Mudar metodologia pode tornar crível quase qualquer tese, afirma ‘Nature’

O jogador italiano Mario Balotelli recebe cartão vermelho durante jogo contra a República Tcheca
O jogador italiano Mario Balotelli recebe cartão vermelho durante jogo contra a República Tcheca

Jogadores de futebol negros são bem mais propensos a levar cartão vermelho durante os jogos, afirma um estudo publicado na revista científica “Nature”.

Jogadores negros levam tantos cartões vermelhos quanto os jogadores brancos, aponta uma nova pesquisa na revista “Nature”.

A contradição é proposital: os pesquisadores Raphael Silberzahn, da Iese Business School (Barcelona) e Eric Uhlmann, da escola de negócios Insead, de Singapura, desejavam mostrar que, dependendo da metodologia escolhida, é possível demonstrar quase qualquer tese.

“A maioria dos pesquisadores consideraria isso perturbador”, escrevem os autores.

“Isso significa que tomar qualquer análise individual a sério demais pode ser um erro, ainda que isso seja encorajado pelo nosso sistema de publicação científica e pela cobertura da mídia.”

Eles convidaram 29 grupos diferentes de pesquisadores de vários lugares do mundo para responder a questão, a partir de um banco de dados.

Em um extremo, um grupo respondeu que os negros tinham uma chance mais de 200% maior de tomar cartão. No outro, na verdade eram os brancos os que sofriam mais.

As diferenças ocorrem porque, livres para optar pela metodologia que quisessem, os desenhos das pesquisas variaram amplamente.

Editoria de Arte/Folhapress

Qual recorte é feito? Será considerado o número de cartões como um todo ou o objetivo é avaliar as tendências de cada juiz individualmente? Se alguns juízes apitaram mais jogos que os outros, devem os pesquisadores tentar compensar essa distorção?

Casos individuais extremos –jogadores que levam muito mais cartões que os outros, por exemplo– são excluídos para que não “contaminem” os dados? Dois cartões amarelos entram na conta ou só os puramente vermelhos? E jogadores mestiços?

Em um aspecto mais técnico, qual método estatístico –há vários– é utilizado para estabelecer correlações?

E olhe que cartões vermelhos e cor da pele são coisas fáceis de se medir e tabular. Imagine o que acontece quando os estudos envolvem comportamentos subjetivos de voluntários, como no caso da psicologia, ou inferências sobre causa e consequência na economia. Com a metodologia “certa”, prova-se qualquer coisa.

FALSO POSITIVO

Mais do que isso, toda pesquisa está sujeita a algum grau de falsos positivos ou falsos negativos.

Quando alguém fala em margem de erro, está dizendo que, na maior parte das vezes, uma nova pesquisa sobre o mesmo tema também encontraria resultados dentro daquela faixa -mas, atenção, não que todas as pesquisas o fariam.

Em geral, espera-se que até 5% das pesquisas fujam do esperado. Mas as pesquisas não chegam com uma etiqueta dizendo “eu sou o 5% de resultados bizarros”.

Vários estudos têm demonstrados que, quanto mais surpreendente o resultado de um estudo, maior a chance de ele ser um falso positivo ou negativo. É até meio óbvio: são casos de “é bom demais para ser verdade”.

O problema é que a imprensa e os próprios pesquisadores gostam de resultados inesperados. Um artigo científico que diz que, como sempre se imaginou, A não tem nenhuma relação com B, não será publicado em lugar algum.

Para piorar a coisa, os autores lembram que “na vida real” há ainda mais um motivo para desconfiar de estudos científicos isolados.

No caso da pesquisa com cartões, os pesquisadores sabiam que seus trabalhos seriam confrontados com os dos outros, com transparência sobre as metodologias.

Mas e quanto aos estudos feitos em laboratórios fechados, por pesquisadores sedentos por algum reconhecimento ou ascensão profissional?

Mesmo ignorando a fraude proposital, que tipo de “forcinha” metodológica involuntária um cientista pode fazer quando ninguém está olhando? E se após quatro anos de doutorado você começasse a sentir que sua hipótese de trabalho simplesmente não diz nada?

Por fim, mesmo dados confiáveis são só dados. No caso dos cartões vermelhos, por exemplo, mesmo que fosse possível cravar que negros recebem mais cartões, tudo que se poderia fazer para explicar o fenômeno seria levantar hipóteses. Racismo? Diferenças de atitude dos jogadores?

Como testar isso? Estabelecer um comitê para avaliar se cada falta realmente valia cartão? Mas se coisas concretas como a contagem de cartões já criam viés, imagine as opiniões de um grupo de pessoas sobre o “merecimento” desses cartões…

Originalmente publicado aqui.

Médica romena põe os ‘pontos nos is’ no Sínodo sobre a Família

Santidade, Padres Sinodais, Irmãos e Irmãs,
Eu represento a Associação de Médicos Católicos de Bucareste. Sou da Igreja Greco-Católica Romena.
O meu pai era um líder político cristão, que esteve preso pelos comunistas durante 17 anos. Os meus pais estavam noivos, mas o seu casamento ocorreu apenas 17 anos depois.
A minha mãe esperou todos esses anos pelo meu pai, embora ela nem sequer soubesse se ele ainda estaria vivo. Ambos foram heroicamente fiéis a Deus e ao seu compromisso.
O seu exemplo mostra que a graça de Deus pode ultrapassar circunstâncias sociais terríveis e pobreza material.
Nós, enquanto médicos católicos, defendendo a vida e a família, podemos ver que isto é, primeiro que tudo, uma batalha espiritual. A pobreza material e o consumismo não são a primeira causa da crise da família. A primeira causa da revolução sexual e cultural é ideológica.
Nossa Senhora de Fátima disse que os erros da Rússia se espalhariam pelo mundo todo. Isso foi feito primeiramente debaixo de uma forma violenta, o marxismo clássico, matando dezenas de milhões. Agora, é feito primariamente por via do marxismo cultural. Há continuidade entre a revolução sexual de Lenin, Gramsci [N.T.: comunista italiano] e a Escola de Frankfurt, até aos actuais direitos “gay” e à ideologia de género.
O marxismo clássico pretendia redesenhar a sociedade, mediante a apropriação violenta da propriedade. Agora, a revolução vai mais fundo: pretende redefinir a família, a identidade sexual e a natureza humana.
Esta ideologia autoproclama-se progressista. Mas não há nada mais do que a antiga oferta da serpente para que o homem tomasse controlo, substituísse Deus e planeasse a sua salvação aqui neste mundo.
É um erro de natureza religiosa, é agnosticismo. É tarefa dos pastores reconhecê-lo, e alertar o rebanho acerca deste perigo.
“Procurai portanto primeiro o Reino dos Céus, e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas.”
A missão da Igreja é salvar almas. O mal, neste mundo, vem do pecado. Não da disparidade de rendimentos ou das ‘alterações climáticas’.
A solução é: Evangelização. Conversão. Não um crescente controlo governamental. Não um governo mundial. Estes são hoje em dia os principais agentes a impor o marxismo cultural às nossas nações, sob a forma do controlo populacional, da saúde reprodutiva, dos direitos dos homossexuais, educação de género, etc.
O que o mundo precisa hoje em dia não é de limitações à liberdade, mas da liberdade real, liberdade do pecado. Salvação.
A nossa Igreja foi suprimida durante a ocupação soviética. Mas nenhum dos nossos 12 bispos traiu a sua comunhão com o Santo Padre. A nossa Igreja sobreviveu graças à determinação dos nossos bispos e ao seu exemplo resistindo a prisões e terror. Os nossos bispos pediram à comunidade para que não seguissem o mundo. Para não cooperarem com os comunistas.
Agora precisamos que Roma diga ao mundo: “Arrependei-vos e virai-vos para Deus pois o Reino dos Céus está perto”.
Não apenas nós, Católicos leigos, mas muitos Cristãos Ortodoxos rezam ansiosamente por este Sínodo. Porque, como eles afirmam, se a Igreja Católica cede ao espírito deste mundo, será muito difícil que os outros cristãos resistam.
Dr.ª Anca-Maria Cernea
Originalmente publicado aqui.

China comunista na direção de se tornar a “nação mais cristã do mundo” dentro de 15 anos

china-catholics_2432750b

O Cristianismo está experimentando um crescimento disparado na República Popular da China — tão rápido que o país comunista de 1,35 bilhão de habitantes será o país mais cristão do mundo em 15 anos, de acordo com a reportagem “China on course to become ‘world’s most Christian nation’ within 15 years” (China no curso para se tornar a “nação mais cristã do mundo” dentro de 15 anos) do jornal inglês The Telegraph.

A China é oficialmente considerada ateísta, mas um número cada vez maior de chineses está buscando respostas no Cristianismo — querendo conhecer a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo.

Claro que quando se fala em China e Cristianismo, o primeiro pensamento durante décadas sempre foram as chamadas igrejas subterrâneas — cristãos que se reuniam em esconderijos para adorar Jesus Cristo por um medo justificado de perseguição, prisão, tortura e morte. Mas o quadro está mudando. No domingo de Páscoa passado, uma mega-igreja no país comunista estava lotada com 5 mil pessoas para o culto. O prédio de 11 milhões de dólares tem o dobro da capacidade da Abadia de Westminster em Londres, considerada uma das grandes igrejas no Ocidente pós-cristão.

“É maravilhoso ser um seguidor de Jesus Cristo,” Jin Hongxin, de 40 anos, que estava no culto da mega-igreja, disse ao The Telegraph. “Se todas as pessoas na China cressem em Jesus então não mais precisaríamos de delegacias de polícia. Não haveria mais pessoas ruins e portanto não mais crimes.”

A fome espiritual dos chineses está indo na direção certa: o Evangelho.

A reportagem do The Telegraph diz que as congregações cristãs estão crescendo rapidamente desde a morte do ditador comunista Mao Tse Tung em 1976, quando terminou a terrível Revolução Cultural.

“Mao achava que conseguiria eliminar a religião. Ele achava que havia conseguido fazer isso. É irônico — os comunistas não conseguiram. Eles de fato fracassaram completamente,” Fenggang Yang, professor de sociologia na Universidade Purdue e autor do livro “China: Survival and Revival under Communist Rule” (Religião na China: Sobrevivência e Reavivamento sob Governo Comunista), disse ao The Telegraph. “Pelos meus cálculos, a China está destinada a se tornar o maior país cristão do mundo muito em breve. Em menos de uma geração. Muitas pessoas não estão preparadas para essa mudança dramática.”

A população evangélica chinesa, que era apenas um milhão em 1949, já ultrapassou as populações evangélicas de países mais comumente associados com o crescimento evangélico acelerado. Em 2010, havia mais de 58 milhões de evangélicos na China, em comparação com 40 milhões no Brasil e 36 milhões na África do Sul.

O professor Yang crê que o número de cristãos chineses alcançará 160 milhões em 2025, passando na frente até mesmo dos Estados Unidos, que tinham 159 milhões de protestantes em 2010, mas cujas congregações estão em declínio.

Em 2030, a população cristã total da China, inclusive católicos, ultrapassará 247 milhões, colocando-a acima do México, Brasil e Estados Unidos como a maior população cristã do mundo.

Todo esse crescimento é, em grande parte, motivado pelo incessante e crescente interesse dos chineses pela pessoa de Jesus Cristo.

Um estudo publicado no começo deste mês revelou que Jesus Cristo é mais popular no Weibo, a versão chinesa do Twitter, do que o ditador comunista Mao.

De acordo com esse estudo, o atual governante comunista chinês, Xi Jinping, recebeu 4 milhões de menções no Weibo, mesmo com todos os jornais estatais escrevendo sobre ele diariamente.

Mas o nome “Jesus,” que não é mencionado nos jornais estatais, deu mais de 18 milhões de menções no Weibo.

O quadro de crescimento explosivo do Cristianismo na China levou Tom Phillips, autor da reportagem no The Telegraph, à seguinte conclusão: tudo está pronto para a China se tornar o país mais cristão do mundo.

Em reação à reportagem inglesa, a revista Charisma, que é a maior publicação pentecostal do mundo, perguntou: “Será que isso é verdade? E se for, o que isso diz acerca dos Estados Unidos da América? Será que a China está indo para Cristo numa época em que os EUA estão abandonando o Cristianismo?”

A pergunta que eu acrescento é: Por quanto tempo o comunismo poderá sobreviver numa nação onde o Cristianismo não para de crescer? Por quanto tempo uma nação conseguirá sobreviver sem cair numa ditadura quando sua população cristã não para de diminuir?

Revista Charisma, NewsMax e The Telegraph.

Originalmente publicado aqui.

A voz da África clama no deserto – o discurso do Cardeal Sarah no Sínodo

Temos a honra de divulgar a íntegra da intervenção do eminentíssimo Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos — tradução de nossa colaboradora Teresa Maria Freixinho — na aula do Sínodo sobre a Família atualmente em curso em Roma (destaques do original).

Sua Santidade, Eminências, Excelências, participantes do Sínodo, proponho essas três reflexões:

1) Mais transparência e respeito entre nós

Sinto uma forte necessidade de invocar o Espírito da Verdade e do Amor, a fonte de parresia ao falar e humildade ao ouvir, o Único capaz de criar a verdadeira harmonia na pluralidade.

Digo francamente que no Sínodo anterior, sentia-se, em diversos temas, a tentação de ceder à mentalidade do mundo secularizado e do Ocidente individualista. Reconhecer as supostas “realidades da vida” como um locus theologicus [lugar teológico] significa desistir da esperança no poder transformador da fé e do Evangelho.

sarahO Evangelho que outrora transformava culturas agora está em perigo de ser transformado por elas. Além disso, alguns dos procedimentos utilizados não pareciam visar o enriquecimento da discussão e comunhão tanto quanto o fizeram para promover uma maneira de ver típica de certos grupos marginais das igrejas abastadas. Essa mentalidade é contrária a uma Igreja pobre e a um sinal alegremente evangélico e profético de contradição ao espírito do mundo. Não se pode compreender que algumas declarações que não encontram o consenso da maioria qualificada do último Sínodo ainda tenham entrado na Relatio e, em seguida, na Lineamenta e no Instrumentum laboris, enquanto outras questões candentes e muito atuais (como, por exemplo, a ideologia de gênero) foram ignoradas.

Portanto, a primeira esperança é que, em nosso trabalho, haja mais liberdade, transparência e objetividade. Por isso, seria proveitoso publicar os resumos das intervenções, para facilitar a discussão e evitar qualquer preconceito ou discriminação na aceitação dos pronunciamentos dos Padres Sinodais.

2) Discernimento da história e dos espíritos

Uma segunda esperança: Que o Sínodo honre a sua missão histórica e não se limite a falar somente sobre determinadas questões pastorais (como, por exemplo, a eventual comunhão aos divorciados e recasados), mas auxilie o Santo Padre a enunciar claramente determinadas verdades e dar orientação útil em nível global. Isso porque há novos desafios em relação ao sínodo celebrado em 1980. Um discernimento teológico nos permite ver em nosso tempo duas ameaças inesperadas (quase como duas “bestas do apocalipse”) localizadas em lados opostos: por um lado, a idolatria da liberdade ocidental; do outro, o fundamentalismo islâmico: secularismo ateísta versus fanatismo religioso. Para usar um slogan, encontramo-nos entre “a ideologia de gênero e o ISIS”. Massacres islâmicos e exigências libertárias normalmente disputam a primeira página dos jornais. (Lembremo-nos do que aconteceu no último dia 26 de junho!). Desses dois radicalismos surgem duas ameaças maiores para a família: sua desintegração subjetivista no Ocidente secularizado através do divórcio rápido e fácil, o aborto, as uniões homossexuais, a eutanásia, etc. (cf. Teoria de gênero, o ‘Femen’, o lobby LGBT, a IPPF…). Por outro lado, a pseudo-família do Islã ideologizado, que legitima a poligamia, a subserviência feminina, a escravidão sexual, o casamento infantil etc. (cf. Al Qaeda, Isis, Boko Haram ...)

Várias pistas nos possibilitam intuir a mesma origem demoníaca desses dois movimentos. Diversamente do Espírito da Verdade, que promove a comunhão na diversidade (perichoresis), esses movimentos estimulam a confusão (homo-gamy) ou subordinação (poly-gamy). Além disso, eles exigem uma regra universal e totalitária, são violentamente intolerantes, destruidores de famílias, da sociedade e da Igreja e são abertamente cristofóbicos.

“Não estamos lutando contra a carne e o sangue…” Precisamos ser inclusivos e acolhedores a tudo o que é humano; mas o que vem do Inimigo não pode e não deve ser assimilado. Não se pode unir Cristo e Belial! As ideologias homossexuais e abortistas ocidentais e o fanatismo islâmico são hoje em dia o que o Nazi-fascismo e o Comunismo foram no século XX.

3) Proclamar e servir à beleza da Monogamia e da Família

Deparados com esses dois desafios mortais e sem precedentes (“homo-gamia” e “poli-gamia”) a Igreja precisa promover uma verdadeira “epifania da Família.” O Papa (como porta-voz da Igreja) pode contribuir para ambos, e os bispos e pastores do rebanho cristão podem fazê-lo individualmente: Ou seja, “a Igreja de Deus, que ele obteve com o seu próprio sangue” (Atos: 20:28).

Precisamos proclamar a verdade sem medo, ou seja, o Plano de Deus, que é a monogamia no amor conjugal aberto à vida. Tendo em mente a situação histórica que acabamos de recordar, é imperativo que a Igreja, em seu cume, declare de maneira definitiva a vontade do Criador a respeito do matrimônio. Quantas pessoas de boa vontade e senso comum se uniriam nesse ato luminoso de coragem conduzido pela Igreja!

Juntamente com uma Palavra forte e clara do Supremo Magistério, os Pastores têm a missão de auxiliar os nossos contemporâneos a descobrir a beleza da família cristã. Para lograr esse objetivo, é preciso promover tudo o que representa uma verdadeira Iniciação Cristã de adultos, uma vez que a crise no matrimônio é essencialmente uma crise de Deus, mas também uma crise de fé, e isso é uma iniciação cristã infantil. Em seguida, precisamos discernir aquelas realidades que o Espírito Santo já está suscitando para revelar a Verdade da Família como uma comunhão íntima na diversidade (homem e mulher), que é generosa no dom da vida. Nós, bispos, temos o dever urgente de reconhecer e promover os carismas, movimentos e realidades eclesiais em que a Família é verdadeiramente revelada, este prodígio de harmonia, amor de vida e esperança na Eternidade, esse berço de fé e escola de caridade. E há tantas outras realidades oferecidas pela Providência, juntamente com o Concílio Vaticano II, em que este milagre é oferecido.

Originalmente publicado aqui.

Razões de impeachment

Ao cuidar da responsabilidade do presidente da República, a Constituição estabelece dois caminhos para o seu afastamento. É necessário o voto de dois terços da Câmara dos Deputados para que a acusação seja admitida: se o crime é comum, o julgamento se dá pelo Supremo Tribunal Federal; se o crime é de responsabilidade, o veredicto é do Senado. Nas duas hipóteses, com a instauração do processo, o presidente é afastado das funções. Se o julgamento não for concluído em 180 dias, o processo segue, mas o presidente retoma o governo.

No STF, o caso depende de critérios técnicos: acusação precisa, que permita a ampla defesa, justa causa, adequação exata da conduta ao tipo penal, prova da materialidade e das intenções etc. Por isso, juristas da mais alta corte decidem, primeiro, o recebimento da denúncia e, depois, o mérito da acusação.

O julgamento pelos senadores é político. Não são especialistas e decidem sem rigor jurídico. Collor renunciou em cima da hora para salvar os direitos políticos, mas foi cassado. Não seria condenado por crime comum e nem por isso se contesta a legitimidade do impeachment.

Ainda que um mesmo fato possa configurar crime comum e crime de responsabilidade, os processos são independentes e podem ter desfechos diferentes.

Não faltam razões para o impedimento de Dilma. Um conjunto de atos governamentais conspira contra o princípio da probidade na administração e as regras orçamentárias. Sua campanha é suspeita de drenar recursos da corrupção.

Além das mentiras, do descontrole e das pedaladas fiscais, das despesas não autorizadas, há uma gestão temerária ou fraudulenta que causou o colapso da economia brasileira. Seu governo minou decisivamente o valor e a imagem da Petrobras. Tudo isso ou cada um dos acontecimentos, mais ou menos graves, pode, em tese, indicar a configuração, para dois terços dos deputados, de um delito de responsabilidade bastante amplo e impreciso como o “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

Os argumentos que a presidente desfila em sua defesa são frágeis. Outros governos fizeram o que ela fez? Pode ser, mas isso não a autorizaria a repetir o que a lei proíbe.

Sustenta, também, que não pode ser responsabilizada por fatos ocorridos no mandato anterior. Não é o que a Constituição diz: na vigência do mandato, o presidente só não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções. O primeiro mandato soma-se ao segundo. A reeleição não gera o esquecimento do que se fez em 2014, por exemplo, principalmente se as ilegalidades tinham por objetivo alcançar, a qualquer custo, a vitória eleitoral.

Impeachment não é golpe. É a solução institucional prevista quando o presidente, além dos malfeitos, perde, pelo isolamento popular e congressual, condições de governar. É afastado do cargo por ações e omissões, mas, sobretudo, pela matemática dos votos.

A solução é extrema e parece drástica demais. Mas a política é crua e pode ser cínica, injusta: os crimes deixam de “existir” por uma única razão, o apoio parlamentar.

Dilma sabe disso e trabalha para ganhar tempo e, quem sabe, diluir a fraqueza que contamina o seu mandato. O futuro dirá.

Originalmente publicado aqui.