda muitas vezes uma criança irrequieta como hiperactiva” e lhe seja “medicada Ritalina”; ou a temer-se que contos clássicos como os dos Irmãos Grimm ou de Andersen possam ser traumáticos.

Uma das primeiras vezes em que se associou uma obra literária à prática do suicídio e isso deu lugar a uma investigação do tipo causa-efeito foi com A Paixão do Jovem Werther, de Goethe (1774, obra do romantismo que faz parte do Plano Nacional de Leitura). Ao longo do romance, o desespero toma conta do protagonista nas cartas que faz chegar ao narrador. “Ah!, por mais de cem vezes já peguei uma faca para dar vazão a este coração amargurado. Fala-se de uma raça de cavalos nobres que, quando são terrivelmente perseguidos e encurralados, arrebatam eles mesmos, por instinto, uma veia para facilitar a respiração. Sinto-me assim muitas vezes e gostaria de abrir uma veia que me desse a liberdade eterna…”

Manuela Correia refere-a como iniciática no estudo da relação entre literatura e suicídio. “Foi a partir daí que se começou a estudar o efeito de contaminação. O livro foi retirado em alguns países, mas voltou. Nunca ficou cientificamente provado que potenciasse esse efeito”, refere, salientando que essa ideia de contaminação está directamente associada à adolescência. “É a fase da formação, ainda não há um código de valores. Na adolescência temos várias tarefas, que passam pela alteração da relação com os pais, com os pares e a aquisição de uma identidade, onde está também a identidade sexual. Quem sou eu? O que quero ser? Qual o meu código de valores? A maior parte dos adolescentes são saudáveis, mas há umas franjas, mínimas em termos percentuais. E há um facto: esses jovens quando têm sofrimento psicológico, nomeadamente depressão, podem cometer suicídio. Em 90% dos casos de suicídio, há doença psiquiátrica por detrás, um sofrimento mantido: depressão, esquizofrenia, mania. Não há nunca uma causa única”, muito menos um livro.

“Nos adolescentes acontece muito mudarem de comportamento”, afirma. “Ou se isolam, ou mudam de grupo, ou têm vários comportamentos de risco mantidos no tempo, mudam os hábitos de vestuário, começam a ler livros e a ouvir músicas ligadas à temática da morte. São sinais de alerta”, explica, enquanto chama a atenção para o perigo de se achar que toda a sociedade é potencialmente composta por suicidas, deprimidos, traumatizados a quem um livro ou uma palavra num livro pode desencadear a acção limite.

“Os livros em si não são perigosos, eles fazem parte de uma constelação de comportamentos”, conclui, antes de voltar a exemplos que podem determinar uma incapacidade de lidar com o real que vem da infância e de uma sobreprotecção ligada ao medo dos pais de que a criança sofra.

Daí a preocupação de alguns educadores com os contos de Andersen ou do Grimm. “Falam de temas que as pessoas acham que não se deve falar às crianças, como a morte ou a bruxa má, e também em transgressões. Há nas crianças, naturalmente, uma ideia de liberdade ligada à transgressão. Mas varia de cultura para cultura. Por exemplo, na China, Alice no Pais das Maravilhas, de Lewis Carroll, está proibido, porque os animais têm equiparação aos humanos. As sociedades sempre controlaram e é importante que o colectivo tenha um autocontrolo. Mas…”

É neste “mas” que reside a resposta, que, no entender de Manuela Correia, não deve passar pela restrição da leitura, muitos menos desses contos que, entre outras coisas, ensinam o medo. “Os pais têm medo que as crianças tenham medo, mas é muito importante a aprendizagem do medo. Não faz mal que a criança chore e é bom que tenha medo.”

O que é o medo? “O medo é qualquer coisa que está ligada ao desconhecido e ao perigo e quando aprendemos isso adquirimos capacidades de lidar com ele. Há muitos estudos sobre os contos infantis. Os meninos que vão pelos caminhos à aventura, pelo desconhecido, deixam lá os sinais, mas depois acontece qualquer coisa e a marca desaparece e eles ficam perdidos. A criança chora. Não tem mal. O problema é quando a criança tem essa vivência sozinha. Antigamente, essas vivências eram acompanhadas pela família. Hoje a criança está muito sozinha. Está com os pais de forma muito instrumental, vestir, pequeno-almoço, ir para a escola, e à noite, despir, banho, trabalhos de casa, jantar, deitar. Há um estilo de vida que põe as crianças em frente à televisão, aos smartphones, no Facebook, sem o contacto olho a olho.” Estão ocupados. Este vocábulo, no entender de Manuela Correia, é o contrário de outro essencial para o desenvolvimento: o ócio, o tédio. “Os jovens hoje não têm tempo para ter tédio. O bom tédio, o bom ócio. Têm o tédio de ‘não sei o que é que hei-de fazer’. No bom tédio, uma pessoa pode estar sentada no jardim ou no sofá, uma hora, a cabeça a divagar. Isto é o ócio. Não há tempo para isto, para elaborar.”

Grupos como os dos universitários norte-americanos ou as associações de pais de muitas escolas surgem com este tipo de solicitação proteccionista em substituição de um papel que antes pertencia a um estado autoritário ou à religião. Segundo Manuela Correia, são o reflexo — no caso dos estudantes — e a origem — nos casos das gerações mais velhas (pais e avós) — de uma “infantilização” da sociedade; a sociedade que não consegue lidar com o medo ou com a pluralidade da linguagem.

Mas há também factores económicos determinantes, defende. “A própria austeridade reforça a anomia social, ou seja, a desagregação do tecido social. Mas o bom de tudo isto é que quando há muito movimento num sentido há tendência para haver um outro no sentido contrário para que essa anomia não seja excessiva e a sociedade possa estar autocontrolada, auto-regulada. Porque a sociedade como um todo também se auto-regula. É viva”, contém o problema e a sua solução.

Mas nunca se assistiu, reforça, ao pedido de protecção contra a liberdade de expressão por parte de uma comunidade de estudantes de elite, como está a acontecer nos Estados Unidos.

 

Os “transgressores”

A História tem casos de livros proscritos, na filosofia, na política, na ciência, os livros-ameaça ao estipulado. O Bom Selvagem, de Rousseau, Cândido, de Voltaire. “Eram indivíduos de uma elite que tinha conhecimento. E eram vistos como perigosos porque pensar é muito perigoso. Pensar dá poder. E por que é que normalmente são os grandes clássicos que agora são questionados por estes estudantes? Porque são os grandes clássicos que tratam os grandes temas, são os temas da filosofia. O que é que trata o James Joyce? Ou o Homero? Tratam a ideia de liberdade, e a liberdade é muito perigosa. A partir do século XIX, quando surge o romance, os interditos deixam de ser tanto os cientistas e os filósofos — com excepções como a de Charles Darwin [contestado pelo Criacionismo que rejeita a ideia de o homem e o universo terem sido criados por uma entidade que não sobrenatural].

A Origem das Espécies, de Darwin, foi retirado do programa oficial das escolas norte-americanas porque “a força do movimento Criacionista no país é muito grande”, lembra a psiquiatra, sublinhando “que nem a intenção do Presidente Obama em repor o livro como básico escolar conseguiu mudar as coisas”.

Um exemplo diferente é o que decorre do uso de linguagem considerada imprópria e um perigo em si mesma. “No Brasil, chegou a ser publicada uma versão light de O Alienista [1882], de Machado de Assis. Ele fala da mulher da vida airada, que é uma prostituta. Há livros que foram proibidos porque havia a palavra ‘puta’. Também aconteceu nos EUA. É a linguagem que ou ofende a religião ou o poder político, ou os costumes. E depois há a ideia de que as crianças não compreendem, o que é perigoso porque a linguagem e o pensamento estão ligados. Por isso a questão da língua é muito importante. Os adolescentes em todas as gerações têm códigos próprios e quando acaba a adolescência ficam com a linguagem de um adulto. Mas agora esses estereótipos estão a generalizar-se a todas as faixas etárias. Desenvolvemos a linguagem se pensarmos e, se tivermos uma linguagem rica, também pensamos melhor. Há um empobrecimento do vocabulário e um empobrecimento do pensamento.”

E há os livros “tabu” pela temática, periodicamente mais ou menos sensíveis conforme a geografia e a sensibilidade da comunidade. “Agitam as mentes”, comenta Manuela Correia.

Virginia Woolf está entre as escritoras mais visadas. “Ele — pois não poderia haver dúvidas quanto ao seu sexo, embora a moda da época contribuísse até certo ponto para o dissimular — estava a golpear uma cabeça de mouro suspensa das vigas do telhado”, primeira frase de Orlando, romance de 1928 que “pode entrar na construção social do género”, exemplifica a psiquiatra que vai à biografia da escritora, que “tinha relações amorosas com a Vita Sackeville-West, uma grande amiga e uma grande paixão. Teve uma depressão grave, o diagnóstico não está bem definido, mas havia uma esquizofrenia, porque às vezes ouvia vozes”.

Há mais. Anna Karenina, de Tolstoi, O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, as obras de Kafka, Ulisses, de James Joyce. Todas são apontadas como exemplos de conterem “elementos perturbantes”. “Todos os grandes autores pegam nas questões existenciais: o quem sou eu, o que eu quero ser, como é que eu gostaria de ser visto pelos outros, como gostaria de me ver, ter um lugar. Por exemplo, o lugar de Fernando Pessoa era completamente conceptual, interior e feito de vivências que expressava através da língua. Foster Wallace descreve a depressão tal como ela é, de forma crua, dorida. Mas, do ponto de vista clínico, estes livros nunca são perigosos. Podem é fazer parte da tal constelação de comportamentos de um jovem já em sofrimento. Impedir os livros da grande literatura, desde a infância, é infantilizar. A infantilização traz um grande perigo: o de haver outra vez sociedades concentracionárias e com um poder vertical.”

A literatura “ajuda a construir a identidade. É fundamental. Se eu pensar que a ideia de democracia, a cultura humanista, a valorização da ciência, a relação com o outro, se regem por um determinado código de ética e de valores, tenho de defender o acesso aos bens culturais, um direito na Declaração Universal dos Direitos do Homem. E tenho de aceder aos cânones dessa cultura. Desde o Homero, desde a Epopeia de Gilgamesh [poema da antiga Mesopotâmia, actual Iraque] que trata da condição humana, da relação interpessoal e a ideia da viagem, que é a ideia de conhecer, ir para o desconhecido, ir para o medo. E depois os interditos: o suicídio, o incesto, a sexualidade, os valores. Todos os livros canónicos são uma preparação para a vida. E, se pudermos, ler os clássicos das várias culturas. Porque somos isso tudo.”

 

Originalmente publicado aqui.

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Coletivismo Olavette

Quem me conhece ou me lê há algum tempo sabe que o Olavo de Carvalho foi influente na minha forma de pensar e escrever. Sem o Pondé eu nunca teria me posicionado à direita, mas o Olavo passou a ser mais importante pra mim depois de eu abandonar a esquerda oficialmente, em 2013. Mas eu já lia ambos desde 2008, quando eu ainda era um esquerdista dissidente.

Sim, nunca me encaixei bem no que a esquerda esperava de mim, e a leitura do Olavo e do Pondé só acentuava o problema. Em 2012, eu lia A Filosofia e seu Inverso, sempre escondido na bolsa, protegido entre outros livros, quase como se fosse uma coisa proibida – e de fato era. Mas em 2012 poucas pessoas conheciam o Olavo fora do seu círculo de alunos e leitores ocasionais. Foi em 2013, com o lançamento do Mínimo, que o Olavo tornou-se razoavelmente mais conhecido.

O que eu gosto no Olavo é seu raciocínio quase sempre lógico aliado a uma boa retórica. Mas é claro que o Olavo comete erros, como qualquer autor. Já disseram – e o Olavo mesmo concordou que havia verdade nisso – que ele é uma mistura de Aristóteles com Alborguetti. Ser comparado a Aristóteles não é pouca coisa, é o filósofo mais genial, rigoroso e lúcido que já li. O problema é que essa metáfora parece ter tomado uma dimensão real na psique do Olavo. É duro escrever isso, e não o faço com a menor alegria, mas hoje eu vejo que o Olavo tornou-se mais um exemplo de sua paralaxe cognitiva – o que ele é e sua obra não estão exatamente de acordo. Há o filósofo, escritor, e analista político de um lado; e há o líder de seita, histriônico, sofista que “sempre tem razão” do outro. Quase sempre eles podem ser distinguidos segundo o veículo em que se expressam: o filósofo escreve livros, o sofista escreve posts de facebook.

O que eu vejo hoje na direita é a péssima influência do “olavismo cultural”, que criou uma cultura histérica, persecutória, neurótica, e coletivista. O espírito da manada está entre nós, e a manada atropela, pisoteia, porque é estúpida. O populacho olavette lincha os dissidentes – que podem ser reais, ou meramente alguns coitados dotados de espírito e inteligência. O coletivismo que vivemos hoje fomenta a burrice, porque é necessário abandonar toda a inteligência para ser capaz de atacar qualquer um que não esteja alinhado, enquadrado, catalogado no paupérrimo imaginário moral e político dos seguidores do Olavo.

Na época em que Olavo e Francisco Razzo tiveram sua treta, só oGustavo Nogy – aluno de longa data do Olavo – teve coragem pra dizer – muito respeitosamente – que o rei estava nu, e acrescento da minha parte: sofrendo de delírios megalômanos. O Olavo se ressentiu por não ser citado pelo Razzo como influência em sua formação, e assim persistiu em sua posição por tempo indeterminado. Note que há uma contradição implícita em ridicularizar e ofender alguém que você gostaria que admitisse que recebeu sua influência.

Muitos conservadores, por medo de discordar do Olavo, se calaram quanto a isso, inclusive eu. Eu pensei: “isso vai passar, é só um siricutico do Olavo”, mas não passou. Piorou. Os episódios de perseguição se seguiram para todo e qualquer pensador de direita que não lhe dê as primícias de sua obra. A perseguição chegou a fazer um “expurgo” de suas alunas protestantes no ano passado (2015), um episódio vergonhoso, em que o Olavo de Carvalho exigiu expressões públicas de fidelidade de seus alunos. Pessoas realmente boas e sinceras foram humilhadas e excluídas do “convívio dos eleitos”.

Agora, os olavettes estão flertando com discursos revolucionários, e criticam todos os que não reconhecem o Olavo como senhor e salvador. No fundo esses jovens são pobres diabos aterrorizados pelo poder retórico do seu professor, a quem chamam abertamente de “mestre” – o que é vergonhosamente aprovado e estimulado pelo filósofo. É o retrato claro de uma geração se afogando no naufrágio moral da modernidade, se agarrando a ídolos de barro em busca de salvação.

O Olavo hoje acredita que ele influenciou milhões de pessoas a irem às ruas pedir o Impeachment da Dilma – o que é totalmente falso. Poucas pessoas levantaram cartazes declarando que “Olavo Tem Razão”, eu estava entre elas. O resto do povo jamais tinha ouvido falar de Olavo nenhum.

Ele acredita que vai restaurar a alta cultura formando uma legião de adoradores irracionais, robóticos, que só sabem reclamar do governo e, agora, dos que trabalham para derrubá-lo dentro da ordem política. Por isso o Olavo vomita ofensas e baixarias alborguettianas sobre o MBL, Kim Patroca Kataguiri, Reinaldo Azevedo, Fábio Osterman e outros. Até o Rodrigo Constantino, que já deu provas contundentes de que não é um liberal relativista, e sim um homem sério e comedido, foi soterrado com a torrente de ofensas alucinadas do Olavo.

O problema – entendam bem aqui meu ponto – é que precisamos parar de isentar o Olavo da responsabilidade sobre sua militância histriônica e burra. O Olavo ajudou a criar o monstrinho, ele moldou essa galera à sua imagem e semelhança, os alimentou com intrigas, e com aquilo que ele mesmo chama de auto-persuasão hipnótica. Essas crianças acreditam que são templários, mestres apologetas, gênios da filosofia universal que não conseguem compreender a diferença entre um non sequitur e uma bicicleta! Estes bostinhas não podem sequer colocar ordem na Igreja Católica, que está apinhada de comunistas, e vêm querer opinar sobre a política do Brasil?

O próprio Olavo falou tantas vezes que a estratégia deveria ser a ocupação dos espaços, a ocupação dos jornais, das universidades e dos partidos políticos. “Tomem um partido político antes de pensarem em intervenção militar” – dizia ele. Agora os caras do MBL vão lá ocupar espaços no PSDB, na Folha, no Senado, e o Olavo fala tudo o contrário do que havia dito! Uma das características do sofista é que ele está sempre certo, mesmo quando ele diz hoje o contrário do que disse ontem, vide Górgias. Vocês nunca repararam que o Olavo afirma uma coisa agora, e o exato oposto disso semanas depois com a mesma convicção enfática?

O Olavo poderia ter sido o unificador de toda a direita brasileira em um programa liberal-conservador, uma aliança estratégica para tornarmos o Brasil um país habitável, minimamente civilizado, e menos hostil à inteligência e à cultura. Mas essa oportunidade passou, e a oportunidade se toma no momento, ou se perde para sempre. Ele só precisava ter convocado um debate aberto, chamado os líderes das diversas frentes para conversar, estimulado a cooperação estratégica. Mas houve um problema de ego inflamado, e isso tornou-se impossível. O Olavo tem outros interesses que não são exatamente a reforma nacional.

A única coisa que os olavettes serão capazes de fazer hoje é espernear, inventar apelidos toscos pra gente, se enfurnarem em sua seita, difamar as “conservadias” (como eles dizem), tremerem e odiarem os “socialistas fabianos”. Se você é conservador, ou gostaria de ser, faça um favor a si mesmo e leia Edmund Burke, leia Russel Kirk, Michael Oakeshott, leia nosso portuga João Pereira Coutinho. Leia Chesterton, Montaigne, Pascal, Bernanos, Tomás de Aquino, Santo Agostinho. Eu sei que é fácil pegar tudo isso mastigado nos artigos do Olavo, mas o que vem mastigado vem também babado de saliva pegajosa. É uma questão de higiene.

 

 

Originalmente publicado aqui.

Eric Voegelin e a coragem da Filosofia

Por Martim Vasques da Cunha

The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

W.B. Yeats, “The Second Coming

Conta-se que o filósofo grego Anaxágoras caminhava por uma estrada quando encontrou um homem agonizante. Este lamentou o fato de estar distante de sua pátria na hora da morte. Para tranqüilizá-lo, Anaxágoras disse-lhe: “Não se preocupe, meu caro. A descida ao inferno é a mesma de qualquer lugar”…

A historieta, dura – embora não tanto: lembremo-nos que o Hades grego não tem o mesmo peso que o inferno tem para nós, o de uma rejeição eterna e irrevogável do real -, alude à coragem que todos temos de ter se queremos conhecer a realidade.

Antes de mais nada, porém, o que é essa tal “realidade”? Não tenho a pretensão de responder aqui a esta pergunta, mas, para ir à raiz do problema, basta que nos perguntemos: O que entendemos por realidade? Como acompreendemos? Esse foi, em todos os tempos, um problema constante, que só pode encontrar alguma solução se o homem der ouvidos a esse fundo insubornável do ser de que fala Ortega y Gasset, ao mais íntimo dos seus pensamentos naquele momento em que enfrenta o seu reflexo no espelho e tenta reconhecer a própria face.

É daí que me dirijo a você, leitor. Não sou filósofo, e muito menos um condutor de homens. Sou, no máximo, um cidadão que, por uma comichão na consciência, tenta observar as coisas como são e por isso chegou a algumas conclusões perturbadoras. Por isso, gostaria de que me lesse, não como quem traz respostas para todos os problemas, mas apenas como alguém que reflete sobre o que todos sabem, mas talvez tenham medo de dizer. E aqui procurarei que essa voz não seja apenas minha; através dela, queria transmitir a de outra pessoa, a do homem que tentarei apresentar aqui: Eric Voegelin.

Um filósofo para uma seleta minoria

Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, a 3 de janeiro de 1901, e faleceu em Stanford, na Califórnia, a 19 de janeiro de 1985. É um dos maiores filósofos do século XX, mas permanece ignorado em boa parte dos meios acadêmicos nacionais. Por quê? Bem, na verdade, não há mistério nisso: é um autor difícil por ser duro como poucos, rigoroso como um verdadeiro filósofo deve ser e, como se não bastasse, escreve com uma facilidade que desnorteia os que pensam que a filosofia deve ser transmitida como um código secreto para iniciados. Além disso, não brinca com as coisas sérias da vida.

Pelos locais de nascimento e morte, já percebemos que não morreu na terra natal. Em 1938, teve de fugir de Viena, onde tinha estudado e depois começado a carreira universitária, devido ao Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha governada pelo Partido Nacional-Socialistas dos Trabalhadores. Nessa altura, era já persona non grata para os nazistas: em 1933, quando eles haviam chegado ao poder, publicara dois estudos que criticavam as raízes ideológicas do partido – Raça e Estado e O Estado autoritário.

Em Viena, tinha sido discípulo de Hans Kelsen, o filósofo do Direito positivista que, ironicamente – porque as suas teorias serviram para fundamentar doutrinalmente o sistema legal nazista – , também tivera de fugir por ser de ascendência judaica. Voegelin não era judeu nem socialista, e também não tinha a intenção de ser um opositor político do nazismo; era contrário a qualquer ideologia por motivos estritamente intelectuais e espirituais, pois num momento em que mais ninguém tinha coragem de admiti-lo, já sabia que era insustentável ser nazista para qualquer um que quisesse manter um mínimo de honestidade moral.

Depois de uma breve passagem pela Suíça, chegou aos Estados Unidos, onde recomeçou a carreira acadêmica como filósofo, fixando-se na Universidade de Louisiana, em Baton Rouge. Era um fim de mundo acadêmico, convenhamos, mas permitiu-lhe preparar-se durante vinte anos para o trabalho de toda a vida – desmascarar o mecanismo que permite às ideologias políticas corromper uma nação inteira.

Ali começou por escreveu um tratado de 3.200 páginas sobre a História das idéias políticas, que abandonou e que só viria a ser publicado postumamente. A seguir, dedicou-se a pesquisar os símbolos religiosos de Israel e da filosofia grega, e publicou parte dos resultados deste trabalho no livro A nova ciência da política, de 1953, que lhe valeu uma reportagem na Time e o transformou em um nome celebrado nas universidades americanas. Mesmo assim, Voegelin não se acomodou sobre os louros, mas começou a redação do grande tratado Ordem e História, iniciado em 1955 e só terminado no final da vida.

Contudo, em 1958, treze anos depois do fim da Segunda Guerra, suas atividades acadêmicas nos Estados Unidos foram interrompidas quando a Ludwig-Maximilian Universität de Munique o convidou a assumir a cátedra de ciências políticas, que tinha sido a de Max Weber e estava vaga havia vinte anos. Ali, Voegelin acrescentou um trabalho administrativo às responsabilidades acadêmicas, fundando o Instituto de Ciência Política. Por fim, em 1969, voltou para os Estados Unidos, desta vez para trabalhar em Stanford, onde permaneceria até a morte.

 

“Dominar” o passado?

Voegelin aceitou o desafio de voltar para a Alemanha – apesar da posição de destaque no meio acadêmico conquistada a duras penas –
por um motivo simples: era a oportunidade de, vinte anos depois, acertar as contas com os fantasmas do nazismo.

Quando chegou, o país estava em pleno processo de “desnazificação”. Oficialmente, tratava-se uma “condenação do passado nazista” feita pelo povo e pelo governo de Konrad Adenauer, que girava em torno da noção de culpa coletiva. O termo soava bem num país ocupado por quatro potências ocidentais e dividido por um muro, mas realmente “desnazificava” o país? Essa “revisão” do passado assegurava uma mudança real para o presente e o futuro?

Voegelin responderá decididamente que não. Em 1964, deu uma série de palestras sob o título de Hitler e os alemãesque foram um enorme sucesso de público.[1] Conforme o filósofo tinha pretendido, esse público estava composto na sua maioria por estudantes, que eram o seu alvo preferencial por já correrem o risco de perder a noção do que fora viver nos tempos de Hitler. E as perguntas que lhes fez não diziam respeito a pretensas culpas coletivas, mas atingiam aquele fundo insubornável do ser individual: como fora possível que semelhante corrupção espiritual tivesse atingido todos os níveis da sociedade, da política à intelectualidade, do mundo dos negócios à moral? E essa corrupção não continuaria a atuar na mente da jovem geração, mesmo vinte anos depois do desaparecimento do nazismo?

De acordo com a retórica da culpa coletiva, todos os alemães seriam culpados pelo nazismo. Que sentido fazia isso? Os membros do partido teriam a mesma responsabilidade que os que tinham votado em Hitler por acharem que seria o salvador do mundo? E os que não queriam saber de política e desejavam apenas escapar ao pesadelo da ruína econômica após a Primeira Guerra Mundial? Tudo isso não passava de uma paródia de expiação, que mascarava algo muito mais importante: a responsabilidade individual.

De fato, a “desnazificação” não atingia os altos escalões do poder público. Membros importantes da antiga burocracia nazista – simples “funcionários” ou “burocratas”, dizia-se, sem responsabilidade pelas decisões criminosas e por isso mesmo incapazes de perturbar alguém – permaneciam em cargos-chave do novo governo. Um caso clamoroso era o de Hans Globke, que despertou as mais ferozes indignações de Voegelin e da filósofa Hannah Arendt.

Em 1958, Globke era o braço direito de Adenauer, ocupando o cargo de “subsecretário de Estado e chefe da divisão pessoal da Chancelaria da Alemanha Ocidental”. Vinte e seis anos antes, fora um dos funcionários mais respeitados do Ministério do Interior do Terceiro Reich. Quando surgiu o escândalo em torno do seu passado, Globke apressou-se a afirmar que apenas procurara tomar “medidas mitigadoras”. Curiosas medidas, aliás… Em primeiro lugar, fora o autor da lei segundo a qual todo judeu deveria ter como segundo nome “Israel” e usar uma estrela de Davi amarela a fim de mostrar que não tinha “ascendência ariana”; e isso foi em 1932, quando “a subida de Hitler não era uma certeza, mas apenas uma forte possibilidade”. Mais tarde, já no ministério, criara a lei que obrigava moças tchecas que pretendessem casar com soldados alemães a exibir fotos em que apareciam vestidas de maiô, para comprovar os dados antropométricos arianos (talvez fosse mesmo uma mitigação, pois antes se exigiam fotos em que apareciam nuas…).

Isso já fora denunciado por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém, o livro-reportagem publicado em 1962 que narrava o julgamento de Adolf Eichmann, acusado pelo governo de Israel de ser o “arquiteto da Solução Final”. Arendt se perguntava se Eichmann, um burocrata arrivista, seria o monstro de que tanto se falava. E chega à conclusão de que não: tratava-se de um “homem-massa”, sem vida interior, sem convicções pessoais, imbuído apenas do intuito de seguir o rebanho – mesmo que este praticasse assassinato em quantidades industriais. De quem era a responsabilidade? Dos alemães? Dos judeus? Do Ocidente? Talvez de todos, desde que isso não mascarasse o fato de que, antes de mais nada, o verdadeiro responsável por suas ações era o próprio Eichmann.

A conclusão que se impunha era que o verdadeiro processo de “desnazificação” não se podia obter por meio de um processo legal ou político; era necessária uma reviravolta da consciência, uma revolução do espírito – uma conversão pessoal que tinha de começar com uma “descida aos infernos”. E essa foi a tarefa que Voegelin se impôs ao chegar à Alemanha em 1958: fazer a sua terra natal compreender que, para “dominar” o passado, tinha antes de mais nada de “dominar” o presente.

 

A descida ao inferno

Para isso, Voegelin recupera e propõe no conjunto da sua obra duas noções praticamente esquecidas no ambiente acadêmico: a do homem maduro e a do princípio antropológico.

O “homem maduro” corresponde ao spoudaios de Aristóteles, a pessoa que desenvolveu ao máximo as suas potencialidades e, em conseqüência, aprendeu que governar e comandar os outros é antes de mais nada governar e comandar-se a si mesmo, especialmente no domínio das paixões e dos sentimentos. Conhece a profundidade da sua alma e da dos seus semelhantes porque desceu ao inferno do conhecimento próprio e de lá voltou. Neste sentido, não é apenas alguém que manda, mas alguém que representa os anseios mais íntimos dos homens de carne e osso que compõem a sociedade; não é um chefe político ou institucional, mas um líder autêntico, com liderança existencial, pois chega a ser o reflexo da sociedade que governa. Tudo isso pode ser resumido na seguinte sentença: a sociedade é a alma do homem escrita por extenso. Voegelin recuperará essa noção de Platão e a chamará de princípio antropológico.

Ora bem, nas suas palestras sobre “Hitler e os alemães” Voegelin começa apresentando uma carta escrita por um jovem acadêmico à famosa revista Der Spiegel:

“Quando lemos que Hitler foi um amador, ‘abaixo da média dos homens’, perguntamo-nos automaticamente co-
mo então ele foi capaz de modelar uma época. Reconheço que ele era um ‘jogador’, mas um jogador que ofuscou os outros. […] E o seu único crime foi o de ser um jogador que perdeu, e que levou consigo todo um povo, de maneira que afundou com ele. Entretanto, toda a política é um jogo e os ganhos aumentam quando as apostas são altas. Hoje já não podemos e não queremos jogar; portanto, também nos é impossível ganhar – a não ser o tão cotado padrão de vida. Mas talvez estejamos perdendo mais, mesmo sem Hitler”.

Aqui estão prefigurados muitos dos clichês que, inquietantemente, voltamos há pouco a ouvir repetidos na imprensa e na academia: o de que Hitler, no fim das contas, era um grande líder, o de que a política é um jogo, e o de que sua única culpa foi perder. Nem se menciona que o nazismo e o seu líder tinham um projeto de eliminação sistemática de toda uma raça e, nas palavras de Churchill, de toda a civilização.

Voegelin apresenta outro exemplo, extraído de um acadêmico que faz a seguinte descrição física e psicológica de Hitler:

“Hitler fascinava as pessoas com seus olhos azuis profundos, ligeiramente esgazeados, quase radiantes. Muitos que se encontravam com ele eram incapazes de resistir a seu olhar”.

E, com palavras mais reveladoras:

“É quase impossível comunicar aos que nunca o conheceram o impacto pessoal de Hitler […]. Havia, no entanto, muitas pessoas sobre quem isso não tinha absolutamente nenhum efeito. Certa vez um coronel me descreveu que, quando estava conversando com Hitler, sentiu uma aversão crescente ao homem enquanto este o fitava de perto (vale notar que Hitler dispensou esse coronel e outros muitos rapidamente). A reação reversa foi provocada numa requintada proprietária da Pomerânia de ascendência aristocrática e convicções cristãs, que detestava Hitler. Encontrou-o por acaso no passeio de madeira de uma praia do Mar Báltico, foi atingida por um breve momento pelo olhar dele e declarou, como fulminada por um raio, que embora ainda não gostasse dele, sentia que ele era um grande homem. Aqueles a quem Hitler tolerava perto dele eram, é claro, mais do que tocados pelo seu olhar, e eram transformados em seus satélites voluntários”.

Nestes parágrafos quase hagiográficos, o Führer aparece como um “enigma”, como se tivesse uma “aura” incomum que o transformasse em um homem situado “além do bem e do mal”. É verdade que o seu autor, Percy Schramm, tinha feito parte do Supremo Comando das Tropas de Guerra; mas já agora, devidamente munido do seu “certificado de desnazificação”, era um acadêmico de renome e ganhador da Ordem do Mérito – a maior honra que, na Alemanha pós-guerra, se podia conferir a um civil.

Esse tipo de mitificação, diz Voegelin, mascara um fato relevante para qualquer análise política decente: o darepresentação social. Se as pessoas viam essa “aura” em Hitler, por mais que antipatizassem com a sua causa, as suas idéias ou mesmo a sua pessoa, era porque desejavam participar dela, ver essa “aura” refletida nelas mesmas. O jornalista Konrad Heiden descreveu isso com precisão já em 1933, quando ainda ninguém previa as dimensões que o nazismo viria a assumir:

“Com uma confiança ímpar, Hitler expressou o pânico sem palavras das massas confrontadas por um inimigo invisível e deu um nome ao espectro sem nome. Ele era um fragmento puro da própria alma da massa moderna […]. Alguém se perguntará quais foram as artes pelas quais ele conquistou as massas; na verdade, ele não as conquistou, apenas as retratou e as representou“.

Essa intuição brilhante, que Heiden captou no calor da hora, mostra o fundo da “aura” e do “enigma” de Hitler. Não havia ali nada da liderança do “homem maduro”, mas apenas um homem-massa imbuído de um intenso complexo de inferioridade e da intensidade que conferem a angústia e o ódio. O próprio estilo repleto de clichês dos “hagiógrafos” manifesta esta realidade, pois a primeira manifestação da corrupção social está na corrupção da linguagem, que se torna uma “língua de madeira”, rígida, repetitiva e vazia de sentido real, como a que caracterizou igualmente o governo totalitário soviético.

Manipulação, não liderança

Schramm acrescenta, ainda no tema do “enigma de Hitler” e baseado em testemunhos dos que cercavam o Führer, que este só contava aos que lhe estavam próximos o estritamente necessário, mesmo nos momentos decisivos da Segunda Guerra. Essa atitude enigmática é às vezes mencionada, mesmo hoje, como uma “técnica de liderança”. Voegelin, pelo contrário, chega a uma conclusão muito mais banal e concreta:

“O problema obviamente escapou a Schramm, pois esse sonegar informações, mesmo aos membros do Estado Maior e do Almirantado, tinha uma razão institucional. Nos últimos anos, Hitler não contou com nenhum Estado Maior para conduzir a guerra, mas tomou as rédeas do exército em suas próprias mãos, pois temia ser posto sob pressão se tivesse de enfrentar um grupo de seis ou sete generais e almirantes com visão de jogo. Assim, lidava com eles apenas individual e pessoalmente, e esse contato isolador, em que nenhuma pessoa sabia qual era o plano todo, era uma tática deliberada e um instrumento de estabelecimento da ditadura“.

Com efeito, esse reservar para si a informação de conjunto é uma das técnicas clássicas de manipulação do poder. Novamente, não há aí nenhum tipo de liderança, mas apenas uma imposição da ambição pessoal.

Uma segunda amostra dessa manipulação surge da análise do relacionamento do Führer com a sua “comitiva”. Para Schramm, como para outros, a “culpa de tudo” não estaria em Hitler, mas sim naqueles que o cercavam. Ele, homem imbuído de um sonho grandioso, teria sido influenciado por asseclas criminosos e incompetentes; se tivesse podido traduzir na prática os seus ideais, o nazismo teria tido outro destino histórico.

Ora, é mais do que sabido que a ordem decisiva para a última fase da “Solução Final” –
a do extermínio em massa dos judeus – veio do próprio Hitler. O que nos leva à teoria oposta, também apresentada com certa freqüência: a “culpa de tudo” teria sido exclusivamente do Führer, não do partido nem do governo nem do povo. Sabemos aonde conduz esse raciocínio: à afirmação de que “o nazismo foi desvirtuado por Hitler; sem ele, seria outra coisa, muito mais bonita” (É interessante notar que se usa o mesmo procedimento para o comunismo, apenas trocando “Hitler” por “Stálin”).

As duas teorias são nitidamente insuficientes. Se aplicarmos o princípio antropológico, o de que o líder representa os anseios dos seus adeptos, veremos que Hitler se cercava de uma comitiva incompetente porque ele próprio era incompetente. Por ser o representante do homem-massa inferiorizado, as suas palavras só encontravam eco em uma “pseudo-elite” intelectual e militar que, no fim, não passava de uma “massa inferiorizada”,
de uma “ralé”.

Voegelin apresenta seis parâmetros para analisar o “caso de amor” de Hitler com sua comitiva:

“(1) Hitler estava a par da inadequação de seu círculo. (2) Hitler era, no entanto, obcecado com a ‘camaradagem’ e a ‘lealdade’. Desaprovava veementemente as mudanças que Mussolini fazia em sua guarda, as trocas de ministros. (3) Ele era conservador em seus hábitos de vida e dificilmente rompia relações com pessoas com quem crescia. (4) Teria ocorrido uma mudança, no entanto, se tivesse sido capaz de ver os seus homens como eram realmente, de discernir quem dentre eles era incompetente ou tinha sérias deficiências de caráter. Eis a contradição: por um lado, ele tinha consciência da inadequação desse círculo; por outro, não era capaz de detectar-lhes a incompetência, as deficiências de caráter. (5) Portanto, não tinha precisamente aquilo pelo que muitas vezes foi louvado: o conhecimento da natureza humana. (6) Hitler conseguia suprimir um julgamento inteiramente correto, mas que não lhe era conveniente, a fim de justificar pessoas que lhe pareciam úteis e devotadas”.

É especialmente importante aqui a expressão “como eram realmente“. A incompetência de Hitler e de sua comitiva devem-se simplesmente a que não foram capazes de ver a realidade. Por isso, não formaram uma “elite”, uma minoria seleta que sabe que primeiro a realidade tem de ser estudada com amor para só depois se tornar dócil; formaram uma “ralé” que acreditava que a realidade estivesse aos seus pés apenas por serem eles quem eram. E se as coisas davam errado, limitavam-se a negar toda a responsabilidade, lançando as culpas, conforme o caso, ora no Führer, ora na sua comitiva. Mas quem se recusa a ver as conseqüências do real, não merece outro nome que o de estúpido.

Pneumopatologia da estupidez

Antes de mais nada, devo dar um esclarecimento. O leitor talvez se tenha surpreendido com as palavras “ralé” e “estúpido”, e pense que são insultos vulgares. Não são. Na verdade, são termos técnicos e rigorosos, que classificam um determinado comportamento diante do real. Além de que um insulto preciso às vezes pode ser um excelente diagnóstico.

Comecemos com o termo “estupidez”. Voegelin faz um resumo delicioso de como essa palavra é usada desde o início dos tempos, da Bíblia até a mais recente literatura moderna, passando pela filosofia grega. Os israelenses chamam o homem que cria desordem na sociedade de “tolo”, nabal, pois não é um “crente”, não aceita a revelação de Deus; Platão usa outro termo, amathes, o homem irracional, que não se curva à razão e, portanto, tem uma imagem defeituosa da realidade. Para São Tomás de Aquino, o “tolo” é o stultus, o estulto, que não compreende nem a revelação, nem a razão, e mesmo assim tenta mudar a realidade, tendo como resultado óbvio produzir o caos. Por fim, na literatura moderna Voegelin encontra no escritor austríaco Robert Musil as expressões “estúpido”, “idiota” e “néscio”, que retratam o mesmo tipo humano.

Qualquer um de nós já sentiu o momento em que se depara com a estupidez do próximo como um dos tormentos mais angustiantes de sua vida. Ortega y Gasset define certeiramente a distinção entre o tonto e o “perspicaz”: o segundo sempre se surpreende a dois passos de se tornar um tonto (e aí está o início da inteligência), ao passo que o primeiro jamais suspeita de si mesmo, sempre se considera “discreto” e se instala na sua torpeza e tranqüilidade de “néscio”. Não há como tirar o tonto da sua tontice; aliás, como bem diz Ortega, a diferença entre um “néscio” e um homem “mau” é que o mau descansa às vezes, o néscio nunca.

Voegelin toma de Musil os conceitos de “estupidez simples” e “estupidez inteligente”. O “estúpido simples” é alguém que erra por ignorar o que acontece, por mera desinformação; já o “estúpido inteligente” é alguém que insiste no erro por acreditar que sempre tem razão. Do resumo histórico que o filósofo faz, ressalta uma constante que caracteriza o “estúpido inteligente”: a negação deliberada da razão, que lança o ser humano na bestialidade, mesmo que esta assuma as formas aparentemente sofisticadas da técnica ou da ideologia. O estúpido não quer conhecer, prefere permanecer na negação da realidade. No fim das contas, pensa com o poeta alemão Novalis (muito admirado pelos nazistas): “o mundo será como eu quero que ele seja”. Por não respeitar a realidade como ela é, violenta-a de uma forma ou de outra; mas, como ela é “insubornável”, cedo ou tarde ela se vingará, pregando-lhe uma peça. E como resultado o estúpido assume uma atitude de revolta contra tudo e contra todos.

Ao binômio de Musil, Voegelin acrescenta mais um termo para descrever “Hitler e os alemães”: o de “estupidez criminosa”. Se o estúpido inteligente insiste no erro, o criminoso está disposto a fazê-lo custe o que custar. A sua vontade racional é substituída por um desejo de poder alucinado, que acaba encontrando satisfação somente na destruição do seu semelhante; as aparentes “razões” que invoca para fazê-lo – de raça, de credo, de cor ou de sexo -, não passam de pretextos.

Hitler foi exatamente isso: um estúpido criminoso, o exato oposto do spoudaios, do homem maduro defendido por Aristóteles. Contudo, permaneceu um ser humano: não é possível perder a razão ou o próprio espírito só porque queremos: eles continuam a fazer parte da constituição humana. Como diria Voegelin: “Foi de uma humanidade em forma absolutamente humana, porém a humanidade mais notavelmente desordenada e doente: uma humanidadepneumopatológica“. O estúpido, e mais ainda o estúpido criminoso, não é um “psicopata”, mas algo mais profundo: sofre de uma doença do espírito, de uma pneumopatologia, que nasce da vontade humana mas acaba por enraizar-se em todo o ser da pessoa.

Musil criou também a distinção entre “primeira realidade” e “segunda realidade”. A primeira é a realidade captada pela apreensão concreta das coisas, entendida pela razão e refletida no bom senso, em que todos vivem e se comunicam; a segunda é a pseudo-realidade criada como alternativa pelo espírito doente, em que ele tentará viver e expressar-se independentemente dos desejos dos seus semelhantes. Quando ocorre o choque inevitável entre as duas, nasce a mentira erigida num sistema em que todos os dados incompreensíveis da “primeira realidade” têm de encontrar uma explicação exata na “segunda realidade”. E nesse momento ocorre uma desumanização: o ser humano, esse algo concreto e inesgotável, feito de carne e espírito, é transformado em um mero conceito, uma simples abstração – uma “estatística”. Daí para o genocídio é apenas um passo.

Este foi o caso da Alemanha na época em que foi representada política e existencialmente por Adolf Hitler. Não houve nenhuma “aura”, nenhum “enigma”, muito menos uma “personalidade demoníaca”: tratava-se somente de uma nação de estúpidos governada por um estúpido criminoso. No choque entre a primeira realidade e a segunda, a “elite” da nação abdicou do espírito e decidiu deixar-se escravizar pelo desejo de poder, tornando-se “ralé” submetida à “autoridade da ignorância”. Essa “ralé” só estava aberta à vontade do Führer, e isso porque também ela estava imersa na mesma doença espiritual.

Para mostrar com clareza o que caracteriza a “ralé”, Voegelin usa um episódio do Dom Quixote. Como todos sabem, o cavaleiro espanhol é a personificação do homem que vive na “segunda realidade”, confundindo moinhos com monstros e camponesas com nobres donzelas. A certa altura do romance, o Quixote é libertado de uma gaiola de madeira pelo cônego, que o acompanha até a sua casa e procura convencê-lo de que suas aventuras não passam de rematada loucura. O cavaleiro responde-lhe que suas aventuras são tão reais como as que compõem os livros de cavalaria da época; o verdadeiro louco, diz, seria o cônego, que não acredita nesses livros “apesar de terem sido publicados com a licença do rei”. Aqui temos o raciocínio característico da “autoridade da ignorância”: aceita-se incondicionalmente a mentira porque “a autoridade” (que pode ser do rei, do Führer ou da “maioria”, tanto faz) a aprova.

A resistência dolorida

Uma “ralé” comandada por um “estúpido”, intoxicada por uma doença erigida em sistema legal: essa estupidez institucionalizada gera uma situação de sonâmbulos conduzidos por outros sonâmbulos. Houve, entretanto, alguns que se ergueram contra essa “opção preferencial pelo desastre” e cumpriram a famosa frase do filósofo inglês Richard Hooker: ao menos “a posteridade saberá que não deixamos, pelo silêncio negligente, que as coisas se passassem como um sonho”.

O mito de que não houve resistência ao nazismo mostra-se cada vez mais infundado. Já mencionamos as obras do próprio Voegelin ou o de Robert Musil, que, ainda em 1937, deu uma conferência pública chamada “Da estupidez”. Mas existiram vários tipos de resistência, como o dos prelados Faulhaber ou Von Galen (que os nazistas não ousaram prender), de católicos como Fritz Gehrlich e Alfred Delp (executados), dos pastores Dietrich Bonhöffer (preso e executado) e Martin Niemöller (a princípio fascinado pelo nazismo, mas que percebeu a armadilha e foi preso), de intelectuais como Hermann Broch e Thomas Mann (exilados nos EUA) – e, é claro, dos irmãos Hans e Sophie Scholl.

Em fevereiro de 1943, os Scholl – que tinham formado com mais três amigos um grupo clandestino chamado “Rosa Branca” – distribuíram nos corredores da universidade de Munique milhares de panfletos em que denunciavam a loucura da guerra e a existência de campos de concentração. A Gestapo, com eficiência alemã, caçou-os e prendeu-os quase que imediatamente. Depois de uma farsa de julgamento, os Scholl foram condenados à morte e levados à guilhotina; Sophie tinha 21 anos e Hans, 25 anos. A evocação dos dois não é casual: o próprio Voegelin batizou o Instituto de Ciência Política de Munique, que fundou e onde deu as suas palestras sobre “Hitler e os alemães”, de Geschwister-Scholl-Institut (Instituto Irmãos Scholl); para o filósofo de Colônia, uma política autêntica tem de estar sob a égide da coragem.

A conclusão de Voegelin é um chamado à responsabilidade individual e a uma qualidade completamente insuspeitada neste contexto: a humildade. Porque a humildade é exatamente aquilo que afirmamos no início deste artigo: confiar na realidade. A coragem de confiar no real é a única garantia que permite superar a estupidez institucionalizada, tornar-se um homem maduro e encontrar essa realidade que fundamenta o encontro com todas as outras realidades: a vida do espírito. São necessários anos e anos de dedicação, e é necessária também uma reviravolta interior para perceber as coisas por esse novo olhar. Mas o começo de tudo está em perceber que estamos sempre a dois passos de nos tornarmos estúpidos.

Enfrentar-se com essa clareza é uma espécie de descida aos infernos; mas não esqueçamos que o estúpido também desce, e de maneira muito pior: no caso de Hitler, basta ler os últimos relatos de sua vida no fétido bunker onde escolheu morrer. Uma frase publicitária da época, profundamente irônica, afirmava: “Hitler no bunker – esse, sim, é o verdadeiro Hitler!” E o que era? Segundo Joachim
Fest, um homem consumido pelo ódio à humanidade, cristalizado nos seus padrões de pensamento, dominado por uma força irracional orientada somente para a destruição. É interessante confrontar esta atitude com a de Winston Churchill, a “nêmesis de Hitler”, que descreve assim os seus “anos de ostracismo” na década de 30:

“Todo profeta deve provir da civilização, mas todo profeta tem de ir para o deserto. Deve ter uma impressão profunda de uma sociedade complexa e de tudo o que ela tem para dar, e depois atravessar períodos de isolamento e meditação. É mediante esse processo que a dinamite psíquica é feita”.

O spoudaios, o homem que “desceu ao inferno” do autoconhecimento e de lá voltou, é precisamente esta “dinamite psíquica”. Esta é a lição que Eric Voegelin deixou para todas as jovens gerações: a de que a tarefa da filosofia é cultivar a coragem e confiar no real, sempre de acordo com o aviso do profeta Ezequiel: “Filho do homem, te pus como sentinela para a casa de Israel. Assim, quando ouvires uma palavra da minha boca, hás de avisá-los da minha parte. Quando eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, certamente hás de morrer’ e tu não o desviares do seu caminho ímpio, o ímpio morrerá por causa da sua iniqüidade, mas eu requererei o seu sangue de ti. Por outra parte, se procurares desviar o ímpio do seu caminho, para que se converta, e ele não se converter do seu caminho, ele morrerá por sua iniqüidade, mas tu terás salvo tua vida” (Ez 33:7-9).

Martim Vasques da Cunha é escritor, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS).


[1] Hitler e os alemães foi publicado no Brasil em 2008 pela editora É Realizações, que também lançou Reflexões autobiográficas, igualmente de autoria de Eric Voegelin.

Originalmente publicado aqui.

Bento XVI: doutoramentos honoris causa para Papa Emérito

2015-07-04 Rádio Vaticana

O Papa Emérito Bento XVI está a passar alguns dias na Residência Pontifícia de Castel Gandolfo e foi ali que recebeu das mãos do Cardeal Stanisław Dziwisz, arcebispo de Cracóvia, dois títulos de doutoramento “honoris causa” em nome dos reitores da Academia Musical de Cracóvia e da Pontifícia Universidade Pontificia João Paulo II, instituída por Bento XVI a 19 de junho de 2009.

Esta condecoração, disse o Cardeal Dziwisz, “representa a gratidão destas duas instituições pela grande estima que Bento XVI sempre nutriu para com S. João Paulo II” e também “pelo seu serviço Pontifício e grande herança da sua doutrina e benevolência”.

Por sua vez, o Papa emérito expressou seu vivo apreço e reconhecimento pela Condecoração a ele conferida, que reforça a sua profunda ligação com a Polónia, pátria do grande santo João Paulo II, do qual foi íntimo colaborador: “Sem ele, o meu caminho espiritual e teológico nem pode ser imaginado” afirmou Bento XVI.

O Papa Emérito referiu-se ainda à música expressando as três fontes da música: “a experiência do amor, a experiência da tristeza e o encontro com o divino.”

Falando de sua experiência pessoal, o Papa emérito afirmou que “no âmbito das culturas e das religiões mais diferentes encontramos uma grande arquitetura, pinturas e esculturas, mas também uma grande música. Contudo, em nenhum outro âmbito cultural há uma grandeza musical que possa se comparada com aquela nascida no âmbito da fé”.

A música ocidental, explicou Bento XVI, é uma coisa única e incomparável com outras culturas, e apresentou como exemplo, Bach, Händel, Mozart, Beethoven, Bruckner: “A música ocidental supera de sobremaneira o âmbito religioso e eclesial. Todavia, ela encontra a sua fonte mais profunda na liturgia e no encontro com Deus. A resposta da grande e pura música ocidental desenvolveu-se no encontro com Deus, que, na liturgia, se torna presente em Jesus Cristo”.

Bento XVI concluiu seu pronunciamento dizendo que “as duas universidades, que lhe conferiram este doutoramento “honoris causa” representa uma contribuição essencial, para que o grande dom da música, que provém da tradição da fé, não se dissipe”.

Originalmente publicado aqui.

Sobre o Dilema Estético-Sentimental da Política Evangélica Contemporânea

Escrevo a contragosto, arrancado do meu exílio blogosférico pela força das circunstâncias. Deveria estar agora trabalhando em meu livro encomendado em eras passadas, inacabado e, aparentemente, inacabável. Mas é dura cousa golpear os aguilhões do processo histórico.

Para encurtar, lancemo-nos diretamente ao assunto, introduzido de forma pedante no título por uma absoluta falta de imaginação nessa tarde fria de sexta feira: afirmo que o problema da política evangélica hoje é um problema estético; um problema de aisthesis, de distúrbios de percepção e de efeito sentimental, que ocultam uma fragilidade mais profunda: a falta da fonte verdadeira dos sentimentos verdadeiros, que é a beleza verdadeira, a que nasce da união entre o bem e a verdade.

DOIS EVANGELICISMOS POLÍTICOS
Assisti ontem a dois vídeos emblemáticos. O primeiro, publicado pela Carta Capital (VEJA AQUI), mostra alguns líderes Cristãos bastante conhecidos, como Ed René Kivitz, Levi Correa e o Deputado Carlos Alberto Bezerra explicando ao público estupefato da TV Carta que os evangélicos não são todos iguais: há evangélicos progressistas que compreendem as complexidades da vida moderna, que são pluralistas e dialógicos e, acima de tudo, que não devem ser confundidos com a “bancada evangélica”, a famigerada corja fundamentalista e (na maioria) neopentecostal que se apossou da representação política do protestantismo nos últimos anos. No conjunto, o vídeo constitui um ato político pedagógico ou educacional, visando publicizar divergências políticas dentro da comunidade evangélica; seu interesse parece duplo: (a) proteger a respeitabilidade pública do evangelicismo progressista e, quem sabe, de quebra, da fé evangélica; e (b) agremiar e capitalizar o setor mais progressista da igreja evangélica, hoje bastante “órfão” ou, ao menos, abandonado diante do crescente avanço do neopentecostalismo fundamentalista.

O segundo vídeo, gravado pela TV Câmara ontem (VEJA NOTA AQUI), mostra mais uma façanha do excêntrico e impagável Silas Malafaia. Poderia ser uma comédia, se o assunto não fosse tão grave. No vídeo o pastor, ícone, para as esquerdas, da bancada “BBB” (Bíblia, Bala e Boi) submete as ideias da deputada esquerdista Érika Kokay a um impiedoso escrutínio público, mostrando as inconsistências manipulativas de seu discurso, sua flagrante inconstitucionalidade, sua dependência da ingerência do ativismo judiciário brasileiro sobre o legislativo, e sua visão distorcida sobre a laicidade do Estado, que faria do legislativo uma casa laicizante – sonho impossível e perverso, como apontou o pastor, já que a casa representa toda a sociedade em sua pluralidade, incluindo, com isso, as populações religiosas. A deputada abandona o plenário a certa altura, enquanto as expressões de apoio ao BBB e a chacota à dignitária humilhada em público transformam o lugar em um campo de futebol. Fragorosa derrota.

“O BELO, O FEIO E O MAU”*
O problema é notoriamente estético. Não apenas isso, naturalmente; mas é impossível não observar a trama estética que se desenha. O pastor Silas Malafaia é um desastre estético; fere a percepção; é iracundo, agressivo, gritando atropeladamente seus argumentos com aquela vozinha desesperadamente irritante, sem pausas, sem nuances, sem pedir atenção, gesticulando loucamente, como se estivesse em um bate-boca de adolescentes no intervalo da escola. Uma coisa horrorosa.

Horrorosa, sim; mas só ouvi verdades. Não humilhou Erika Kokay porque foi indelicado, ofensivo ou estridente, mas porque expôs a hipocrisia biopolítica da esquerda. Expôs sua perversa intenção de contornar instâncias menores da estrutura social – a família, acima de tudo – para atingir diretamente a criança e o adolescente através da pregação politicamente correta de um estado aparelhado pela ideologia de gênero (que alguns “evangélicos” a serviço sabe-se lá de quem, insistem em negar). Um amigo disse que Malafaia “mitou”. Mitou mesmo, meus amigos; odeio admiti-lo, pois odeio a teologia da prosperidade pregada e praticada por esse indivíduo, mas…Noblesse Oblige.

Mesmo assim, foi feio, desagradável, indigesto; esteticamente desastroso. Nesse sentido, a fala do Pastor Levi Correia no vídeo da Carta Capital é mais do que iluminadora:

“derrepente se juntam, formam uma tal de uma bancada da bíblia, que junto com a bala, que junto com a bancada do boi, que junto com a bancada da jaula, formam a bancada mais horrorosa que esse país já teve, e o pior: com batuta de camarada que se diz evangélico…”

Claro, claro, o termo “horrorosa”, aqui, tem o sentido de uma analogia estética; é como quando dizemos que “o fulano teve uma vida bonita”, querendo com isso dizer que foi uma vida ética e coerente. A bancada é horrorosa porque é imoral, ou injusta, ou perversa.

Mas isso está claro? De jeito nenhum. A bancada mais horrorosa que o país já teve não é a bancada da Bíblia; ou melhor: talvez ela seja a mais horrorosa, mas isso é insuficiente. A feiura é a desproporção, a desarmonia; muitas coisas podem tornar algo horroroso; entre elas, o desarranjo de uma coisa bela forçada entre coisas feias. A bancada da Bíblia pode ser horrível porque há uma desarmonia entre suas bandeiras e o seu comportamento; ou pode ser horrível porque suas bandeiras são todas horrorosas; ou pode ser horrível porque não combina com a estética política da esquerda.

Mas sem dúvida há coisas igualmente ou até mais horrorosas do que a bancada da bíblia, no circo de horrores da política Brasileira. Por exemplo: o governo petista tem se tornado uma das coisas mais feias que o país já viu. Lula virou o sapo-barbudo de novo. E os evangélicos progressistas que apoiaram o avanço recente da esquerda, estão, em sua incrível recalcitrância, virando sapos também, um a um – pelo menos do ponto de vista do evangelicismo e do catolicismo conservador. A esquerda perdeu grande parte da sua “beleza” nos últimos meses, e a feiura da conivência e do silêncio está ferindo os olhos e ouvidos até dos mais simpáticos.

Feiuras sem fim. Sabe aquele rosto que parece bonito mas nos é desagradável, e não sabemos dizer exatamente porquê? É o caso do progressismo evangélico. É difícil dizer aonde está a desproporção, mas ela está lá: no silêncio conveniente sobre o casamento igualitário, sobre a ideologia de gênero na escola, sobre o desempoderamento familiar, sobre o desaparecimento progressivo da justiça retributiva, sobre o aparelhamento ideológico da juventude (evangélica inclusive), sobre a ausência de direitos para nascituro, sobre o livre emprego do obsceno para forçar a conflitividade social, sobre a colonização da sociedade civil pelo estado através dos “novos movimentos sociais”, sobre o desprezo consumado pela ortodoxia teológica (como se toda ortodoxia fosse “feia e sem amor”, nas ridículas paródias de Schaeffer que repetidas por estudantes que o desprezam), sobre o enfraquecimento ideologicamente orientado das instituições republicanas, sobre a cobiça pelo controle da imprensa, sobre o ativismo do STF, sobre o batismo da luta de classes dentro da igreja evangélica, em nome da “sede de justiça”, sobre a perseguição, dentro das instituições públicas, contra oponentes do PT, sobre a conivência diplomática do Brasil com absurdos políticos nas casas vizinhas e em bairros mais distantes do globo, etc, etc, e etc – feiuras a perder de vista.

Mas essas feiuras, evidentes para os Cristãos e brasileiros conservadores, são devidamente maquiadas no vídeo da TV Carta, enquanto se destacam os traços belos do evangelicismo progressista e a conveniente ausência, em seu meio, de qualquer bandeira “desarmônica” com omindset secularista contemporâneo. Ficou lindo.

Ora, o problema é, sem dúvida, ético também. É um problema quanto ao que seria verdadeiramente “bom”. As duas alas do evangelicismo divergem sobre o que é bom em temas bem específicos – manter ou reduzir a maioridade penal? É uma questão social, justicial e também moral; e a esse respeito já grande desafinação entre os evangélicos. A bem da verdade, esse foi tão somente o ponto enfatizado no vídeo da TV Carta; e não tiraria dos colegas progressistas nem o direito nem a razão, quando problematizam algo tão grave. Dou a mão à palmatória; sua defesa nesse ponto tem um fundo moral genuinamente belo, e não pode ser reduzido ao politicamente correto. Mas o ponto de vista conservador também tem suas razões, e suas belezas. A divergência sobre moral e justiça, aqui, não é suficiente para explicar o grau de desafinação entre esses dois extremos ideológicos; a desafinação está demasiado acentuada; penso que feiuras aqui são mais do que analogias; são distúrbios estéticos mesmo e, por isso, sentimentais.

Tomemos como exemplo outra declaração: a do Pastor Ed René Kivitz, para quem, segundo a chamada da BBC, o “Tom ‘bélico’ de alguns líderes evangélicos cria clima propício à intolerância” (VEJA AQUI). Kivitz diz que “a face evangélica que está exposta para o imaginário coletivo do brasileiro é a face mais grotesca, mais triste, e que não representa a índole da Igreja Evangélica brasileira”; mas não usa explicitamente a palavra “tom”, empregada pelo jornalista. A despeito disso, a questão é obviamente estética; é uma questão de “tom”.

Novamente, não quero ser injusto; o pastor procura deixar claro que se opõe a qualquer hegemonia intolerante no congresso, seja ela evangélica, ou petista, ou, por implicação, do movimento lgbt. Mas além da notória barbaridade de dizer que o deputado evangélico, na câmara, “deveria deixar de ser evangélico e se tornar um defensor da cidadania” – como se uma coisa excluísse a outra – é impossível não notar  a condescendência para com o absurdo maquiavelismo e agressividade simbólica dos movimentos feminista, lgbt e do secularismo de esquerda, em geral. Não é um silêncio perdoável; não é equilibrado, não é harmônico.

A bancada evangélica está, sim, fora do “tom”, mas não unicamente por sua agressividade grotesca; também e, acima de tudo, suspeito, está fora do tom porque várias de suas notas originais, que refletem a fé evangélica clássica e que NINGUÉM MAIS NO MUNDO MODERNO TEM CORAGEM DE TOCAR, estão sendo estridentemente tocadas, com imperícia mas com ressonância pública; por seu lado, a ala evangélica progressista não quer tocar essas notas jeito nenhum, porque elas são demasiadamente dissonantes para os ouvidos da mídia “do bem”.

DE NOVO, A REVOLUÇÃO AFETIVA
O que está por trás do discurso sobre o belo, o feio e o bom, é a revolução afetiva hipermoderna, tema de que venho tratando há algum tempo (VEJA UMA BREVE SÍNTESE AQUI). Desde o grande giro afetivista gestado no romantismo do século XIX, efetivado com a emergência da psicologia moderna, e elevado ao establishment com a conversão do capitalismo de consumo em capitalismo emocional ou afetivo, a capacidade de reunir e demonstrar a posse de capital afetivo tornou-se um imperativo para a ascensão social.

O capital afetivo, como descrito pela socióloga Israelense Eva Illouz, seria uma variante do que Bourdieu chama de “capital simbólico”, interpretado a partir do reconhecimento, em Michael Walzer, de uma diversidade de “esferas sociais” com seus capitais e critérios de justiça internos – daí o seu conceito de “esferas de justiça”. O capital afetivo nasce das competências afetivas, que envolvem a capacidade de comunicação emocional, de empatia, de interpretação da vida interior e das emoções dos outros, da manipulação e do emprego inteligente e construtivo dos estados emocionais de indivíduos, grupos e da massa; essas competências tornaram-se essenciais para os relacionamentos interpessoais, a gestão de pessoas no mundo empresarial, na mídia, na educação e, agora, na política, com o movimento dos “direitos afetivos”. Há “minorias” inteiras, empoderadas e manipuladas pela New Left, que identificam na realização afetiva os seus “eixos identitários”, desde que a emergência do campo afetivo na sociedade contemporânea permite a muitos indivíduos a construção de narrativas identitárias centradas na realização afetiva.

Mas nosso assunto hoje não é a exposição da natureza e do metabolismo interno do campo afetivo; é apenas destacar que, com a emergência do capital afetivo, emergiu um outro fenômeno, similar ao que acontece em outras esferas sociais: o reconhecimento dos bens afetivos em geral e, o que nos interessa mais: a produção de bens afetivos de baixo custo e fácil descarte, cuja finalidade é acelerar os processos de troca intersubjetiva e simplificar a comunicação entre as elites do campo afetivo e sua base social. Em termos bem simplificados: a maquiagem sentimental do feio social.

A MAQUIAGEM SENTIMENTAL DO FEIO
Poucas pessoas compreendem, hoje, a diferença entre o “sentimento” e o “sentimentalismo”. Osentimento diz respeito às nossas respostas pessoais, virtuosas ou não, aos estímulos externos. Sentimentos são mais do que sensações; estas ligam-se mais propriamente aos sentidos, ao passo que os sentimentos dizem respeito às nossas respostas pessoais – daí ser concebível falarmos em uma educação dos sentimentos para as relações; Adam Smith, para quem não sabe, não era inicialmente professor de “teoria econômica” (disciplina ainda em construção, à época), mas de “teoria dos sentimentos morais”.

Sentimentalismo” é algo distinto; é uma espécie de treinamento dos sentimentos para a produção de respostas estéticas fáceis, susceptíveis ao kitsch, o lixo estético. É de Jeremy Begbie a ótima citação de Milan Kundera:

“O kitsch faz duas lágrimas correrem em rápida sucessão. A primeira lágrima diz ‘que lindo ver essas crianças correndo na grama!’ A segunda lágrima diz ‘que lindo ficar emocionado com toda a humanidade pelas crianças correndo na grama! Essa segunda lágrima é o que faz o kitsch ser kitsch”.

O kitsch é a arte que tem como objeto não a realidade, mas os bons sentimentos sobre a realidade; é a arte que quer nos fazer sentir o que “devemos” sentir diante de certas situações – mesmo que isso a torne ridiculamente desproporcional.

Emoções sentimentais, segundo Roger Scruton em sua “Estética da Música”, são artefatos designados para disparar as emoções corretas e produzir crédito sobre aquele que as reivindica.

“O sentimentalista está atrás de admiração e simpatia. É por isso que existe o amor sentimental, a indignação sentimental, o lamento sentimental, e a simpatia sentimental; mas não há malícia sentimental, despeito, inveja ou depressão, uma vez que ninguém admira esses sentimentos”.

Ora, os “sentimentos sentimentais” são flores de plástico; são factoides emocionais que não se baseiam na verdade, ou nas relações reais entre as pessoas, mas no esforço para produzir efeitos intersubjetivos imediatos. Eles são de baixo custo porque não exigem o cumprimento de obrigações morais ou de sacrifícios, mas tão somente a suavização do contato com a realidade, o ocultamento de seus traços feios e angulosos. Dick Keyes cita D.H. Lawrence como uma das descrições clássicas do sentimentalismo:

“O sentimentalismo é a produção em nós mesmos de sentimentos que não temos realmente. Todos queremos ter certos sentimentos: sentimentos de amor, de sexo apaixonado, de cordialidade, e assim por diante. Pouquíssimas pessoas realmente sentem amor paixão sexual ou cordialidade, ou qualquer coisa tão profunda assim. Então a massa simplesmente falsifica esses sentimentos dentro de si. Sentimentos falsificados! Com eles o mundo fica mais suave. Eles são melhores do que sentimentos reais, porque podemos cuspi-los quando escovamos os dentes; e então, amanhã podemos falsifica-los de novo”.

Este é o apelo do sentimentalismo: é barato como um souvenir em uma loja de R$ 1,99. Nos identificamos com aquele sentimento fácil, vendido na comédia romântica, no best-seller, no sermão dominical, no discurso do político, no vídeo da TV Carta, o compramos e usamos por alguns momentos. Não precisamos alterar nossas relações com o mundo; basta adquirir e usar os sentimentos corretos, e então… aparentamos ter abundância de capital afetivo.

E essa é a raiz do problema: a pretensão de produzir e manter capital afetivo sem o lastro do capital moral, que é a modificação efetiva da relação do indivíduo com os outros, de um modo que se preserve o sentido da pessoa, a virtude do caráter e confiabilidade nas relações interpessoais. Pois a produção de capital moral é cara; ela envolve conflitos morais, sacrifícios pessoais e gasto de capital afetivo (o “não” contra o mal sempre causa desconforto emocional em ambas as partes); por outro lado, o capital afetivo de alta qualidade exige lastro de capital moral de alta qualidade, pois emoções genuínas dependem de virtudes morais (lembrando a “ordo amoris” de Agostinho a Tomás). Daí que a coexistência de capital afetivo e de capital moral é difícil; produz-se capital afetivo de alta qualidade com grande lastro ético; por outro lado, o capital afetivo de baixa qualidade é fácil de adquirir. Basta dispor-se a ser politicamente correto; qualquer pobretão moral pode exibi-lo.

O sociólogo croata Stjepan Meštrović descreveu a nossa sociedade como uma sociedade pós-emocional. Ela seria pós-emocional não por ignorar as emoções, mas pela necessidade de administrá-las racionalmente e, na lógica do capital, barateá-las, dada sua grande importância imediata, necessária ao bem-estar continuado e à aceitação pública superficial. Temos carros, relógios, celulares, e computadores mais baratos; porque não teríamos emoções também baratas e acessíveis ao consumidor já sobrecarregado com outros custos no mercado da felicidade pessoal?

Emoções tornam-se assim um objeto primário de manipulação, troca de alta velocidade e “contaminação” das massas (vide o provável experimento de “contaminação emocional” em redes sociais, promovido recentemente no facebook por Mark Zuckeberg, dos padrões de “colorização” de perfis após a decisão da suprema corte dos EUA sobre casamento igualitário AQUI. Não é preciso dizer que não faltaram cobaias voluntárias). A comunicação afetiva deixa de ser uma forma de facilitar o encontro ético entre indivíduos, para tornar-se a produção de sentimentos, o gerenciamento dos sentimentos do outro, e o espalhamento de clichés emocionais; e na medida em que o marketing político se apossa desse instrumento, a manipulação dos sentimentos da massa com o fim de galvaniza-la politicamente, sem o custo de envolve-la em um exercício realmente profundo de juízo moral e de aquisição de virtudes éticas.

E, com isso, as emoções verdadeiras, tanto as boas quanto as ruins ou “incorretas”, ficam enterradas sob toneladas de sentimentalismo kitsch religioso, artístico, midiático e político.

É essa manipulação que torna possível a maquiagem sentimental do feio moral. O feio é a desarmonia moral, mas a nota desarmônica depende do acorde que se toca. No acorde da fé Cristã, o liberalismo moral da ética sexual hipermoderna é terrivelmente feio; é horrível (VEJA MAIS AQUI). Mas é belo para alguns, no acorde da “inclusividade”. Igualmente, a oposição aberta à biopolítica, deixada devidamente nua e sem maquiagem, apresenta-se como a revolta fundamentalista de pastores iracundos e fora de controle. Especialmente, é claro, quando eles são assim mesmo. Mas essa é a magia da manipulação sentimental: galvaniza-se a opinião das pessoas “do bem” contra a opinião moral diversa, e derrepente ela se torna feíssima e, por isso, “do mal”, independentemente do caráter verdadeiro de quem a sustenta.

O problema é que esses não são os sentimentos reais; são os sentimentos “sentimentais”, politicamente validados e baratos. Os sentimentos “puros” e as emoções autênticas estão enterrados sob os sentimentos que “devemos” ter por serem politicamente corretos, nos fazendo não apenas pensar por clichés mas, como observou T.S. Eliot, sentir por clichés.

Este é o verdadeiro poder simbólico por trás do pseudoconceito (ou semiconceito?) da “homofobia“. Não é que não possa haver um verdadeiro conceito de homofobia; mas ninguém sabe honestamente, hoje, o que isso significa (Patologia psíquica? Crime? Ódio imoral?). Ou melhor: uns poucos entre os que o empregam e nenhum entre os que o temem entendem sua função comunicativa. Na verdade trata-se de um “meme pós-emocional”; um rótulo similar à estrela de Davi antes e depois da Kristallnacht, mas em uma versão apropriada à revolução afetiva. Sua finalidade é despertar uma resposta não-racional, nos fazendo sentir por clichés e suprimir o que realmente sentimos ou pensamos; uma espécie de galvanização sentimental do sentimento moral. Tudo leva a crer que a palavra “homofobia” representa um sequestro ideológico da problemática da relação homossexual, do campo ou esfera originária, que é a da ética (ou da ética sexual) para o campo meramente afetivo (“emoções” e “fobias”, “repressão”), com a finalidade de… controle social. Em outros termos: seria uma ferramenta psicopolítica.

A revolta “popular” contra a “homofobia” é hoje, digamos, 10% autêntica, e 90% kitsch.

QUANDO A MAQUIAGEM SE BORRA E OS ZUMBIS ACORDAM
Os sentimentos “bons” nutridos pela manipulação da mídia “do bem” são artificiais, clichés, kitsch; fala-se em tolerância, em paz social, em inclusão, mas a verdade é feia como um sepulcro caiado, e às vezes sua imundície vaza.

Considere-se o caso emblemático do embate recente entre o pastor Silas Malafaia e o jornalista Ricardo Boechat. Este último atacou o feioso-mor com expressões surpreendentemente pesadas:

“Não me enche o saco. Você é um idiota, um paspalhão, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia […] Ô, Malafaia, vai procurar uma rola!”

O caso é trágico; mas é fascinante. Fiéis e infiéis tanto se deliciaram de prazer quanto perderam o fôlego diante do horror; o que aconteceu? Os clichés sentimentais se desvaneceram, e os sentimentos reais se mostraram em toda a sua nudez: um profundo, enraizado e amargo desprezo do jornalista de esquerda pela figura do “pastor neopentecostal” – e pelo neopentecostalismo, de um modo geral. Mais do que isso: o desprezo que poderia ser corretamente classificado pelos defensores da ideia como um desprezo “homofóbico”, patente no conselho sobre procurar… certo passarinho.

O público amou. A ala da igreja evangélica que detesta a teologia da prosperidade pregada pelo pastor (entre os quais eu) amou. A que detesta sua figura de pastor-caudilho, por demais odiosa entre evangélicos contemporâneos (de novo, me vejo entre estes) amou também.

Mas, acima de tudo, amou, aquela faixa da população brasileira que despreza a ética sexual e social evangélica tanto quanto a todos os que a defendem; e que sente ojeriza por essa plebe maldita, os crentes fundamentalistas, ignorantes, retrógrados, machistas, coxinhas, fanáticos, anti-intelectuais, intolerantes religiosos, arrogantes, exclusivistas, reacionários, e fascistas, entre outras prendas.

E assim, tal qual uma horda de zumbis, de mortos-vivos desorientados, testemunhamos os verdadeiros sentimentos na maior parte do tempo enterrados sob as lápides sentimentalistas se manifestando, lutando para sair para fora, devorando cérebros nas redes sociais: sentimentos de frustração, de ódio contra a religião, de antipatia contra qualquer ética sexual, de desprezo por pessoas que constroem sua identidade a partir da fé, e não da emoção. E, diga-se, também os sentimentos sujos de evangélicos contra evangélicos – alguns deles agora pintados como o próprio Darth Vader – e de evangélicos contra o “maldito Boechato”.

Boechat esforçou-se por redimir-se citando pastores mais éticos e socialmente responsáveis, mas o estrago foi feito; a máscara caiu de novo, como sempre cai na seletividade com que a mídia trata a antipatia antievangélica que grassa os ambientes acadêmicos brasileiros, a perseguição cultural ao cristianismo no ocidente, e a perseguição global contra o Cristianismo, em comparação com o sofrimento de minorias mais… bonitinhas.

PORQUE A BELEZA POLÍTICA IMPORTA
Boa parte do discurso da esquerda sobre direitos está, infelizmente, maculado pela manipulação sentimental, a psicopolítica dos sentimentos corretos, embora artificiais e sem fundamentação moral consistente. E isso nos leva enfim, ao meu ponto crítico: a política evangélica está, hoje, diante de um dilema estético: usa ou não usa o sentimentalismo político como forma de obter capital político e social?

Na minha opinião, a ala evangélica reacionária reage irracionalmente contra a emergência do campo afetivo, e é cada vez mais alienada desse campo porque não se dispõe a reconhecer, produzir e negociar o capital afetivo, que é a moeda dominante nessa esfera. Nesse sentido, é literalmente reacionária, e, com toda a franqueza, “burra”. Não é que não saiba se maquiar, apenas; é que é seu corpo e seu rosto comunicacional é ridiculamente feio, e isso também é uma questão moral. Desprezar os sentimentos dos outros é uma forma sutil de imoralidade. Não podemos nos esquecer aqui do que disse Francis Schaeffer, a respeito disso:

“ortodoxia bíblica sem compaixão é com certeza a coisa mais feia do mundo”.

O que temos aqui? Beleza; mas a beleza que é fruto da união entre verdade e amor: ortodoxia, com ortopraxia, revelando ortopatia (VEJA MAIS AQUI). Essa é a beleza que queremos, não outra; não a beleza que custe R$ 1,99. Essa beleza é a beleza da coerência; e é, sim, uma beleza também afetiva e emocional.

Sabemos, por exemplo, que uma das maiores falhas do conservadorismo cristão hoje se encontra no terrível fracasso em realizar uma comunicação genuinamente afetiva ou afetivamente sensível. A comunicação envolve, acima de tudo, conteúdo; mas o meio também vai com a mensagem. Como diz Schaeffer:

“O homem do mundo moderno pergunta se há personalidade real, se a comunicação é real, se há significado. Nós, Cristãos, podemos falar até ficarmos com as caras roxas, mas tudo será inútil se não exibirmos a comunicação. Quando, como Cristão, me coloco diante de um homem e digo: “sinto muito”, isso não é apenas legalmente correto e agradável a Deus, mas também é verdadeira comunicação em um nível altamente pessoal”.

Consideremos um caso também emblemático: o movimento “Jesus Cura a Homofobia”, na parada lgbt deste ano (2015). De modo geral, o movimento me pareceu sentimentalista, dada a natureza dos testemunhos apresentados na mídia (todos perfeitamente centrados em fenômenos afetivos: abraços, sorrisos, choros, comoção; mas nenhuma tensão moral). Mas ainda que excessivamente afetivizado e, talvez, sentimentalista, é preciso admitir que o movimento procurou realizar um ato de comunicação verdadeira e, nisso, tratou os militantes lgbt’s como pessoas. E é preciso admitir que os Cristãos conservadores não apresentaram nenhuma versão “melhor” do que isso. Mas esse é o ponto de Schaeffer em “A Verdadeira Espiritualidade”: a comunicação precisa ser pessoal.

“A igreja local ou grupo Cristão deve ser correta (right) em seu ensino, mas deve também ser bonita (beautiful). Os grupos locais deveriam ser exemplos do sobrenatural, ou de relacionamentos curados substancialmente nessa vida presente, entre pessoas”.

Deve haver beleza! Mas note que a beleza Schaefferiana é a beleza da cura sobrenatural. É claro que essa beleza pode e deve ser demonstrada aos incrédulos e, particularmente, em relação com nossos oponentes históricos; mas ela é inseparável da ortodoxia, e não deveria ser confundida com a beleza fácil e barata do sentimentalismo. É uma beleza custosa, ligada a sentimentos custosos, porque produzidos num ambiente em que não reduz os parâmetros morais para garantir aceitação pública.

“Aos Crentes que verdadeiramente creem na Bíblia, em todas as linhas e campos, enfatizo: se não mostrarmos beleza no modo como nos tratamos uns aos outros então, aos olhos do mundo e de nossas crianças, estamos destruindo a verdade que proclamamos… cada igreja… cada grupo cristão… deveria ser um exemplo para que o mundo possa olhar e ver uma beleza nos relacionamentos humanos que possa se postar em exato contraste com a terrível feiura do que o homem moderno pinta com sua arte, com o que faz com sua escultura, com o que mostra em seu cinema, e com o modo que trata o próximo.”
“Estou falando agora sobre beleza, e escolhi essa palavra com cuidado. Eu poderia chama-la de amor, mas esvaziamos tanto essa palavra que ela se tornou sem sentido. Então uso a palavra beleza. Deveria haver beleza, beleza observável para o mundo contemplar no modo como nos tratamos mutuamente.”

Com essas observações de Francis Schaeffer, quero deixar muito claro que meu ataque ao sentimentalismo não tem a finalidade de justificar a disposição iracunda e agressiva empregada pelos setores mais reacionários do evangelicismo brasileiro. Sua explosão de sentimentos negativos é, na verdade, um reflexo de sentimentos negativos de toda a sociedade em relação aos desmandos da extrema-esquerda que se pensa, fantasiosamente, amada pelo povo brasileiro. Mas aí está o problema: não bastaria nos livrarmos dos sentimentos sentimentais, as emoções morais falsas; isso apenas nos levaria à barbárie de Boechat versus Malafaia e daí para pior. Precisamos, antes, cultivar a verdadeira comunicação, a verdadeira beleza, e verdadeiros sentimentos morais.

Mas essa moeda tem outro lado. O fato de a mídia e a política brasileira privilegiarem acriticamente o “capital” afetivo de baixo custo, que denominamos “sentimentalismo”, para gerenciar melhor seus esforços psicopolíticos ajuda a alienar ainda mais os conservadores, que percebem intuitivamente a fabricação. Para seus escrúpulos, o sentimentalismo político é intragável e obviamente falso. A mídia o vende como produto de alta qualidade, mas aqueles familiarizados com a ética Cristã sabem muito bem o que está acontecendo: “we are faking it”.

Acredito sinceramente que os irmãos que deram sua opinião no vídeo da TV Carta tenham sentimentos morais genuínos; mas não acredito na TV Carta, e penso que esses irmãos estão vendendo uma beleza barata e palatável, enquanto permanecerem tão obviamente seletivos e politicamente corretos em suas agendas públicas.

DE PRÍNCIPES E DE BEIJOS MÁGICOS
Do que precisa Silas Malafaia? Precisa aprender o caminho da paz com todos os homens, sim, como ensina Paulo em Romanos 12; precisa passar por uma conversão de seus afetos morais, por uma afinação ética e afetiva; mas acima de tudo, precisa sofrer um brutal alargamento de sua ética teológico-social. Do jeito que está, não representa a nossa tradição; não representa a igreja de Calvino, dos puritanos, de Wesley, de Wilberforce, de Kuyper, de Schaeffer, de Stott, ou de tantos líderes evangélicos, em tantos setores diferentes.

Naturalmente, há outras soluções disponíveis no mercado. Técnicos no assunto diriam que ele precisa urgentemente de um tipo de “Duda Medonça”, ou até do exemplar original. Não foi o beijo do marqueteiro o que transformou o “sapo-barbudo-comunista” Lula no príncipe “Lulinha paz-e-amor” em 2002? É disso o que Malafaia precisa, diriam. Um beijo de marketing, para transformá-lo em um príncipe da comunicação afetiva. O problema é que esse beijo é caro; não é para qualquer sapo não. E é difícil acreditar que exista maquiagem suficiente no mundo das fadas para embelezar esse anfíbio.

Mas o progressismo evangélico precisa de um beijo também. Só que é de outro beijo: o beijo da verdade. Um beijo capaz de revelar ao mundo a feiura/beleza do evangelho da cruz, da moral judaico cristã, do espírito do evangelicismo clássico; um beijo cheio de radicalidade atanasiana, um beijo Agostiniano, um beijo “Contra Mundum”; um bejio capaz de libertá-lo da psicopolítica e mostrar a incurável incompatibilidade entre sentimentalismo da cidade dos homens as afeições morais da cidade de Deus.

Esse é o beijo de Jesus: é de graça, mas custará a reputação do progressismo evangélico diante do presente século. Ele é feio, feíssimo para o homem moderno, num grau incompreensível para um Gregório Duvivier; mas sua beleza é eterna.

*Não podia perder a oportunidade de uma piadinha exotérica sobre o clássico de Sergio Leone… Fica como “vinho ao cansado”, para esquecer por um momento as frustrações morais do dia 26 de Junho de 2015.

Originalmente publicado aqui.

A utilidade do inútil

Por Dom Lourenço de Almeida Prado

Costuma-se dizer que a cultura é aquilo que fica em nossa mente, depois que esquecemos o que havíamos aprendido na escola. A afirmação é feita, quase sempre, em desapreço para o aprendizado escolar, querendo significar que as coisas aprendidas, nessa ocasião, são mecanismos ou informações memorizadas, sem alcance prático e, assim, inteiramente inúteis. Sobrecarga que deve ser esquecida o mais cedo possível.

Na verdade, entendida com um pouco mais de lucidez, com um olhar mais atilado, ela exprime, embora em contraste meio esquemático, a admirável função cultural da escola de crianças e adolescentes: cultura é realmente o que fica do aprendizado escolar. Mas o que fica, não como algo lateral e concomitante, sim como produto ou frutificação amadurecida da matéria tratada nas salas de aula. É aprendendo Capitanias Hereditárias, Mem de Sá e D. João VI que se forma o espírito cívico e a estima (o amor) pela pátria. É aprendendo mecanismos matemáticos, que a máquina de calcular vai esvaziar de qualquer utilização prática visável que se apura o senso lógico e se aviva o raciocínio. É decorando vocabulário e submetendo Camões à aparente agressão da análise lógica que o homem se torna mais homem – “Homo sapiens”- isto é, que ele dá vigor e plenitude à palavra e à linguagem e, por meio delas ou dentro delas, à faculdade de pensar. É aprendendo filosofia (o mais inútil dos conhecimentos), as regras do raciocínio que se chega à mente sadia. E que falar da língua estrangeira?

Nem tudo, diz o filósofo, se ensina na escola, mas tudo se aprende, ou, ao menos, se começa a aprender. Não se ensina a amizade, a intuição, à sabedoria, mas é ensinando matemática e geografia que se aprende o amor e a amizade; é aprendendo Machado de Assis que se abre a mente para os vôos intuitivos; é aprendendo de todas essas coisas esquecíveis e, não raro, penosas, que se sobe à sabedoria.

Há um tema muito em foco, nestes dias, que pode ajudar-nos a perceber que esse aprendizado das coisas, mais altas não se faz diretamente. É subindo por picadas pouco ensolaradas da floresta, que se chega ao sol claro do cume da montanha. Refiro-me à tão falada formação para a cidadania. Não há quem não sinta que há necessidade de um cuidado atento na formação para a cidadania. Entretanto, toda a tentativa de criar uma disciplina específica – chame educação cívica ou ensino da cidadania – tem acabado ou acaba num estudo estéril de cânticos ou símbolos patrióticos quando não se desvia para o mais grave: a imposição conscientizadora daquilo que o chefe pensa cuja conseqüência é a redução do “cidadão” a um escravo orgulhoso de o ser. A cidadania se aprende e precisa ser aprendida, mas não pode ser ensinada como uma disciplina. É estudando história, filosofia social ou a estrutura de um governo democrático, o que é uma lei, é, sobretudo, estudando o homem, a sua índole social, as suas postulações éticas naturais e o seu relacionamento com Deus, que se chega a homem capaz de viver e exigir a nobreza da cidadania.

Outro aspecto dessa tendência perversa a diminuir a sala de aula é a de colocar em ridículo a postura grave do professor. Essa prática corrosiva põe em risco essa riqueza da comunicação humana, em que os mais velhos ajudam os mais moços a conquistarem a sua plenitude, que é o trabalho escolar. E o aprendizado escolar é posto em ridículo e tido por inútil. A ninguém escapa que, seja por limitação dos participantes, desgaste da rotina, não faltam defeitos na sala de aula. Se há aspectos merecedores da crítica, investir contra a própria obra, não só é injusto, mas enfraquece um serviço sem o qual a cultura não vem e o homem, animal da cultura, não chega a ser homem.

A conclusão a que nos conduzem estas reflexões não se limita ao reconhecimento de que Aristóteles tinha razão quando dizia que o aprendizado das coisas inúteis é sumamente útil. Nem se esgotaria com uma explicação de que as coisas inúteis – a cultura, por exemplo (nada mais inútil) – são úteis, não só como portadoras de alegria mas porque é por aí que o homem conquista a sua plenitude humana, sem a qual, não haverá o bom jurista ou o bom médico.

Há um veneno desumano nessa falta de apreço para o aprendizado escolar fundamental e médio. É o veneno utilitarista e pragmatista. Em vez de colocar como meta a formação do homem, de sua mente sadia e descortinada, para que se torne um ser livre e tenha trabalho como um desdobramento disso, pensa-se na preparação direta de um emprego, graças a uma habilitação manualista. Além de reduzir o homem a um “torcedor de parafusos”, como Carlitos nas “Luzes da Cidade’’, fechando o seu horizonte às grandezas do pensamento e da beleza, essa orientação é contraproducente mesmo na direção ao prático ou utilitário. O trabalho humano não é um trabalho animal, mas um trabalho criativo que, ao contrário do robô, flui de uma inteligência que lhe dá vida e o torna jubiloso. Além disso, no mundo de hoje, em constante mutação, só a cultura e a formação básica permitem a adaptação a novos modelos e capacitam para a atualização permanente. Num tempo em que as novas profissões ou novas técnicas surgem, a cada instante, e outras tantas se extinguem, o utilitarismo conduz ao vazio e a preparação para o emprego acaba no desemprego.

Vem a propósito fechar estas reflexões referindo-me a uma forma muito espalhada de apresentar a convivência professor/aluno, na sala de aula: uma espécie de teatro de rigidez artificial, desmedida e fingida. Toma-se como sério e vultoso episódios normais da vida infantil. A malandragem infantil é tratada com severidade irreal. Ainda há dias, um jornal apresentou, com destaque, um poema em que o pretendido poeta não só se queixa de ter sido premido, na escola, a decorar as capitanias hereditárias (talvez devesse queixar-se ou nós poderíamos queixar-nos daquele que o ensinou a escrever permitindo-lhe o poema), mas critica a escola que o puniu por ter colado, por não ter feito o dever, por não querer ir à aula ou por não ter querido estudar. “Eu quero jogar botão, videogame, bola de gude’’, “eu não quero sair da minha cama”. Acha o poeta que nada disso devia ser tido como motivo de punição. Ridiculariza ou quer ridicularizar o mestre porque lhe deu zero ao surpreendê-lo colando. Que tem colar? Que tem não fazer o dever? Esquece-se de que é aproveitando as pequeninas coisas que se vai criando o senso de responsabilidade, que é corrigindo os pequenos erros que se forma o senso moral, o senso do certo e do errado e se evitam os grandes erros. A tolerância generosa para a malandragem infantil é a raiz do grande irresponsável.

(Texto publicado no Jornal Estado de São Paulo em 5/8/1995)

Dom Lourenço de Almeida Prado faleceu em 2009 aos 97 anos. Foi reitor do tradicional colégio para meninos São Bento, uma das mais renomadas instituições de ensino do país. Nasceu na cidade paulista de Bica da Pedra (hoje, Itapuí). Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1935. Também cursou Filosofia, Sociologia e Teologia. Entrou para o Mosteiro de São Bento em 1940, e se formou sacerdote em dezembro de 1946. Foi o reitor do Colégio São Bento que mais tempo ficou no cargo, por 46 anos.

Originalmente publicado aqui.

PROBLEMAS DA LITERATURA ATUAL

Penso nos problemas da literatura atual quando leio esses contos estendidos que hoje recebem o nome de “romance” — impressos com letra grande e num papel de alta gramatura, do contrário caberiam em 10 ou 15 páginas.

Faz alguns meses, fui à livraria, peguei uma pilha de “romancistas” atuais, sentei numa poltrona e comecei a ler.

A tarde passou. Fui interrompido duas ou três vezes. Recusei um café. E quando fechei o último livro percebi que quase todos eram do mesmo autor.

Não eram — mas tratavam dos mesmos problemas, com as mesmas lamúrias, a mesma conversinha fiada em primeira pessoa, como se o autor estivesse abrindo seu coração para o psicanalista ou, pior, para um dono de botequim.

Você lê esses “romances” e não se convence de que os autores são realmente escritores. É tudo frágil, medíocre.

Você lê esses “romances” e não se convence de que os autores são realmente escritores

Uma angústia artificial perpassa as histórias.

No fundo, todos reclamam que não são felizes, como se a felicidade fosse o estado natural do ser humano, do qual eles, pobres coitados, estão excluídos por algum erro do Universo.

Não são adultos falando, mas adolescentes de trinta ou quarenta anos que ainda não sabem o que é ansiedade, desespero, sofrimento. Não sabem e não imaginam.

Ou, pior, acham que desespero é ter de decidir entre o jogo de futebol na tevê, uma transa por obrigação e andar de bicicleta nas ciclovias do Haddad.

Tem-se a impressão de que eles decoraram Sartre. Ou Clarice Lispector — mas a voz que narra é a de uma Clarice diluída, desfibrada. Talvez seja o perispírito da Clarice.

Há outras opções de estilo: pode ser um Guimarães Rosa canhestro — ou a corruptela de alguma tradução do Ulysses.

As frases raramente ultrapassam 18 palavras. E são truncadas, como se o escritor sofresse de algum problema respiratório.

A superficialidade desses livrinhos faz-me lembrar do que Thomas Mann falava sobre o “tempo do homem criativo”.

Mann dizia que esse tempo “é de uma estrutura, de uma densidade e de uma produtividade diferentes daquelas frouxamente tecidas e passageiras da maioria”. E que o “homem da maioria”, admirado da “extensão de realizações que se podem acomodar neste espaço de tempo”, pergunta ao homem criativo: “Quando vais fazer tudo isso?”.

Essa perplexidade do homem comum em relação ao homem criador está perdida. Hoje, tudo é frouxo e passageiro. Hoje, o homem da maioria olha o “romance” de 15 páginas e pensa: “Isto até eu faço!”.

E ele tem razão.

[A convite do editor, este texto foi reproduzido na Revista Amálgama.]

Originalmente publicado aqui.