A utilidade do inútil

Por Dom Lourenço de Almeida Prado

Costuma-se dizer que a cultura é aquilo que fica em nossa mente, depois que esquecemos o que havíamos aprendido na escola. A afirmação é feita, quase sempre, em desapreço para o aprendizado escolar, querendo significar que as coisas aprendidas, nessa ocasião, são mecanismos ou informações memorizadas, sem alcance prático e, assim, inteiramente inúteis. Sobrecarga que deve ser esquecida o mais cedo possível.

Na verdade, entendida com um pouco mais de lucidez, com um olhar mais atilado, ela exprime, embora em contraste meio esquemático, a admirável função cultural da escola de crianças e adolescentes: cultura é realmente o que fica do aprendizado escolar. Mas o que fica, não como algo lateral e concomitante, sim como produto ou frutificação amadurecida da matéria tratada nas salas de aula. É aprendendo Capitanias Hereditárias, Mem de Sá e D. João VI que se forma o espírito cívico e a estima (o amor) pela pátria. É aprendendo mecanismos matemáticos, que a máquina de calcular vai esvaziar de qualquer utilização prática visável que se apura o senso lógico e se aviva o raciocínio. É decorando vocabulário e submetendo Camões à aparente agressão da análise lógica que o homem se torna mais homem – “Homo sapiens”- isto é, que ele dá vigor e plenitude à palavra e à linguagem e, por meio delas ou dentro delas, à faculdade de pensar. É aprendendo filosofia (o mais inútil dos conhecimentos), as regras do raciocínio que se chega à mente sadia. E que falar da língua estrangeira?

Nem tudo, diz o filósofo, se ensina na escola, mas tudo se aprende, ou, ao menos, se começa a aprender. Não se ensina a amizade, a intuição, à sabedoria, mas é ensinando matemática e geografia que se aprende o amor e a amizade; é aprendendo Machado de Assis que se abre a mente para os vôos intuitivos; é aprendendo de todas essas coisas esquecíveis e, não raro, penosas, que se sobe à sabedoria.

Há um tema muito em foco, nestes dias, que pode ajudar-nos a perceber que esse aprendizado das coisas, mais altas não se faz diretamente. É subindo por picadas pouco ensolaradas da floresta, que se chega ao sol claro do cume da montanha. Refiro-me à tão falada formação para a cidadania. Não há quem não sinta que há necessidade de um cuidado atento na formação para a cidadania. Entretanto, toda a tentativa de criar uma disciplina específica – chame educação cívica ou ensino da cidadania – tem acabado ou acaba num estudo estéril de cânticos ou símbolos patrióticos quando não se desvia para o mais grave: a imposição conscientizadora daquilo que o chefe pensa cuja conseqüência é a redução do “cidadão” a um escravo orgulhoso de o ser. A cidadania se aprende e precisa ser aprendida, mas não pode ser ensinada como uma disciplina. É estudando história, filosofia social ou a estrutura de um governo democrático, o que é uma lei, é, sobretudo, estudando o homem, a sua índole social, as suas postulações éticas naturais e o seu relacionamento com Deus, que se chega a homem capaz de viver e exigir a nobreza da cidadania.

Outro aspecto dessa tendência perversa a diminuir a sala de aula é a de colocar em ridículo a postura grave do professor. Essa prática corrosiva põe em risco essa riqueza da comunicação humana, em que os mais velhos ajudam os mais moços a conquistarem a sua plenitude, que é o trabalho escolar. E o aprendizado escolar é posto em ridículo e tido por inútil. A ninguém escapa que, seja por limitação dos participantes, desgaste da rotina, não faltam defeitos na sala de aula. Se há aspectos merecedores da crítica, investir contra a própria obra, não só é injusto, mas enfraquece um serviço sem o qual a cultura não vem e o homem, animal da cultura, não chega a ser homem.

A conclusão a que nos conduzem estas reflexões não se limita ao reconhecimento de que Aristóteles tinha razão quando dizia que o aprendizado das coisas inúteis é sumamente útil. Nem se esgotaria com uma explicação de que as coisas inúteis – a cultura, por exemplo (nada mais inútil) – são úteis, não só como portadoras de alegria mas porque é por aí que o homem conquista a sua plenitude humana, sem a qual, não haverá o bom jurista ou o bom médico.

Há um veneno desumano nessa falta de apreço para o aprendizado escolar fundamental e médio. É o veneno utilitarista e pragmatista. Em vez de colocar como meta a formação do homem, de sua mente sadia e descortinada, para que se torne um ser livre e tenha trabalho como um desdobramento disso, pensa-se na preparação direta de um emprego, graças a uma habilitação manualista. Além de reduzir o homem a um “torcedor de parafusos”, como Carlitos nas “Luzes da Cidade’’, fechando o seu horizonte às grandezas do pensamento e da beleza, essa orientação é contraproducente mesmo na direção ao prático ou utilitário. O trabalho humano não é um trabalho animal, mas um trabalho criativo que, ao contrário do robô, flui de uma inteligência que lhe dá vida e o torna jubiloso. Além disso, no mundo de hoje, em constante mutação, só a cultura e a formação básica permitem a adaptação a novos modelos e capacitam para a atualização permanente. Num tempo em que as novas profissões ou novas técnicas surgem, a cada instante, e outras tantas se extinguem, o utilitarismo conduz ao vazio e a preparação para o emprego acaba no desemprego.

Vem a propósito fechar estas reflexões referindo-me a uma forma muito espalhada de apresentar a convivência professor/aluno, na sala de aula: uma espécie de teatro de rigidez artificial, desmedida e fingida. Toma-se como sério e vultoso episódios normais da vida infantil. A malandragem infantil é tratada com severidade irreal. Ainda há dias, um jornal apresentou, com destaque, um poema em que o pretendido poeta não só se queixa de ter sido premido, na escola, a decorar as capitanias hereditárias (talvez devesse queixar-se ou nós poderíamos queixar-nos daquele que o ensinou a escrever permitindo-lhe o poema), mas critica a escola que o puniu por ter colado, por não ter feito o dever, por não querer ir à aula ou por não ter querido estudar. “Eu quero jogar botão, videogame, bola de gude’’, “eu não quero sair da minha cama”. Acha o poeta que nada disso devia ser tido como motivo de punição. Ridiculariza ou quer ridicularizar o mestre porque lhe deu zero ao surpreendê-lo colando. Que tem colar? Que tem não fazer o dever? Esquece-se de que é aproveitando as pequeninas coisas que se vai criando o senso de responsabilidade, que é corrigindo os pequenos erros que se forma o senso moral, o senso do certo e do errado e se evitam os grandes erros. A tolerância generosa para a malandragem infantil é a raiz do grande irresponsável.

(Texto publicado no Jornal Estado de São Paulo em 5/8/1995)

Dom Lourenço de Almeida Prado faleceu em 2009 aos 97 anos. Foi reitor do tradicional colégio para meninos São Bento, uma das mais renomadas instituições de ensino do país. Nasceu na cidade paulista de Bica da Pedra (hoje, Itapuí). Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1935. Também cursou Filosofia, Sociologia e Teologia. Entrou para o Mosteiro de São Bento em 1940, e se formou sacerdote em dezembro de 1946. Foi o reitor do Colégio São Bento que mais tempo ficou no cargo, por 46 anos.

Originalmente publicado aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s