Em encontro histórico, Papa e Patriarca da Rússia condenam o aborto e defendem o casamento tradicional

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Uma declaração conjunta assinada pelo Papa Francisco e o Patriarca Kirill, cabeça da Igreja Ortodoxa de Moscou e de toda a Rússia, foi emitida hoje após seu encontro histórico no aeroporto de Havana, Cuba, lançando um forte chamado à defesa da vida e da família.

A declaração começa com um desejo de restabelecer a unidade cristã, afirmando uma “determinação de realizar tudo o que seja necessário para superar as divergências históricas que herdamos.”

Os líderes religiosos expressaram o desejo de unir os esforços de ortodoxos e católicos para “dar testemunho do Evangelho de Cristo e do patrimônio comum da Igreja do primeiro milênio, respondendo em conjunto aos desafios do mundo contemporâneo,” uma vez que a “civilização humana entrou num período de mudança epocal.”

Depois de discutir sobre a violenta perseguição aos cristãos em curso no Oriente Médio e no norte da África, o Papa e o Patriarca voltaram suas atenções para o Ocidente. “Ao mesmo tempo, estamos preocupados com a situação em muitos países onde os cristãos se debatem cada vez mais frequentemente com uma restrição da liberdade religiosa, do direito de testemunhar as suas convicções e da possibilidade de viver de acordo com elas.”

“Em particular, constatamos que a transformação de alguns países em sociedades secularizadas, alheias a qualquer referência a Deus e à sua verdade, constitui uma grave ameaça à liberdade religiosa,” disseram. “É fonte de inquietação para nós a limitação atual dos direitos dos cristãos, se não mesmo a sua discriminação, quando algumas forças políticas, guiadas pela ideologia dum secularismo frequentemente muito agressivo, procuram relega-los para a margem da vida pública.”

A declaração expressa uma preocupação com relação à “crise da família em muitos países” e aponta que “ortodoxos e católicos partilham a mesma concepção de família.”

“A família funda-se no matrimônio, ato de amor livre e fiel entre um homem e uma mulher,” diz. “Lamentamos que outras formas de convivência já estejam postas ao mesmo nível desta união, ao passo que o conceito, santificado pela tradição bíblica, de paternidade e de maternidade como vocação particular do homem e da mulher no matrimônio, seja banido da consciência pública.”

O matrimônio, disseram, “é um caminho de santidade, que testemunha a fidelidade dos esposos nas suas relações mútuas, a sua abertura à procriação e à educação dos filhos, a solidariedade entre as gerações e o respeito pelos mais vulneráveis.” É uma “escola de amor e fidelidade.” O amor, diz a declaração, sela a união do esposo e da esposa “e ensina-os a se acolherem reciprocamente como um dom.”

O Papa e o Patriarca pediram o fim do aborto. “Pedimos a todos que respeitem o direito inalienável à vida”, diz a declaração. “Milhões de crianças são privadas da própria possibilidade de nascer no mundo. A voz do sangue das crianças não nascidas clama a Deus (cf. Gn 4, 10).”

A declaração também condena a eutanásia e as tecnologias reprodutivas imorais, como a fecundação in vitro e a pesquisa destrutiva que faz uso de embriões humanos.

“A emergência da chamada eutanásia faz com que as pessoas idosas e as deficientes comecem a se sentir um peso excessivo para suas famílias e para a sociedade em geral. Estamos preocupados também com o desenvolvimento das tecnologias reprodutivas biomédicas, porque a manipulação da vida humana é um ataque aos fundamentos da existência do homem, criado à imagem de Deus. Também consideramos nosso dever lembrar a imutabilidade dos princípios morais cristãos, baseados no respeito pela dignidade do homem chamado à vida, segundo o desígnio do Criador.”

A declaração denuncia a perseguição aos cristãos, particularmente no Oriente Médio e no norte de África, onde “famílias inteiras, vilas e cidades de nossos irmãos e irmãs em Cristo estão sendo completamente exterminadas.”

Eles apelaram à comunidade internacional para que aja com urgência, uma vez que “igrejas são barbaramente devastadas e saqueadas; os seus objetos sagrados profanados, os seus monumentos destruídos.” Com “pesar”, eles recordam “o êxodo maciço dos cristãos da terra onde começou a espalhar-se a nossa fé e onde eles viveram, desde o tempo dos apóstolos, em conjunto com outras comunidades religiosas.”

Eles convidaram especificamente todos os cristãos a rezarem para que Deus “não permita uma nova guerra mundial.”

 

Segue o texto integral da declaração conjunta, conforme tradução portuguesa fornecida pelo site oficial da Santa Sé:

«A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós» (2 Cor 13, 13).

  1. Por vontade de Deus Pai de quem provém todo o dom, no nome do Senhor nosso Jesus Cristo e com a ajuda do Espírito Santo Consolador, nós, Papa Francisco e Kirill, Patriarca de Moscovo e de toda a Rússia, encontramo-nos, hoje, em Havana. Damos graças a Deus, glorificado na Trindade, por este encontro, o primeiro na história.
    Com alegria, encontramo-nos como irmãos na fé cristã que se reúnem para «falar de viva voz» (2 Jo12), coração a coração, e analisar as relações mútuas entre as Igrejas, os problemas essenciais de nossos fiéis e as perspectivas de progresso da civilização humana
  2. O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do «Novo Mundo» e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes.
    Alegramo-nos por estar a crescer aqui, de forma dinâmica, a fé cristã. O forte potencial religioso da América Latina, a sua tradição cristã secular, presente na experiência pessoal de milhões de pessoas, são a garantia dum grande futuro para esta região.
  3. Encontrando-nos longe das antigas disputas do «Velho Mundo», sentimos mais fortemente a necessidade dum trabalho comum entre católicos e ortodoxos, chamados adar ao mundo, com mansidão e respeito, razão da esperança que está em nós(cf. 1 Ped3, 15).
  4. Damos graças a Deus pelos dons que recebemos da vinda ao mundo do seu único Filho. Partilhamos a Tradição espiritual comum do primeiro milénio do cristianismo. As testemunhas desta Tradição são a Virgem Maria, Santíssima Mãe de Deus, e os Santos que veneramos. Entre eles, contam-se inúmeros mártires que testemunharam a sua fidelidade a Cristo e se tornaram «semente de cristãos».
  5. Apesar desta Tradição comum dos primeiros dez séculos, há quase mil anos que católicos e ortodoxos estão privados da comunhão na Eucaristia. Estamos divididos por feridas causadas por conflitos dum passado distante ou recente, por divergências – herdadas dos nossos antepassados – na compreensão e explicitação da nossa fé em Deus, uno em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deploramos a perda da unidade, consequência da fraqueza humana e do pecado, ocorrida apesar da Oração Sacerdotal de Cristo Salvador: «Para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós» (Jo17, 21).
  6. Conscientes da permanência de numerosos obstáculos, esperamos que o nosso encontro possa contribuir para o restabelecimento desta unidade querida por Deus, pela qual Cristo rezou. Que o nosso encontro inspire os cristãos do mundo inteiro a rezar ao Senhor, com renovado fervor, pela unidade plena de todos os seus discípulos. Num mundo que espera de nós não apenas palavras mas gestos concretos, possa este encontro ser um sinal de esperança para todos os homens de boa vontade!
  7. Determinados a realizar tudo o que seja necessário para superar as divergências históricas que herdámos, queremos unir os nossos esforços para testemunhar o Evangelho de Cristo e o património comum da Igreja do primeiro milénio, respondendo em conjunto aos desafios do mundo contemporâneo. Ortodoxos e católicos devem aprender a dar um testemunho concorde da verdade, em áreas onde isso seja possível e necessário. A civilização humana entrou num período de mudança epocal. A nossa consciência cristã e a nossa responsabilidade pastoral não nos permitem ficar inertes perante os desafios que requerem uma resposta comum.
  8. O nosso olhar dirige-se, em primeiro lugar, para as regiões do mundo onde os cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Médio Oriente e do Norte de África, os nossos irmãos e irmãs em Cristo vêem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras. As suas igrejas são barbaramente devastadas e saqueadas; os seus objectos sagrados profanados, os seus monumentos destruídos. Na Síria, no Iraque e noutros países do Médio Oriente, constatamos, com amargura, o êxodo maciço dos cristãos da terra onde começou a espalhar-se a nossa fé e onde eles viveram, desde o tempo dos apóstolos, em conjunto com outras comunidades religiosas.
  9. Pedimos a acção urgente da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos cristãos do Médio Oriente. Ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, queremos expressar a nossa compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista.
  10. Na Síria e no Iraque, a violência já causou milhares de vítimas, deixando milhões de pessoas sem casa nem meios de subsistência. Exortamos a comunidade internacional a unir-se para pôr termo à violência e ao terrorismo e, ao mesmo tempo, a contribuir através do diálogo para um rápido restabelecimento da paz civil. É essencial garantir uma ajuda humanitária em larga escala às populações martirizadas e a tantos refugiados nos países vizinhos.
    Pedimos a quantos possam influir sobre o destino das pessoas raptadas, entre as quais se contam os Metropolitas de Alepo, Paulo e João Ibrahim, sequestrados no mês de Abril de 2013, que façam tudo o que é necessário para a sua rápida libertação.
  11. Elevamos as nossas súplicas a Cristo, Salvador do mundo, pelo restabelecimento da paz no Médio Oriente, que é «fruto da justiça» (Is32, 17), a fim de que se reforce a convivência fraterna entre as várias populações, as Igrejas e as religiões lá presentes, pelo regresso dos refugiados às suas casas, a cura dos feridos e o repouso da alma dos inocentes que morreram.
    Com um ardente apelo, dirigimo-nos a todas as partes que possam estar envolvidas nos conflitos pedindo-lhes que dêem prova de boa vontade e se sentem à mesa das negociações. Ao mesmo tempo, é preciso que a comunidade internacional faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de acções comuns, conjuntas e coordenadas. Apelamos a todos os países envolvidos na luta contra o terrorismo, para que actuem de maneira responsável e prudente. Exortamos todos os cristãos e todos os crentes em Deus a suplicarem, fervorosamente, ao Criador providente do mundo que proteja a sua criação da destruição e não permita uma nova guerra mundial. Para que a paz seja duradoura e esperançosa, são necessários esforços específicos tendentes a redescobrir os valores comuns que nos unem, fundados no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
  12. Curvamo-nos perante o martírio daqueles que, à custa da própria vida, testemunham a verdade do Evangelho, preferindo a morte à apostasia de Cristo. Acreditamos que estes mártires do nosso tempo, pertencentes a várias Igrejas mas unidos por uma tribulação comum, são um penhor da unidade dos cristãos. É a vós, que sofreis por Cristo, que se dirige a palavra do Apóstolo: «Caríssimos, (…) alegrai-vos, pois assim como participais dos padecimentos de Cristo, assim também rejubilareis de alegria na altura da revelação da sua glória» (1 Ped4, 12-13).
  13. Nesta época preocupante, é indispensável o diálogo inter-religioso. As diferenças na compreensão das verdades religiosas não devem impedir que pessoas de crenças diversas vivam em paz e harmonia. Nas circunstâncias actuais, os líderes religiosos têm a responsabilidade particular de educar os seus fiéis num espírito respeitador das convicções daqueles que pertencem a outras tradições religiosas. São absolutamente inaceitáveis as tentativas de justificar acções criminosas com slôganes religiosos. Nenhum crime pode ser cometido em nome de Deus, «porque Deus não é um Deus de desordem, mas de paz» (1 Cor14, 33).
  14. Ao afirmar o alto valor da liberdade religiosa, damos graças a Deus pela renovação sem precedentes da fé cristã que agora está a acontecer na Rússia e em muitos países da Europa Oriental, onde, durante algumas décadas, dominaram os regimes ateus. Hoje as cadeias do ateísmo militante estão quebradas e, em muitos lugares, os cristãos podem livremente confessar a sua fé. Num quarto de século, foram construídas dezenas de milhares de novas igrejas, e abertos centenas de mosteiros e escolas teológicas. As comunidades cristãs desenvolvem uma importante actividade socio-caritativa, prestando variada assistência aos necessitados. Muitas vezes trabalham lado a lado ortodoxos e católicos; atestam a existência dos fundamentos espirituais comuns da convivência humana, ao testemunhar os valores do Evangelho.
  15. Ao mesmo tempo, estamos preocupados com a situação em muitos países onde os cristãos se debatem cada vez mais frequentemente com uma restrição da liberdade religiosa, do direito de testemunhar as suas convicções e da possibilidade de viver de acordo com elas. Em particular, constatamos que a transformação de alguns países em sociedades secularizadas, alheias a qualquer referência a Deus e à sua verdade, constitui uma grave ameaça à liberdade religiosa. É fonte de inquietação para nós a limitação actual dos direitos dos cristãos, se não mesmo a sua discriminação, quando algumas forças políticas, guiadas pela ideologia dum secularismo frequentemente muito agressivo, procuram relegá-los para a margem da vida pública.
  16. O processo de integração europeia, iniciado depois de séculos de sangrentos conflitos, foi acolhido por muitos com esperança, como uma garantia de paz e segurança. Todavia convidamos a manter-se vigilantes contra uma integração que não fosse respeitadora das identidades religiosas. Embora permanecendo abertos à contribuição doutras religiões para a nossa civilização, estamos convencidos de que a Europa deve permanecer fiel às suas raízes cristãs. Pedimos aos cristãos da Europa Oriental e Ocidental que se unam para testemunhar em conjunto Cristo e o Evangelho, de modo que a Europa conserve a própria alma formada por dois mil anos de tradição cristã.
  17. O nosso olhar volta-se para as pessoas que se encontram em situações de grande dificuldade, em condições de extrema necessidade e pobreza, enquanto crescem as riquezas materiais da humanidade. Não podemos ficar indiferentes à sorte de milhões de migrantes e refugiados que batem à porta dos países ricos. O consumo desenfreado, como se vê em alguns países mais desenvolvidos, está gradualmente esgotando os recursos do nosso planeta. A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu.
  18. As Igrejas cristãs são chamadas a defender as exigências da justiça, o respeito pelas tradições dos povos e uma autêntica solidariedade com todos os que sofrem. Nós, cristãos, não devemos esquecer que «o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa. Assim, ninguém se pode vangloriar diante de Deus» (1 Cor1, 27-29).
  19. A família é o centro natural da vida humana e da sociedade. Estamos preocupados com a crise da família em muitos países. Ortodoxos e católicos partilham a mesma concepção da família e são chamados a testemunhar que ela é um caminho de santidade, que testemunha a fidelidade dos esposos nas suas relações mútuas, a sua abertura à procriação e à educação dos filhos, a solidariedade entre as gerações e o respeito pelos mais vulneráveis.
  20. A família funda-se no matrimónio, acto de amor livre e fiel entre um homem e uma mulher. É o amor que sela a sua união e os ensina a acolher-se reciprocamente como um dom. O matrimónio é uma escola de amor e fidelidade. Lamentamos que outras formas de convivência já estejam postas ao mesmo nível desta união, ao passo que o conceito, santificado pela tradição bíblica, de paternidade e de maternidade como vocação particular do homem e da mulher no matrimónio, seja banido da consciência pública.
  21. Pedimos a todos que respeitem o direito inalienável à vida. Milhões de crianças são privadas da própria possibilidade de nascer no mundo.A voz do sanguedas crianças não nascidas clama a Deus (cf. Gn 4, 10).
    O desenvolvimento da chamada eutanásia faz com que as pessoas idosas e os doentes comecem a sentir-se um peso excessivo para as suas famílias e a sociedade em geral.
    Estamos preocupados também com o desenvolvimento das tecnologias reprodutivas biomédicas, porque a manipulação da vida humana é um ataque aos fundamentos da existência do homem, criado à imagem de Deus. Consideramos nosso dever lembrar a imutabilidade dos princípios morais cristãos, baseados no respeito pela dignidade do homem chamado à vida, segundo o desígnio do Criador.
  22. Hoje, desejamos dirigir-nos de modo particular aos jovens cristãos. Vós, jovens, tendes o dever denão esconder o talento na terra(cf. Mt 25, 25), mas de usar todas as capacidades que Deus vos deu para confirmar no mundo as verdades de Cristo, encarnar na vossa vida os mandamentos evangélicos do amor de Deus e do próximo. Não tenhais medo de ir contra a corrente, defendendo a verdade de Deus, à qual estão longe de se conformar sempre as normas secularizadas de hoje.
  23. Deus ama-vos e espera de cada um de vós que sejais seus discípulos e apóstolos. Sedea luz do mundo, de modo que quantos vivem ao vosso redor,vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está no Céu (cf. Mt 5, 14.16). Haveis de educar os vossos filhos na fé cristã, transmitindo-lhes a pérola preciosa da fé (cf. Mt 13, 46), que recebestes dos vossos pais e antepassados. Lembrai-vos que «fostes comprados por um alto preço» (1 Cor 6, 20), a custo da morte na cruz do Homem-Deus Jesus Cristo.
  24. Ortodoxos e católicos estão unidos não só pela Tradição comum da Igreja do primeiro milénio mas também pela missão de pregar o Evangelho de Cristo no mundo de hoje. Esta missão exige o respeito mútuo entre os membros das comunidades cristãs e exclui qualquer forma de proselitismo.
    Não somos concorrentes, mas irmãos: por esta certeza, devem ser guiadas todas as nossas acções recíprocas e em benefício do mundo exterior. Exortamos os católicos e os ortodoxos de todos os países a aprender a viver juntos na paz e no amor e a ter «os mesmos sentimentos, uns com os outros» (Rm15, 5). Por isso, é inaceitável o uso de meios desleais para incitar os crentes a passar duma Igreja para outra, negando a sua liberdade religiosa ou as suas tradições. Somos chamados a pôr em prática o preceito do apóstolo Paulo: «Tive a maior preocupação em não anunciar o Evangelho onde já era invocado o nome de Cristo, para não edificar sobre fundamento alheio» (Rm15, 20).
  25. Esperamos que o nosso encontro possa contribuir também para a reconciliação, onde existirem tensões entre greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do «uniatismo» do passado, entendido como a união duma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis, procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.
  26. Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações a gente pacífica e lançou a sociedade numa grave crise económica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à actividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo.
  27. Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canónicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.
  28. No mundo contemporâneo, multiforme e todavia unido por um destino comum, católicos e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da pessoa, «para que o mundo creia» (Jo17, 21). Este mundo, onde vão desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis, o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de darmos testemunho do Espírito de verdade.
  29. Neste corajoso testemunho da verdade de Deus e da Boa Nova salvífica, possa sustentar-nos o Homem-Deus Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, que nos fortifica espiritualmente com a sua promessa infalível: «Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino» (Lc12, 32).
    Cristo é fonte de alegria e de esperança. A fé n’Ele transfigura a vida humana, enche-a de significado. Disto mesmo puderam convencer-se, por experiência própria, todos aqueles a quem é possível aplicar as palavras do apóstolo Pedro: «Vós que outrora não éreis um povo, mas sois agora povo de Deus, vós que não tínheis alcançado misericórdia e agora alcançastes misericórdia» (1 Ped2, 10).
  30. Cheios de gratidão pelo dom da compreensão recíproca manifestada durante o nosso encontro, levantamos os olhos agradecidos para a Santíssima Mãe de Deus, invocando-A com as palavras desta antiga oração: «Sob o abrigo da vossa misericórdia, nos refugiamos, Santa Mãe de Deus». Que a bem-aventurada Virgem Maria, com a sua intercessão, encoraje à fraternidade aqueles que A veneram, para que, no tempo estabelecido por Deus, sejam reunidos em paz e harmonia num só povo de Deus para glória da Santíssima e indivisível Trindade!

 

Originalmente publicado aqui.

Há livros que nos fazem mal?

Em Lisístrata, comédia do ano 411 a.C., o dramaturgo grego Aristófanes põe na voz de uma mulher um apelo à paz: enquanto durar a guerra entre Atenas e Esparta, as atenienses recusam ter sexo com os seus maridos. O livro seria pouco depois proibido naquela que é uma das primeiras censuras literárias do Ocidente. Perigoso por propor uma alteração à norma de comportamento.

Muitos séculos depois, noutro país também do Ocidente, um grupo de estudantes universitários pede para que alguns clássicos da literatura, sobretudo da antiguidade grega e romana, que fazem parte dos programas curriculares, surjam com uma advertência na capa, chamando a atenção para o “perigo” para o “bem-estar mental” que representam os seus conteúdos, potencialmente causadores de sofrimento, trauma ou angústia.

Metamorfoses, do poeta latino Ovídio, é uma das obras que esses estudantes consideram conter “matéria perigosa”. O poema dividido em 15 livros é tido como um dos livros mais influentes da cultura e civilização ocidentais e narra a transformação exercida pelo tempo no homem e na sua história, cruzando ficção e realidade, e apresentando os mitos como essenciais na evolução humana. Deuses, homens, plantas, animais, elementos convivem fantasiosamente em histórias de amor, traição, incesto, punição, violência, morte, redenção, sem qualquer tipo de apreciação moral. Entre estes “interditos, está a descrição do rapto de Prosérpina, mulher de Plutão e filha de Deméter, que Ovídio começa a narrar assim: “Um dia colhia violetas e brancos lírios, e ia enchendo, com entusiasmo juvenil, cestas e o regaço, à compita com as amigas a ver quem colhia mais, quando Dite a viu e, quase em simultâneo, se enamora e rapta-a: tão precipitado era o seu amor. Aterrada, desata a deusa a chamar, com voz desolada, pela mãe e as companheiras, sobretudo pela mãe. Rasgando a parte de cima do vestido, a túnica soltou-se e as flores colhidas caíram por terra. E tal era a candura que presidia aos seus anos de menina, que até também a perda das flores consternou a rapariga.” (Cotovia, 2007)

O pedido aconteceu no início do Verão passado, veio dos estudantes da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, uma das mais prestigiadas do país, e foi rejeitado pela direcção, mas é simbólico em relação ao que se está a passar em muitas universidades nos Estados Unidos. Em Setembro do ano passado, a revista Atlantic publicava um artigo com o título O afago da mente americana, escrevendo que, “em nome do bem-estar emocional, os estudantes universitários exigem uma protecção cada vez maior em relação a palavras e ideias de que não gostam”, o que está, dizem os autores do texto, “a ser desastroso para a educação e para a saúde mental”. E dão mais exemplos. Os estudantes de Direito de Harvard pediram que não fosse ensinada a lei sobre violação. O problema, diziam, estava na palavraviolação (rape), que podia reacender o trauma em estudantes que pudessem ter sido vítimas desse tipo de abuso.

Absurdo? Os pedidos de protecção “literária” sucedem-se. Pouco tempo depois, a Aeon publicava um ensaio, partindo do facto de que a ideia de que os livros são perigosos é tão antiga como a literatura. “Não se fala tanto de ‘perigo’ político, mas moral ou mental. O romance de Chinua Achebe Quando Tudo se Desmorona (1958) está também entre os problemáticos por poder despertar instintos racistas ou reavivar o sofrimento de quem foi alvo de racismo; O Grande Gatsby, por estimular violência doméstica; Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, por poder levar ao suicídio, assim como A Piada Infinita, de David Foster Wallace, por narrar os sintomas da depressão crónica experimentada pelo autor e que o levaria a suicidar-se em 2006, dois anos após a publicação do livro. Fala de uma sensação que “é o motivo pelo qual quero morrer”. E define-a assim: “É como se não fosse capaz de encontrar nada fora dessa sensação e por isso não sei que nome lhe posso dar. É mais horror que tristeza. É mais horror. É como se uma coisa horrorosa estivesse prestes a acontecer, a coisa mais horrível que se possa imaginar, não, pior do que se possa imaginar porque há também a sensação de que é preciso fazer qualquer coisa de imediato para se deter aquilo mas não se sabe o que se deve fazer e de repente está a acontecer, durante o tempo todo, está prestes a acontecer e ao mesmo tempo está a acontecer.” (Quetzal, 2012)

Os campus universitários americanos parecem viver no pânico do trauma, na obsessão da linguagem politicamente correcta, de tal forma que — e lembra ainda o artigo da Atlantic — humoristas como Jerry Seinfeld estão a recusar dar espectáculos nas universidades, alegando que os estudantes “não são capazes de suportar uma piada”.

 

“Infantilização” da sociedade

“Estamos perante uma excessiva psiquiatrização da sociedade”, afirma Manuela Correia, psiquiatra, psicoterapeuta, com um vasto trabalho e investigação desenvolvidos na área do suicídio na adolescência e juventude, e uma leitora voraz. Conhece todas as obras aqui apontadas como “perigosas” e tenta responder a uma questão muito simples: há livros que nos fazem mal? Ou — recuperando a terminologia usada por quem pede protecção — há livros “perigosos”? E a outra pergunta que pode precisar de resposta mais complexa: o que é que este medo pode representar, não apenas para quem dele padece, mas para a sociedade que o alimenta e dele parece alimentar-se?

“Pode falar-se em três categorias de interditos: o político, o religioso e o moral. E no moral está o uso de drogas, o apelo à violência, a sexualidade, o incesto, a prostituição, os termos impróprios. E parece ser aqui que estamos neste momento”, diz, remetendo para um termo que vem da sociologia, e que no seu entender está a regressar: anomia social.

O conceito desenvolvido por Émile Durkheim no final do século XIX no livro O Suicídio (1897) refere-se à ausência ou falta de normas ou regras numa estrutura ou grupo social. “Foi criado numa altura em que por diminuição do impacto religioso e dos valores das sociedades conservadoras, com a pulverização de valores através do desenvolvimento de uma economia capitalista e da razão, houve um aumento dessa regulação. Houve uma anomia social. É um conceito que tem a ver com a perda da identidade nas sociedades e dos seus objectivos. A religião, bem ou mal, dá um fim, um sentido”, contextualiza.

 

 

A psiquiatrização excessiva do comportamento humano é a forma que as sociedades capitalistas — porque formalmente são laicas — têm para controlar a tal anomia social. Antes, ela era controlada pela religião e por um poder político muito vertical. Hoje, nas democracias, o poder político é mais transversal, e aí, como já aconteceu há uns anos, patologiza-se o comportamento e patologiza-se uma pessoa que saia da norma. É uma forma de controlar a sociedade. O movimento dos anos 1960 da antipsiquiatria tinha que ver com isso. A psiquiatria funcionava como polícia da sociedade.”

Esse controlo pela psiquiatria está a voltar através de uma tentativa de normalizar os comportamentos. “Para mim, os casos mais graves, nem são os adolescentes, mas as crianças”, afirma. Leva a que, por exemplo, “se confunda muitas vezes uma criança irrequieta como hiperactiva” e lhe seja “medicada Ritalina”; ou a temer-se que contos clássicos como os dos Irmãos Grimm ou de Andersen possam ser traumáticos.

Uma das primeiras vezes em que se associou uma obra literária à prática do suicídio e isso deu lugar a uma investigação do tipo causa-efeito foi com A Paixão do Jovem Werther, de Goethe (1774, obra do romantismo que faz parte do Plano Nacional de Leitura). Ao longo do romance, o desespero toma conta do protagonista nas cartas que faz chegar ao narrador. “Ah!, por mais de cem vezes já peguei uma faca para dar vazão a este coração amargurado. Fala-se de uma raça de cavalos nobres que, quando são terrivelmente perseguidos e encurralados, arrebatam eles mesmos, por instinto, uma veia para facilitar a respiração. Sinto-me assim muitas vezes e gostaria de abrir uma veia que me desse a liberdade eterna…”

Manuela Correia refere-a como iniciática no estudo da relação entre literatura e suicídio. “Foi a partir daí que se começou a estudar o efeito de contaminação. O livro foi retirado em alguns países, mas voltou. Nunca ficou cientificamente provado que potenciasse esse efeito”, refere, salientando que essa ideia de contaminação está directamente associada à adolescência. “É a fase da formação, ainda não há um código de valores. Na adolescência temos várias tarefas, que passam pela alteração da relação com os pais, com os pares e a aquisição de uma identidade, onde está também a identidade sexual. Quem sou eu? O que quero ser? Qual o meu código de valores? A maior parte dos adolescentes são saudáveis, mas há umas franjas, mínimas em termos percentuais. E há um facto: esses jovens quando têm sofrimento psicológico, nomeadamente depressão, podem cometer suicídio. Em 90% dos casos de suicídio, há doença psiquiátrica por detrás, um sofrimento mantido: depressão, esquizofrenia, mania. Não há nunca uma causa única”, muito menos um livro.

“Nos adolescentes acontece muito mudarem de comportamento”, afirma. “Ou se isolam, ou mudam de grupo, ou têm vários comportamentos de risco mantidos no tempo, mudam os hábitos de vestuário, começam a ler livros e a ouvir músicas ligadas à temática da morte. São sinais de alerta”, explica, enquanto chama a atenção para o perigo de se achar que toda a sociedade é potencialmente composta por suicidas, deprimidos, traumatizados a quem um livro ou uma palavra num livro pode desencadear a acção limite.

“Os livros em si não são perigosos, eles fazem parte de uma constelação de comportamentos”, conclui, antes de voltar a exemplos que podem determinar uma incapacidade de lidar com o real que vem da infância e de uma sobreprotecção ligada ao medo dos pais de que a criança sofra.

Daí a preocupação de alguns educadores com os contos de Andersen ou do Grimm. “Falam de temas que as pessoas acham que não se deve falar às crianças, como a morte ou a bruxa má, e também em transgressões. Há nas crianças, naturalmente, uma ideia de liberdade ligada à transgressão. Mas varia de cultura para cultura. Por exemplo, na China, Alice no Pais das Maravilhas, de Lewis Carroll, está proibido, porque os animais têm equiparação aos humanos. As sociedades sempre controlaram e é importante que o colectivo tenha um autocontrolo. Mas…”

É neste “mas” que reside a resposta, que, no entender de Manuela Correia, não deve passar pela restrição da leitura, muitos menos desses contos que, entre outras coisas, ensinam o medo. “Os pais têm medo que as crianças tenham medo, mas é muito importante a aprendizagem do medo. Não faz mal que a criança chore e é bom que tenha medo.”

O que é o medo? “O medo é qualquer coisa que está ligada ao desconhecido e ao perigo e quando aprendemos isso adquirimos capacidades de lidar com ele. Há muitos estudos sobre os contos infantis. Os meninos que vão pelos caminhos à aventura, pelo desconhecido, deixam lá os sinais, mas depois acontece qualquer coisa e a marca desaparece e eles ficam perdidos. A criança chora. Não tem mal. O problema é quando a criança tem essa vivência sozinha. Antigamente, essas vivências eram acompanhadas pela família. Hoje a criança está muito sozinha. Está com os pais de forma muito instrumental, vestir, pequeno-almoço, ir para a escola, e à noite, despir, banho, trabalhos de casa, jantar, deitar. Há um estilo de vida que põe as crianças em frente à televisão, aos smartphones, no Facebook, sem o contacto olho a olho.” Estão ocupados. Este vocábulo, no entender de Manuela Correia, é o contrário de outro essencial para o desenvolvimento: o ócio, o tédio. “Os jovens hoje não têm tempo para ter tédio. O bom tédio, o bom ócio. Têm o tédio de ‘não sei o que é que hei-de fazer’. No bom tédio, uma pessoa pode estar sentada no jardim ou no sofá, uma hora, a cabeça a divagar. Isto é o ócio. Não há tempo para isto, para elaborar.”

Grupos como os dos universitários norte-americanos ou as associações de pais de muitas escolas surgem com este tipo de solicitação proteccionista em substituição de um papel que antes pertencia a um estado autoritário ou à religião. Segundo Manuela Correia, são o reflexo — no caso dos estudantes — e a origem — nos casos das gerações mais velhas (pais e avós) — de uma “infantilização” da sociedade; a sociedade que não consegue lidar com o medo ou com a pluralidade da linguagem.

Mas há também factores económicos determinantes, defende. “A própria austeridade reforça a anomia social, ou seja, a desagregação do tecido social. Mas o bom de tudo isto é que quando há muito movimento num sentido há tendência para haver um outro no sentido contrário para que essa anomia não seja excessiva e a sociedade possa estar autocontrolada, auto-regulada. Porque a sociedade como um todo também se auto-regula. É viva”, contém o problema e a sua solução.

Mas nunca se assistiu, reforça, ao pedido de protecção contra a liberdade de expressão por parte de uma comunidade de estudantes de elite, como está a acontecer nos Estados Unidos.

 

Os “transgressores”

A História tem casos de livros proscritos, na filosofia, na política, na ciência, os livros-ameaça ao estipulado. O Bom Selvagem, de Rousseau, Cândido, de Voltaire. “Eram indivíduos de uma elite que tinha conhecimento. E eram vistos como perigosos porque pensar é muito perigoso. Pensar dá poder. E por que é que normalmente são os grandes clássicos que agora são questionados por estes estudantes? Porque são os grandes clássicos que tratam os grandes temas, são os temas da filosofia. O que é que trata o James Joyce? Ou o Homero? Tratam a ideia de liberdade, e a liberdade é muito perigosa. A partir do século XIX, quando surge o romance, os interditos deixam de ser tanto os cientistas e os filósofos — com excepções como a de Charles Darwin [contestado pelo Criacionismo que rejeita a ideia de o homem e o universo terem sido criados por uma entidade que não sobrenatural].

A Origem das Espécies, de Darwin, foi retirado do programa oficial das escolas norte-americanas porque “a força do movimento Criacionista no país é muito grande”, lembra a psiquiatra, sublinhando “que nem a intenção do Presidente Obama em repor o livro como básico escolar conseguiu mudar as coisas”.

Um exemplo diferente é o que decorre do uso de linguagem considerada imprópria e um perigo em si mesma. “No Brasil, chegou a ser publicada uma versão light de O Alienista [1882], de Machado de Assis. Ele fala da mulher da vida airada, que é uma prostituta. Há livros que foram proibidos porque havia a palavra ‘puta’. Também aconteceu nos EUA. É a linguagem que ou ofende a religião ou o poder político, ou os costumes. E depois há a ideia de que as crianças não compreendem, o que é perigoso porque a linguagem e o pensamento estão ligados. Por isso a questão da língua é muito importante. Os adolescentes em todas as gerações têm códigos próprios e quando acaba a adolescência ficam com a linguagem de um adulto. Mas agora esses estereótipos estão a generalizar-se a todas as faixas etárias. Desenvolvemos a linguagem se pensarmos e, se tivermos uma linguagem rica, também pensamos melhor. Há um empobrecimento do vocabulário e um empobrecimento do pensamento.”

E há os livros “tabu” pela temática, periodicamente mais ou menos sensíveis conforme a geografia e a sensibilidade da comunidade. “Agitam as mentes”, comenta Manuela Correia.

Virginia Woolf está entre as escritoras mais visadas. “Ele — pois não poderia haver dúvidas quanto ao seu sexo, embora a moda da época contribuísse até certo ponto para o dissimular — estava a golpear uma cabeça de mouro suspensa das vigas do telhado”, primeira frase de Orlando, romance de 1928 que “pode entrar na construção social do género”, exemplifica a psiquiatra que vai à biografia da escritora, que “tinha relações amorosas com a Vita Sackeville-West, uma grande amiga e uma grande paixão. Teve uma depressão grave, o diagnóstico não está bem definido, mas havia uma esquizofrenia, porque às vezes ouvia vozes”.

Há mais. Anna Karenina, de Tolstoi, O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, as obras de Kafka, Ulisses, de James Joyce. Todas são apontadas como exemplos de conterem “elementos perturbantes”. “Todos os grandes autores pegam nas questões existenciais: o quem sou eu, o que eu quero ser, como é que eu gostaria de ser visto pelos outros, como gostaria de me ver, ter um lugar. Por exemplo, o lugar de Fernando Pessoa era completamente conceptual, interior e feito de vivências que expressava através da língua. Foster Wallace descreve a depressão tal como ela é, de forma crua, dorida. Mas, do ponto de vista clínico, estes livros nunca são perigosos. Podem é fazer parte da tal constelação de comportamentos de um jovem já em sofrimento. Impedir os livros da grande literatura, desde a infância, é infantilizar. A infantilização traz um grande perigo: o de haver outra vez sociedades concentracionárias e com um poder vertical.”

A literatura “ajuda a construir a identidade. É fundamental. Se eu pensar que a ideia de democracia, a cultura humanista, a valorização da ciência, a relação com o outro, se regem por um determinado código de ética e de valores, tenho de defender o acesso aos bens culturais, um direito na Declaração Universal dos Direitos do Homem. E tenho de aceder aos cânones dessa cultura. Desde o Homero, desde a Epopeia de Gilgamesh [poema da antiga Mesopotâmia, actual Iraque] que trata da condição humana, da relação interpessoal e a ideia da viagem, que é a ideia de conhecer, ir para o desconhecido, ir para o medo. E depois os interditos: o suicídio, o incesto, a sexualidade, os valores. Todos os livros canónicos são uma preparação para a vida. E, se pudermos, ler os clássicos das várias culturas. Porque somos isso tudo.”

 

Originalmente publicado aqui.