Lava Jato muda a Justiça e a advocacia

A Justiça penal não será a mesma depois do mensalão e da Operação Lava Jato. Tanto a prática de juízes, delegados, procuradores e advogados como nas doutrinas e tribunais. Tudo começa a mudar. Que mudanças são essas?

Mudança geracional. Juízes, procuradores, delegados são mais jovens. Fizeram concurso mais cedo. Vivem na liberdade de imprensa, na decadência dos partidos e na indignante apropriação privada dos bens públicos. E não têm passado a proteger ou a temer.

Dão mais prioridade aos fatos que às doutrinas. Mais pragmatismo e menos bacharelismo. Mais a evidência dos autos –documentos, e-mails, planilhas, testemunhos, registros– do que a lições de manuais estrangeiros ou relacionamento de advogados com tribunais.

Erram aqui e acolá. Às vezes, extrapolam, mas passaram por duro aprendizado institucional com Banestado, Castelo de Areia, Furacão e outras operações. Atentos, buscam evitar nulidades processuais. O juiz, e não mais os advogados, conduz o processo.

Usam de múltiplas estratégias. Jurídica, política e comunicativa. Valorizam a força das imagens, que entram, via internet, televisão, lares e ruas, nos autos e tribunais.

São informados e cosmopolitas. Organizam cooperação internacional com Suíça, Holanda e Estados Unidos. É difícil para a tradicional advocacia individual enfrentar essa complexa articulação entre instituições. Usam com desenvoltura a tecnologia. Extraem inteligência de “big data” (análise de grandes volumes de informação). Aplicam-se em finanças e contabilidade.

As consequências para a advocacia são várias. Plantar nulidades para colher prescrição –o juiz não seria competente, a defesa foi cerceada, o delegado extrapolou poder investigatório etc.– é estratégia agora arriscada. Tribunais superiores não suportam mais serem “engavetadores” de casos que chegam quase prescritos. Diminuem-se diante do olhar da opinião pública.

Apostar que juízes, procuradores e delegados agem com arbítrio, ferem direitos fundamentais dos réus, sem clara e fundamentada evidência, é protesto que se dissolve no ar.

Algumas defesas tentam politizar o julgamento. Juízes, delegados e procuradores agiriam a serviço do governo ou dos políticos envolvidos. Colocam suas fichas que no Supremo Tribunal Federal tudo se resolveria politicamente. É tentativa possível. Nunca deixará de ser. Mas hoje o sucesso é menos provável.

O invisível ministro Teori Zavascki não dá mostras de vergar. Até agora não se conseguiu colocar Curitiba contra Brasília. Nem vice-versa.

Neste cenário, como em todos os países, a defesa preferencial dos réus tem sido a minimizadora de riscos. Contabilizar perdas e danos.

Por isso aceitam a delação. Amortecem as condenações individuais dos executivos, oferecendo o apoio empresarial às famílias. Fazem acordo de leniência. Pagam alguns bilhões via Controladoria Geral da União. Vendem ou remodelam as empresas. Assim o país se encontra com nova Justiça e advocacia penal no Estado democrático de Direito.

JOAQUIM FALCÃO, 71, mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA) e doutor em educação pela Universidade de Genebra, é professor da FGV Direito Rio

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Originalmente publicado aqui.

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Educar nas novas tecnologias

A tecnologia estrutura significativamente a vida dos homens e mulheres de hoje. Temos que direcioná-la para que seu uso contribua para o nosso desenvolvimento pessoal. É o que este editorial explica.

Opus Dei - Educar nas novas tecnologiasFoto: michael.paul

As novas gerações nasceram em um mundo interconectado, ao qual os seus pais não estavam acostumados. Desde muito cedo têm acesso à Internet, redes sociais, chats, videogames. Sua capacidade de aprendizagem nesta área avança tão rápido quanto o desenvolvimento das tecnologias.

Desde muito novos, crianças e jovens estão expostos a um universo aparentemente sem fronteiras. Esta situação oferece grande quantidade de benefícios, mas ao mesmo tempo comporta riscos que fazem ainda mais necessária a proximidade e a orientação dos pais.

É importante considerar a “era digital” com uma visão positiva, porque como aponta Bento XVI, usada «com sabedoria pode contribuir para satisfazer o desejo de sentido, de verdade e de unidade que continua sendo a aspiração mais profunda do ser humano.»[1]. Porém, ao mesmo tempo, a realidade apresenta fatos que não podem ser ignorados: por exemplo, que o excesso de exposição das crianças às telas foi associado a riscos para a saúde como a obesidade, e a condutas agressivas ou problemáticas no colégio.

A tecnologia estrutura significativamente a vida dos homens e mulheres de hoje. Temos que direcioná-la para que seu uso contribua para o nosso desenvolvimento pessoal, e estar atentos para que os filhos a utilizem corretamente. Toda educação requer uma boa dose de paciência e planejamento, mas quando se fala de novas tecnologias também é necessário que os pais adquiram conhecimento, ideias e um pouco de prática, para formar o seu próprio critério e orientar os filhos de forma adequada.

Cada vez mais os dispositivos tecnológicos permanecem conectados a internet. Isto permite atingir audiências muito amplas e abre a possibilidade de difundir mensagens de forma rápida e praticamente sem custo. Porém, ao mesmo tempo, produz incerteza sobre quem vai ter acesso a estes conteúdos e quando o farão.

A experiência dos últimos anos ensina que as novas tecnologias não são apenas uma ferramenta para melhorar a extensão e o nível da comunicação, mas de certa maneira passaram a constituir um ambiente, um lugar[2], converteram-se num dos tecidos conectivos da cultura, através do qual a identidade se expressa[3].

Parte da tarefa dos pais cristãos de hoje é ensinar a santificar este ambiente, ajudando os filhos a comportar-se virtuosamente no mundo digital, fazendo-os ver que também é um lugar para expressar sua identidade cristã. Não seria eficaz estabelecer somente uma lista de regras, que em seguida ficariam obsoletas, por causa das mudanças contínuas e radicais da tecnologia; a obra educativa deve buscar a formação nas virtudes. Somente desse modo, crianças e jovens poderão viver uma vida boa, direcionando suas paixões, controlando suas ações e superando com alegria os obstáculos que dificultam a realização do bem na esfera digital. Como indica o Papa Francisco «a problemática principal não é tecnológica. Devemos interrogar-nos: Somos nós capazes, neste campo também, de levar Cristo, ou melhor, de levar ao encontro de Cristo?»[4]

Ao mesmo tempo, para não colocar os filhos em perigo desnecessário, é preciso ponderar a partir de que momento é oportuno utilizarem instrumentos digitais, e quais se ajustam melhor à maturidade própria de sua idade. Em muitas ocasiões, será possível «o recurso à tecnologia dos filtros, para protegê-los, na medida do possível contra a pornografia, as ameaças sexuais e outras insídias»[5], sabendo, ao mesmo tempo, que a vida virtuosa é o único filtro que não falha e sempre está disponível.

Virtudes em jogo: importância do bom exemplo

A família é escola de virtudes: elas crescem através da educação, atos deliberados e com esforço perseverante. A graça divina as purifica e eleva[6]. Sendo a família o lugar onde se aprendem as primeiras noções do bem e do mal, dos valores, é no lar que vai sendo construído o edifício das virtudes de cada criança.

Há estilos de vida que facilitam o encontro dos filhos com Deus, e outros que o dificultam. É lógico que os pais procurem que seus filhos tenham uma mentalidade e um coração cristãos, e ponham os meios para que sua família seja uma escola de virtudes. A meta é que cada filho aprenda a tomar suas decisões com maturidade humana e espiritual, de forma adequada à sua idade. As novas tecnologias são outro aspecto que deveria estar presente nas conversas e também nas regras da casa, que costumam ser poucas e dependem da idade dos filhos.

As virtudes não podem ser vividas isoladamente, estar nuns aspectos concretos da vida e não em outros. Por exemplo, ajudar um filho a não ser caprichoso ao comer ou nas brincadeiras, também o ajudará a comportar-se melhor no mundo digital, e vice-versa.

As novas tecnologias atraem a todos. Ensinar virtudes implica que os pais saibam contagiar a exigência que têm consigo mesmos, dando exemplo de moderação. Se os filhos forem testemunhas de nossas lutas, sentirão o estimulo a esforçar-se mais. Por exemplo, prestar atenção ao falar com eles: deixar o jornal de lado, desligar o som da televisão, olhar para a pessoa com quem se está falando, sem ficar observando o telefone. E quando é uma conversa importante, desligar todos os dispositivos para não sermos interrompidos. A educação exige dos pais «compreensão, prudência, saber ensinar e sobretudo saber amar; e que se empenhem em dar bom exemplo»[7].

Quando são menores

A infância é o momento em que se começa a praticar as virtudes, e a aprender o bom uso da liberdade. Com efeito, os períodos sensíveis para desenvolver o caráter com mais facilidade estão nesta etapa: podemos dizer que se constroem as estradas que serão percorridas na vida.

Toda regra geral pode ter as suas nuances, porém a experiência de muitos educadores demonstra que quando os filhos são muito jovens é preferível que não tenham aparelhos eletrônicos avançados (Tablets, Smartphones, Videogames). Além disso, por motivos de sobriedade, é aconselhável que sejam propriedade da família e que, geralmente, sejam utilizados em lugares comuns, com um plano para ajudar os filhos a moderar seu uso, normas e horários familiares que defendam outros tempos fundamentais para o estudo, o descanso e a vida familiar, e que permitam aproveitar o tempo e descansar nas horas oportunas.

Ao mesmo tempo em que os filhos conhecem os benefícios e os limites do mundo digital, convém ensinar-lhes o valor do contato humano direto que nenhuma tecnologia pode substituir. No momento adequado, temos de acompanhá-los pelo ambiente digital como um bom guia de montanha, para que não sofram danos e nem os causem aos outros. Consultar juntos a internet, “perder tempo” jogando um videogame, estabelecer os ajustes de um Smartphone serão oportunidades concretas para conversas mais profundas. « Os pais e os filhos devem dialogar em conjunto sobre aquilo que se vê e se experimenta no espaço cibernético. Também é útil compartilhar com outras famílias que tem os mesmos princípios e preocupações»[8].

Nestas idades, seria desproporcional que tivessem aparelhos conectados constantemente à internet. É melhor que sigam um plano de acesso por um tempo determinado, que se conectem somente em lugares e horários claros (desconectando-se ou desligando-o a noite), e ao mesmo tempo que lhes ensinamos a se protegerem de situações perigosas, que tenham a tranquilidade de poder apelar sempre aos pais. Como ensinava São Josemaria, « O ideal dos pais concretiza-se antes em chegarem a ser amigos dos filhos: amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consultam os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável.»[9].

Adolescentes

Ao chegar à adolescência, os filhos reclamam com grande ênfase um grau de liberdade com o qual em muitos casos não são capazes de lidar adequadamente. Isto não significa que tenham de ser privados da autonomia que lhes corresponde; trata-se de algo muito mais difícil: é preciso ensinar-lhes a administrar sua liberdade responsavelmente. Só então serão capazes de conseguir um aumento de possibilidades que lhes permita aspirar a objetivos altos.

Como afirma Bento XVI, «educar é dotar as pessoas de uma verdadeira sabedoria, que inclui a fé, para entrar em relação com o mundo; equipá-las com elementos suficientes em relação ao pensamento, aos afetos e aos juízos.»[10]. Na adolescência a formação é adquirida com liberdade e, além das regras lógicas da vida familiar, os pais contam com um recurso fundamental: o diálogo. É importante explicar o porquê de alguns comportamentos, talvez percebidos pelo jovem como formalismo. Ou as razões subjacentes a alguns procedimentos que podem ser considerados limites, mas na realidade não são simples proibições, e sim grandes afirmações que ajudam a forjar uma personalidade autêntica, que sabe ir contra a corrente. É mais eficaz mostrar como a virtude é atrativa, fazendo presentes os ideais magnânimos que têm nos seus corações, os grandes amores pelos quais são movidos: a lealdade com seus amigos, o respeito aos outros, a necessidade de viver a temperança e a modéstia, etc.

O trabalho dos pais é facilitado quando conhecem os interesses de seus filhos. Não se trata de vigilância, mas de saber o que lhes interessa, gerar a confiança necessária para que se sintam à vontade para falar do que gostam, e, se for o caso, compartilhar tempo e hobbies com eles. Há jovens que escrevem blogs ou usam redes sociais, e seus pais não sabem ou nunca leram os seus textos, e podem pensar que os pais não se interessam ou não gostam do que fazem. Para alguns pais, ver com certa frequência o que seus filhos escrevem e criam na internet será um grato descobrimento e um motivo de enriquecimento do diálogo e da vida familiar.

Também nestas idades é conveniente mostrar o valor da austeridade quanto aos dispositivos, gadgets e programas (aplicativos, etc.). Ensinar a viver o desprendimento, não só pelo que custa o hardware e o software, mas para não nos deixarmos « dominar pelas paixões, passar de uma experiência para outra sem discernimento, seguir as modas do tempo» [11], que em certas ocasiões é o comportamento induzido pela publicidade, e não é fácil manter a independência.

Além disso, será una forma de ensiná-los a viver a moderação com o tempo que passam nas redes sociais, videogames, jogos on-line, etc. Para propor estas diretrizes em casa, o modo de explicar é importante, porém a coerência dos pais importa ainda mais: viver pessoalmente estas diretrizes é o melhor modo de comunicá-las num ambiente de carinho e liberdade.

Saber explicar os porquês não requer um conhecimento técnico avançado. Em muitos casos os conselhos que os filhos necessitam para desenvolver-se nos ambientes digitais são os mesmos que orientam o comportamento nos espaços públicos: boas maneiras, recato ou pudor, respeito ao próximo, cuidado com a vista, domínio de si, etc.

De acordo com a idade de cada filho, torna-se decisivo manter diálogos profundos sobre a educação da afetividade e da verdadeira amizade. Vale a pena recordar aos filhos que o que se publica na rede costuma ser acessível a uma infinidade de pessoas em qualquer parte do mundo e que em quase todas as ocasiões o que se faz no meio digital deixa um rastro que pode ser acessado através de buscas. O mundo digital é um grande espaço no qual há que mover-se com naturalidade e senso comum ao mesmo tempo. Se na rua a criança nem pensa em falar com um desconhecido, na rede também não. Uma comunicação franca na família ajudará a entender tudo isto, e a criar um ambiente de confiança no qual se possam resolver as dúvidas e expressar as incertezas.

Juan Carlos Vásconez

@jucavas

[1] Bento XVI, Mensagem para o 45° Dia Mundial para as Comunicações Sociais (2011).

[2] Cfr. Bento XVI, Mensagem para o 47° Dia Mundial para as Comunicações Sociais(2013).

[3] Cfr. Bento XVI, Mensagem para o 43° Dia Mundial para as Comunicações Sociais (2009).

[4] Francisco, Discurso aos participantes na Plenária do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (21 de setembro de 2013), n. 3.

[5] Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, “Igreja e Internet”, (2002), n. 11.

[6] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1839.

[7] É Cristo que passa, n. 27

[8] Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, “Igreja e Internet”, (2002), n. 11.

[9] São Josemaria, É Cristo que passa n. 27.

[10] Bento XVI, Discurso por ocasião da assembleia geral da Conferencia episcopal italiana (CEI), 27 de Maio de 2010, n. 11.

[11] Francisco, palavras na Basílica Papal de Santa Maria Maior, 4 de Maio de 2013, n. 3.

Originalmente publicado aqui.

Como navegar com segurança nos mares digitais

O segredo da felicidade conjugal está no quotidiano, não em sonhos. Também no aproveitamento de todos os avanços que nos proporciona a civilização, para tornar a casa agradável, a vida mais simples, como se destaca neste editorial.

Opus Dei - Como navegar com segurança nos mares digitais

A aventura educacional, hoje, inclui o desejo de aprender e ensinar a aproveitar os novos meios e modos de comunicar para que seu uso nos ajude a amadurecer como pessoas, e para que as crianças não diminuam a qualidade de sua vida familiar, e sim que a melhorem. Portanto, não seria eficaz simplesmente proibir o uso das novas tecnologias – a privação nem sempre é via de educação–, pelo contrário, seria melhor aprender a aproveitá-las, seguindo o conselho do Papa Francisco, que disse que comunicar bem pode ajudar-nos a «conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos»[1].

O caminho adequado será acompanhar os mais jovens para que adquiram una consciência reta, e prepará-los para o dia a dia. Assim crescerão e aprenderão a comportar-se com naturalidade e sentido cristão em todos os ambientes. A tarefa de educar busca a formação em virtudes, e ao mesmo tempo semeia critérios profundos. Só desse modo os filhos poderão ter uma vida boa, ordenando e moderando seus impulsos, controlando seus atos, superando com alegria os obstáculos para buscar e fazer o bem, também na esfera digital.

Como cada pessoa é diferente, vale a pena pensar como aproximar-se de cada filho. Será conveniente buscar momentos em que marido e mulher estejam a sós para falar sobre como ajudar cada um; e, um dos âmbitos sobre o que se deve refletir é, justamente, o uso das novas tecnologias, já que educar exige tempo, dedicação e alguma organização.

A educação deve favorecer que as crianças sejam donas de si mesmas. Este objetivo é atingido ajudando-as a lutar em coisas concretas, a vencer-se em pequenas batalhas, a cumprir um horário, a respeitar o silêncio dos outros, a ter horas previstas para usar os videogames ou conectar-se à Internet. Como apontava São João Paulo II «esta fadiga e este esforço são necessários, aí se tempera o corpo, mas também o homem inteiro experimenta a alegria de dominar-se e de superar os obstáculos e resistências. Certamente, este é um dos elementos de crescimento que caracteriza a juventude»[2].

Domínio de si

O Catecismo da Igreja Católica descreve a função da temperança no sentido de «moderar», «manter», «assegurar», «orientar», «guardar»… A temperança conduz a um espírito senhoril no uso dos bens criados que se alcança «ordenando» as inclinações para o bem. Quando se vive esta virtude, «a vida recupera então os matizes que a intemperança esbate. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes»[3].

A etiqueta digital

«O desejo de conexão digital pode acabar isolando-nos do nosso próximo, de quem está mais perto de nós»[4]. Una tarefa sempre atual será a de promover as relações pessoais. Por exemplo, o modo normal de transmitir os temas decisivos, será através de uma conversa “face a face”. As coisas importantes não podem ser resolvidas ou decididas através de mensagens ou virtualmente. Poderia ser muito útil estabelecer este tipo de política em casa: para pedir desculpas depois de um mau comportamento, ou para consultar sobre um plano importante convém recorrer a conversas no mundo físico.

Além disso, é oportuno explicar com paciência a importância de não deixar-se levar pelo imediatismo. O atordoamento pode conduzir, por exemplo, a faltas de cortesia e de urbanidade com o próximo. Pode ser oportuno ter outras regras de “etiqueta digital”, como: não atender ao telefone quando se está conversando com alguém, especialmente se é uma pessoa mais velha; por em off os dispositivos eletrônicos durante as refeições; respeitar o turno para utilizar o computador da casa, etc.Também é formativo explicar por que não convém responder com a “cabeça quente”, em especial nos meios que chegam a muita gente: redes sociais, grupos de WhatsApp, etc. Nesses ambientes não é bom fazer muitas declarações, nem comunicar decisões tomadas quando estamos ofendidos ou magoados, porque nessas situações a paixão leva a dizer ou escrever coisas que pouco tempo depois podemos acabar lamentando. Se os pais estiverem atentos e perceberem que um filho deixou-se levar pela ira ou a precipitação, será una boa ocasião para ter uma conversa mais profunda, ensinando- o a temperar seu caráter, animando-o a atuar com serenidade, e a não reagir sob a influência das paixões momentâneas.

Dominar a curiosidade

Um bom caminho para consolidar a confiança que as crianças tem em seus pais, é quando desde pequenos, tentam responder às suas curiosidades, quando perguntam o porquê das coisas. Um filho só se abre com seus pais quando nota que eles estão acostumados a ouvi-lo em qualquer momento, sobre qualquer coisa. Será conveniente facilitar que perguntem as dúvidas que naturalmente vão surgindo. E quando temos as respostas talvez dizê-lo com claridade: “isto não sei, mas vou pesquisar” e depois, quando conseguimos os dados, terminar a explicação.

Se os filhos tiverem a confiança de perguntar aos pais as dúvidas que surgirem, evitaremos que resolvam todas as suas perguntas só e sempre através da internet. Muitos pais de família preocupam-se pelas facilidades que a rede oferece para acessar pornografia ou informação potencialmente danosa, como mensagens que promovem o ódio ou informações sobre como fabricar armas, etc. Inclusive, às vezes, chegamos a esses conteúdos sem termos buscado. Com poucos clics um menino inquieto pode encontrar um oceano de material violento e cheio de ódio, de sensualidade, etc. Em algumas ocasiões, esta informação encontra-se em sites que parecem inofensivos. Neste campo é importante ensinar a utilizar Internet com um objetivo claro, não só para passar o tempo, e se, sem querer aparecem conteúdos inconvenientes, cortar sem concessões, pondo em prática o conselho de São Josemaria: « Deixa-me que te repita: tem a coragem de fugir, e a energia de não manusear a tua fraqueza pensando até onde poderias chegar»[5].

Algumas vezes, pode ser útil pedir ajuda aos filhos para configurar as opções de privacidade da rede social pessoal ou conversar sobre um correio “maligno” que o pai ou a mãe receberam. Assim se pode ir dando critério, já que, afinal vão ser eles mesmos que agirão, e é importante lançar-se à “arriscada confiança” de permitir-lhes crescer em responsabilidade de acordo com suas idades.

Ajudar a focar-se

Ouve-se com frequência que as novas tecnologias favorecem a superficialidade. Sem dúvida, o que não chega a dizer-se é que o problema radica na dispersão da atenção que se produz quando se realiza de forma simultânea três ou quatro tarefas. Algumas crianças pretendem ler um livro, e enquanto isso, não só escutam música, mas ao mesmo tempo revisam as atualizações das suas redes sociais, e estão atentos às notificações que chegam ao smartphone. Esfumaça-se a linha entre uma atividade e outra. Embora seja verdade que algumas atividades podem ser feitas ao mesmo tempo, também é claro que há outras que requerem uma maior concentração, como é o caso do estudo. Normalmente o cérebro não tem capacidade de estar em várias coisas com a mesma intensidade. Será muito útil buscar formas que ajudem a centrar a atenção; além disso, será um dos melhores conselhos para que no dia de amanhã se convertam em bons profissionais.

Nesta tarefa é preciso apresentar os motivos de fundo. Ante uma pergunta como: porque não posso ver agora um vídeo de só três minutos? É necessário explicar – por exemplo – que não se trata só de tempo, mas que é melhor não acostumar-se a seguir todos os estímulos que aparecem ao nosso redor, que podem nos distrair da atividade que estamos realizando nesse momento: faz o que deves e está no que fazes[6].

Como recorda o Papa Francisco, «devemos recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar»[7]. Precisamos estar prevenidos contra a dissipação. Vale a pena evitar que a atenção se disperse excessivamente, para facilitar que os filhos se concentrem no estudo, ou para conseguir que rezem com vontade. O contrário torna tudo mais difícil, pois assimdeixas que os teus sentidos e potências bebam em qualquer charco. – E depois andas desse jeito: sem firmeza, dispersa a atenção, adormecida a vontade e desperta a concupiscência[8].

O falso atrativo da vaidade

Muitos dos avanços tecnológicos atuais, quando não são retamente utilizados, têm a potencialidade de aumentar o individualismo, de centrar tudo em melhorar a aparência manifestando uma mentalidade superficial. « Os jovens são particularmente sensíveis ao vazio de significado e de valores que muitas vezes os circunda. E, infelizmente, pagam as suas consequências»[9].

Uma manifestação de vaidade é a obsessão por incrementar a qualquer preço a quantidade de contatos (friends/followers) acumulados na esfera digital. Nas redes sociais geralmente conseguem mais seguidores aqueles que publicam com constância material interessante, divertido, ou íntimo. «O significado e a eficácia das diferentes formas de expressão parecem determinados mais pela sua popularidade do que pela sua importância intrínseca e validade. E frequentemente a popularidade está mais ligada com a celebridade ou com estratégias de persuasão do que com a lógica da argumentação» [10].

Uma possível tentação é publicar coisas íntimas, que chamam mais a atenção ou despertam a curiosidade dos outros. Os jovens saberão manter-se afastados destes extremos se lutarem – sempre positivamente – por alcançar metas altas, através de vitórias concretas em pequenos atos de virtude e vencimento.

Uma comunicação familiar fluida ajudará a compreender as questões de fundo, e a criar um ambiente de confiança no qual as dúvidas possam ser resolvidas e as incertezas manifestadas. São Josemaria geralmente aconselhava falar nobremente com os filhos, vê-los crescer com carinho, soltando a corda pouco a pouco, porque necessitam da sua liberdade e sua personalidade.

A sociabilidade

O homem é um ser social por natureza: comunicar-nos e estar em contato com outras pessoas faz parte de nosso desenvolvimento pessoal. Cada um atua em diversos círculos sociais: família, amigos, conhecidos. A adolescência é a etapa em que estas relações vão tomando forma e, principalmente, profundidade. A necessidade de relacionar-se socialmente vai muito unida ao sentido de pertencer a um grupo. As novas tecnologias oferecem recursos aos jovens para dar coesão ao grupo de amigos; de fato é comum que entre eles formem grupos virtuais e compartilhem conteúdos de acesso restrito.

As novas tecnologias podem ser usadas como meio para fortalecer as amizades que se formaram fora da rede, mas ao admitir a amizade de amigos de amigos, que não necessariamente estão no círculo íntimo, convém fazer notar que o conteúdo que ali se instale ficará disponível para um público amplo.

Porém às vezes o sentido de pertencer ao grupo pode levá-los a estar excessivamente preocupado com as atualizações nas postagens de seus amigos, das novas interações. Pode acontecer também que em reuniões sociais, ou festas, estejam mais preocupados com as fotos que tiram e do imediatismo com que as publicam na rede, do que com estar com as outras pessoas presentes na reunião. É um desafio não deixar passar essas ocasiões, e de modo amável, educá-los no respeito aos demais, na nobreza de sentimentos e na cortesia.

Fortaleza e liberdade

Ensinar a dizer que não, equivale a ensinar a dizer um grande sim, mostrando a beleza das virtudes, via para una vida feliz. Por isso, é de grande ajuda explicar o valor de opor-se razoavelmente, e de saber dizer que não – se é preciso dizer que não–, com clareza e firmeza. Dizer que não, será manifestação concreta de domínio próprio, sem perder a elegância e a moderação, nem esquecer os bons modos.

Os filhos devem encontrar em seus pais os mais decididos defensores da sua liberdade pessoal. Liberdade com responsabilidade, ainda que dependendo da idade é importante respeitar a intimidade de seus aparelhos eletrônicos. Quando tiverem smartphones ou tablets não será o comum opor-se a que ponham contra-senhas. Em algumas famílias também se anima a que em algum momento outro irmão possa compartilhar o dispositivo, e nesse caso o conteúdo ficará exposto. Dessa maneira sabem que devem ser transparentes, e que em qualquer momento alguém mais da família entrará em seus aparelhos, mesmo que de forma esporádica e inesperada, não para “farejar” mas por um sentido de desprendimento e de vida comunitária familiar.

Definitivamente não podemos esquecer que o segredo da felicidade familiar está no cotidiano, também no aproveitamento de todos os avanços que nos proporciona a civilização, para tornar a casa agradável, a vida mais simples, a formação mais eficaz[11].

Juan Carlos Vásconez

@jucavas


[1] Francisco, Mensagem para XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais

[2] São João Paulo II, Carta Apostólica Dilecti Amici, n. 14.

[3] São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, 84

[4] Francisco, Mensagem para XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais

[5] São Josemaria Escrivá, Sulco, 137

[6] São Josemaria Escrivá, Caminho, 815

[7] Francisco, Mensagem para XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais

[8] São Josemaria Escrivá, Caminho, 375

[9] Francisco, Ângelus na praça de São Pedro, 4 de agosto de 2013

[10] Bento XVI, Mensagem para XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais

[11] São Josemaria Escrivá, Questões Atuais do Cristianismo, 91

Originalmente publicado aqui.

Do contato virtual às relações pessoais

Com este texto se conclui a série sobre novas tecnologias e vida cristã. O uso das redes sociais e outros canais será positivo se facilitar uma comunicação verdadeiramente humana.

Opus Dei - ​Do contato virtual às relações pessoaisFoto: Jason Howie

O que fazer para alcançar a vida eterna? O Evangelho de São Lucas propõe esta pergunta, que um doutor da Lei dirigiu a Jesus Cristo[1]. Nosso Senhor convidou seu interlocutor a se recordar do que diziam as Escrituras, onde se encontra o mandamento do amor a Deus e ao próximo. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?[2] O Mestre respondeu com a parábola do bom samaritano, que, trazida agora a nossa consideração, pode ajudar-nos a alargar o horizonte das relações pessoais, como fez Jesus com aquele doutor da Lei, para incluir a todos os homens, sem distinções de classes ou procedências.

Ser sinceramente próximos às pessoas que nos rodeiam é um ensinamento que adquire uma especial vigência na nossa cultura, permeada pelas tecnologias de comunicação. O Papa Francisco recorre ao relato do bom samaritano para indicar como estas novas realidades tem que se converter num verdadeiro lugar de encontro entre pessoas, um meio para viver a caridade com os outros: «Não basta circular pelas ‘estradas’ digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura»[3].

Atualmente, os momentos em que entramos em contato com parentes, amigos ou colegas de trabalho, se multiplicam. Graças às novas tecnologias, a frequência da comunicação aumenta: é possível conversar com alguém que vive talvez a milhares de quilômetros de distância, e inclusive compartilhar imagens e vídeos sobre o que fazemos nesse mesmo instante. Diante desta situação, cabe perguntar-se o que podemos fazer para que esses gestos sejam mais que um simples intercambio de informação, mas um meio para estabelecer relações autênticas, com sentido cristão.

A identidade nas redes sociais

A virtude da sinceridade é imprescindível nas relações sociais. «Os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, ou seja, se não manifestarem a verdade»[4], observa São Tomás de Aquino. Assim, para manter a ordem numa comunidade é indispensável que aqueles que a compõem digam a verdade: de outro modo seria difícil empreender projetos juntos ou confiar em um líder, para dar alguns exemplos. Esta sinceridade abarca não só os fatos externos (o preço de um produto, os resultados de uma pesquisa, etc.), mas também a identidade das próprias pessoas envolvidas: quem são, qual é sua posição na sociedade, qual é sua história, etc.

Para que as relações com as pessoas sejam enriquecedoras e duradouras, é lógico que no mundo digital busquemos nos apresentar de um modo coerente com o que somos. Isto implica, por exemplo, que a identidade o “perfil” que se cria nas redes sociais reflita nosso modo de ser e de agir. Assim, quem entrar em contato conosco na rede tem a confiança de que os conteúdos que compartilhamos correspondem à vida que levamos, e que não usaremos esses meios para fins dos quais talvez nos envergonhássemos no mundo “real”.

Uma característica da condição social do homem que, conforme as relações crescem e amadurecem – no seio de uma família, ou entre amigos ‒, a sinceridade adquira um significado especial: comunica-se o que acontece no mundo interior, e não tanto os fatos externos. Expressam-se os gostos, estados de ânimo, modo de ser, opiniões. E passa a ser fundamental apresentar-se com franqueza, sem ocultar a própria identidade. No contexto atual, esta manifestação geralmente se apoia nos recursos que oferecem as novas tecnologias: uma mensagem rápida, una publicação numa rede social, um e-mail. Por este motivo, não podemos esquecer que, ao mesmo tempo em que compartilhamos noticias ou opiniões, também nos estamos dando a conhecer. Assim salienta Bento XVI ao tratar sobre as redes sociais: «As pessoas que nelas participam devem esforçar-se por serem autênticas, porque nestes espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma»[5].

Proteger as relações humanas

No ambiente digital, além de viver a sinceridade, que leva a não ocultar a própria identidade, a prudência levará a conhecer bem o alcance que tem os instrumentos e aplicativos que utilizamos para manter o contato com as pessoas, para poder adotar um estilo comunicativo adequado ao meio. O público que verá os conteúdos na rede nem sempre será o mesmo, pois em algumas ocasiões nos dirigimos a familiares, companheiros, conhecidos, membros de um grupo, etc. Ao mesmo tempo, somos conscientes de que as publicações podem ser compartilhadas e, eventualmente, alcançar uma visibilidade muito mais ampla da inicial (tornou-se uma prática habitual compartilhar mensagens ou fotografias de terceiros). Algumas vezes, este efeito é precisamente o que se buscava, por exemplo, ao informar uma noticia positiva, ou de iniciativas que vale a pena conhecer. No entanto, quando se compartilham elementos que tem a ver com a vida pessoal, a difusão excessiva já não é tão desejável. Além disso, estes conteúdos costumam deixar rastros no ambiente digital e, com certa facilidade, podem ser consultados tempos depois, quando já mudou o contexto que ajudava a entender o que se queria dizer.

Definir e controlar os limites do público e do privado nem sempre é fácil na rede. Certamente, os provedores de serviços são cada vez mais conscientes desta necessidade, e é útil conhecer as soluções técnicas disponíveis. No entanto, isto não exime da responsabilidade pessoal na gestão da própria informação: as imagens que se compartilham na rede, os comentários que se publicam. Por exemplo, uma frase que na linguagem falada seria entendida como uma brincadeira – pelo tom de voz, a expressão do rosto, etc.– na rede poderia resultar de mau gosto ou rude. Uma mensagem escrita talvez com precipitação, pode fazer os outros perderem tempo, ou ser ambígua no que diz respeito aos sentimentos que se relacionam a outras pessoas, e sem pretender, poderia gerar uma confusão desagradável.

As novas tecnologias e, concretamente, as redes sociais, estimulam o usuário a assumir um papel ativo, criando e alimentando conteúdos. Por isso, convém ser especialmente prudentes ao compartilhar elementos que aproximam da intimidade, própria ou alheia. Não é uma questão de mero controle da informação. Afeta de modo particular o sentido do pudor, que leva a proteger a própria intimidade e a dos outros, reservando os dados pessoais ou familiares que, postos ao alcance de outros, podem despertar simplesmente a curiosidade e fomentar a vaidade. Com autodomínio, é bom perguntar-se, antes de publicar algo que envolve a outras pessoas, se estas estariam de acordo em aparecer nesse contexto, ou se prefeririam que determinados eventos ou situações não fossem mostradas nas redes sociais.

Alcançar um diálogo autêntico

«O desenvolvimento das redes sociais requer dedicação: as pessoas envolvem-se nelas para construir relações e encontrar amizade, buscar respostas para as suas questões, divertir-se, mas também para ser estimuladas intelectualmente e partilhar competências e conhecimentos »[6]. As redes favorecem o diálogo e com frequência o enriquecem, pois pode ir acompanhado de imagens e textos alusivos; além disso, permitem interagir com pessoas que atuam em culturas muito diferentes da própria, em lugares longínquos. Esta possibilidade coloca-nos o desafio de estabelecer um diálogo frutífero, conservando a capacidade de reflexão quando a velocidade das conexões parece exigir-nos respostas cada vez mais imediatas. Sem querer, poderíamos afetar o diálogo por não saber esperar, e considerar as coisas com mais calma.

Como ensina a epístola de São Tiago, o domínio da língua é um ato de verdadeira caridade, pois descontrolada pode causar danos incalculáveis: Considerai como uma pequena chama pode incendiar uma grande floresta![7]. Neste sentido, pergunta São Josemaria: Sabes o mal que podes ocasionar jogando para longe uma pedra com os olhos vendados?[8] Se um comentário oral pode ter um efeito imprevisível, como não será necessário estar atentos no ambiente digital, onde pode se difundir a uma velocidade inimaginável? Bento XVI afirmava: « Por conseguinte os meios de comunicação social precisam do compromisso de todos aqueles que estão cientes do valor do diálogo, do debate fundamentado (…); de pessoas que procurem cultivar formas de discurso e expressão que façam apelo às aspirações mais nobres de quem está envolvido no processo de comunicação»[9]. Neste contexto daremos um testemunho cristão se nos esforçarmos por ter uma delicadeza especial, adotando um estilo positivo e respeitoso na rede.

Amizade e apostolado na rede

É natural que quem recebeu o dom da fé, deseje compartilhá-lo, com respeito e sensibilidade, com quem interage no ambiente digital, já que temos de conquistar, para Cristo, todo e qualquer valor humano que seja nobre [10]. É uma consequência de ser cristão, que leva a difundir o Evangelho através dos canais que tem a sua disposição. No entanto, para transmitir a mensagem cristã, convém conhecer as peculiaridades do meio que utilizamos e como funcionam as relações que aí se estabelecem. A caridade leva, mais que ao envio de mensagens religiosas explícitas a uma lista de contatos, a interessar-se pelas pessoas e ajudar a cada uma, dentro e fora da rede.

Quem tem a suficiente preparação– também técnica – pode difundir a fé através do ambiente digital. Em qualquer caso, convém estar sempre atentos ao impacto real destes meios, evitando perder energias que poderíamos investir em outras iniciativas de mais impacto apostólico. De fato, existem meios simples e eficazes para influir na sociedade que estão ao alcance de todos, como reenviar uma noticia ou artigo positivo e escrever mensagens ao autor de uma publicação. Com esta perspectiva, e tendo em conta as próprias circunstâncias pessoais, saberemos dar a justa dimensão às novas tecnologias, mediante um uso correto, virtuoso, próprio de um cristão corrente no meio do mundo.

As novas tecnologias são um novo canal para expressar a amizade. Nessa medida, também podem contribuir para aquilo que São Josemaria chamava o apostolado de amizade e de confidência[11] onde através do relacionamento pessoal, de uma amizade leal e autêntica, se desperta nos outros a fome de Deus e se ajuda cada um a descobrir novos horizontes[12]. Às vezes uma rede social é o meio para recuperar o contato com um antigo colega, ou para manter a relação com alguém que mudou de residência. No entanto, temos a experiência de que as relações pessoais se forjam especialmente durante a convivência no mundo real, e não podemos esquecer que o apostolado cristão conta especialmente com o contato direto, pois «o Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado»[13]. O desejo sincero de transmitir o tesouro da fé impulsionará os cristãos a aproximarem-se dos outros, numa autêntica amizade apostólica, que sabe servir-se de todos os meios que tem ao seu alcance, também os digitais.


[1] Cf. Lc 10, 25ss.

[2] Lc 10, 29.

[3] Francisco, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2014.

[4] São Tomás, S. Th. II-II, q. 109, a. 3 ad 1.

[5]Bento XVI, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2013.

[6] Bento XVI, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2013.

[7] Tg3, 5.

[8] Caminho, n. 455.

[9] Bento XVI, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2013.

[10] Forja, n. 682.

[11] Questões atuais do cristianismo, n. 66.

[12] É Cristo que passa, n. 149.

[13] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 24-XI-2013, n. 88.

Originalmente publicado aqui.

Cultivar a interioridade na era digital

Ligações, mensagens, tweets, alertas… telefones e computadores alteraram o nosso acesso à realidade. Como conseguir que sejam uma ajuda para o nosso dia a dia ao serviço de Deus e dos outros?

Opus Dei - ​Cultivar a interioridade na era digital

As novas tecnologias aumentaram o volume de informação que recebemos em cada instante e talvez hoje já não nos surpreenda que nos cheguem em tempo real notícias de lugares longínquos. Estar informado e ter dados do que acontece é cada vez mais fácil. Surgem, no entanto, novos desafios, e especialmente este: como gerenciar os recursos informáticos?

O aumento da informação disponível impõe a cada um de nós a necessidade de cultivar uma atitude reflexiva, isto é, ter a capacidade de discernir as informações que são valiosas, daqueles que não. Às vezes é complicado, pois «a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correta de si mesmo» [1]. A isso se junta o fato de que as tecnologias de informação nos oferecem uma grande quantidade de estímulos que demandam a nossa atenção (mensagens de texto, imagens, música), é evidente o risco de nos acostumarmos a responder-lhes imediatamente, sem ter em conta a atividade que estávamos realizando nesse momento.

O silêncio faz parte do processo comunicativo, porque facilita momentos de reflexão que permitirão assimilar aquilo que se capta e dar uma resposta adequada ao interlocutor: «escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos do outro, discernimos como exprimir-nos»[2].

Na vida cristã, o silêncio tem um papel importantíssimo, pois é condição para cultivar uma interioridade que permite ouvir a voz do Espírito Santo e secundar as suas moções. São Josemaria relacionava o silêncio, a fecundidade e a eficácia[3], e o Papa Francisco pediu orações « Para que os homens e mulheres do nosso tempo, tantas vezes mergulhados num ritmo frenético de vida, redescubram o valor do silêncio e saibam escutar Deus e os irmãos»[4]. Como conseguir esta interioridade, num ambiente marcado pelas novas tecnologias?

Foto: Esthervargas

A virtude da temperança, uma aliada

O fundador do Opus Dei indica uma experiência com a qual é fácil identificar-se: “Os assuntos fervem na minha cabeça nos momentos mais inoportunos…”, dizes. Por isso te recomendei que tratasse de conseguir uns tempos de silêncio interior…, e a guarda dos sentidos internos e externos”[5]. Para conseguir um recolhimento que leve a envolver as potências na tarefa que realizamos, e assim poder santificá-la, é preciso exercitar-se na guarda dos sentidos. E isto aplica-se de modo especial ao uso dos recursos informáticos, que ‒ como todos os bens materiais ‒ devem ser empregados com moderação.

A virtude da temperança é uma aliada para conservar a liberdade interior ao movimentar-se pelos ambientes digitais. Temperança é espírito senhoril[6], porque ordena as nossas inclinações para o bem no uso dos instrumentos com que contamos. Leva a agir de maneira que se empreguem retamente as coisas, porque se lhes dá o seu justo valor, de acordo com a dignidade de filhos de Deus.

Se quisermos acertar na escolha de aparelhos eletrônicos, na contratação de serviços, ou, mesmo, ao utilizar um recurso informático gratuito, é lógico que consideremos a sua atração ou utilidade, mas também é lógico verificar se corresponde a um estilo temperado de vida: isto leva-me a aproveitar mais o tempo, ou vai me causar distrações inoportunas? As funcionalidades adicionais justificam uma nova compra, ou é possível continuar utilizando o aparelho que já possuo?

O ideal da santidade implica ir mais além do que é meramente lícito ‒ se se pode… ‒ para perguntar-se: isto, me aproxima mais de Deus? Dá muita luz aquela resposta de São Paulo aos de Corinto: «Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma»[7]. Esta afirmação de autodomínio do Apóstolo ganha nova atualidade, quando consideramos alguns produtos ou serviços informáticos que, ao provocar uma recompensa imediata ou relativamente rápida, estimulam a repetição. Saber pôr um limite ao seu uso evitará fenômenos como a ansiedade ou, em casos extremos, uma espécie de dependência. Pode servir-nos neste campo aquele breve conselho: Acostuma-te a dizer que não[8], atrás do qual se encontra uma chamada a lutar com sentido positivo, como o próprio São Josemaria explicava: Porque desta vitória interna sai a paz para o nosso coração, e a paz que levamos para os nossos lares – cada um, ao seu – e a paz que levamos à sociedade e ao mundo inteiro[9].

O uso das novas tecnologias dependerá das circunstâncias e necessidades próprias. Por isso, neste âmbito cada um ‒ ajudado pelo conselho dos outros ‒ deve encontrar a sua medida. Deve-se sempre perguntar se o uso é moderado. As mensagens, por exemplo, podem ser úteis para manifestar proximidade a um amigo, mas se fossem tão numerosas que implicassem interrupções contínuas no trabalho ou no estudo, provavelmente, estaríamos caindo na banalidade e na perda de tempo. Neste caso, o autodomínio ajudará a vencer a impaciência e a deixar a resposta para mais tarde, de modo que possamos ocupar-nos de uma atividade que exigia concentração, ou, simplesmente, prestar atenção a uma pessoa com quem estávamos conversando.

Certas atitudes ajudam a viver a temperança neste campo. Por exemplo, conectar o acesso às redes a partir de uma hora determinada, fixar um número de vezes por dia para olhar para a conta de uma rede social ou para ver o correio eletrônico, desligar os dispositivos à noite, evitar o seu uso durante as refeições e nos momentos de maior recolhimento, como são os dias dedicados a um retiro espiritual. A Internet pode consultar-se em momentos e locais apropriados, de forma a não se colocar numa situação de navegar pela internet sem um objetivo concreto, com o risco de encontrar conteúdos que contradizem uma postura cristã da vida ou, pelo menos, perder o tempo com trivialidades.

O convencimento de que as nossas aspirações mais elevadas estão além das satisfações rápidas que nos poderia dar um click, dá sentido ao esforço por viver a temperança. Através desta virtude, forjamos uma personalidade sólida e a vida recupera então os matizes que a intemperança esbate. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes[10].

O valor do estudo

O hábito do estudo, que ordena o desejo de chegar a metas nobres, costuma relacionar-se com a temperança. São Tomás caracteriza a virtude da studiositas como um «certo entusiasmante interesse por adquirir o conhecimento das coisas»[11], que implica a superação da comodidade e da preguiça. Quanto mais intensamente a mente se aplicar em algo pelo fato de tê-lo conhecido, tanto mais se desenvolve regularmente o seu desejo de aprender e de saber.

O desejo de saber é enriquecedor quando se põe ao serviço dos outros e contribui para cultivar um reto amor ao mundo, que nos impulsiona a seguir a evolução das realidades culturais e sociais em que nos movemos e que queremos levar para Deus. Mas isto é diferente de viver para o exterior, dominado por uma curiosidade que se manifestaria, por exemplo, na ânsia de estar informados de tudo ou de não querer perder nada. Essa atitude desordenada acabaria por conduzir à superficialidade, à dispersão intelectual, à dificuldade para cultivar o convívio com Deus, à perda do interesse apostólico.

As novas tecnologias, ao ampliarem as fontes de informação disponíveis, são uma ajuda valiosa no estudo de assuntos tão variados como um projeto de pesquisa acadêmica, a escolha de um local para as férias com a família, etc. No entanto, existem também várias formas de desordem do apetite ou desejo de conhecimento: uma pessoa pode abandonar um determinado estudo que constitui para ela uma obrigação e começar «outra pesquisa menos proveitosa»[12]. Por exemplo, quando a atenção se centra na resposta a uma mensagem ou à última atualização, em vez de se concentrar no estudo ou no trabalho.

A curiosidade desmedida, que São Tomás caracterizava como uma «inquietação errante do espírito»[13], pode conduzir à acídia: uma tristeza do coração, um peso da alma que não consegue responder à sua vocação que exige pôr atenção e esforço no convívio com o próximo e com Deus. A acídia é compatível com certa agitação da mente e do corpo, mas que só reflete a instabilidade interior. Por outro lado, o hábito do estudo mantém o vigor na hora de trabalhar e de se relacionar com os outros, dá eficácia ao tempo que gasto e, ainda, ajuda pra poder apreciar as atividades que exigem um esforço mental.

Proteger os tempos de silêncio

A temperança prepara o caminho para a santidade, pois constrói uma ordem interior que permite empregar a inteligência e a vontade naquilo que se tem entre mãos:Queres de verdade ser santo? – Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes[14]. Para receber a graça divina, para crescer em santidade, o cristão tem de que entrar naquela atividade que é a sua matéria de santificação.

As novas tecnologias favorecem a superficialidade? Dependerá, sem dúvida, do modo como se utilizem. No entanto, é necessário estar prevenido contra a dissipação:Deixas que os teus sentidos e potências bebam em qualquer charco. – E depois andas desse jeito: sem firmeza, dispersa a atenção, adormecida a vontade e desperta a concupiscência[15].

Evidentemente, quando se cede à dissipação por um emprego desordenado do telefone ou da internet, a vida de oração encontra obstáculos para o seu desenvolvimento. No entanto, o espírito cristão leva a conservar a calma enquanto nos movemos com desenvoltura nas diversas circunstâncias da vida moderna: os filhos de Deus, temos de ser contemplativos: pessoas que, no meio do fragor da multidão, sabem encontrar o silêncio da alma em colóquio permanente com o Senhor[16].

São Josemaria salientava que o silêncio é como que o porteiro da vida interior[17], e nesta linha encorajava os fiéis que vivem no meio do mundo a ter momentos de maior recolhimento, compatíveis com um trabalho intenso. Dava especial importância à preparação da Santa Missa. Num ambiente penetrado pelas novas tecnologias, os cristãos sabem encontrar tempos para o trato com Deus, onde os sentidos, a imaginação, a inteligência, e a vontade podem se recolher. Como o profeta Elias, descobrimos o Senhor não no ruído dos elementos e no ambiente, mas num sussurro de brisa suave[18].

O recolhimento que abre espaço ao colóquio com Jesus Cristo exige deixar em segundo plano outras atividades que reclamam a nossa atenção. A oração pede que nos desliguemos do que nos possa distrair e, com frequência, será oportuno que esse desligar seja físico, desativando as notificações de um dispositivo, fechando os programas em execução ou, eventualmente, desligando o equipamento. É o momento de dirigir o olhar para o Senhor, e deixar nas Suas mãos o resto.

Por outro lado, o silêncio leva a estar atento aos outros e reforça a fraternidade, para descobrir pessoas que necessitam de ajuda, de caridade e de carinho[19]. Numa época em que contamos com recursos tecnológicos que parecem empurrar-nos para encher o nosso dia de iniciativas, de atividades, de ruído, é bom fazer silêncio fora e dentro de nós. Neste sentido, ao refletir sobre o papel dos meios de comunicação social na cultura atual, o Papa Francisco convidou a «recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar. (…)Se estamos verdadeiramente desejosos de escutar os outros, então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições»[20]. O esforço para formar uma atitude pessoal de escuta, e a promoção de espaços de silêncio, abre-nos aos outros e, de modo especial, à ação de Deus nas nossas almas e no mundo.

J.C. Vásconez ‒ R. Valdés


[1] Francisco, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2014.

[2] Bento XVI, Mensagem para Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2012.

[3] Cf. Sulco, nn. 300 e 530.

[4] Francisco, Intenção geral para o apostolado da oração para setembro de 2013.

[5] Sulco, n. 670.

[6] Amigos de Deus, n. 84.

[7] 1 Cor 6, 12.

[8] Caminho, n. 5.

[9] S. Josemaria, Apontamentos tomados numa tertúlia, 28-X-1972.

[10] Amigos de Deus, n. 84.

[11] São Tomás, S. Th.II-II, q. 166, a. 2 ad 3.

[12] São Tomás, S. Th.II-II, q. 167, a. 1 resp.

[13] São Tomás, De Malo, q. 11, a. 4.

[14] Caminho, n. 815.

[15] Caminho, n. 375.

[16] Forja, n. 738.

[17] Caminho, n. 281.

[18] Cfr.1 Re 19, 11-13.

[19] Questões atuais do cristianismo, 96

[20] Francisco, Mensagem para a XLVIII Jornada Mundial das comunicações sociais, 24 de janeiro de 2014.

Originalmente publicado aqui.

Novas tecnologias e coerência cristã

Este artigo estimula a desenvolver um estilo “virtuoso” de utilizar as tecnologias móveis, para que sejam instrumentos úteis que acompanhem o cristão em sua vida diária.

Opus Dei - Novas tecnologias e coerência cristã

A tecnologia está cada vez mais presente no dia a dia de grande parte da humanidade. A facilidade de acesso a celulares e computadores, unido à dimensão global e a presença capilar da Internet, multiplicaram os meios para enviar instantaneamente palavras e imagens a grandes distâncias em poucos segundos.

Muitos benefícios se derivam desta nova cultura de comunicação: as famílias podem permanecer em maior contato apesar de seus membros estarem muito longe uns dos outros; os estudantes e pesquisadores têm acesso fácil e imediato a documentos, fontes e novidades científicas; finalmente, a natureza interativa dos novos meios proporciona formas mais dinâmicas de aprendizagem e de comunicação que contribuem para o progresso social [1].

Pode-se afirmar que, além do ambiente físico onde se desenvolvem nossas vidas, atualmente existe também um ambiente digital, que não pode ser considerado simplesmente «um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade quotidiana de muitas pessoas, especialmente dos mais jovens» [2].

A unidade de vida no ambiente digital

As novas tecnologias são fonte de grandes possibilidades. Ampliam o conhecimento sobre diversos temas – notícias, métodos de trabalho, oportunidades de negócio, etc. – e assim abrem opções para a pessoa que deve decidir sobre várias questões; contribuem para que a informação seja processada e atualizada com rapidez, difunda-se pelo globo com facilidade, e esteja disponível em qualquer lugar, também no celular que temos na palma da mão.

Para o cristão, todas estas novas possibilidades se enquadram num exercício positivo da própria liberdade, que se configura assim como «uma força de crescimento e de maturação na verdade e na bondade»[3]. Este exercício virtuoso leva a atuar conforme o que cada um é, com a autenticidade de quem vive uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser — na alma e no corpo — santa e plena de Deus [4].

A chamada à santidade dá sentido e unifica todas as obras dos batizados. São Josemaria ensina: Nós, os cristãos, não suportamos uma vida dupla: mantemos uma unidade de vida, simples e forte, em que se fundamentam e se compenetram todas as nossas ações [5]. Não temos um modo de atuar no “mundo virtual” e outro no “mundo real”. A unidade de vida leva a apresentar-se e mover-se no ambiente digital de um modo coerente à situação pessoal, empregando todas as possibilidades para cumprir melhor os deveres cotidianos com a família, a empresa e a sociedade.

Por isso, cada um deve saber levar a sua própria identidade, que é uma identidade cristã, aos ambientes digitais [6]. Como as novas tecnologias permitem trabalhar com certo anonimato, e inclusive criar identidades falsas, corre-se o risco de transformá-las em um “refúgio” que distrai de enfrentar a inegável realidade que temos à nossa frente: Portanto, deixem-se de sonhos, de falsos idealismos, de fantasias, disso que costumo chamar de mística do oxalá: oxalá não me tivesse casado, oxalá não tivesse esta profissão, oxalá tivesse mais saúde, oxalá fosse jovem, oxalá fosse velho…; e atenham-se, pelo contrário, sobriamente, à realidade mais material e imediata, que é onde o Senhor está[7].

O ambiente digital configura-se hoje em dia como una “extensão” da própria vida cotidiana, e o lógico será que torne um lugar de busca da santidade e de apostolado, pois também influímos nos outros ao atuar na rede social. Isto é especialmente importante para aqueles que, talvez por seu cargo ou posição, contam com certa ascensão sobre outros: por exemplo, os pais de família, professores, dirigentes, etc.

Atuar com autenticidade cristã implica trabalhar de tal modo que à sua volta se perceba o bonus odor Christi (cfr. 2 Cor 2, 15), o bom odor de Cristo [8] de modo que através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre [9]: também no ambiente digital.

Viver as virtudes e ser almas de critério

Evidentemente, o uso das novas tecnologias depende da situação de cada pessoa (idade, profissão, ambiente social), de suas possibilidades e conhecimentos. Nem todos estão chamados a usá-las, e não serão vistos com receio por isso. Podem-se comparar as habilidades informáticas com dirigir um carro: apesar de não ser indispensável que todos saibam dirigir, é muito útil que alguns tenham esta capacidade.

Neste sentido, foram desenvolvidas certas habilidades específicas e modos adequados de comportamento para transitar no ambiente digital. De fato, em vários lugares se está criando uma legislação sobre o uso dos meios informáticos, pela repercussão que tem no bem comum. Contribuem ao bem integral da pessoa quando facilitam a implantação das virtudes cristãs e o respeito da lei moral. Assim, progresso técnico e formação ética irão lado a lado, de modo que sejamos robustecidos do vosso homem interior [10], que se caracteriza por utilizar estes meios com liberdade e responsabilidade.

Para gerenciar com prudência as novas tecnologias, além de contar com um mínimo de conhecimentos técnicos, é necessário discernir as possibilidades e os riscos que comportam. Isto implica ter presente, por exemplo, que tudo que se faz na rede social (escrever um e-mail, fazer uma ligação, enviar um sms, postar um arquivo, etc.), não é algo completamente privado; outros podem ler, copiar ou alterar esses conteúdos, e pode ser que nunca saibamos quem o fez nem quando.

Além disso, o usuário terá que incentivar uma atitude reflexiva para utilizar com eficácia as numerosas possibilidades informáticas que se apresentam. Com frequência, os interesses comerciais propõem o oposto do imperativo ético “se deves, podes”, que seria: “se podes, deves”. A prudência ajuda a relativizar o senso de urgência que algumas notícias ou ofertas comerciais apresentam, e a dedicar o tempo necessário para que as decisões no “mundo virtual” correspondam às necessidades reais. Trata-se, no fundo, de procurar o crescimento no ser, e não só em ter, pois também aos recursos informáticos se aplica aquela advertência de Jesus Cristo: Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína?[11]

Em certo sentido, as novas tecnologias apresentam mundos de informação, notícias, contatos, e cada um terá que refletir sobre como, nas suas circunstâncias, pode aproveitar estes recursos de uma maneira positiva, sem que seu uso lhe faça perder o domínio das próprias ações. Em qualquer caso, é preciso descartar aquela «ideia de autossuficiência da própria técnica, quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, deixa de considerar os muitos porquês pelos quais é impelido a agir» [12].

No entanto, não bastaria seguir uma “lista de regras” ou de “critérios” que provavelmente estaria superada em pouco tempo, numa área que evolui constantemente. Estas regras são úteis, porém o ideal é conseguir que o uso das novas tecnologias leve à melhoria integral da pessoa.

Por isso, é mais importante – e mais fascinante – concentrar os esforços em adquirir bons hábitos: em última análise, virtudes. Quem desenvolve um “estilo” virtuoso de utilizar os dispositivos eletrônicos e as redes sociais, sabe adaptar-se com facilidade às mudanças, e discernir as vantagens e riscos dos avanços informáticos à luz de sua vocação cristã. Retomando umas palavras de São Josemaria, poderíamos dizer que também aqui o ideal é converter-se em uma alma de critério [13].

Um novo campo para a formação

Normalmente, não se aprende a dirigir um carro sozinho: é necessário passar algum tempo com algum familiar ou instrutor, que dá conselhos e mostra os perigos na estrada. Algo similar ocorre com o uso das novas tecnologias: notamos a importância de acompanhar os outros, especialmente se a pessoa que começa a utilizá-las é jovem. É conveniente que adquira certa independência – como o motorista, que algum dia terá que dirigir o carro sozinho –, e para isso é necessário um trabalho educativo autêntico: «Vivemos numa sociedade da informação que nos satura indiscriminadamente de dados, todos postos ao mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade, no momento de enquadrar as questões morais. Por conseguinte, torna-se necessária uma educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um caminho de amadurecimento nos valores» [14].

É lógico, portanto, que nos diversos centros educativos se preste atenção crescente à formação no uso virtuoso dos meios informáticos. Esta tarefa não se limita a alcançar a simples “alfabetização tecnológica” ou ensinar as últimas inovações, mas procurará que as crianças desenvolvam os hábitos morais para utilizarem-nas com critério, aproveitando o tempo.

A formação não termina com a juventude: em todas as idades é natural apoiar-se no conselho de pessoas com mais experiência, familiares e amigos. Afinal, estamos diante de uma “extensão da vida cotidiana”, que compartilhamos com as outras pessoas. Por exemplo, muitos a direção espiritual pessoal é um bom momento para estudar juntos os horários para se utilizar a internet ou as redes sociais, como abordar algum problema ou mal entendido que possa ter surgido ao utilizá-los, ou as iniciativas apostólicas que poderiam ser feitas nesse campo.

Nos próximos editoriais abordaremos em profundidade o uso virtuoso das novas tecnologias. Abordaremos hábitos e atitudes que, pelo caráter destes meios, são especialmente oportunos: temperança, estudo, recolhimento. Além disso, como muitos relacionamentos pessoais ocorrem habitualmente pelo ambiente digital, também prestaremos atenção às virtudes mais relacionadas com a sociabilidade, que permitem cumprir a meta que São Pedro propõe aos cristãos de estarem sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança[15].

J.C. Vásconez – R. Valdés

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[1] Cf. Bento XVI, Mensagem para a XLIII Jornada mundial das comunicações sociais,Novas tecnologias, novas relações, 24 de maio de 2009.

[2]Bento XVI, Mensagem para a XLVII Jornada mundial das comunicações sociais,Redes Sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços para a evangelização, 24 de janeiro de 2013.

[3]Catecismo da Igreja Católica, n. 1731.

[4]Questões atuais do cristianismo, n. 114.

[5]É Cristo que passa, n. 126.

[6]Francisco, Discurso ao Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, 21 de setembro de 2013, n. 2.

[7] Questões atuais do cristianismo, n. 116.

[8]É Cristo que passa, 105.

[9]Ibid.

[10]Ef 3,16.

[11]Lc 9,25.

[12]Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, n. 70.

[13]Caminho, Ao leitor.

[14]Francisco, Ex. Ap. Evangelii gaudium , 24 de novembro de 2013, n. 64.

[15]1 P 3,15.

Originalmente publicado aqui.

Lula busca FHC para discutir crise e conter impeachment

O ex-presidente Lula, do PT, e o ex-presidente Fernando Henrique, do PSDB
O ex-presidente Lula, do PT, e o ex-presidente Fernando Henrique, do PSDB

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou amigos em comum a procurar seu antecessor, o tucano Fernando Henrique Cardoso, e propor uma conversa entre os dois sobre a crise política. O objetivo imediato do movimento é conter as pressões pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Há cerca de duas semanas, amigos de Lula discutiram separadamente com ele e FHC a possibilidade de um encontro dos dois. Os contatos ocorreram às vésperas de o tucano viajar de férias para a Europa.

Lula disse a aliados que a conversa poderia ser por telefone e antes de Fernando Henrique viajar. O tucano preferiu deixar a definição de um eventual encontro para ser discutida depois que ele voltar ao Brasil, em agosto.

Não foi o primeiro aceno de Lula à oposição. Em maio, ele encontrou o senador José Serra (PSDB-SP) na festa de um amigo comum e disse que gostaria de marcar uma conversa reservada. Lula derrotou Serra na eleição de 2002.

Lula tem mantido somente os aliados mais próximos informados sobre essas conversas, e só avisou que procuraria Fernando Henrique na véspera de autorizar os contatos com o antecessor.

A intenção do petista é buscar um conciliador na oposição para tentar dissipar, pelo menos dentro do PSDB, as forças que trabalham pelo impeachment da presidente.

A crise que envolve Dilma aprofundou-se nas últimas semanas, com o avanço das investigações sobre corrupção na Petrobras, a crise econômica e a rebeldia dos aliados do PT no Congresso.

SEM INTERMEDIÁRIOS

Por meio de nota, a assessoria de imprensa do Instituto Lula afirmou nesta quarta-feira (22) que o ex-presidente não tem interesse em conversar com Fernando Henrique nem soube de nenhum interesse da parte do antecessor.

Por e-mail, Fernando Henrique disse à Folha: “O presidente Lula tem meus telefones e não precisa de intermediários. Se desejar discutir objetivamente temas como a reforma política, sabe que estou disposto a contribuir democraticamente. Basta haver uma agenda clara e de conhecimento público.”

Serra não quis confirmar o conteúdo da conversa que teve com Lula em maio, e disse apenas que não tem nenhum encontro marcado com ele.

As informações sobre a movimentação de Lula foram confirmadas à Folha por integrantes do Instituto Lula e políticos de três partidos. Para a assessoria de Lula, “relatos anônimos” servem apenas para alimentar “especulação”.

RADICALIZAÇÃO

A aliados com quem discutiu o assunto, Lula disse preferir uma conversa discreta com FHC. O petista tem procurado evitar que seus movimentos ampliem a radicalização do ambiente político.

Lula, que fez recentemente críticas ao modo como Dilma vem lidando com a crise, tem procurado agir como bombeiro e procurou líderes do PMDB, como o senador Renan Calheiros (AL), para conter os ânimos no Congresso.

O ex-presidente debateu com seus auxiliares durante meses a decisão de buscar reaproximação com os tucanos. Os petistas sabem que a radicalização da campanha presidencial do ano passado, em que Dilma atacou FHC, tornou mais difícil o diálogo com eles.

No PSDB, há dúvidas sobre a conveniência de uma conversa que tenha como tema a governabilidade de Dilma. Mesmo tucanos considerados moderados, que hoje são contra o impeachment, temem que um diálogo com o PT seja visto como conchavo e arranhe a imagem do partido.

O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), que foi derrotado por Dilma na eleição presidencial do ano passado, é visto pelos petistas como um dos principais obstáculos a qualquer tentativa de acerto entre os dois grupos políticos.

Originalmente publicado aqui.