Coletivismo Olavette

Quem me conhece ou me lê há algum tempo sabe que o Olavo de Carvalho foi influente na minha forma de pensar e escrever. Sem o Pondé eu nunca teria me posicionado à direita, mas o Olavo passou a ser mais importante pra mim depois de eu abandonar a esquerda oficialmente, em 2013. Mas eu já lia ambos desde 2008, quando eu ainda era um esquerdista dissidente.

Sim, nunca me encaixei bem no que a esquerda esperava de mim, e a leitura do Olavo e do Pondé só acentuava o problema. Em 2012, eu lia A Filosofia e seu Inverso, sempre escondido na bolsa, protegido entre outros livros, quase como se fosse uma coisa proibida – e de fato era. Mas em 2012 poucas pessoas conheciam o Olavo fora do seu círculo de alunos e leitores ocasionais. Foi em 2013, com o lançamento do Mínimo, que o Olavo tornou-se razoavelmente mais conhecido.

O que eu gosto no Olavo é seu raciocínio quase sempre lógico aliado a uma boa retórica. Mas é claro que o Olavo comete erros, como qualquer autor. Já disseram – e o Olavo mesmo concordou que havia verdade nisso – que ele é uma mistura de Aristóteles com Alborguetti. Ser comparado a Aristóteles não é pouca coisa, é o filósofo mais genial, rigoroso e lúcido que já li. O problema é que essa metáfora parece ter tomado uma dimensão real na psique do Olavo. É duro escrever isso, e não o faço com a menor alegria, mas hoje eu vejo que o Olavo tornou-se mais um exemplo de sua paralaxe cognitiva – o que ele é e sua obra não estão exatamente de acordo. Há o filósofo, escritor, e analista político de um lado; e há o líder de seita, histriônico, sofista que “sempre tem razão” do outro. Quase sempre eles podem ser distinguidos segundo o veículo em que se expressam: o filósofo escreve livros, o sofista escreve posts de facebook.

O que eu vejo hoje na direita é a péssima influência do “olavismo cultural”, que criou uma cultura histérica, persecutória, neurótica, e coletivista. O espírito da manada está entre nós, e a manada atropela, pisoteia, porque é estúpida. O populacho olavette lincha os dissidentes – que podem ser reais, ou meramente alguns coitados dotados de espírito e inteligência. O coletivismo que vivemos hoje fomenta a burrice, porque é necessário abandonar toda a inteligência para ser capaz de atacar qualquer um que não esteja alinhado, enquadrado, catalogado no paupérrimo imaginário moral e político dos seguidores do Olavo.

Na época em que Olavo e Francisco Razzo tiveram sua treta, só oGustavo Nogy – aluno de longa data do Olavo – teve coragem pra dizer – muito respeitosamente – que o rei estava nu, e acrescento da minha parte: sofrendo de delírios megalômanos. O Olavo se ressentiu por não ser citado pelo Razzo como influência em sua formação, e assim persistiu em sua posição por tempo indeterminado. Note que há uma contradição implícita em ridicularizar e ofender alguém que você gostaria que admitisse que recebeu sua influência.

Muitos conservadores, por medo de discordar do Olavo, se calaram quanto a isso, inclusive eu. Eu pensei: “isso vai passar, é só um siricutico do Olavo”, mas não passou. Piorou. Os episódios de perseguição se seguiram para todo e qualquer pensador de direita que não lhe dê as primícias de sua obra. A perseguição chegou a fazer um “expurgo” de suas alunas protestantes no ano passado (2015), um episódio vergonhoso, em que o Olavo de Carvalho exigiu expressões públicas de fidelidade de seus alunos. Pessoas realmente boas e sinceras foram humilhadas e excluídas do “convívio dos eleitos”.

Agora, os olavettes estão flertando com discursos revolucionários, e criticam todos os que não reconhecem o Olavo como senhor e salvador. No fundo esses jovens são pobres diabos aterrorizados pelo poder retórico do seu professor, a quem chamam abertamente de “mestre” – o que é vergonhosamente aprovado e estimulado pelo filósofo. É o retrato claro de uma geração se afogando no naufrágio moral da modernidade, se agarrando a ídolos de barro em busca de salvação.

O Olavo hoje acredita que ele influenciou milhões de pessoas a irem às ruas pedir o Impeachment da Dilma – o que é totalmente falso. Poucas pessoas levantaram cartazes declarando que “Olavo Tem Razão”, eu estava entre elas. O resto do povo jamais tinha ouvido falar de Olavo nenhum.

Ele acredita que vai restaurar a alta cultura formando uma legião de adoradores irracionais, robóticos, que só sabem reclamar do governo e, agora, dos que trabalham para derrubá-lo dentro da ordem política. Por isso o Olavo vomita ofensas e baixarias alborguettianas sobre o MBL, Kim Patroca Kataguiri, Reinaldo Azevedo, Fábio Osterman e outros. Até o Rodrigo Constantino, que já deu provas contundentes de que não é um liberal relativista, e sim um homem sério e comedido, foi soterrado com a torrente de ofensas alucinadas do Olavo.

O problema – entendam bem aqui meu ponto – é que precisamos parar de isentar o Olavo da responsabilidade sobre sua militância histriônica e burra. O Olavo ajudou a criar o monstrinho, ele moldou essa galera à sua imagem e semelhança, os alimentou com intrigas, e com aquilo que ele mesmo chama de auto-persuasão hipnótica. Essas crianças acreditam que são templários, mestres apologetas, gênios da filosofia universal que não conseguem compreender a diferença entre um non sequitur e uma bicicleta! Estes bostinhas não podem sequer colocar ordem na Igreja Católica, que está apinhada de comunistas, e vêm querer opinar sobre a política do Brasil?

O próprio Olavo falou tantas vezes que a estratégia deveria ser a ocupação dos espaços, a ocupação dos jornais, das universidades e dos partidos políticos. “Tomem um partido político antes de pensarem em intervenção militar” – dizia ele. Agora os caras do MBL vão lá ocupar espaços no PSDB, na Folha, no Senado, e o Olavo fala tudo o contrário do que havia dito! Uma das características do sofista é que ele está sempre certo, mesmo quando ele diz hoje o contrário do que disse ontem, vide Górgias. Vocês nunca repararam que o Olavo afirma uma coisa agora, e o exato oposto disso semanas depois com a mesma convicção enfática?

O Olavo poderia ter sido o unificador de toda a direita brasileira em um programa liberal-conservador, uma aliança estratégica para tornarmos o Brasil um país habitável, minimamente civilizado, e menos hostil à inteligência e à cultura. Mas essa oportunidade passou, e a oportunidade se toma no momento, ou se perde para sempre. Ele só precisava ter convocado um debate aberto, chamado os líderes das diversas frentes para conversar, estimulado a cooperação estratégica. Mas houve um problema de ego inflamado, e isso tornou-se impossível. O Olavo tem outros interesses que não são exatamente a reforma nacional.

A única coisa que os olavettes serão capazes de fazer hoje é espernear, inventar apelidos toscos pra gente, se enfurnarem em sua seita, difamar as “conservadias” (como eles dizem), tremerem e odiarem os “socialistas fabianos”. Se você é conservador, ou gostaria de ser, faça um favor a si mesmo e leia Edmund Burke, leia Russel Kirk, Michael Oakeshott, leia nosso portuga João Pereira Coutinho. Leia Chesterton, Montaigne, Pascal, Bernanos, Tomás de Aquino, Santo Agostinho. Eu sei que é fácil pegar tudo isso mastigado nos artigos do Olavo, mas o que vem mastigado vem também babado de saliva pegajosa. É uma questão de higiene.

 

 

Originalmente publicado aqui.

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