¡HAGAN LÍO!

Este é um texto para católicos. Uma questão “ad intra”, uma questão completamente intra-eclesial. Como a internet é pública, é evidente que acatólicos a ele têm acesso. Peço, contudo, a gentileza de fazer com este texto o que fariam ao ouvir sem querer uma discussão familiar acontecendo do outro lado de uma sebe e ignorá-la ou, melhor ainda, retirar-se. Não estou lavando roupa em público, sim expondo a minha preocupação com algo que afeta o interior desta família que é a Igreja Católica Apostólica Romana.
Mas vamos lá.

Confesso que tenho uma séria dificuldade em me botar na pele das pessoas que ficam falando absurdos acerca do Santo Padre o Papa Francisco. A impressão que eu tenho é de uma espécie de loucura coletiva que acomete alguns; gente normalmente inteligente, gente que normalmente não cairia nem por um segundo na esparrela dos meios de comunicação de massa, engole de repente sem pestanejar absurdos grotescos, e se coloca numa posição precaríssima diante não apenas do Papa, mas da própria Verdade.

Como comentei outro dia, a única explicação que percebo possível é — e falo absolutamente sem qualquer intenção de fazer analogias ou metáforas, sim de expressar a verdade objetiva dos fatos — a ação do Inimigo. Temos, sabemos todos, três inimigos: a carne, o mundo e o demônio. Cada um deles age sobre o anterior. A carne somos nós, nossas vaidades, nossos desejos desordenados (de prazer, de honraria, de conforto, etc.). É a carne que nos leva a, por exemplo, sofrer a tentação de mentir para parecer melhor, de cometer adultério, de entregar-se a prazeres gastronômicos exagerados, etc. É um inimigozinho tinhoso e chato, por estar sempre ali. A criação de bons hábitos ajuda, e muito: se nos acostumamos a viver castamente, é evidentemente mais fácil manter a castidade que se vivemos numa gangorra em que um exagero para um lado é compensado por um exagero no sentido oposto, e vice-versa, até a exaustão. Custodiar a carne significa lidar disciplinadamente com as nossas próprias fraquezas, reconhecê-las claramente, e fazer a escolha consciente de aceitar a Graça a cada momento. Não é fácil; na verdade, seria impossível se não fosse a graça que Deus nos oferece incessantemente pelas mãos carinhosas de Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças.

Em seguida, sofremos o aguilhão do mundo. O mundo apela à carne, como disse acima: ele tenta nos convencer de que é bom fazer parte da turminha, de que nós “merecemos” sei-lá-qual prazer ou conforto, de que “ninguém merece” — menos ainda eu! — este ou aquele dissabor, etc. O mundo, em suma, se disfarça de amigo nosso, quando na verdade ele é amigo é da carne, que é nossa inimiga. O mundo não quer o nosso bem, por mais que pareça, porque o que ele oferece e busca não é o bem verdadeiro, o Bem-em-Si, que é Deus, sim um sucedâneo, uma contrafação pobre e vazia, que consiste na satisfação temporal de desejos imanentes. O mundo orienta-se em função da satisfação dos desejos desordenados que nós temos — ou, melhor dizendo, que nos têm! — por termos herdado de Adão as consequências do Pecado Original. É o mundo, por exemplo, que propositadamente confunde a existência de mecanismos atuantes com uma suposta bondade intrínseca deles. É o que acontece em economia, com o capitalismo dizendo que “não é uma ideologia, porque o mercado existe de por si”, quando na verdade o problema não é, evidentemente, a existência do mercado — que nada mais é que a soma de todas as transações voluntárias feitas pelos descendentes de Adão –, sim a ideia absurda de que a soma de todas as vontades desordenadas de todos os homens marcados pelo Pecado seria de alguma forma algo ordenado, bom e puro e não, como é evidente, a mesma desordem escrita em escala maior.
Outro exemplo do mesmo mecanismo nós encontramos na apresentação atual dos prazeres de natureza sexual: se existe o desejo homossexual, então ele é forçosamente bom, e a sociedade deve tratá-lo exatamente em pé de igualdade com a constituição de uma família. Ora, isto é evidentemente absurdo, e o absurdo é tornado claro quando se avança no mesmo caminho e se percebe que se esta argumentação funciona é necessário que se diga o mesmo acerca da pedofilia, zoofilia, necrofilia, etc. Abismo atrai abismo.

Assim, é o mundo que, apelando à carne, tenta nos levar a este tipo de erro. Ele é nosso inimigo.
E neste inimigo a gente já começa a encontrar algum indício da gênese imediata dos ataques ao Papa.

Disse-nos Nosso Senhor: “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a Mim. Se vós fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque vós não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece.” (Jo 15,18–19)
O mundo ataca aquele que Deus escolheu, ataca Seu apóstolo e profeta, porque nele tenta atacar o próprio Cristo.

A Igreja é inimiga do mundo. Ela não é inimiga apenas de um que outro lado em alguma guerrinha intestina idiota que venha a estar acontecendo neste momento: para a Igreja, faz exatamente tanto sentido ser “parte da coalizão da direita” quanto ser parte de sei-lá-qual-claque em Constantinopla do Século VIII. São irrelevâncias passageiras, briguinhas que simplesmente não se registram quando se percebe as questões a partir de um prisma mais longo, e a Igreja as percebe a partir do prisma do Eterno.
Para quem está preso no bestialógico imanente, contudo, aquilo tudo parece importantíssimo. Mutatis mutandis, nós temos a tentação (mundana!) de nos perder nas minúcias de questões que, poucas décadas depois, só serão conhecidas por estudiosos dedicados a um campo limitadíssimo. Só para ficar na política, e na política recentíssima: quem saberia, hoje em dia, debater os erros e acertos éticos e políticos da Campanha da Legalidade de 1961?! Mesmo quem viveu intensamente aqueles momentos há de, no máximo, considerar hoje em dia que era coisa boa ou coisa ruim, sem se ater às minúcias que então alimentaram toda uma fantástica confabulação de razões teóricas e práticas.
Este ou aquele prelado ou clérigo pode até se manifestar sobre esta ou aquela questão, mas a manifestação eclesial nunca há de ser sobre a questão local e temporal, sim sobre a Verdade eterna. E é isso que o mundo não aguenta.

O mundo quer que o Papa seja um fantoche dele, como são fantoches dele todos os atores do teatro político, inclusive e especialmente os líderes das religiões naturais. O mundo não quer o Papa a lembrá-lo da Eternidade que ele quer esquecer. O mundo não tem o menor interesse em ser lembrado da dignidade essencial de cada criatura humana. O que o mundo quer é um Dalai Lama, babando platitudes e servindo de fiel da balança nas briguinhas territoriais e administrativas da montanhosa divisa entre o Império do Meio e o subcontinente indiano. É prático ter um sujeito de que todos gostam, sorridente, falando coisas afáveis, disposto a ser usado como instrumento de pressão contra Pequim pelo Ocidente e contra o Ocidente por Pequim. Tanto Pequim quanto o Ocidente são o mundo, são do mundo. São inimigos da Igreja.
É a um Dalai Lama que o mundo desejaria reduzir Sua Santidade: alguém prático e útil nesta ou naquela questão de interesse imanente. Mas isto não é possível, porque ele é maior que o mundo. Ele é o Vigário de Cristo, e dele disse o Senhor: “O que vos recebe, a Mim recebe; e o que Me recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Mt 10,40).

A voz dele é a voz do Cristo, não uma voz do mundo. Ele é insubsumível: não é possível ao mundo reduzi-lo a componente de alguma categoria, para o bem ou para o mal. Mas é isso o que acontece. No caso específico do Santo Padre Francisco, então, o desespero dos atores do mundo é visível, palpável mesmo. Ele ocorre por uma razão simples: o Papa atual partiu para o ataque. Ele é (justamente) percebido pelo mundo como um perigo. Enquanto São João Paulo II teve, efetivamente, um efeito enorme na geopolítica passageira do século passado ao derrubar a União Soviética usando basicamente a força de sua enorme personalidade, o essencial de sua ação era intra-eclesial. Tal como este texto, era um Papa “ad intra”, para dentro. Sua ação geopolítica foi apenas a cereja do bolo. Ele herdou de Paulo VI um trono esvaziado e sem poder de fato algum, e dedicou seu longo papado a reconquistar o poder que seu antecessor havia jogado no lixo. Criou regras novas para forçar os maus Bispos a sair por idade, recodificou o Direito Canônico, começou a tentar consertar algo da liturgia, criou mecanismos maravilhosos de comunicação direta com os fiéis — da página do Vaticano na internet às viagens apostólicas — e, assim, conseguiu reverter o curso autodestrutivo em que a Igreja parecia ter-se lançado no pontificado anterior. Nos seus últimos anos de vida do colosso de Varsóvia, o trabalho foi encetado por aquele que veio a ser seu sucessor, gloriosamente reinando sob o nome de Bento XVI.
A derrubada da União Soviética, senhoras e senhores, foi algo que São João Paulo II fez nas horas vagas. Um efeito colateral de sua preocupação maior e de seus esforços mais direcionados. Em seu pontificado, é um mero detalhe que empalidece diante da importância de dezenas de feitos que ainda terão seus efeitos sentidos daqui a séculos, quando o comunismo será tratado nas aulas de História como uma forma passageira de loucura coletiva que fez algum estrago no Século XX.

A inevitabilidade de sua percepção como pertencendo a um lado da “Guerra Fria” por aqueles cuja capacidade de percepção não vai além do imanente e do geopolítico imediato, no entanto, fez com que se tornasse possível ao mundo tentar subsumi-lo. Missão inglória e impossível: ele não se encaixaria jamais nas ridículas caixinhas em que se pretendeu colocá-lo como membro de uma espécie de gangue dos três mosqueteiros, junto a Ronald Reagan e Margaret Thatcher! Chega a ser engraçado, na verdade, que se possa ter uma visão tão míope e tão limitada; a mim, esta ideia de um triunvirato anti-soviético de que S. João Paulo II teria feito parte parece mais algum delírio em que, digamos, uma mosquinha que voa numa determinada direção acha que a frente fria que avança com raios e cúmulos-nimbos de quilômetros de altura na mesma direção é sua “aliada”. Ao contrário da frente fria, todavia, que é apenas uma força da natureza, São João Paulo II era um homem santo e educado, e percebia perfeitamente a existência e o valor daqueles que vivem presos na limitadíssima dimensão do imanente. Ele tratou com enorme generosidade Ronald Reagan, mas seria patético colocar a este na dimensão daquele.

Nas pegadas de São João Paulo II, e com o foco ainda mais estreito nas questões internas da Igreja que o haviam ocupado durante os tantos anos em que foi o braço direito de seu antecessor, quis a graça divina que tivéssemos o privilégio de ter como Papa Bento XVI. Não é o tipo de coisa que se possa medir objetivamente, mas provavelmente ele foi o Papa mais erudito da História, e um dos mais sábios teólogos que já viveram. Esta sabedoria, somada à preocupação com o rumo da Igreja na Europa em que ele testemunhou o auge da destruição da Civilização Ocidental, todavia, tiveram um efeito colateral inesperado: seus esforços no sentido de unir a Igreja, restaurar a liturgia (que é o objetivo precípuo da Igreja: o culto a Deus!) e corrigir as heterodoxias doutrinárias ainda espalhadas, mesmo após tantos anos de combate, fizeram com que o mundo o visse como simplesmente irrelevante. As questões que interessaram a Bento XVI são simplesmente invisíveis para o mundo.
O Demônio, contudo, evidentemente não o viu assim.

E entramos agora, finalmente, no terceiro dos inimigos que mencionei no princípio deste texto.
Quem é o Demônio?
O Demônio é uma inteligência pura, um ser espiritual criado e poderosíssimo, que se levanta contra Deus e Seus Santos. O objetivo do demônio é afastar-nos de Deus. Ele não é um deus, nem poderia jamais ser considerado, sequer em sonhos, como “concorrente” de Deus. Não; na melhor (ou pior, dependendo do ponto de vista) das hipóteses, o demônio é como um mosquitinho chato zumbizando ao redor. Comparado a um ser humano sozinho e entregue às próprias forças, o demônio tem muito poder. Comparado à graça que Deus nos dá, o demônio não é nada.
Ao contrário da carne — que somos nós, que é a nossa desordem interna, nossos desejos, instintos e paixões desordenados — e do mundo — que nada mais é que o coletivo do homem — todavia, o Demônio é uma pessoa. Uma inteligência. Não estamos mais falando de simples desordens internas, que nos afetam de maneira mais ou menos previsível, como a direção de um carro que puxe sempre um pouco para o mesmo lado e nos faz criar o hábito da correção. Tampouco falamos, aqui, do resultado previsível da multiplicação exponencial de taras semelhantes, na economia capitalista ou no panorama “amoroso” hipersexualizado da pós-modernidade. Não. Estamos falando de um ser inteligentíssimo, tramando ardis. Estamos falando de quem arma “traições ao seu calcanhar” (da Virgem Maria — Gn 3,15).
São João Paulo II, como eu disse, conseguiu recuperar enorme parcela do poder papal. Bento XVI pegou esta parcela, e começou a orientar a Igreja na reta direção. Numa analogia militar, ele fez com que os soldados voltassem ao básico: à pontaria, à ordem-unida, à obediência. Recuperou o equipamento. Reformulou o oficialato, e deu-lhes práticas e exercícios estratégicos ambiciosos.
Para o Capeta, isso era má notícia. Péssima notícia. O mundo tão sob o controle dele — que é, afinal, o Príncipe deste Mundo! –, e de repente aparecem estes fuzileiros navais botando ordem na casa! A Igreja, por enquanto nesta nossa historinha ainda trancada na caserna, foi ficando mais apavorante para os espiões do Maligno — que os tem muitos dentro da Igreja.

A primeira reação do Pai da Mentira, claro, foi apelar à mentira. Bento XVI viu-se assim alvo de ataques inesgotáveis, pintando-o de nazista(!), racista, preconceituoso, fascista, malvado, cruel, apologista da pedofilia(!) e o que mais conseguissem imaginar as hostes infernais. Se ele lembrava um fato histórico, como no seu célebre discurso de Regensburgo, dava assim provas de preconceito. Se falasse contra o preconceito, dava provas de simpatias nazistas e obscurantismo. E por aí foi. Ninguém conseguia sequer ouvir o Papa fora da Igreja. A impressão que se tinha pela mídia era que a Igreja estava vazia e abandonada, sendo propositadamente desmanchada por um velho nazista louco, empenhado em buscar o mal e o ódio.
Nada, evidentemente, poderia estar mais distante da verdade; mas é assim que funciona a ação do Pai da Mentira.

Ao mesmo tempo, o foco intraeclesial da ação do Papa Bento XVI fez com que fosse relativamente fácil ao mundo subsumi-lo em categorias absurdas e completamente distantes da realidade.

Uma das muitas e irrelevantes batalhas ora em curso é a entre os remanescentes das consequências geopolíticas das grandes narrativas ideológicas que varreram o mundo no século passado. De um lado, munida de uma listinha de imperativos morais categóricos alinhados a Mammon, o que se convencionou chamar a Direita. Sua epítome é a direita norte-americana, a claque cativa do complexo industrial-militar com que a nova Babilônia devasta o mundo e espalha a iniquidade. Fingindo diferença, mas na verdade essencialmente igual em tudo, a não ser num punhado de imperativos morais categóricos diversos (um lado quer a pena de morte para assassinos, a outra para bebês inocentes, mas ambos preferem a morte à vida, por exemplo) cuja única função é simular diferença real, encontramos a “esquerda” americana (ou globalizante, transnacional, na medida em que são as mesmas fundações multinacionais de sempre que a bancam). Na verdade, não há dois lados ali, sim um só. A política externa babiloniana é a mesma sob Bush ou sobre Obama, sendo a alternância entre republicanos e democratas apenas um truque barato para manter o simulacro de representação democrática que a narrativa ideológica demanda para consumo interno.
Do outro lado, buscando antes um poder autocrático e jupiteriano, a nova roupagem dos atores que no passado se diziam a Esquerda, agora abraçados a ícones e arrastando consigo barbudíssimos patriarcas cismáticos enquanto fazem alianças com os mesmos velhos clientes comunistas remanescentes do século passado.
Correndo por fora, o velho inimigo islâmico, agora na forma moderna do salafismo wahabita, perturba sem realmente ameaçar os demais atores, alimentando-se dos restos de ambos e refocilando-se nos escombros da Europa dantes cristã.

Na premente necessidade de subsumir Bento XVI em alguma categoria, então, o que fez o Demônio foi inseri-lo na narrativa da direta americana, como herdeiro putativo do patético manto de auxiliar de Ronald Reagan com que tentaram revestir as fortíssimas costas de São João Paulo II, em que tão pequeno pedaço de pano desapareceria de vista por demasiadamente liliputiano. Ele passou a ser usado — contrariamente a tudo o que ele dizia e ensinava, claro, mas não é como se alguém prestasse atenção no que diz aquele a quem o próprio Senhor deu a missão de confirmar os irmãos na Fé, não é mesmo? — como símbolo de adesão à listinha peculiar de imperativos morais categóricos do partido republicano. Sua imagem foi “adestrada”, domada, reduzida, subsumida.
Esta besteira, infelizmente, conseguiu convencer muita gente boa, mas preguiçosa, que não se deu ao trabalho de ir verificar o que efetivamente ensina o Papa. Qualquer Papa. Todo Papa.

E, assim, a absurda proposição de que a Igreja Católica apoiaria o Capitalismo(?!) passou a ser aceita irrefletidamente, dando ao Demônio o que pareceu ser momentânea vantagem tática. A Igreja nada mais seria que um dos vários fatores de uma narrativa ideológica capitalista, assumindo o papel que antes da sua queda final na irrelevância coube ao anglicanismo.
A ausência forçada de Bento XVI do palco “ad extra”, do teatro geopolítico, de que ele teve que se ausentar para conseguir botar ordem na casa, fez com que a mentira diabólica pudesse espalhar-se nas periferias mentais da Igreja. A preocupação eurocentrada de Bento XVI, mais ainda, levou-o a simplesmente ignorar o fenômeno que acabo de descrever, considerando-o irrelevante por desenrolar-se no seio do que — a não ser por razões políticas — é apenas um distante território de missão, relativamente desimportante para a Igreja como um todo: os Estados Unidos. Americanos falando besteira sobre irrelevantes temas imanentes não poderiam ser levados a sério. Muito mais importante no cuidado pastoral daquele território periférico, para ele, seria por exemplo cuidar do sindicato de freirinhas de lá, completamente dominado por ideólogas alucinadas.
A missão de reforma intraeclesial de Bento XVI, todavia, chegou a um impasse. O essencial foi feito, mas faltava-lhe a capacidade política e o carisma necessário para encarar a parte mais chatinha, ainda que importante: cuidar das primas-donas. A Cúria romana (o governo da Igreja), uma das mais antigas cortes em funcionamento ininterrupto no mundo, tornara-se um emaranhado de feudos a digladiar-se em intrigas e vaidades. Apesar dos hercúleos esforços do Papa, desde antes mesmo de sua eleição, depravados ainda ocupam lugares importantes na administração curial. Uma quinta-coluna a serviço do Inimigo serve na hierarquia, mais fiel a este que grande parcela de seus colegas Àquele a Quem todos deveriam estar servindo.

E, inspirado pelo Santo Espírito, Bento XVI venceu pela humildade a armadilha que o Pai do Orgulho armara à Igreja. Inesperadamente, ele renunciou e convocou um Conclave.

Do Conclave, a maior surpresa do Espírito Santo desde a eleição do Papa polonês. Da periferia das periferias da realidade eurocêntrica da modernidade decadente, mas do centro de onde está hoje a alma da Igreja — a América latina — veio o Papa jesuíta, o Papa Francisco. Seu dístico é uma confissão do medo que sentiu, e que vence a cada segundo pela graça de Deus: “Miserando atque eligendo”, “tendo misericórdia e escolhendo”, expressão usada na liturgia para se referir à escolha de S. Mateus, um pobre publicano, por Nosso Senhor Jesus Cristo. O Cristo viu o publicano e teve pena dele. E, ao mesmo tempo, escolheu-o e deu-lhe pesada e dura responsabilidade, que acabaria por levá-lo ao martírio e, por este, à coroa da Glória.
Vê-se que o Santo Padre encarou como martírio a pesadíssima tiara petrina, mas abraçou corajosamente a graça divina e foi em frente. Queria sumir, queria desaparecer, mas foi em frente.

O mais interessante é que ele jamais fora uma figura carismática. Quando arcebispo de Buenos Aires, ele era conhecido como um burocrata de cara fechada, uma figura séria e conscienciosa, mas absoluta e completamente desprovida de carisma pessoal. Todo esse “charme” dele é pura graça de Deus, uma iluminação necessária ao desempenho do duríssimo papel para o qual Nosso Senhor, tendo pena dele e escolhendo-o, suscitou-o.
E o Papa jesuíta, como todo jesuíta verdadeiro (pois que os há falsos é fato, e ele mesmo comeu o pão que o diabo amassou na mão dos muitos jesuítas latinoamericanos vendidos ao Inimigo, propagadores da “teologia da libertação”), é um missionário. E um missionário muito especial, por ser membro de uma verdadeira tropa de elite da Igreja, a Companhia de Jesus. Como o nome indica, é uma organização militar, uma organização de guerra que leva a batalha ao inimigo, ao invés de ficar meramente se defendendo do cerco. A voz do Mestre, para os jesuítas, é fundamentalmente a que diz “Eis que Eu vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, e simples como as pombas.” (Mt 10,16)
Para entender como é temível um soldado da Companhia de Jesus, podemos recorrer à História. São muitíssimos os santos missionários jesuítas, e aqui mesmo, na América latina, as missões jesuíticas foram uma experiência de sociedade cristã que até hoje nunca foi alcançada no mundo. Prefiro, contudo, pegar apenas um exemplo, um soldado em especial que tem um lugar no meu coração: o Servo de Deus Matteo Ricci (6.X.1552–11.V.1610). Ricci nasceu nos Estados Papais (atual Itália), e dedicou-se à evangelização da China. Chegou lá literalmente com a roupa do corpo após um naufrágio, e reescreveu de memória a Bíblia, o Breviário e o Missal. Aprendeu a língua nativa, compôs dois dicionários chinês-português, e ganhou a vida por muitos anos com um cursinho preparatório para concursos públicos. Estudou a fundo a filosofia de Confúcio, e usou-a de maneira tão sábia como degrau para a evangelização que até hoje seu manual de apresentação do cristianismo a confucianos é empregado na evangelização de toda a região influenciada por aquela filosofia, não só na Igreja, mas também entre protestantes.
Quando começou a trabalhar na China, Ricci vestia-se como um monge budista, porque queria demonstrar ser clérigo. Notando, contudo, que os monges budistas eram percebidos pela população como sodomitas lascivos e corruptos, passou a usar trajes de filósofo acadêmico; seria o equivalente a um sábio chinês que, no Ocidente atual, usasse um blazer de tweed com reforços de couro nos cotovelos.
Prudente como uma serpente, simples como uma pomba: assim é um missionário jesuíta.

E é assim que tem agido, desde o primeiro dia, aliás desde o primeiro minuto, o Santo Padre. Ele foi eleito; retirou-se em oração, pediu a Deus forças, e foi à varanda abençoar seu povo. Ele mesmo demorou a entender a dimensão da responsabilidade que lhe caíra sobre os ombros, e provavelmente nós, brasileiros, temos uma parcela na responsabilidade de tê-lo feito dar-se conta plenamente do peso que o Senhor colocou sobre seus cansados ombros, ao recebê-lo, com os jovens do mundo inteiro, na Jornada Mundial da Juventude que fora preparada para Bento XVI.
Bento XVI deixara-se pautar pela imprensa, dando-lhes um alvo estático, um lobisomem empalhado. O Papa Bento da mídia não era ninguém; era apenas um símbolo de tudo o que há de careta, atrasado e ridículo no mundo. Só abria a boca (ou antes, a imprensa só noticiava um seu pronunciamento) para dizer obviedades sobre “os dogmas centrais da Igreja: aborto, homofobia e proibição da camisinha”. O fato de estas questões tão prementes aos olhos do mundo serem absoluta e completamente laterais em comparação ao cerne salvífico da mensagem cristã desaparecia na artimanha diabólica com que Bento XVI fora tornado inofensivo ao mundo.

Já o Papa Francisco, a cada pronunciamento, desde que subiu ao trono de Pedro, puxa o tapete da imprensa. Ele o faz o tempo todo, mesmo porque ele não tem como se dar ao luxo ou ao desfrute de calar-se; só o que pode fazer é o que faz: pregar incessantemente a Verdade, e garantir que tenhamos todos acesso àquilo que ele disse. Quem não procura e crê na imprensa peca, pois tudo está disponível, sempre, em várias línguas e de graça.
Eles não sabem de onde vêm as coisas que ele diz, não entendem (como já não entendiam as de Bento XVI), relatam tudo errado (como sempre, com qualquer Papa), mas não conseguem, de jeito nenhum, botá-lo numa caixinha. E ele consegue, com isso, atrair a atenção das pessoas para a Igreja e, mais que isso, fazer com que seja extremamente difícil pregar a versão-imprensa da Igreja (que seria basicamente um bando de esquisitões antissexo que vive para proclamar os dogmas centrais da proibição absurda do aborto, da homofobia e da proibição da camisinha enquanto sodomiza menininhos). No meio das notícias sai até, de vez em quando, porque o repórter não se dá conta, parte do anúncio do Evangelho, ora vejam só. Já é muitíssimo mais do que o conseguido por qualquer um dos seus antecessores imediatos.

Ele levou a batalha ao campo do adversário. Reagrupou as tropas junto às Portas do Inferno para atormentar o Maligno. Não se deixou fixar em um ponto do campo de batalha, não se deixou utilizar por ninguém — nem a direita, nem a esquerda, nem ninguém –, surpreendendo sempre quem espera algo diverso da pura e inadulterada mensagem do Cristo.
O Papa Francisco nos apresenta, a cada passo, aquela Verdade essencial da Fé Cristã: A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade é o Caminho, a Verdade e a Vida. A Verdade é uma Pessoa, não uma noção intelectual, não um “ponto de vista”, não um lado de uma guerrinha política. Uma Pessoa: o próprio Cristo, nascido da virgem Maria, que caminhou, suou, comeu, bebeu, e por nós morreu e ressuscitou.
Este Papa nos indica sem cessar o valor da oração verdadeira, da devoção tradicional e popular, da Fé tal como ensinada pela avó ao netinho amado ao pé do fogão. Da Fé, em suma, viva, em fortíssimo contraste com a Fé intelectualizada e fria que ainda remanesce como uma quase-ideologia nos porões da Europa descristianizada. A dele é uma Fé puramente eclesial, uma Fé de cerne, de cepa latino-americana.
E o Demônio se apavora, e tenta de tudo.

Tenho algumas décadas de experiência em labor missionário, e uma regra é básica: quando estamos fazendo algo que é bom, algo que vai conquistar terreno ora em posse do Inimigo, ele contra-ataca. Os ataques dele são perfeitamente previsíveis: imagens (demônios têm o poder de projetar imagens mentais, mas não de dobrar a vontade das pessoas), coincidências desagradáveis (panes, problemas mecânicos e, principalmente, elétricos, etc.), desavenças causadas por problemas de compreensão, aumento da irritabilidade das pessoas estranhas de que depende indiretamente a ação apostólica, etc. São sinais claríssimos, que qualquer um que já tenha se dedicado a perturbar o Demônio conhece.
E são estes os sinais que perseguem o Santo Padre.
Tendo já tido o local de uma série de palestras invadido por enxames de moscas — Belzebu é o Senhor das Moscas –, por exemplo, é-me facílimo perceber de onde vieram as dezenas de cobras que infestaram a Missa campal do Santo Padre no Paraguai, picando 14 fiéis. Pra um sujeitinho porcaria como eu vêm as moscas: para o Santo Padre, a artilharia é bem mais pesada!
Do mesmo modo, as imagens delirantes que o Inimigo planta no mundo, pintando o Santo Padre como ligado a todo tipo de personagem bizarro, distorcendo os seus discursos ou simplesmente inventando absurdos que não deveriam merecer um milionésimo de segundo de atenção (coisas como o Papa ter dito que o Corão e a Bíblia seriam a mesma coisa!, este tipo de absurdo surreal), são marcas claríssimas de ação demoníaca. É imaginativo demais para ser apenas a ação do mundo, e ao mesmo tempo demonstram a falta de verdadeira imaginação que assola os demônios. As mentiras são sempre as mesmas, sempre ensaiadinhas.

E enquanto isso o Papa continua em frente, agindo como missionário, e arrancando vitória após vitória de Satanás, enquanto os escravos que o Demônio fez no mundo latem como cachorrinhos convencidos de que são eles que expulsam da porta os caminhões que passam pela estrada em alta velocidade. Tudo o que ele diz, de maneira ainda mais clara e cristalina que as belíssimas e profundas exegeses beneditinas, aponta o caminho do Cristo, da Igreja. É o Papa mais eclesiocêntrico da História recente, talvez só comparável a S. Pio V. A Igreja do Papa Francisco não é aquele lamentável restinho de intelectuais trancados num porão e cercados de bárbaros ateus do pessimismo beneditino: é a Igreja das senhoras do Apostolado da Oração, marchando de terço na mão contra as Portas do Inferno, que jamais prevalecerão, e já de dentro das ardenas arrancando seus netinhos amados a tempo pra janta. É a Igreja em que o próprio Cristo, a Pessoa que é a Verdade, o Caminho e a Vida, nos impele à ação missionária. A Igreja que cresce, que ataca e conquista território, ao invés de comiserar-se e defender-se ou, como pateticamente queria convencer-nos o Inimigo que seria boa coisa, submeter-se a servir de arma para algum lado de uma guerrinha idiota entre facções do imanentismo.
E o Demônio se apavora.

Eu, pessoalmente, confesso — como já escrevi, no começo deste texto — que tenho enorme dificuldade em entender como “chegam lá” os que saem apregoando absurdos acerca do Papa. É bem verdade que não fico lendo o que a imprensa leiga noticia, por saber que só encontrarei besteiras. Leio, sim, com muito gosto, as transcrições de todos os seus pronunciamentos públicos, que recebo na mala-direta gratuita do V.I.S.. Assino a mala-direta desde o tempo de São João Paulo II, mas só o Papa Francisco conseguiu me conquistar, conseguiu me fazer ir com gosto ler o que antes eu apenas olhava na diagonal em busca de algum tema que me interessasse.
Isso ocorre porque os discursos do Santo Padre atual são discursos missionários, discursos que nos levam a examinar a nossa própria vida, nossa própria alma; não são discursos acerca de um belo ponto da fascinante Verdade que admiramos como quem admirasse uma bela joia ou obra de arte, mas instruções de um Pai amoroso para que consertemos nossa própria alma, nossos próprios interesses. Para que vejamos o Cristo onde Ele realmente está: no Céu, na Igreja, no Altar, no Sacramento, no pobre, no doente, no prisioneiro. E, vendo-O, amemo-l’O.
E vai-se ele à cova dos leões, ao ninho de onde sai toda a guerra e toda mentira, no coração da Besta, no Congresso da Babilônia, lembrar do valor absoluto e infinito da vida humana e do amor de Cristo. E vai ele ainda às portas abertas do Inferno na terra, encontrar o asqueroso ditador cubano, e dá-lhe um livro do padre jesuíta que tentou ensinar-lhe a Verdade quando jovem e foi por isso expulso da ilha-prisão. E vai ele à ONU, e aqui, e ali, e a toda parte, seguindo os passos do grande São João Paulo II, mas desta feita não apenas para arregimentar as tropas da Igreja, sim para lançá-las em batalha.

¡HAGAN LÍO!, bradou o Papa aos jovens na JMJ: levem a confusão às hostes do Maligno!
E é este o brado deste bravo soldado jesuíta, chamando-nos todos, nós seus filhos a ele confiados pelo próprio Cristo, para que comprovemos que, não!, as Portas do Inferno não prevalecerão: vamos derrubá-las, deitá-las por terra, e atormentar em casa o Rei da Mentira.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Viva Santo Inácio!
Ad Maiorem Dei Gloriam!

IHS!

Originalmente publicado aqui.

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10 ideias para comunicar a fé

Quem pretende comunicar a experiência cristã precisa conhecer a fé que deseja transmitir, e também as regras do jogo da comunicação pública…

Opus Dei - 10 ideias para comunicar a fé

A transmissão da fé é uma questão antiga, presente nos dois mil anos de vida da comunidade cristã, que sempre se considerou mensageira de uma notícia que lhe foi revelada e é digna de ser comunicada. É uma questão antiga, mas também é um tema de candente atualidade. Desde Paulo VI, os papas não deixaram de assinalar a necessidade de melhorar a transmissão da fé.

Esta questão relaciona-se frequentemente com a “nova evangelização”. Nesse contexto, João Paulo II afirmou que a transmissão da fé tem de ser nova “no seu ardor, nos seus métodos, na sua expressão”. Aqui referiremos particularmente à novidade nos métodos.

Há fatores externos, que constituem um obstáculo à difusão da mensagem cristã, sobre os quais é difícil influir. Mas compete-nos avançar noutros fatores que estão ao nosso alcance. Nesse sentido, quem pretende comunicar a experiência cristã precisa conhecer a fé que deseja transmitir, e também as regras do jogo da comunicação pública.

Partindo dos documentos magisteriais mais relevantes e, da bibliografia essencial sobre a comunicação, desenvolverei minhas reflexões através de uma série de princípios. Os primeiros referem-se à mensagem que se pretende difundir; os seguintes, à pessoa que comunica; e os últimos, ao modo de transmitir essa mensagem à opinião pública.

Características da mensagem

1. Positiva

Antes de mais, a mensagem deve ser positiva. O público recebe vários tipos de informações, e toma a devida nota dos protestos e críticas. Mas colabora, sobretudo em projetos, propostas e causas positivas.

João Paulo II afirma na encíclica “Familiaris consortio” que a moral é um caminho para a felicidade e não uma série de proibições. Esta ideia foi repetida diversas vezes por Bento XVI, de diferentes maneiras: Deus dá-nos tudo e não nos tira nada; os ensinamentos da Igreja não são um código de limitações, mas uma luz que se recebe em liberdade.

A mensagem cristã tem de ser transmitida como realmente é: um sim imenso ao homem, à mulher, à vida, à liberdade, à paz, ao desenvolvimento, à solidariedade, às virtudes… Para transmiti-la adequadamente aos outros, em primeiro lugar, deve ser entendida e experimentada desse modo positivo.

Neste contexto adquirem particular valor umas palavras do Cardeal Ratzinger: “A força com que a verdade se impõe tem de ser a alegria, que é a sua expressão mais clara. Os cristãos deveriam apostar nela e nela dar-se a conhecer ao mundo”. A comunicação através da irradiação da alegria é a mais positiva das exposições.

2. Relevante

Em segundo lugar, a mensagem deve ser relevante, significativa para quem escuta, não somente para quem fala. São Tomás de Aquino afirma que há dois tipos de comunicação: a locutio, um fluir de palavras que não interessam absolutamente nada aos que escutam; e a illuminatio, que consiste em dizer algo que ilustra a mente e o coração dos interlocutores sobre algum aspecto que realmente os afeta.

Transmitir a fé não é discutir para vencer, mas dialogar para convencer. O desejo de persuadir sem derrotar marca profundamente a atitude de quem comunica. A escuta converte-se em algo fundamental: permite saber o que interessa, o que preocupa o interlocutor. Conhecer as suas perguntas antes de propor as respostas. O contrário de relevância é auto-referência: limitar-se a falar de si próprio não é uma boa base para o diálogo.

3. Clara

Em terceiro lugar, a mensagem deve ser clara. A comunicação não é principalmente aquilo que o emissor explica, mas o que o destinatário entende. Acontece em todos os campos do saber (ciência, tecnologia, economia): para comunicar é preciso evitar a complexidade argumentativa e a obscuridade da linguagem. Em matéria de religião também convém procurar argumentos claros e palavras simples. Neste sentido, seria necessário reivindicar o valor da retórica, da literatura, das metáforas, do cinema, da publicidade, das imagens, dos símbolos, para difundir a mensagem cristã.

Às vezes, quando a comunicação não funciona, transfere-se a responsabilidade para o receptor: considera-se que os outros são incapazes de entender. Porém, a norma deve ser o oposto: esforçar-se por ser cada vez mais claro, até conseguir o objetivo que se pretende.

Qualidades da pessoa que comunica

1. Credibilidade

Para que um destinatário aceite uma mensagem, a pessoa ou organização que a propõe deve merecer credibilidade. Assim como a credibilidade se fundamenta na veracidade e na integridade moral, a mentira e a suspeita anulam o processo de comunicação na sua base. A perda de credibilidade é uma das consequências mais sérias de algumas crises que se produziram nestes anos.

2. Empatia

O segundo princípio é a empatia. A comunicação é uma relação que se estabelece entre pessoas, não um mecanismo anônimo de difusão de ideias. O Evangelho dirige-se a pessoas: políticos e eleitores, jornalistas e leitores. Pessoas com os seus próprios pontos de vista, os seus sentimentos e as suas emoções. Quando se fala de modo frio, a distância que separa do interlocutor aumenta. Uma escritora africana afirmou que a maturidade de uma pessoa está na sua capacidade de descobrir que pode “ferir” os outros e agir em conformidade. A nossa sociedade está superpovoada de corações feridos e de inteligências perplexas. É necessário aproximar-se com delicadeza da dor física e da dor moral. A empatia não implica renunciar às próprias convicções, mas pôr-se no lugar do outro. Na sociedade atual, convencem as respostas que sejam cheias de sentido e de humanidade.

3. Cortesia

O terceiro princípio relativo à pessoa que comunica é a cortesia. A experiência mostra que nos debates públicos proliferam os insultos pessoais e as desqualificações mútuas. Nesse contexto, se não se dá importância aos modos, corre-se o risco de que a proposta cristã seja vista como mais uma das posturas radicais que está no ambiente. Mesmo correndo o risco de parecer ingênuo, penso que convém afastar-se desta visão. A clareza não é incompatível com a delicadeza.

Com delicadeza pode-se dialogar; sem delicadeza, o fracasso está garantido previamente: quem era partidário antes da discussão, continuará a sê-lo depois, e quem era contrário raramente mudará de posição.

Recordo um cartaz situado à entrada de um “pub” perto do Castelo de Windsor, no Reino Unido. Dizia, mais ou menos: “Neste local são bem-vindos os cavalheiros. E um cavalheiro é-o antes de beber cerveja e também depois”. Poderíamos acrescentar: um cavalheiro é-o quando lhe dão razão e quando sucede exatamente o contrário.

Princípios quanto ao modo de comunicar

1. Profissionalismo

A “Gaudium et Spes” recorda que cada atividade humana tem a sua própria natureza, que é preciso descobrir, utilizar e respeitar, se se pretende participar nela. Cada campo do saber tem a sua metodologia; cada atividade, as suas normas; e cada profissão, a sua lógica. A evangelização não se produzirá de fora das realidades humanas, mas a partir de dentro: os políticos, os empresários, os jornalistas, os professores, os roteiristas, os sindicalistas, são aqueles que podem introduzir melhorias práticas nos seus respectivos campos de trabalho.

São Josemaria recordava que é cada profissional, comprometido com as suas crenças e com a sua profissão, que deve encontrar as propostas e soluções adequadas. Se se trata de um debate parlamentar, com argumentos políticos; se de um debate médico, com argumentos científicos; e assim sucessivamente. Este princípio aplica-se às atividades de comunicação, que estão conhecendo um desenvolvimento extraordinário nos últimos anos, tanto pela crescente qualidade das formas narrativas, quanto pelas audiências cada vez mais amplas e pela participação cívica, cada dia mais ativa.

2. Transversalidade

O segundo princípio poderia denominar-se transversalidade. O profissionalismo é imprescindível quando as convicções religiosas pesam num debate. A transversalidade, quando pesam as convicções políticas.

Neste ponto, vale a pena mencionar a situação da Itália. Ao fazer a declaração de rendimentos, mais de 80% dos italianos assinala o espaço correspondente à Igreja, porque deseja apoiar economicamente as suas atividades. Isto significa que a Igreja merece a confiança de uma grande maioria de cidadãos, não somente dos que têm uma tendência política.

Nesse país, e muitos outros, os católicos não enfocam a sua ação pública colocando a sua esperança num partido. Sabem por experiência que o que importa não é que um partido político incorpore no seu programa a doutrina social cristã, mas que esses valores se tornem presentes em todas os partidos, de modo transversal.

3. Gradação

O terceiro princípio relativo ao modo de comunicar é a gradação. As tendências sociais têm uma vida complexa: nascem, crescem, desenvolvem-se, modificam-se e morrem. Consequentemente, a comunicação de ideias tem muito a ver com a “cultura”: semear, regar, podar, limpar, esperar, antes de colher.

O fenômeno da secularização foi-se consolidando nos últimos séculos. Processos de tão longa gestação não se resolvem em anos, meses ou semanas. O cardeal Ratzinger explicava que a nossa visão do mundo costuma seguir um paradigma “masculino”, onde o importante é a ação, a eficácia, a programação e a rapidez. E concluía que convém dar mais espaço a um paradigma “feminino”, porque a mulher sabe que tudo o que tem a ver com a vida requer espera, exige paciência.

O contrário deste princípio é a pressa, que leva à impaciência e muitas vezes também ao desânimo, porque é impossível conseguir objetivos de entidade a curto prazo.

4. Caridade

A estes nove princípios seria necessário acrescentar outro, que afeta todos os aspectos mencionados: a mensagem, a pessoa que comunica e o modo de comunicar. O princípio da caridade.

Alguns autores destacaram que, nos primeiros séculos, a Igreja se expandiu de forma muito rápida porque era uma comunidade acolhedora, onde era possível viver uma experiência de amor e liberdade. Os católicos tratavam o próximo com caridade, cuidavam das crianças, dos pobres, dos idosos, dos enfermos. Tudo isso se converteu num ímã de atração irresistível.

A caridade é o conteúdo, o método e o estilo da comunicação da fé; a caridade converte a mensagem cristã em algo positivo, relevante e atrativo; proporciona credibilidade, empatia e amabilidade às pessoas que comunicam; e é a força que permite atuar de forma paciente, integradora e aberta. Porque o mundo em que vivemos é também com frequência demais um mundo duro e frio, onde muitas pessoas se sentem excluídas e maltratadas e esperam algo de luz e de calor. Neste mundo, o grande argumento dos católicos é a caridade. Graças à caridade, a evangelização é sempre, e verdadeiramente, nova.

Juan Manuel Mora

Originalmente publicado aqui.

Perspectiva de gênero: seu perigo e alcance (por Jutta Burggraf)

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“O gênero é uma construção cultural; por isso não é nem resultado causal do sexo, nem tão aparentemente fixo como o sexo. Ao teorizar que o gênero é uma construção radicalmente independente do sexo, o próprio gênero chega a ser um artifício livre de ataduras; em consequência, homem e masculino poderiam significar tanto um corpo feminino como um masculino; mulher e feminino tanto um corpo masculino como um feminino.” (1).

Estas palavras, que poderiam parecer saídas de um livro de ficção científica que vaticina uma séria perda do senso comum no ser humano, não são outra coisa senão um extrato do livro “Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity” (“O Problema do Gênero: o Feminismo e a Subversão da Identidade”) da feminista radical Judith Butler, que vem servido há vários anos como livro de texto em diversos programas de estudos femininos em universidades norte americanas de prestígio, onde a perspectiva de gênero vem sendo amplamente promovida.

Enquanto  muitas pessoas poderiam continuar considerando o termo ‘gênero’ como simplesmente uma forma cortês de dizer ‘sexo’ para evitar o sentido secundário que ‘sexo’ tem em inglês. E que, portanto, ‘gênero’ se refira a seres humanos masculinos e femininos, existem outros que há muitos anos decidiram difundir toda uma “nova perspectiva” do termo. Esta perspectiva, para surpresa de muitos, refere-se ao termo gênero como “papéis socialmente construídos”.

A IV Conferencia Mundial das Nações Unidas sobre a Mulher, realizada em setembro de 1995 em Pequim (1.2), foi o cenário escolhido pelos promotores da nova perspectiva para lançar uma forte campanha de persuasão e difusão. É por isso que desde esse momento a “perspectiva de gênero” vem se filtrando em diferentes âmbitos não apenas nos países industrializados, como também nos países em vias de desenvolvimento.

Definição do termo gênero

Precisamente na cúpula de Pequim, muitos delegados participantes que ignoravam esta “nova perspectiva” do termo em questão, solicitaram a seus principais promotores uma definição clara que pudesse esclarecer o debate. Deste modo a cúpula da conferência da ONU emitiu a seguinte definição:

“O gênero se refere às relações entre mulheres e homens baseadas em papéis definidos socialmente que se refiram a um ou outro sexo”.

Esta definição criou confusão entre os delegados da Conferência, muitos dos quais solicitaram uma descrição mais explícita do termo, pressentindo que pudesse estar mascarando a promoção de certas ideias sobre as orientações e identidades homossexuais, entre outras coisas. Nessa altura, Bella Abzug, ex-congressista dos Estados Unidos, interveio para completar a nova interpretação do termo
“gênero”:

“O sentido do termo ‘gênero’ evoluiu, diferenciando-se da palavra ‘sexo’ para expressar a realidade de que a situação e os papéis da mulher e do homem são construções sociais sujeitas a mudança”.

topicFicava claro, portanto, que os partidários da perspectiva de gênero propunham algo tão temerário como, por exemplo, que “não existe um homem natural ou uma mulher natural, que não há um conjunto de características ou uma conduta exclusiva de um só sexo, nem sequer na a vida psíquica” (2). Deste modo, “a inexistência de uma essência feminina ou masculina nos permite rejeitar a suposta ‘superioridade’ de um ou outro sexo, e questionar que haja uma forma ‘natural’ de sexualidade humana” (3).

Perante tal situação, muitos delegados questionaram o termo assim como sua inclusão no documento. No entanto, a ex-deputada Abzug argumentou acirradamente em seu favor:

“O conceito de ‘gênero’ está encravado no discurso social, político e legal contemporâneo. Foi integrado à planificação conceitual, à linguagem, aos documentos e programas dos sistemas das Nações Unidas. As atuais tentativas de vários Estados Membro de apagar o termo ‘gênero’ da Plataforma de Ação e substitui-lo por ‘sexo’ é uma tentativa insultante e degradante de revogar as conquistas das mulheres, de intimidar-nos e de bloquear o progresso futuro”.

A obsessão de Bella Abzug por incluir o termo em Pequim chamou a atenção de muitos delegados. No entanto o assombro e desconcerto foram maiores assim que um dos participantes difundiu alguns textos empregados pelas feministas de gênero, professoras de reconhecidos Colleges e Universidades dos Estados Unidos. De acordo com a lista de leituras obtida pelo delegado, as “feministas de gênero” defendem e difundem as seguintes definições:

  • “Hegemonia ou hegemônico”: Ideias ou conceitos aceitos universalmente como naturais, mas que na realidade são construções sociais.
  • “Desconstrução”: a tarefa de denunciar as ideias e a linguagem hegemônicas (isto é, aceitas universalmente como naturais), com o objetivo de convencer as pessoas de que suas percepções da realidade são construções sociais.
  • “Patriarcado”, “Patriarcal”: Institucionalização do controle masculino sobre a mulher, os filhos e a sociedade, que perpetua a posição de subordinada da mulher.
  • “Perversidade polimorfa”, “sexualmente polimorfo”: Os homens e as mulheres não sentem atração por pessoas do sexo oposto por natureza, mas sim por um condicionamento da sociedade. Deste modo, o desejo sexual pode dirigir-se a qualquer um dos sexos.
  • “Heterossexualidade obrigatória”: as pessoas são forçadas a pensar que o mundo está dividido em dois sexos que se atraem sexualmente um ao outro.
  • “Preferência ou orientação sexual”: Existem diversas formas de sexualidade, que incluem homossexuais, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis – como equivalentes à heterossexualidade.
  • “Homofobia”: Temor a relações com pessoas do mesmo sexo; pessoas com preconceitos contra os homossexuais. O termo se baseia na noção de que o preconceito contra os homossexuais tem suas raízes na exaltação das tendências homossexuais.

Estas definições foram tomadas do material obrigatório do curso “Re-Imagem do Gênero” ministrado num prestigiosa faculdade norte-americana. Do mesmo modo, as afirmações seguintes correspondem à bibliografia obrigatória do citado curso:

“A teoria feminista já não pode permitir-se o luxo de simplesmente proclamar uma tolerância do ‘lesbianismo’ como ‘estilo alternativo de vida’ ou fazer alusão e mostrar as lésbicas. Atrasou-se demais uma crítica feminista da orientação heterossexual obrigatória da mulher” (4).

“Uma estratégia apropriada e viável do direito ao aborto é a de informar toda mulher de que a penetração heterossexual é uma violação, seja qual for sua experiência subjetiva contrária”. (5)

As afirmações citadas poderiam parecer suficientemente reveladoras sobre a perigosa agenda dos promotores desta “perspectiva”. Há, no entanto outros postulados que as “feministas de gênero” propagam cada vez com mais força:

“Cada criança atribui a si mesma uma ou outra categoria baseada na forma e tamanho de seus órgãos genitais. Uma vez feita essa atribuição, nós nos transformamos no que a cultura pensa que cada um é – feminina ou masculino-. Embora muitos acreditem que o homem e a mulher são a expressão natural de um plano genético, o gênero é produto da cultura e o pensamento humano, uma construção social que cria a ‘verdadeira natureza’ de todo indivíduo”. (6)

Deste modo, para as “feministas de gênero”, o conceito “implica pertencer a uma classe, e a classe pressupõe uma desigualdade. A luta por desconstruir o gênero levará muito mais rapidamente à meta”. (7)

O feminismo de gênero

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Mas em que consiste o “feminismo de gênero” e qual é a diferença com o comumente conhecido feminismo? Para entender mais em profundidade o debate em torno do “termo gênero”, vale a pena responder a esta pregunta.

O termo “feministas de gênero” foi cunhado pela primeira vez por Christina Hoff Sommers em seu livro “Who Stole Feminism?” (“Quem roubou o Feminismo?”), com o objetivo de diferenciar o feminismo de ideologia radical surgido no final dos anos 60, do anterior movimento feminista de igualdade. Eis aqui as suas palavras:

“O feminismo de ‘equidade’ é simplesmente a crença na igualdade legal e moral dos sexos. Uma feminista de equidade quer para a mulher o que quer para todos: tratamento justo, ausência de discriminação. Pelo contrário, o feminismo de ‘gênero’ é uma ideologia que pretende abarcar tudo, segundo a qual a mulher está presa num sistema patriarcal opressivo. A feminista de equidade acredita que as coisas melhoraram muito para a mulher; a feminista de ‘gênero’ em geral pensa que pioraram. Com frequência vê sinais de patriarcado e pensa que a situação tende a piorar. O que carece de base na realidade. A situação nunca esteve melhor para a mulher, que hoje compõe 55% dos estudantes universitários, enquanto a diferença salarial continua diminuindo”. (8)

Aparentemente esse “feminismo de gênero” teve forte presença na Cúpula de Pequim. É o que afirma Dale O’Leary, autora de numerosos ensaios sobre a mulher e participante na Conferência de Pequim, garantindo que durante todas as jornadas de trabalho, as mulheres que se identificaram como feministas defendiam persistentemente a inclusão da “perspectiva de gênero” no texto, definindo “gênero” como ‘papéis socialmente construídos’ utilizando essa palavra em lugar de ‘mulher’ ou de masculino e feminino. De fato, todas as pessoas familiarizadas com os objetivos do “feminismo de gênero”, reconheceram imediatamente a conexão entre a mencionada ideologia e o anteprojeto do “Programa Espanhol de Ação” de 27 de fevereiro que incluía propostas aparentemente inocentes e termos particularmente ambíguos (8.1).

Neo Marxismo

Com palavras de Dale O’Leary, a teoria do “feminismo de gênero” se baseia numa interpretação neomarxista da história. Começa com a afirmação de Marx de que toda a história é uma luta de classes, de opressor contra oprimido, numa batalha que se resolverá só quando os oprimidos se conscientizem de sua situação, unam-se em revolução e imponham uma ditadura dos oprimidos. A sociedade será totalmente reconstruída e emergirá a sociedade sem classes, livre de conflitos, que garantirá a paz e prosperidade utópicas para todos.

O’Leary diz ainda que foi Frederick Engels quem assentou as bases da união entre o marxismo e o feminismo. Para comprovar, cita o livro “Origem da Família, Propriedade e Estado”, escrito pelo pensador alemão em 1884 onde afirma:

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“O primeiro antagonismo de classes da história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher unidos em matrimônio monogâmico, e a primeira opressão de uma classe por outra, com a do sexo feminino pelo masculino”. (9)

Segundo O’Leary, os marxistas clássicos acreditavam que o sistema de classes desapareceria uma vez que se eliminasse a propriedade privada, se facilitasse o divórcio, se aceitasse a ilegitimidade, se forçasse a entrada da mulher no mercado de trabalho laboral, se colocasse as crianças em instituições de cuidado diário e se eliminasse a religião. No entanto, para as “feministas de gênero”, os marxistas fracassaram por concentrar-se em soluções econômicas sem atacar diretamente a família, que era a verdadeira causa das classes.

Nesse sentido, a feminista Shulamith Firestone afirma a necessidade de destruir a diferença de classes, mais ainda, a diferença de sexos:

“Assegurar a eliminação das classes sexuais requer que a classe subjugada (as mulheres) una-se em revolução e se aposse do controle da reprodução; se restitua à mulher a propriedade sobre sus próprios corpos, como também o controle feminino da fertilidade humana, incluindo tanto as novas tecnologias como todas as instituições sociais de nascimento e cuidado de crianças. Assim como a meta final da revolução socialista era não apenas acabar com o privilégio da classe econômica, mas também com a própria distinção entre classes econômicas, a meta definitiva da revolução feminista deve ser igualmente – ao contrário do primeiro movimento feminista – não apenas acabar com o privilégio masculino, mas também com a própria diferença de sexos: as diferenças genitais entre os seres humanos já não importariam culturalmente”. (10)

Quando a natureza atrapalha

Está claro, então, que nesta nova “perspectiva de gênero”, a realidade da natureza incomoda, atrapalha e, portanto, deve desaparecer. A este respeito, a própria Shulamith Firestone disse:

O ‘natural’ não é necessariamente um valor ‘humano’ . A humanidade começou a superar a natureza; já não podemos mais justificar a continuação de um sistema discriminatório de classes por sexos em razão das suas origens na natureza. Com efeito, pela simples razão de pragmatismo começa a parecer que devemos nos livrar dele “. (11)

adão e eva2Para os defensores apaixonados da “nova perspectiva”, não se devem fazer distinções porque qualquer diferença é suspeita, má, ofensiva. Eles dizem ainda que toda diferença entre o homem e a mulher é construção social e, portanto, tem que ser mudada. Procuram estabelecer a plena igualdade entre homens e mulheres, independentemente das diferenças naturais entre os dois, especialmente diferenças sexuais; ainda mais, relativizam a noção de sexo de modo que, segundo eles, não haveria dois sexos, mas sim muitas “orientações sexuais”.

Assim, os mencionados promotores do “gênero” não viram melhor opção que declarar guerra à natureza e às opções da mulher. De acordo com O’Leary, as “feministas de gênero” frequentemente denigrem o respeito pela mulher com a mesma veemência com que atacam a falta de respeito, porque para elas o “inimigo” é a diferença.

No entanto, é evidente que nem toda diferença é má nem muito menos irreal. Tanto o homem como a mulher têm suas próprias particularidades naturais que devem ser postas ao serviço do outro, para se chegar a um enriquecimento mútuo. Claro que isto não significa que os recursos pessoais da feminilidade sejam menores que os da  masculinidade; significa simplesmente que são diferentes. Neste sentido, se aceitamos o fato de que homem e mulher são diferentes, uma diferença estatística entre homens e mulheres que participem em uma atividade concreta poderia ser mais que uma demonstração de discriminação, o simples reflexo dessas diferenças naturais entre homem e mulher.

Apesar disso, perante a evidência de que estas diferenças são naturais, os propagandistas da “nova perspectiva” não questionam suas colocações, antes atacam o conceito de natureza.

Além disso, consideram que as diferenças de “gênero”, que segundo eles existem por construção social, forçam a mulher a ser dependente do homem e, portanto, a liberdade para as mulheres consistirá, não em atuar sem restrições injustas, mas em libertar-se de “papéis de gênero socialmente construídos.” Nesse sentido, Ann Ferguson e Nancy Folbre afirmam:

“As feministas devem encontrar formas de apoio para que a mulher identifique seus interesses com a mulher, mais do que com os seus deveres pessoais para com o homem no contexto da família. Isso requer o estabelecimento de uma cultura feminista revolucionária, auto definida da mulher, que possa sustentá-la, ideológica e materialmente “fora do patriarcado.” As redes de suporte contra-hegemônicas cultural e material podem fornecer substitutos mulher-identificados da produção sexo-afetiva patriarcal que proporcionem às mulheres maior controle sobre seus corpos, seu tempo de trabalho e seu senso de si mesmas “. (12)

Para esta finalidade, Ferguson e Folbre projetaram quatro áreas-chave de “ataque”:

  1. Solicitar apoio financeiro oficial para cuidar das crianças e dos direitos reprodutivos.
  2. Exigir a liberdade sexual, incluindo o direito de preferência sexual (direitos dos homossexuais).
  3. O controle feminista da produção ideológica e cultural. É importante porque a produção cultural afeta faz finalidades pessoais, o sentido de si mesma, as redes sociais e a produção de redes de criação e afeto, amizade e parentesco social.
  4. Estabelecer ajuda mútua: sistemas de apoio econômico para a mulher, a partir de redes de identificação única com a mulher, até juntas de mulheres nos sindicatos que lutem pelos interesses femininos no trabalho assalariado. (13)
Uma boa desculpa: A mulher

200px-Womanpower_logo Depois de rever a peculiar “agenda feminista”, Dale O’Leary evidencia que a finalidade de cada ponto da mesma não é melhorar a situação da mulher, mas separar a mulher do homem e destruir a identificação de seus interesses com os de suas famílias. Além disso, acrescenta a especialista, o interesse primordial do feminismo radical nunca foi diretamente melhorar a situação das mulheres nem aumentar a sua liberdade. Pelo contrário, para as feministas radicais ativas, pequenas melhorias podem dificultar a revolução de classe sexo/gênero.

Esta afirmação é confirmada pela feminista Heidi Hartmann que radicalmente afirma:

“A questão da mulher nunca foi a ‘questão feminista’. Esta se dirige às causas da desigualdade sexual entre homens e mulheres, da dominação masculina sobre as mulheres.” (14)

Não surpreendentemente, durante a Conferência de Pequim, a delegada canadense Valerie Raymond expressou seu compromisso em que a cúpula da mulher fosse abordada paradoxalmente “não como uma ‘conferência da mulher’, mas uma conferência na qual todos os temas fossem enfocados sob uma ‘ótica de gênero ‘.”

É o que diz O’Leary, a “nova perspectiva” visa impulsionar a agenda homossexual/lesbiana/bissexual/transexual, e não os interesses das mulheres comuns e correntes.

Papéis socialmente construídos

Para tratar este ponto, tomemos a definição de “gênero” registrada em um folheto que as partidárias desta opinião distribuíram na Reunião do PrepCom (Comitê Preparatório de Pequim).

Gênero se refere aos papéis e responsabilidades da mulher e do homens que são determinados socialmente. O gênero está relacionado à forma como somos vistos e se espera que pensemos e atuemos como mulheres e homens pela forma como a sociedade está organizada, não por nossas diferenças biológicas.

Vale explicitar que o termo “papel” distorce a discussão. Na sequência do estudo O’Leary, o “papel” é definido principalmente como: parte de uma produção teatral em que uma pessoa especialmente vestida e maquiada, desempenha um papel de acordo com um roteiro escrito. O uso do termo “papel” ou da frase: ‘papeis desempenhados’ transmite necessariamente a sensação de algo artificial que se impõe à pessoa.

Quando “papel” é substituído por outro termo – como vocação – , torna-se claro como o termo “papel” afeta nossa percepção de identidade. Vocação envolve algo autêntico, não artificial, uma chamada para ser o que somos. Nós respondemos ao nosso chamado para realizar a nossa natureza ou desenvolver nossos talentos e habilidades inatos. Nesse sentido, por exemplo, O’Leary destaca a vocação feminina para a maternidade, pois a maternidade não é um ‘papel’. Quando uma mãe concebe uma criança, esta começou um relacionamento de vida com outro ser humano. Esta relação define a mulher, atribui a ela certas responsabilidades e afeta quase todos os aspectos de sua vida. Ela não está representando o papel de mãe; ela é uma mãe. Cultura e tradição certamente influenciam a maneira pela qual as mulheres cumprem as responsabilidades da maternidade, mas não criam mães, esclarece O’Leary.

No entanto, os promotores da “perspectiva de gênero” insistem que qualquer relação ou atividade dos seres humanos é o resultado de uma “construção social” que dá ao homem uma posição superior na sociedade e à mulher uma inferior. Neste ponto de vista, a promoção da mulher exige que se liberte toda a sociedade desta “construção social”, de modo que o homem e a mulher sejam iguais.

Para isso, as “feministas de gênero” apontam para a necessidade urgente de “desconstruir estes papéis socialmente construídos”, que, segundo eles, podem ser divididos em três categorias principais:

  1. Masculinidade e Feminilidade. Consideram que os homens e mulheres adultos são construções sociais; que na verdade o ser humano nasce sexualmente neutro e, em seguida, é socializado em homem ou mulher. Essa socialização, dizem eles, afeta negativamente e de forma injusta as mulheres. Por isso, as feministas propõem depurar a educação e os meios de comunicação de todo estereótipo ou imagem específica de gênero, para que as crianças possam crescer sem serem expostas a trabalhos “ sexo–específicos”.
  2. As relações de família: pai, mãe, marido e mulher. As feministas não só pretendem que se substituam estes termos “gêneros-específicos” por palavras “gênero neutro”, mas ainda aspiram que não haja diferenças no comportamento ou responsabilidade entre homem e a mulher na família. Segundo Dale O’Lary, esta é a categoria de “papéis socialmente construídos” a que as feministas atribuem maior importância, porque elas acreditam que a experiência das relações “sexo-específicas” na família são a principal causa do sistema de classes “sexo / gênero”.
  3. Ocupações ou profissões. O terceiro tipo de “papéis socialmente construídos” inclui as ocupações que uma sociedade atribui a um ou outro sexo.

Embora as três categorias de “construção social” já poderiam ser suficientes, o repertório das “feministas do gênero” inclui mais uma: a reprodução humana, dizem elas, também é determinada socialmente. A este respeito, Heidi Hartmann diz:

“A maneira como se propaga a espécie é determinada socialmente. Se as pessoas são biologicamente sexualmente polimorfas e a sociedade estivesse organizada de forma a permitir igualmente todas as formas de expressão sexual, a reprodução seria resultado só de alguns encontros sexuais: os heterossexuais. A estrita divisão de trabalho por sexos, uma invenção social comum a toda a sociedade conhecida, cria dois gêneros muito separados e a necessidade de que o homem e a mulher se unam por razões econômicas. Contribui assim a direcionar suas exigências sexuais em direção à conduta heterossexual garantindo assim a reprodução biológica. Em sociedades mais imaginativas a reprodução biológica poderia ser assegurada com outras técnicas. (15)

O objetivo: desconstruir a sociedade

Fica claro, portanto, que o objetivo dos promotores da “perspectiva de gênero”, fortemente presente em Pequim, é chegar a uma sociedade sem classes de sexo. Para fazer isso, eles propõem desconstruir a linguagem, as relações familiares, a reprodução, a sexualidade, a educação, a  religião, a cultura, entre outras coisas. A este respeito, o material de trabalho do curso Re-Imagem do  Gênero, tem a seguinte redação:

revolucion_libertaria2“O gênero implica classe, e a classe pressupõe desigualdade. Lutar para desconstruir o gênero levará muito mais rapidamente para a meta. Bem, é uma cultura patriarcal e o gênero parece ser básico para o patriarcado. Afinal, os homens não gozariam do privilégio masculino se não houvesse homens. E as mulheres não seriam oprimidas, se não existisse uma coisa como ‘a mulher’. Acabar com o gênero é acabar com o patriarcado, como também com as muitas injustiças perpetradas em nome da desigualdade entre os gêneros”. (16)

Nesse sentido, Susan Moller Okin escreve um artigo no qual se lança a prognosticar o que para ela seria o “sonhado futuro sem gêneros”.

“Não haveria suposições sobre papéis masculinos e femininos; dar à luz seria conceitualmente tão distante da criação dos filhos, que seria motivo de surpresa que homens e mulheres não fossem igualmente responsáveis por áreas domésticas, ou que as crianças passassem mais tempo com um dos pais do que com outro. Seria um futuro em que homens e mulheres participariam em número aproximadamente igual em todas as esferas da vida, desde o cuidado das crianças até o cargo político de mais alto nível, incluindo os mais variados tipos de trabalho assalariado. Se quisermos salvar a menor lealdade para com nossos ideais democráticos, é essencial distanciar-nos do gênero. Parece inegável que a dissolução dos papéis de gênero contribuirá para promover a justiça em toda a nossa sociedade, fazer da família um lugar muito mais apto para que as crianças desenvolvam um senso de justiça”. (17)

 Para este fim, elas também propõem a “desconstrução da educação”, tal como se lê no discurso da Presidente da Islândia, Vigdis Finnbogadóttir, em uma conferência preparatória para a Conferência de Pequim, organizado pelo Conselho Europeu em Fevereiro de 1995. Para ela, assim como para todos os outros defensores da “perspectiva de gênero”, urge desconstruir não só a família, mas também a educação. As meninas devem ser orientadas para áreas não tradicionais, sem expô-las a imagem da mulher como esposa ou mãe, ou envolvê-las em atividades femininas tradicionais.

“A educação é uma estratégia importante para mudar os preconceitos sobre os papéis de homens e mulheres na sociedade. A perspectiva do ‘gênero’ deve ser integrada nos programas. Devem ser removidos os estereótipos em livros didáticos e sensibilizar os professores nesta matéria, a fim de assegurar que as crianças façam uma escolha profissional informada, e não com base em tradições cheias de preconceitos sobre ‘gênero’ (18).

Primeiro alvo: a família

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“O fim da família biológica também irá eliminar a necessidade de repressão sexual. A homossexualidade masculina, lesbianismo e sexo extraconjugal já não se verão mais na forma liberal como opções alternativas fora do âmbito da regulação estatal. Em vez disso, até as categorias de homossexualidade e heterossexualidade serão abandonadas: a própria ‘instituição das relações sexuais’ em que homens e mulheres desempenham um papel bem definido desaparecerá. A humanidade poderia finalmente voltar à sua sexualidade polimorficamente natural”. (19)

Estas palavras de Alison Jagger, autora de vários livros usados em programas de estudos sobre a mulher em universidades norte-americanas mostram claramente a hostilidade das “feministas de gênero” com relação a família.

“A igualdade feminista radical significa não apenas a igualdade perante a lei e nem mesmo igual satisfação das necessidades básicas, mas sim que as mulheres como os homens não tenham que dar à luz. A destruição da família biológica que Freud nunca imaginou, permitirá o surgimento de novos homens e mulheres, diferentes de todos que  que já existiram “. (20)

Aparentemente, a principal razão para a rejeição feminista da família é que, para elas, esta instituição básica da sociedade “cria e apoia o sistema de classes sexo/gênero”. Assim explica Christine Riddiough, colaborador da revista publicada pela instituição internacional anti-vida “Catholics for a Free Choice” (“Católicas pelo Direito de Decidir”):

“A família nos dá as primeiras lições de ideologia de classe dominante e também fornece legitimidade às outras instituições da sociedade civil. Nossas famílias são as  que nos ensinam primeiro a religião, a ser bons cidadãos. Tão completa é a hegemonia da classe dominante na família, que somos ensinados que esta encarna a ordem natural das coisas. Baseia-se nomeadamente, em uma relação entre o homem e a mulher que reprime a sexualidade, especialmente a sexualidade feminina”. (21)

Para aqueles com uma visão marxista das diferenças de classes como a causa dos problemas, diz O’Leary, “diferente” é sempre ‘desigual’ e ‘desigual’ é sempre “opressor”. Neste sentido, as “feministas de gênero” consideram que, quando a mulher cuida de seus filhos em casa e o marido trabalha fora de casa, as responsabilidades são diferentes e, portanto, não igualitárias. Em seguida, veem esta “desigualdade” no lar como causa de “desigualdade” na vida pública, já que a mulher, cujo principal interesse seria o lar, nem sempre teria o tempo e energia para se dedicar à vida pública. Por isso afirmam:

“Nós acreditamos que nenhuma mulher deve ter esta opção. Nenhuma mulher deveria ser autorizada a ficar em casa para cuidar de seus filhos. A sociedade deve ser totalmente diferente. As mulheres não devem ter essa escolha, porque se essa opção existe, demasiadas mulheres decidirão por ela”. (22)

Além disso, as “feministas de gênero” insistem na desconstrução da família não só porque segundo elas escraviza as mulheres, mas porque condiciona socialmente as crianças para aceitar a família, o casamento e a maternidade como algo natural. A este respeito, Nancy Chodorow diz:

“Se nosso objetivo é acabar com a divisão sexual do trabalho em que a mulher se faz maternal, devemos em primeiro lugar compreender os mecanismos que a causam. Este é o ponto no qual se deve intervir. Qualquer estratégia para a mudança, cujo objetivo abarque a liberação das restrições impostas por uma desigual organização social por gêneros, deve levar em conta a necessidade de uma reorganização fundamental do cuidado dos filhos, que deve ser compartilhado igualmente entre homens e mulheres”. (23)

Fica claro que para os defensores do “gênero” as responsabilidades das mulheres na família são supostamente inimigas da realização da mulher. O ambiente privado é considerado secundário e menos importante; família e trabalho doméstico são vistos como “carga” que afeta negativamente o “projeto profissional” das mulheres.

Este ataque declarado contra a família, no entanto, contrasta fortemente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU em 1948. No artigo 16 desta, as Nações Unidas defendem com ênfase a família e o casamento:

       1- Homens e mulheres, a partir da idade de casar têm o direito, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião, de casar e constituir família; e desfrutarão direitos iguais quanto ao casamento, durante o casamento e em caso de dissolução do casamento.

      2- Somente com o livre e pleno consentimento dos futuros esposos se poderá contrair o matrimônio.

        3- A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.

No entanto, os arquitetos da nova “perspectiva de gênero” presente na cúpula da mulher colocaram à margem todas essas premissas e, em vez disso apontaram para a necessidade de “desconstrução” da família, do casamento, da maternidade, e da própria feminilidade para que o mundo possa ser livre.

admiravel mundo novoEm contrapartida, os representantes das principais nações comprometidas com a defesa da vida e dos valores familiares que participaram em Pequim, levantaram suas vozes contra esse tipo de propostas, especialmente ao descobrir que o documento da cúpula eliminava arbitrariamente do vocabulário do programa as palavras “esposa”, “marido”, “mãe”, “pai”. Ante tal fato, Barbara Ledeen, diretora do Fórum de Mulheres Independentes, uma organização de defesa da mulher amplamente reconhecida nos Estados Unidos, disse:

“O documento é inspirado pelas teorias feministas ultrarradicais, de velho cunho conflitivo, e representa um ataque direto aos valores da família, casamento e feminilidade “.

O Papa João Paulo II, por sua vez, pouco antes da Conferência de Pequim, já tinha insistido em apontar a estreita relação entre a mulher e a família. Durante a sua reunião com Gertrude Mongella, Secretária Geral da Conferência das Mulheres antes da Cúpula Mundial, disse:

“Não há resposta aos temas sobre a mulher, que possa ignorar o papel da mulher na família. A fim de respeitar esta ordem natural, é necessário opor-se à ideia errada de que a função da maternidade é opressiva para a mulher “.

Infelizmente, a proposta do Conselho Europeu para a Plataforma de Ação de Pequim foi completamente alheia a essas diretrizes.

 É tempo de deixar claro que os estereótipos de gênero estão desatualizados: os homens não são apenas os machos que sustentam a família nem as mulheres apenas esposas e mães. Não se deve subestimar a influência psicológica negativa de mostrar estereótipos femininos”. (24)

Dada essa postura, O’Leary escreve no seu relatório que, embora seja verdade que as mulheres não devem mostrar-se somente como esposas e mães, muitas sim são esposas e mães, e, portanto, uma imagem positiva das mulheres que se dedicam apenas ao trabalho no lar não tem nada de errado. No entanto, o objetivo da perspectiva de ‘gênero’ não é representar autenticamente a vida da mulher, mas criar um estereótipo inverso, segundo o qual as mulheres que sejam “apenas” esposas e mães nunca apareceriam sob uma luz favorável.

Saúde e direitos sexuais reprodutivos

Na mesma linha, as “feministas de gênero” incluem como parte essencial de sua agenda a promoção da “livre escolha” ou “direito de decidir” em matéria de reprodução e estilo de vida. De acordo com O’Leary, “livre escolha reprodutiva” é a expressão chave para se referir ao aborto a pedido; ao passo que “estilo de vida” tem o objetivo de promover a homossexualidade, o lesbianismo, outras formas de sexualidade, dentro ou fora do casamento. Por exemplo, os representantes do Conselho Europeu, em Pequim lançaram a seguinte proposta:

“As vozes dasinsatisfeitos_com_dilma mulheres jovens devem ser ouvidas, uma vez que a vida sexual não gira apenas ao redor do casamento. Isso leva ao aspecto  do direito de ser diferente, seja em termos de estilo de vida: a escolha de viver com a família ou sozinha com ou sem filhos ou de preferências sexuais. Devem se reconhecer os direitos reprodutivos da mulher lésbica”. (25)

Estes “direitos” das lésbicas, também incluem o “direito” de casais lésbicas conceberem filhos através de inseminação artificial, e para adotar legalmente os filhos de suas parceiras.

Mas os defensores do “gênero” têm não apenas essas propostas, mas também defendem o “direito à saúde”, que com toda a honestidade, afasta-se completamente da verdadeira saúde dos seres humanos. Na verdade, ignorando o direito de todo ser humano à vida, propõe um direito à saúde, que inclui o direito à saúde sexual e reprodutiva. Paradoxalmente, essa “saúde reprodutiva” inclui o aborto e, portanto, a “morte” de seres humanos ainda não nascidos.

Não surpreendentemente, as “feministas do gênero” são fortes aliadas dos Ambientalistas e “Populacionistas” (ou defensores do controle da natalidade). De acordo com O’Leary, embora as três ideologias não coincidam em todos os seus aspectos, têm em comum o projeto do aborto. Por um lado, os ambientalistas e “populacionistas” consideram essencial para o sucesso de suas agendas, o rigoroso controle de fertilidade e para isso estão dispostos a usar a “perspectiva de gênero”. A seguinte citação da Division for the  Advance of Women (Divisão para o Avanço das Mulheres) proposta numa reunião organizada em consulta com o Fundo de População das Nações Unidas revela o pensamento daqueles interessados primariamente em que haja cada vez menos gente que veja o “gênero”:aborto_i

Para serem eficazes a longo prazo, os programas de planejamento familiar devem procurar não só reduzir a fertilidade dentro dos papéis de gênero existentes, mas também alterando os papéis de gênero, a fim de reduzir a fertilidade”. (26)

Assim, os “novos direitos” propostos pelas “feministas do gênero” não se reduzem simplesmente aos direitos de “saúde reprodutiva” que, como já mencionamos, mas promovem o aborto de ser humano por nascer, mas além disso exigem o “direito” a determinar a própria identidade sexual. Num folheto distribuído durante a Conferência de Pequim, a ONG “International Gay and Lesbian Human Rights Comision” (Comissão Internacional de Direitos Humanos de Gays e Lésbicas) exigiu este direito nos seguintes termos:

“Nós, abaixo assinados, convidamos os Estados-Membros a reconhecer o direito de determinar a própria identidade sexual, o direito de controlar o próprio corpo, particularmente no estabelecimento de relações íntimas, e o direito de escolher, se necessário, quando e com quem gerar e criar filhos, como elementos fundamentais de todos os direitos humanos de toda mulher, independentemente da sua orientação sexual”.

 Isto é ainda mais preocupante se levarmos em conta que para as “feministas de gênero” existem cinco sexos. Rebecca J. Cook, professora de Direito na Universidade de Toronto e editora do relatório oficial da ONU em Pequim, aponta na mesma linha de seus companheiros de batalha, que os gêneros masculino e feminino, seriam uma “construção da realidade social” e devem ser abolidos. Embora pareça incrível, o documento produzido pela feminista canadense afirma que “os sexos não são mais dois, mas são cinco”, e, portanto, não deveria falar sobre homens e mulheres, mas “as mulheres heterossexuais, mulheres homossexuais, homens heterossexuais, gays e bissexuais”.

A “liberdade” dos proponentes do “gênero” para afirmar a existência de cinco sexos, contrasta com todas as provas científicas existentes segundo as quais só há duas opções a partir do ponto de vista genético: ou se é um homem ou uma mulher, e não há absolutamente nada, cientificamente falando, que esteja no meio.

Ataque à religião

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Enquanto as “feministas de gênero” promovem a “desconstrução” da família, da educação e da cultura como solução para todos os problemas, põem especial ênfase na “desconstrução” da religião, que, segundo dizem, é a principal causa da opressão da mulher. Muitas ONGs credenciadas junto à ONU tem-se empenhado em criticar aqueles que eles chamam de “fundamentalistas” (cristãos católicos, evangélicos e ortodoxos, judeus e muçulmanos, ou qualquer um que se recuse a ajustar as doutrinas de sua religião com a agenda do “feminismo de gênero “). Um vídeo promovendo o Fórum das ONGs sobre a Conferência de Pequim, produzido por Judith Lasch diz:

 “Nada tem feito mais para constranger a mulher que os credos e ensinamentos religiosos.”

Da mesma forma, o relatório da Reunião de Estratégias Globais para a Mulher contém numerosas referências ao fundamentalismo e à necessidade de contrariar os seus alegados ataques sobre os direitos das mulheres.

“Todas as formas de fundamentalismo, seja ele político, religioso ou cultural, exclui a mulher das normas de direitos humanos internacionalmente aceitos, e a transformam em alvos de extrema violência. A eliminação destas práticas é preocupação da comunidade internacional.”

Por outro lado, o relatório da reunião preparatória para a Conferência de Pequim, organizado pelo Conselho Europeu em Fevereiro de 1995, inclui numerosos ataques à religião.

“O surgimento de todas as formas de fundamentalismo religioso é visto como uma ameaça particular para o gozo pelas mulheres de seus direitos humanos e sua plena participação na tomada de decisões em todos os níveis da sociedade”. (27)

“Deve-se capacitar as próprias mulheres, e dar-lhes a oportunidade de determinar o que as suas culturas, religiões e costumes significam para elas”. (28)

Vale ressaltar que para o “feminismo de gênero”, a religião é uma invenção humana e as principais religiões foram inventadas por homens para oprimir as mulheres. Por isso, as feministas radicais postulam a re-imagem de Deus como Sophia: A sabedoria feminina. Nesse sentido, as “teólogas do feminismo de gênero” propõem descobrir e adorar não a Deus, mas a Deusa. Por exemplo, Carol Christ, que se autodenomina “teóloga feminista de gênero” afirma o seguinte:

“Uma mulher que se faça eco à declaração dramática de Ntosake Shange:” ‘. Encontrei a Deus em mim mesma e o amei ferozmente está dizendo:  O poder feminino é forte e criativo. Está dizendo que o princípio divino, o poder salvador e sustentador, está nela mesma e já não mais verá o homem ou a figura masculina como um salvador”. (29)

Igualmente estranhas são as palavras de Elisabeth Schussler Fiorenza, outra “teóloga feminista de gênero” que nega radicalmente a possibilidade da Revelação, como lemos na seguinte citação:

“Os textos bíblicos não são a revelação de inspiração verbal nem de princípios doutrinais, mas formulações históricas. Da mesma forma, a teoria feminista insiste em que todos os textos são produto de uma cultura e historia patriarcal e androcêntrica”. (30)

Além disso, Joanne Carlson Brown e Carole R. Bohn, também teólogas autointituladas “escola feminista de gênero” atacam diretamente o Cristianismo como propulsor do abuso infantil:

“O cristianismo é uma teologia abusiva que glorifica o sofrimento. É possível assombrar-se que haja muito abuso na sociedade moderna, quando a imagem teológica dominante da cultura é ‘abuso divino do filho’ de Deus Pai que exige e efetua o sofrimento e a morte de seu próprio filho? Se o Cristianismo é para ser libertador dos oprimidos, deve primeiro livrar-se dessa teologia”. (31)

Portanto, os proprietários da “nova perspectiva” promovem o ataque frontal ao cristianismo e toda figura que o represente. Em 1994, Rhonde Copelon e Berta Esperanza Hernandez elaboraram um panfleto para uma série de sessões de trabalho da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento no Cairo. O folheto atacava diretamente o Vaticano por opor-se à sua agenda que, entre outras coisas, inclui o “direito à saúde reprodutiva” e, consequentemente, o aborto.

“Este reclamar dos direitos humanos elementares está enfrentando a oposição de todos os tipos de fundamentalistas religiosos, com o Vaticano como um líder na organização de oposição religiosa à saúde e direitos reprodutivos, incluindo até os serviços de planejamento familiar”. (32)

Em contraste com todas essas posturas de ataque e agressão à religião, à Igreja, particularmente ao Vaticano, são os pontos de vista da maioria das mulheres do mundo que, conforme relatado por O’Leary defendem suas tradições religiosas como a melhor proteção dos direitos e a dignidade das mulheres. Mulheres católicas, evangélicas, ortodoxas e mulheres judias agradecem, em particular, os ensinamentos de suas crenças sobre casamento, família, sexualidade e respeito pela vida humana.

O Vaticano, por sua vez, afirmou nos meses anteriores a Pequim o perigo da tendência do texto proposto pela ONU (33), de que se deixe de lado  o direito das mulheres à liberdade de consciência e de religião nas instituições de ensino.

Conclusão

Nas palavras de Dale O’Leary, o “feminismo de gênero” é um sistema fechado contra o qual não há nenhuma maneira de discutir. Você não pode apelar para a natureza, ou a razão, à experiência ou às opiniões e desejos de mulheres reais, porque de acordo com as “feministas do gênero” tudo isso é “socialmente construído”. Não importa quanta evidência se acumule contra suas ideias; elas vão continuar a insistir que é simplesmente mais uma prova da conspiração patriarcal massiva contra as mulheres.

No entanto, existem muitas pessoas que talvez por falta de informação, ainda não estão conscientes da nova proposta e dos perigosos alcances da mesma. Vale a pena, pois conhecer esta “perspectiva de gênero” que, segundo informações fidedignas, está atualmente não só ganhando força nos países desenvolvidos, mas, aparentemente, também começou a infiltrar-se em outras mídias. Basta rever alguns materiais educativos, veiculados não só nas escolas, mas também em universidades de prestígio.

No entanto, nos Estados Unidos o “feminismo de gênero” conseguiu colocar-se no centro da corrente cultural norte-americana. Prestigiadas universidades e faculdades difundem abertamente essa perspectiva. Além disso, muitas séries de televisão americanas fazem a sua parte para espalhar a seguinte mensagem: identidade sexual pode “desconstruir-se” e masculinidade e feminilidade não são mais que “papéis de gênero construídos socialmente”.

Considerando-se que o avanço das tecnologias conseguiu que estes programas com toda a nova “perspectiva de gênero” cheguem diariamente aos países em vias de desenvolvimento, principalmente através da televisão por cabo, sem excluir as muitas outras formas de mídia em nosso tempo, isto nos coloca ante um novo desafio que temos de enfrentar o mais cedo possível para evitar as consequências graves que já está ocasionando no Primeiro Mundo. Especialmente quando, nas palavras de O’Leary, a “desconstrução” da família e o ataque à religião, à tradição e aos valores culturais que as “feministas de gênero” promovem nos países em desenvolvimento, afeta o mundo inteiro.

Notas

[1] Judith Butler, Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, Routledge, New York, 1990, p. 6.

[1.2] Veja-se, no texto final desta conferência (http://www.unfpa.org.br/Arquivos/declaracao_beijing.pdf), a título de exemplo, o ponto 24 da ”pauta de compromisso” e o ponto 96 da ”plataforma de ação”.  Acesso em 03.06.15.

[2] veja-se o trabalho de Cristina Delgado, Reporte sobre la Conferencia Regional de Mar de Plata, Argentina, onde recolhe diversas citações de “feministas de gênero”.

[3] Ibidem

[4] Adrienne Rich, “Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence”, Blood, Bread and Poetry, p. 27.

[5] Ibidem, p. 70.

[6] Lucy Gilber y Paula Wesbster, “The Dangers of Feminity”, Gender Differences: Sociology of Biology?, p. 41.

[7] Gender Outlaw, p. 115.

[8] Entrevista a Christina Hoff Sommers en Faith and Freedom, 1994, p. 2.

[8.1] A propósito: http://www.acidigital.com/noticias/ideologia-de-genero-prejudica-educacao-espanhola-adverte-perito-60361/. Acesso em 03.06.15.

[9] Frederick Engels, The Origin of the Family, Property and the State, International Publishers, New York, 1972, pp. 65-66.

[10] Shulamith Firestone, The Dialectic of Sex, Bantam Books, New York, 1970, p. 12.

[11] Ibidem, p. 10.

[12] Ann Ferguson & Nancy Folbre, “The Unhappy Marriage of Patriarch and Capitalism”, Women and Revolution, p. 80.

[13] Ibidem

[14] Heidi Harmann, “The Unhappy Marriage of Marxism and Feminism”, Women and Revolution, South End Press, Boston, 1981, p. 5.

[15] Ibidem, p. 16.

[16] Gender Outlaw, p. 115.

[17] Susan Moller Okin, “Change the Family, Change the World”, Utne Reader, Marzo/Abril, 1990, p. 75.

[18] Council of Europe, “Equality and Democracy: Utopia or Challenge?”, Palais de l’Europe, Strausbourg, Febrero 9-11, 1995, p. 38.

[19] Alison Jagger, “Political Philosophies of Womens Liberation”, Feminism and Philosophy, Littlefield, Adams & Co., Totowa, New Jersey, 1977, p. 13.

[20] Idem ibidem, p. 14.

[21] Christine Riddiough, “Socialism, Feminism and Gay/Lesbian Liberation”, Women and Revolution, p. 80.

[22] Christina Hoff Sommers, Who Stole Feminism?, Simon & Shuster, New York, 1994, p. 257.

[23] Nancy Chodorow, The Reproduction of Mothering, U. of CA Press, Berkeley, 1978, p. 215.

[24] Council of Europe, “Equality and Democracy: Utopia of Challenge?”, Palais delEurope, Strausbourg, Febrero 9-11, 1995.

[25] Ibidem, p. 25.

[26] “Gender Perspective in Family Planning Programs”, Division for the Advancement of Women.

[27] Council of Europe, “Equality and Democracy: Utopia of Challenge?”, Palais delEurope, Strausbourg, Febrero 9-11, 1995, p. 13.

[28] Ibidem, p. 16.

[29] Carol Christ, Womanspirit Rising, p. 277.

[30] Elisabeth Schussler Fiorenza, In Memory of Her, Crossroad, New York, 1987, p. 15.

[31] Joanne Carlson Brown and Carole R. Bohn, Christianity, Patriarchy, and Abuse: A Feminist Critique, p. 26.

[32] Rondhe Copelon y Berta Esperanza Hernández, Sexual and Reproductive Rights and Health as Human Rights: Concepts and Strategies; An Introduction for Activitists, Human

[33] Recentemente, o papa Francisco reafirmou que a ideologia de gênero é uma “colonização ideológica, um erro da mente humana”. Veja em:http://www.acidigital.com/noticias/ideologia-de-genero-e-um-erro-da-mente-humana-assinala-o-papa-88036/ e http://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-a-ideologia-de-genero-e-contraria-ao-plano-de-deus-10716/. Acesso em 03.06.15.

Jutta Burggraf  é Doutora em Filosofia pela Universidade de Navarra

Tradução: Cristina Murano

Revisão final: André Gonçalves Fernandes

Fonte: http://www.notivida.com.ar/Articulos/Genero/Perspectiva%20de%20Genero,%20peligros%20y%20alcances.html

Originalmente publicado aqui.

O Brasil está deixando de ser de esquerda?

Poucos brasileiros duvidam que o país está às vésperas de uma mudança que pode ser de época

PT, de mais amado a mais odiado

Em meio ao redemoinho da crise que o país atravessa, é possível vislumbrar algo que parece ser novo e poderia marcar as próximas décadas: o Brasil está começando a deixar de caminhar para a esquerda e sente uma certa fascinação por valores mais liberais e conservadores, de centro, menos populistas ou nacionalistas e, paradoxalmente, mais modernos e globalizados.

Até antes da crise, ou das crises que se amontoam, ninguém no mundo político queria ser de direita aqui. Tanto é assim que entre o mar de partidos oficiais nenhum leva em seu nome as palavras direita ou conservador. Até o mais conservador deles, e um dos mais envolvidos no escândalo na Petrobras, o PP, se chama Partido Progressista.

Entre o mar de partidos oficiais nenhum leva em seu nome as palavras direita ou conservador

O Partido dos Trabalhadores (PT), que já foi considerado o maior partido de esquerda da América Latina, marcava o passo como príncipe dos partidos, abraçado pelos movimentos sociais, os sindicatos, os operários e boa parte dos artistas e intelectuais. As ruas também eram do PT. E isso apesar de seu mentor e guia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se esforçar em dizer que ele não era “nem de direita nem de esquerda”, mas apenas um “sindicalista”. Em seus oito anos de Governo foi também aplaudido, mimado e defendido pelos bancos, as empresas e as oligarquias que foram amplamente recompensados por seu apoio. Ele mesmo repetia aos banqueiros que nunca tinham ganhado tanto como com ele. E era verdade.

O Brasil é visto fora de suas fronteiras com uma política de centro-esquerda, uma vez que o PT se aliou, para poder governar, com os partidos conservadores.

Essa roupagem de esquerda, com a qual era vista a política dos governos brasileiros, fazia parecer normal a preferência por países do socialismo bolivariano do continente. A direita neoliberal não tinha carta de cidadania no Brasil.

As coisas, dizem não poucos analistas, estão mudando, porque mudaram a rua e a sociedade, que começou a abandonar o PT ao mesmo tempo em que se perdeu o complexo, principalmente na classe média pensante, de defender valores como o liberalismo, que leva junto o desejo pela eficiência e o afã de criar sua própria empresa. E isso não só entre os filhos das classes mais abastadas, mas também com os da nova classe média oriunda da pobreza, que já não sonham como ontem com um trabalho fixo sob as ordens de um patrão para o resto da vida.

É essa mesma classe que, sem distinções ideológicas excessivas, defende hoje valores que são bem mais de políticas de centro, como a livre iniciativa, a eficiência dos serviços públicos, uma maior segurança pública, menos corrupção e um Estado menos gastador e onipresente.

Não basta a eles que o Estado ofereça esses serviços para todos, querem que sejam dignos de primeiro mundo, porque o Brasil tem um potencial de riqueza que possibilitaria isso.

Vejo até mais críticas na classe C com relação a certas bondades do Estado, como bolsas e ajudas sociais, do que em classes mais altas. Criticam que muitas dessas ajudas podem acabar acomodando as pessoas e as tornar preguiçosas para trabalhar e melhorar sua capacitação profissional.

Poucos brasileiros duvidam que o país está às vésperas de uma mudança que pode ser de época. Ninguém sabe ainda profetizar no que consistirá essa mudança e em que direção irá, nem qual partido e líder político serão capazes de expressar e reunir o que está sendo gerado de novo nessa sociedade.

O que parece cada dia mais provável é que a seta não aponta mais preferencialmente para os caminhos da esquerda, que foram necessários e criadores da prosperidade social, mas hoje estão perdendo o interesse e a credibilidade.

É verdade que os termos esquerda e direita hoje já não possuem mais a força que possuíam no passado, mas o que a sociedade brasileira parece estar buscando se assemelha mais com as políticas dos países hoje mais igualitários, com democracias mais consolidadas, com menores taxas de corrupção política, com moedas fortes e com liberdade de empreender economicamente.

Tudo isso, junto com uma política de bem-estar social.

O que tenho escutado de muitos trabalhadores neste país é o desejo e a esperança de que, assim como no trabalho profissional, um brasileiro possa gozar do nível de vida e dos serviços públicos que hoje desfrutam os cidadãos de países considerados conservadores, onde as diferenças sociais não são tão evidentes e tão brutais como nos países embalados pelas sirenes de um populismo que, com muito Estado e pouca cidadania, acaba reproduzindo pobreza, como hojeestão sofrendo em parte nossos vizinhos argentinos.

O Brasil quer mais e melhor. E quer isso com políticas mais próximas do centro, com maior liberdade de ação, sem tutores que desejem guiar seus passos e dizer o que é melhor para as pessoas. Os brasileiros querem que sua palavra, seus projetos e suas ideias tenham também valor e peso nas decisões que forjam o destino do país.

Essa é a verdadeira subversão que hoje começa a viver essa sociedade viva e rica, que está aprendendo a dizer “não”. E, como defendia o escritor e ganhador do Nobel de Literatura José Saramago, às vezes o “não” da rebelião é muito mais construtivo do que o “sim, senhor” da resignação ou da apatia.

A rebelião não tem cor política.

Saramago era de esquerda, comunista.

Originalmente publicado aqui.

‘Há uma crise de atenção’

Para pensador polonês Zygmunt Bauman, internet dificulta a lida diária com a realidade

POR BRUNO ALFANO*


Zygmunt Bauman: internet abala atenção, paciência e perseverança para construir um conhecimento sólido
Foto: Foto Pablo Jacob / Agência O Globo
Zygmunt Bauman: internet abala atenção, paciência e perseverança para construir um conhecimento sólido – Foto Pablo Jacob / Agência O Globo

Uma busca no Google com os termos “O que é modernidade líquida?” rende 187 mil resultados em 0,34 segundo. São, todos eles, “fragmentos de conhecimento”, na visão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que discursou neste sábado para um auditório lotado na Escola Sesc de Ensino Médio durante o encontro internacional Educação 360, realizado pelos jornais O GLOBO e “Extra” em parceria com a prefeitura do Rio e o Sesc, com apoio da TV Globo e do Canal Futura. O filósofo defende que “não vamos nos livrar da realidade” e que “o problema é como utilizar”.

— A educação é vítima da modernidade líquida, que é um conceito meu. O pensamento está sendo influenciado pela tecnologia. Há uma crise de atenção, por exemplo. Concentrar-se e se dedicar por um longo tempo é uma questão muito importante. Somos cada vez menos capazes de fazer isso da forma correta — disse o pensador. — Isso se aplica aos jovens, em grande parte. Os professores reclamam porque eles não conseguem lidar com isso. Até mesmo um artigo que você peça para a próxima aula eles não conseguem ler. Buscam citações, passagens, pedaços.

Como o próprio Bauman mencionou, a modernidade líquida — definida nos resultados do Google como a época em que vivemos, caracterizada por “volatilidade” , “incerteza” e “insegurança” — norteou as obras do filósofo; ele escreveu cerca de 30 livros apenas em torno dessa maneira de enxergar a contemporaneidade.

— Não há como contestar que a internet nos trouxe grandes vantagens. A facilidade de acesso à informação, a facilidade com que podemos ignorar as distâncias… Lembro-me de que, quando era jovem, passava muito tempo na biblioteca tentando ler cem livros para encontrar um pedacinho de informação de que precisava. Agora, basta pedir para o Google. Em décimos de segundo ele dá milhares de respostas. Um problema foi eliminado: nós não precisamos passar horas na biblioteca. Mas há um novo problema. Como vou compreender essas milhares de respostas? — questionou Bauman, logo recorrendo à Grécia Antiga para para continuar. — Só agora, idoso, consegui entender Sócrates: “Só sei que nada sei”.

Há ainda, na visão de Bauman, outras crises que chegam com a internet e precisam ser superadas. O filósofo defende que vivemos com cada vez menos paciência, pela quantidade de informação que recebemos ao mesmo tempo. E, quando não temos isso, o resultado é a irritação.

— Se demoramos mais de um minuto para acessar a internet quando ligamos o computador, ficamos furiosos. Um minuto só! Nosso limiar de paciência diminuiu. As informações mais bem-sucedidas, que têm mais probabilidade de serem consumidas, são apenas pedaços — diz o polonês. — Outra coisa é a persistência. Conseguir algo contém em si um número de fracassos que faz com que você perca tempo e tenha que recomeçar do zero. E isso é muito complicado. Não é fácil manter essa persistência nesse ambiente com tanto ruído e tantas informações que fluem ao mesmo tempo de todos os lados.

Todo esse novo cenário, explicou o pensador à plateia de educadores, desafia e transforma a posição secular do docente. Para Bauman, “não há como voltar à situação em que o professor é o único conhecedor, a única fonte, o único guia”. E dá caminhos:

— Não há como conceber a sociedade do futuro sem tecnologia. Então, se não pode vencê-la, una-se a ela. Tente contrabalancear o impacto negativo, como a crise da atenção, da persistência e de paciência. É preciso ter determinadas qualidades se você deseja construir conhecimento e não só agregá-lo: paciência, atenção e a habilidade de ocupar esse local estável, sólido, no mundo que está em constante movimento. É preciso trabalhar a capacidade de se manter focado.

Educação desigual

Hoje, de acordo com o filósofo, a educação reproduz privilégios em vez de aperfeiçoar a sociedade. Ele lembra que, nos EUA, 70% dos alunos na universidade vêm das classes mais altas, enquanto só 3% são das camadas de renda mais baixa. Segundo Bauman, essa é “uma forma de reafirmar a desigualdade social”, tema do livro “A riqueza de poucos favorece a todos nós?”, o mais recente lançamento (no mês passado) do escritor no Brasil.

— Uma das tarefas da educação é conferir a todas as pessoas que tenham talento a possibilidade de adquirir conhecimento para que isso acabe tendo um uso criativo para a sociedade. Mas esse objetivo não está sendo perseguido em muitos lugares. Na Grã-Bretanha, os preços, em vez de diminuírem para as pessoas com menos dinheiro, vão subindo. E cada vez menos pais têm a possibilidade de economizar a quantia necessária para seus filhos cursarem a universidade.

O problema, segundo Bauman, é que a educação está pressionada pela política e pelos interesses corporativos. E isso, explica ele, se reflete na mente do estudante. O polonês critica o fato de os alunos escolherem a área de estudos baseados “no fato de se vão conseguir emprego ou não”.

— Se você quer conhecimentos especializados, que são as condições para um bom emprego, precisa estudar quatro ou cinco anos, e isso requer muito esforço. Mas, se você está sendo guiado pelo atual estado de coisas, tudo vai mudar nesse tempo de estudo. E você vai perceber que não vai conseguir encontrar um uso rentável para o tipo de qualificação e habilidade que adquiriu nesses anos de trabalho árduo na faculdade — argumenta.

Mesmo após toda essa lista de desafios, a mensagem que o dono de uma das mais influentes mentes no mundo deixou para o auditório na noite de ontem foi de pura esperança:

— Educar, senhoras e senhores, é fazer um investimento nos próximos cem anos.

(*) Do “Extra”

Originalmente publicado aqui.

O regresso dos neoconservadores

Quando os Estados Unidos sofreram os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, uma palavra erudita ocupou as atenções da mídia. “Neoconservadorismo”. George W. Bush era influenciado pelos “neoconservadores” na resposta aos criminosos. E que resposta seria essa?

Simplificando uma ideologia complexa, o “neoconservadorismo” sempre defendeu que os interesses estratégicos dos Estados Unidos podem estar fora das suas fronteiras. De igual forma, as ameaças a esses interesses também.

Irving Kristol, um dos nomes mais importantes do movimento, gostava de lembrar que a participação americana na Segunda Guerra Mundial espelhava essa verdade: a rigor, o nazismo não era uma ameaça direta para Washington. Mas era uma ameaça para a Europa. E a segurança da América –econômica, estratégica, civilizacional– estava também no velho continente.

Igual raciocínio levou Bush para o Afeganistão e para o Iraque. Sobre o Afeganistão, nada a dizer: se o 11 de Setembro fora patrocinado pela Al Qaeda, era necessário destruir os campos de treino que Osama Bin Laden instalara no país do Taliban.

Mas o Iraque era um caso diferente: primeiro, porque a história das “armas de destruição em massa” cheirava mal para qualquer observador atento.

E, além disso, a remoção de Saddam Hussein significava a destruição da estrutura sunita do país e, pormenor importante, transformava o próprio Iraque em território de vinganças sectárias, sobretudo para a população xiita longamente oprimida pelo carniceiro de Bagdá.

Todos conhecemos o resto da história. Mas Patrick Cockburn, em “The Jihadis Return: ISIS and the New Sunni Uprising”, relembra alguns pormenores: entre 2006 e 2014, quando Nouri al-Maliki foi o premiê (xiita) do país, o Iraque poderia ter trilhado um caminho diferente –menos corrupção e alguma brandura para a população sunita.

Não aconteceu. Com a Síria em guerra civil, a mediocridade dos governos de Maliki foi permitindo que um grupo terrorista sunita –hoje conhecido pelo pomposo nome de “Estado Islâmico”– começasse uma luta em duas frentes: contra Bashar al-Assad, sim; mas também contra os xiitas do Iraque. As vitórias foram assinaláveis.

No livro de Patrick Cockburn, acompanhamos essas vitórias: Fallujah, primeiro; Mosul, depois. Mas acompanhamos mais: a total incapacidade dos Estados Unidos (e da Europa, claro) para evitar o desastre.

Barack Obama, convém lembrar, tinha a ambição caridosa de corrigir os erros do seu antecessor, retirando-se o mais depressa possível da região. Patético. A retirada apenas amplificava esses erros, entregando o território à selvajaria dos jihadistas.

Hoje, milhares de refugiados da Síria (mas não só) tentam abandonar o caos e entrar na Europa. Muitos morrem pelo caminho. E os que chegam encontram um continente atônito, que não sabe o que fazer com milhares de pessoas doentes e famintas.

O “Daily Telegraph”, em tom sério, até publicou um artigo no qual relembra aos incréus as soluções que têm sido pensadas para a crise dos refugiados.

Anote, leitor: espalhar 160 mil pela Europa inteira; comprar uma ilha no Mediterrâneo só para acomodar os infelizes; enviá-los para o Cambodja (uma ideia australiana); despejar dinheiro sobre o problema; ou transportá-los de avião para a Europa, de forma a evitar naufrágios e outros infortúnios.

Curiosamente, ninguém falou em alugar uma nave espacial e colonizar a Lua com eles. Entendo. Na Lua já habitam os líderes ocidentais, que preferem não ver o “óbvio ululante”: a crise dos refugiados só terá solução na origem. Ou, sem eufemismos, com novas ações militares contra o terrorismo jihadista.

A filosofia “neoconservadora” levou Bush para o Afeganistão (certo) e arrastou-o inutilmente para o Iraque (errado). E esse erro alimentou em Barack Obama o mesmo sentimento que os americanos tiveram depois da Primeira Guerra Mundial: um sentimento isolacionista, próprio de quem está cansado de ser a polícia do mundo.

Infelizmente, o mundo não tira férias quando os Estados Unidos decidem regressar para a toca. E não deixa de ser irônico que a filosofia “neoconservadora”, depois de todos os erros, seja hoje a única proposta realista para o problema: quando não tratamos dos problemas fora das fronteiras, eles acabam por cruzá-las com fúria e estrondo.

Originalmente publicado aqui.