Sobre o Dilema Estético-Sentimental da Política Evangélica Contemporânea

Escrevo a contragosto, arrancado do meu exílio blogosférico pela força das circunstâncias. Deveria estar agora trabalhando em meu livro encomendado em eras passadas, inacabado e, aparentemente, inacabável. Mas é dura cousa golpear os aguilhões do processo histórico.

Para encurtar, lancemo-nos diretamente ao assunto, introduzido de forma pedante no título por uma absoluta falta de imaginação nessa tarde fria de sexta feira: afirmo que o problema da política evangélica hoje é um problema estético; um problema de aisthesis, de distúrbios de percepção e de efeito sentimental, que ocultam uma fragilidade mais profunda: a falta da fonte verdadeira dos sentimentos verdadeiros, que é a beleza verdadeira, a que nasce da união entre o bem e a verdade.

DOIS EVANGELICISMOS POLÍTICOS
Assisti ontem a dois vídeos emblemáticos. O primeiro, publicado pela Carta Capital (VEJA AQUI), mostra alguns líderes Cristãos bastante conhecidos, como Ed René Kivitz, Levi Correa e o Deputado Carlos Alberto Bezerra explicando ao público estupefato da TV Carta que os evangélicos não são todos iguais: há evangélicos progressistas que compreendem as complexidades da vida moderna, que são pluralistas e dialógicos e, acima de tudo, que não devem ser confundidos com a “bancada evangélica”, a famigerada corja fundamentalista e (na maioria) neopentecostal que se apossou da representação política do protestantismo nos últimos anos. No conjunto, o vídeo constitui um ato político pedagógico ou educacional, visando publicizar divergências políticas dentro da comunidade evangélica; seu interesse parece duplo: (a) proteger a respeitabilidade pública do evangelicismo progressista e, quem sabe, de quebra, da fé evangélica; e (b) agremiar e capitalizar o setor mais progressista da igreja evangélica, hoje bastante “órfão” ou, ao menos, abandonado diante do crescente avanço do neopentecostalismo fundamentalista.

O segundo vídeo, gravado pela TV Câmara ontem (VEJA NOTA AQUI), mostra mais uma façanha do excêntrico e impagável Silas Malafaia. Poderia ser uma comédia, se o assunto não fosse tão grave. No vídeo o pastor, ícone, para as esquerdas, da bancada “BBB” (Bíblia, Bala e Boi) submete as ideias da deputada esquerdista Érika Kokay a um impiedoso escrutínio público, mostrando as inconsistências manipulativas de seu discurso, sua flagrante inconstitucionalidade, sua dependência da ingerência do ativismo judiciário brasileiro sobre o legislativo, e sua visão distorcida sobre a laicidade do Estado, que faria do legislativo uma casa laicizante – sonho impossível e perverso, como apontou o pastor, já que a casa representa toda a sociedade em sua pluralidade, incluindo, com isso, as populações religiosas. A deputada abandona o plenário a certa altura, enquanto as expressões de apoio ao BBB e a chacota à dignitária humilhada em público transformam o lugar em um campo de futebol. Fragorosa derrota.

“O BELO, O FEIO E O MAU”*
O problema é notoriamente estético. Não apenas isso, naturalmente; mas é impossível não observar a trama estética que se desenha. O pastor Silas Malafaia é um desastre estético; fere a percepção; é iracundo, agressivo, gritando atropeladamente seus argumentos com aquela vozinha desesperadamente irritante, sem pausas, sem nuances, sem pedir atenção, gesticulando loucamente, como se estivesse em um bate-boca de adolescentes no intervalo da escola. Uma coisa horrorosa.

Horrorosa, sim; mas só ouvi verdades. Não humilhou Erika Kokay porque foi indelicado, ofensivo ou estridente, mas porque expôs a hipocrisia biopolítica da esquerda. Expôs sua perversa intenção de contornar instâncias menores da estrutura social – a família, acima de tudo – para atingir diretamente a criança e o adolescente através da pregação politicamente correta de um estado aparelhado pela ideologia de gênero (que alguns “evangélicos” a serviço sabe-se lá de quem, insistem em negar). Um amigo disse que Malafaia “mitou”. Mitou mesmo, meus amigos; odeio admiti-lo, pois odeio a teologia da prosperidade pregada e praticada por esse indivíduo, mas…Noblesse Oblige.

Mesmo assim, foi feio, desagradável, indigesto; esteticamente desastroso. Nesse sentido, a fala do Pastor Levi Correia no vídeo da Carta Capital é mais do que iluminadora:

“derrepente se juntam, formam uma tal de uma bancada da bíblia, que junto com a bala, que junto com a bancada do boi, que junto com a bancada da jaula, formam a bancada mais horrorosa que esse país já teve, e o pior: com batuta de camarada que se diz evangélico…”

Claro, claro, o termo “horrorosa”, aqui, tem o sentido de uma analogia estética; é como quando dizemos que “o fulano teve uma vida bonita”, querendo com isso dizer que foi uma vida ética e coerente. A bancada é horrorosa porque é imoral, ou injusta, ou perversa.

Mas isso está claro? De jeito nenhum. A bancada mais horrorosa que o país já teve não é a bancada da Bíblia; ou melhor: talvez ela seja a mais horrorosa, mas isso é insuficiente. A feiura é a desproporção, a desarmonia; muitas coisas podem tornar algo horroroso; entre elas, o desarranjo de uma coisa bela forçada entre coisas feias. A bancada da Bíblia pode ser horrível porque há uma desarmonia entre suas bandeiras e o seu comportamento; ou pode ser horrível porque suas bandeiras são todas horrorosas; ou pode ser horrível porque não combina com a estética política da esquerda.

Mas sem dúvida há coisas igualmente ou até mais horrorosas do que a bancada da bíblia, no circo de horrores da política Brasileira. Por exemplo: o governo petista tem se tornado uma das coisas mais feias que o país já viu. Lula virou o sapo-barbudo de novo. E os evangélicos progressistas que apoiaram o avanço recente da esquerda, estão, em sua incrível recalcitrância, virando sapos também, um a um – pelo menos do ponto de vista do evangelicismo e do catolicismo conservador. A esquerda perdeu grande parte da sua “beleza” nos últimos meses, e a feiura da conivência e do silêncio está ferindo os olhos e ouvidos até dos mais simpáticos.

Feiuras sem fim. Sabe aquele rosto que parece bonito mas nos é desagradável, e não sabemos dizer exatamente porquê? É o caso do progressismo evangélico. É difícil dizer aonde está a desproporção, mas ela está lá: no silêncio conveniente sobre o casamento igualitário, sobre a ideologia de gênero na escola, sobre o desempoderamento familiar, sobre o desaparecimento progressivo da justiça retributiva, sobre o aparelhamento ideológico da juventude (evangélica inclusive), sobre a ausência de direitos para nascituro, sobre o livre emprego do obsceno para forçar a conflitividade social, sobre a colonização da sociedade civil pelo estado através dos “novos movimentos sociais”, sobre o desprezo consumado pela ortodoxia teológica (como se toda ortodoxia fosse “feia e sem amor”, nas ridículas paródias de Schaeffer que repetidas por estudantes que o desprezam), sobre o enfraquecimento ideologicamente orientado das instituições republicanas, sobre a cobiça pelo controle da imprensa, sobre o ativismo do STF, sobre o batismo da luta de classes dentro da igreja evangélica, em nome da “sede de justiça”, sobre a perseguição, dentro das instituições públicas, contra oponentes do PT, sobre a conivência diplomática do Brasil com absurdos políticos nas casas vizinhas e em bairros mais distantes do globo, etc, etc, e etc – feiuras a perder de vista.

Mas essas feiuras, evidentes para os Cristãos e brasileiros conservadores, são devidamente maquiadas no vídeo da TV Carta, enquanto se destacam os traços belos do evangelicismo progressista e a conveniente ausência, em seu meio, de qualquer bandeira “desarmônica” com omindset secularista contemporâneo. Ficou lindo.

Ora, o problema é, sem dúvida, ético também. É um problema quanto ao que seria verdadeiramente “bom”. As duas alas do evangelicismo divergem sobre o que é bom em temas bem específicos – manter ou reduzir a maioridade penal? É uma questão social, justicial e também moral; e a esse respeito já grande desafinação entre os evangélicos. A bem da verdade, esse foi tão somente o ponto enfatizado no vídeo da TV Carta; e não tiraria dos colegas progressistas nem o direito nem a razão, quando problematizam algo tão grave. Dou a mão à palmatória; sua defesa nesse ponto tem um fundo moral genuinamente belo, e não pode ser reduzido ao politicamente correto. Mas o ponto de vista conservador também tem suas razões, e suas belezas. A divergência sobre moral e justiça, aqui, não é suficiente para explicar o grau de desafinação entre esses dois extremos ideológicos; a desafinação está demasiado acentuada; penso que feiuras aqui são mais do que analogias; são distúrbios estéticos mesmo e, por isso, sentimentais.

Tomemos como exemplo outra declaração: a do Pastor Ed René Kivitz, para quem, segundo a chamada da BBC, o “Tom ‘bélico’ de alguns líderes evangélicos cria clima propício à intolerância” (VEJA AQUI). Kivitz diz que “a face evangélica que está exposta para o imaginário coletivo do brasileiro é a face mais grotesca, mais triste, e que não representa a índole da Igreja Evangélica brasileira”; mas não usa explicitamente a palavra “tom”, empregada pelo jornalista. A despeito disso, a questão é obviamente estética; é uma questão de “tom”.

Novamente, não quero ser injusto; o pastor procura deixar claro que se opõe a qualquer hegemonia intolerante no congresso, seja ela evangélica, ou petista, ou, por implicação, do movimento lgbt. Mas além da notória barbaridade de dizer que o deputado evangélico, na câmara, “deveria deixar de ser evangélico e se tornar um defensor da cidadania” – como se uma coisa excluísse a outra – é impossível não notar  a condescendência para com o absurdo maquiavelismo e agressividade simbólica dos movimentos feminista, lgbt e do secularismo de esquerda, em geral. Não é um silêncio perdoável; não é equilibrado, não é harmônico.

A bancada evangélica está, sim, fora do “tom”, mas não unicamente por sua agressividade grotesca; também e, acima de tudo, suspeito, está fora do tom porque várias de suas notas originais, que refletem a fé evangélica clássica e que NINGUÉM MAIS NO MUNDO MODERNO TEM CORAGEM DE TOCAR, estão sendo estridentemente tocadas, com imperícia mas com ressonância pública; por seu lado, a ala evangélica progressista não quer tocar essas notas jeito nenhum, porque elas são demasiadamente dissonantes para os ouvidos da mídia “do bem”.

DE NOVO, A REVOLUÇÃO AFETIVA
O que está por trás do discurso sobre o belo, o feio e o bom, é a revolução afetiva hipermoderna, tema de que venho tratando há algum tempo (VEJA UMA BREVE SÍNTESE AQUI). Desde o grande giro afetivista gestado no romantismo do século XIX, efetivado com a emergência da psicologia moderna, e elevado ao establishment com a conversão do capitalismo de consumo em capitalismo emocional ou afetivo, a capacidade de reunir e demonstrar a posse de capital afetivo tornou-se um imperativo para a ascensão social.

O capital afetivo, como descrito pela socióloga Israelense Eva Illouz, seria uma variante do que Bourdieu chama de “capital simbólico”, interpretado a partir do reconhecimento, em Michael Walzer, de uma diversidade de “esferas sociais” com seus capitais e critérios de justiça internos – daí o seu conceito de “esferas de justiça”. O capital afetivo nasce das competências afetivas, que envolvem a capacidade de comunicação emocional, de empatia, de interpretação da vida interior e das emoções dos outros, da manipulação e do emprego inteligente e construtivo dos estados emocionais de indivíduos, grupos e da massa; essas competências tornaram-se essenciais para os relacionamentos interpessoais, a gestão de pessoas no mundo empresarial, na mídia, na educação e, agora, na política, com o movimento dos “direitos afetivos”. Há “minorias” inteiras, empoderadas e manipuladas pela New Left, que identificam na realização afetiva os seus “eixos identitários”, desde que a emergência do campo afetivo na sociedade contemporânea permite a muitos indivíduos a construção de narrativas identitárias centradas na realização afetiva.

Mas nosso assunto hoje não é a exposição da natureza e do metabolismo interno do campo afetivo; é apenas destacar que, com a emergência do capital afetivo, emergiu um outro fenômeno, similar ao que acontece em outras esferas sociais: o reconhecimento dos bens afetivos em geral e, o que nos interessa mais: a produção de bens afetivos de baixo custo e fácil descarte, cuja finalidade é acelerar os processos de troca intersubjetiva e simplificar a comunicação entre as elites do campo afetivo e sua base social. Em termos bem simplificados: a maquiagem sentimental do feio social.

A MAQUIAGEM SENTIMENTAL DO FEIO
Poucas pessoas compreendem, hoje, a diferença entre o “sentimento” e o “sentimentalismo”. Osentimento diz respeito às nossas respostas pessoais, virtuosas ou não, aos estímulos externos. Sentimentos são mais do que sensações; estas ligam-se mais propriamente aos sentidos, ao passo que os sentimentos dizem respeito às nossas respostas pessoais – daí ser concebível falarmos em uma educação dos sentimentos para as relações; Adam Smith, para quem não sabe, não era inicialmente professor de “teoria econômica” (disciplina ainda em construção, à época), mas de “teoria dos sentimentos morais”.

Sentimentalismo” é algo distinto; é uma espécie de treinamento dos sentimentos para a produção de respostas estéticas fáceis, susceptíveis ao kitsch, o lixo estético. É de Jeremy Begbie a ótima citação de Milan Kundera:

“O kitsch faz duas lágrimas correrem em rápida sucessão. A primeira lágrima diz ‘que lindo ver essas crianças correndo na grama!’ A segunda lágrima diz ‘que lindo ficar emocionado com toda a humanidade pelas crianças correndo na grama! Essa segunda lágrima é o que faz o kitsch ser kitsch”.

O kitsch é a arte que tem como objeto não a realidade, mas os bons sentimentos sobre a realidade; é a arte que quer nos fazer sentir o que “devemos” sentir diante de certas situações – mesmo que isso a torne ridiculamente desproporcional.

Emoções sentimentais, segundo Roger Scruton em sua “Estética da Música”, são artefatos designados para disparar as emoções corretas e produzir crédito sobre aquele que as reivindica.

“O sentimentalista está atrás de admiração e simpatia. É por isso que existe o amor sentimental, a indignação sentimental, o lamento sentimental, e a simpatia sentimental; mas não há malícia sentimental, despeito, inveja ou depressão, uma vez que ninguém admira esses sentimentos”.

Ora, os “sentimentos sentimentais” são flores de plástico; são factoides emocionais que não se baseiam na verdade, ou nas relações reais entre as pessoas, mas no esforço para produzir efeitos intersubjetivos imediatos. Eles são de baixo custo porque não exigem o cumprimento de obrigações morais ou de sacrifícios, mas tão somente a suavização do contato com a realidade, o ocultamento de seus traços feios e angulosos. Dick Keyes cita D.H. Lawrence como uma das descrições clássicas do sentimentalismo:

“O sentimentalismo é a produção em nós mesmos de sentimentos que não temos realmente. Todos queremos ter certos sentimentos: sentimentos de amor, de sexo apaixonado, de cordialidade, e assim por diante. Pouquíssimas pessoas realmente sentem amor paixão sexual ou cordialidade, ou qualquer coisa tão profunda assim. Então a massa simplesmente falsifica esses sentimentos dentro de si. Sentimentos falsificados! Com eles o mundo fica mais suave. Eles são melhores do que sentimentos reais, porque podemos cuspi-los quando escovamos os dentes; e então, amanhã podemos falsifica-los de novo”.

Este é o apelo do sentimentalismo: é barato como um souvenir em uma loja de R$ 1,99. Nos identificamos com aquele sentimento fácil, vendido na comédia romântica, no best-seller, no sermão dominical, no discurso do político, no vídeo da TV Carta, o compramos e usamos por alguns momentos. Não precisamos alterar nossas relações com o mundo; basta adquirir e usar os sentimentos corretos, e então… aparentamos ter abundância de capital afetivo.

E essa é a raiz do problema: a pretensão de produzir e manter capital afetivo sem o lastro do capital moral, que é a modificação efetiva da relação do indivíduo com os outros, de um modo que se preserve o sentido da pessoa, a virtude do caráter e confiabilidade nas relações interpessoais. Pois a produção de capital moral é cara; ela envolve conflitos morais, sacrifícios pessoais e gasto de capital afetivo (o “não” contra o mal sempre causa desconforto emocional em ambas as partes); por outro lado, o capital afetivo de alta qualidade exige lastro de capital moral de alta qualidade, pois emoções genuínas dependem de virtudes morais (lembrando a “ordo amoris” de Agostinho a Tomás). Daí que a coexistência de capital afetivo e de capital moral é difícil; produz-se capital afetivo de alta qualidade com grande lastro ético; por outro lado, o capital afetivo de baixa qualidade é fácil de adquirir. Basta dispor-se a ser politicamente correto; qualquer pobretão moral pode exibi-lo.

O sociólogo croata Stjepan Meštrović descreveu a nossa sociedade como uma sociedade pós-emocional. Ela seria pós-emocional não por ignorar as emoções, mas pela necessidade de administrá-las racionalmente e, na lógica do capital, barateá-las, dada sua grande importância imediata, necessária ao bem-estar continuado e à aceitação pública superficial. Temos carros, relógios, celulares, e computadores mais baratos; porque não teríamos emoções também baratas e acessíveis ao consumidor já sobrecarregado com outros custos no mercado da felicidade pessoal?

Emoções tornam-se assim um objeto primário de manipulação, troca de alta velocidade e “contaminação” das massas (vide o provável experimento de “contaminação emocional” em redes sociais, promovido recentemente no facebook por Mark Zuckeberg, dos padrões de “colorização” de perfis após a decisão da suprema corte dos EUA sobre casamento igualitário AQUI. Não é preciso dizer que não faltaram cobaias voluntárias). A comunicação afetiva deixa de ser uma forma de facilitar o encontro ético entre indivíduos, para tornar-se a produção de sentimentos, o gerenciamento dos sentimentos do outro, e o espalhamento de clichés emocionais; e na medida em que o marketing político se apossa desse instrumento, a manipulação dos sentimentos da massa com o fim de galvaniza-la politicamente, sem o custo de envolve-la em um exercício realmente profundo de juízo moral e de aquisição de virtudes éticas.

E, com isso, as emoções verdadeiras, tanto as boas quanto as ruins ou “incorretas”, ficam enterradas sob toneladas de sentimentalismo kitsch religioso, artístico, midiático e político.

É essa manipulação que torna possível a maquiagem sentimental do feio moral. O feio é a desarmonia moral, mas a nota desarmônica depende do acorde que se toca. No acorde da fé Cristã, o liberalismo moral da ética sexual hipermoderna é terrivelmente feio; é horrível (VEJA MAIS AQUI). Mas é belo para alguns, no acorde da “inclusividade”. Igualmente, a oposição aberta à biopolítica, deixada devidamente nua e sem maquiagem, apresenta-se como a revolta fundamentalista de pastores iracundos e fora de controle. Especialmente, é claro, quando eles são assim mesmo. Mas essa é a magia da manipulação sentimental: galvaniza-se a opinião das pessoas “do bem” contra a opinião moral diversa, e derrepente ela se torna feíssima e, por isso, “do mal”, independentemente do caráter verdadeiro de quem a sustenta.

O problema é que esses não são os sentimentos reais; são os sentimentos “sentimentais”, politicamente validados e baratos. Os sentimentos “puros” e as emoções autênticas estão enterrados sob os sentimentos que “devemos” ter por serem politicamente corretos, nos fazendo não apenas pensar por clichés mas, como observou T.S. Eliot, sentir por clichés.

Este é o verdadeiro poder simbólico por trás do pseudoconceito (ou semiconceito?) da “homofobia“. Não é que não possa haver um verdadeiro conceito de homofobia; mas ninguém sabe honestamente, hoje, o que isso significa (Patologia psíquica? Crime? Ódio imoral?). Ou melhor: uns poucos entre os que o empregam e nenhum entre os que o temem entendem sua função comunicativa. Na verdade trata-se de um “meme pós-emocional”; um rótulo similar à estrela de Davi antes e depois da Kristallnacht, mas em uma versão apropriada à revolução afetiva. Sua finalidade é despertar uma resposta não-racional, nos fazendo sentir por clichés e suprimir o que realmente sentimos ou pensamos; uma espécie de galvanização sentimental do sentimento moral. Tudo leva a crer que a palavra “homofobia” representa um sequestro ideológico da problemática da relação homossexual, do campo ou esfera originária, que é a da ética (ou da ética sexual) para o campo meramente afetivo (“emoções” e “fobias”, “repressão”), com a finalidade de… controle social. Em outros termos: seria uma ferramenta psicopolítica.

A revolta “popular” contra a “homofobia” é hoje, digamos, 10% autêntica, e 90% kitsch.

QUANDO A MAQUIAGEM SE BORRA E OS ZUMBIS ACORDAM
Os sentimentos “bons” nutridos pela manipulação da mídia “do bem” são artificiais, clichés, kitsch; fala-se em tolerância, em paz social, em inclusão, mas a verdade é feia como um sepulcro caiado, e às vezes sua imundície vaza.

Considere-se o caso emblemático do embate recente entre o pastor Silas Malafaia e o jornalista Ricardo Boechat. Este último atacou o feioso-mor com expressões surpreendentemente pesadas:

“Não me enche o saco. Você é um idiota, um paspalhão, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia […] Ô, Malafaia, vai procurar uma rola!”

O caso é trágico; mas é fascinante. Fiéis e infiéis tanto se deliciaram de prazer quanto perderam o fôlego diante do horror; o que aconteceu? Os clichés sentimentais se desvaneceram, e os sentimentos reais se mostraram em toda a sua nudez: um profundo, enraizado e amargo desprezo do jornalista de esquerda pela figura do “pastor neopentecostal” – e pelo neopentecostalismo, de um modo geral. Mais do que isso: o desprezo que poderia ser corretamente classificado pelos defensores da ideia como um desprezo “homofóbico”, patente no conselho sobre procurar… certo passarinho.

O público amou. A ala da igreja evangélica que detesta a teologia da prosperidade pregada pelo pastor (entre os quais eu) amou. A que detesta sua figura de pastor-caudilho, por demais odiosa entre evangélicos contemporâneos (de novo, me vejo entre estes) amou também.

Mas, acima de tudo, amou, aquela faixa da população brasileira que despreza a ética sexual e social evangélica tanto quanto a todos os que a defendem; e que sente ojeriza por essa plebe maldita, os crentes fundamentalistas, ignorantes, retrógrados, machistas, coxinhas, fanáticos, anti-intelectuais, intolerantes religiosos, arrogantes, exclusivistas, reacionários, e fascistas, entre outras prendas.

E assim, tal qual uma horda de zumbis, de mortos-vivos desorientados, testemunhamos os verdadeiros sentimentos na maior parte do tempo enterrados sob as lápides sentimentalistas se manifestando, lutando para sair para fora, devorando cérebros nas redes sociais: sentimentos de frustração, de ódio contra a religião, de antipatia contra qualquer ética sexual, de desprezo por pessoas que constroem sua identidade a partir da fé, e não da emoção. E, diga-se, também os sentimentos sujos de evangélicos contra evangélicos – alguns deles agora pintados como o próprio Darth Vader – e de evangélicos contra o “maldito Boechato”.

Boechat esforçou-se por redimir-se citando pastores mais éticos e socialmente responsáveis, mas o estrago foi feito; a máscara caiu de novo, como sempre cai na seletividade com que a mídia trata a antipatia antievangélica que grassa os ambientes acadêmicos brasileiros, a perseguição cultural ao cristianismo no ocidente, e a perseguição global contra o Cristianismo, em comparação com o sofrimento de minorias mais… bonitinhas.

PORQUE A BELEZA POLÍTICA IMPORTA
Boa parte do discurso da esquerda sobre direitos está, infelizmente, maculado pela manipulação sentimental, a psicopolítica dos sentimentos corretos, embora artificiais e sem fundamentação moral consistente. E isso nos leva enfim, ao meu ponto crítico: a política evangélica está, hoje, diante de um dilema estético: usa ou não usa o sentimentalismo político como forma de obter capital político e social?

Na minha opinião, a ala evangélica reacionária reage irracionalmente contra a emergência do campo afetivo, e é cada vez mais alienada desse campo porque não se dispõe a reconhecer, produzir e negociar o capital afetivo, que é a moeda dominante nessa esfera. Nesse sentido, é literalmente reacionária, e, com toda a franqueza, “burra”. Não é que não saiba se maquiar, apenas; é que é seu corpo e seu rosto comunicacional é ridiculamente feio, e isso também é uma questão moral. Desprezar os sentimentos dos outros é uma forma sutil de imoralidade. Não podemos nos esquecer aqui do que disse Francis Schaeffer, a respeito disso:

“ortodoxia bíblica sem compaixão é com certeza a coisa mais feia do mundo”.

O que temos aqui? Beleza; mas a beleza que é fruto da união entre verdade e amor: ortodoxia, com ortopraxia, revelando ortopatia (VEJA MAIS AQUI). Essa é a beleza que queremos, não outra; não a beleza que custe R$ 1,99. Essa beleza é a beleza da coerência; e é, sim, uma beleza também afetiva e emocional.

Sabemos, por exemplo, que uma das maiores falhas do conservadorismo cristão hoje se encontra no terrível fracasso em realizar uma comunicação genuinamente afetiva ou afetivamente sensível. A comunicação envolve, acima de tudo, conteúdo; mas o meio também vai com a mensagem. Como diz Schaeffer:

“O homem do mundo moderno pergunta se há personalidade real, se a comunicação é real, se há significado. Nós, Cristãos, podemos falar até ficarmos com as caras roxas, mas tudo será inútil se não exibirmos a comunicação. Quando, como Cristão, me coloco diante de um homem e digo: “sinto muito”, isso não é apenas legalmente correto e agradável a Deus, mas também é verdadeira comunicação em um nível altamente pessoal”.

Consideremos um caso também emblemático: o movimento “Jesus Cura a Homofobia”, na parada lgbt deste ano (2015). De modo geral, o movimento me pareceu sentimentalista, dada a natureza dos testemunhos apresentados na mídia (todos perfeitamente centrados em fenômenos afetivos: abraços, sorrisos, choros, comoção; mas nenhuma tensão moral). Mas ainda que excessivamente afetivizado e, talvez, sentimentalista, é preciso admitir que o movimento procurou realizar um ato de comunicação verdadeira e, nisso, tratou os militantes lgbt’s como pessoas. E é preciso admitir que os Cristãos conservadores não apresentaram nenhuma versão “melhor” do que isso. Mas esse é o ponto de Schaeffer em “A Verdadeira Espiritualidade”: a comunicação precisa ser pessoal.

“A igreja local ou grupo Cristão deve ser correta (right) em seu ensino, mas deve também ser bonita (beautiful). Os grupos locais deveriam ser exemplos do sobrenatural, ou de relacionamentos curados substancialmente nessa vida presente, entre pessoas”.

Deve haver beleza! Mas note que a beleza Schaefferiana é a beleza da cura sobrenatural. É claro que essa beleza pode e deve ser demonstrada aos incrédulos e, particularmente, em relação com nossos oponentes históricos; mas ela é inseparável da ortodoxia, e não deveria ser confundida com a beleza fácil e barata do sentimentalismo. É uma beleza custosa, ligada a sentimentos custosos, porque produzidos num ambiente em que não reduz os parâmetros morais para garantir aceitação pública.

“Aos Crentes que verdadeiramente creem na Bíblia, em todas as linhas e campos, enfatizo: se não mostrarmos beleza no modo como nos tratamos uns aos outros então, aos olhos do mundo e de nossas crianças, estamos destruindo a verdade que proclamamos… cada igreja… cada grupo cristão… deveria ser um exemplo para que o mundo possa olhar e ver uma beleza nos relacionamentos humanos que possa se postar em exato contraste com a terrível feiura do que o homem moderno pinta com sua arte, com o que faz com sua escultura, com o que mostra em seu cinema, e com o modo que trata o próximo.”
“Estou falando agora sobre beleza, e escolhi essa palavra com cuidado. Eu poderia chama-la de amor, mas esvaziamos tanto essa palavra que ela se tornou sem sentido. Então uso a palavra beleza. Deveria haver beleza, beleza observável para o mundo contemplar no modo como nos tratamos mutuamente.”

Com essas observações de Francis Schaeffer, quero deixar muito claro que meu ataque ao sentimentalismo não tem a finalidade de justificar a disposição iracunda e agressiva empregada pelos setores mais reacionários do evangelicismo brasileiro. Sua explosão de sentimentos negativos é, na verdade, um reflexo de sentimentos negativos de toda a sociedade em relação aos desmandos da extrema-esquerda que se pensa, fantasiosamente, amada pelo povo brasileiro. Mas aí está o problema: não bastaria nos livrarmos dos sentimentos sentimentais, as emoções morais falsas; isso apenas nos levaria à barbárie de Boechat versus Malafaia e daí para pior. Precisamos, antes, cultivar a verdadeira comunicação, a verdadeira beleza, e verdadeiros sentimentos morais.

Mas essa moeda tem outro lado. O fato de a mídia e a política brasileira privilegiarem acriticamente o “capital” afetivo de baixo custo, que denominamos “sentimentalismo”, para gerenciar melhor seus esforços psicopolíticos ajuda a alienar ainda mais os conservadores, que percebem intuitivamente a fabricação. Para seus escrúpulos, o sentimentalismo político é intragável e obviamente falso. A mídia o vende como produto de alta qualidade, mas aqueles familiarizados com a ética Cristã sabem muito bem o que está acontecendo: “we are faking it”.

Acredito sinceramente que os irmãos que deram sua opinião no vídeo da TV Carta tenham sentimentos morais genuínos; mas não acredito na TV Carta, e penso que esses irmãos estão vendendo uma beleza barata e palatável, enquanto permanecerem tão obviamente seletivos e politicamente corretos em suas agendas públicas.

DE PRÍNCIPES E DE BEIJOS MÁGICOS
Do que precisa Silas Malafaia? Precisa aprender o caminho da paz com todos os homens, sim, como ensina Paulo em Romanos 12; precisa passar por uma conversão de seus afetos morais, por uma afinação ética e afetiva; mas acima de tudo, precisa sofrer um brutal alargamento de sua ética teológico-social. Do jeito que está, não representa a nossa tradição; não representa a igreja de Calvino, dos puritanos, de Wesley, de Wilberforce, de Kuyper, de Schaeffer, de Stott, ou de tantos líderes evangélicos, em tantos setores diferentes.

Naturalmente, há outras soluções disponíveis no mercado. Técnicos no assunto diriam que ele precisa urgentemente de um tipo de “Duda Medonça”, ou até do exemplar original. Não foi o beijo do marqueteiro o que transformou o “sapo-barbudo-comunista” Lula no príncipe “Lulinha paz-e-amor” em 2002? É disso o que Malafaia precisa, diriam. Um beijo de marketing, para transformá-lo em um príncipe da comunicação afetiva. O problema é que esse beijo é caro; não é para qualquer sapo não. E é difícil acreditar que exista maquiagem suficiente no mundo das fadas para embelezar esse anfíbio.

Mas o progressismo evangélico precisa de um beijo também. Só que é de outro beijo: o beijo da verdade. Um beijo capaz de revelar ao mundo a feiura/beleza do evangelho da cruz, da moral judaico cristã, do espírito do evangelicismo clássico; um beijo cheio de radicalidade atanasiana, um beijo Agostiniano, um beijo “Contra Mundum”; um bejio capaz de libertá-lo da psicopolítica e mostrar a incurável incompatibilidade entre sentimentalismo da cidade dos homens as afeições morais da cidade de Deus.

Esse é o beijo de Jesus: é de graça, mas custará a reputação do progressismo evangélico diante do presente século. Ele é feio, feíssimo para o homem moderno, num grau incompreensível para um Gregório Duvivier; mas sua beleza é eterna.

*Não podia perder a oportunidade de uma piadinha exotérica sobre o clássico de Sergio Leone… Fica como “vinho ao cansado”, para esquecer por um momento as frustrações morais do dia 26 de Junho de 2015.

Originalmente publicado aqui.

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A utilidade do inútil

Por Dom Lourenço de Almeida Prado

Costuma-se dizer que a cultura é aquilo que fica em nossa mente, depois que esquecemos o que havíamos aprendido na escola. A afirmação é feita, quase sempre, em desapreço para o aprendizado escolar, querendo significar que as coisas aprendidas, nessa ocasião, são mecanismos ou informações memorizadas, sem alcance prático e, assim, inteiramente inúteis. Sobrecarga que deve ser esquecida o mais cedo possível.

Na verdade, entendida com um pouco mais de lucidez, com um olhar mais atilado, ela exprime, embora em contraste meio esquemático, a admirável função cultural da escola de crianças e adolescentes: cultura é realmente o que fica do aprendizado escolar. Mas o que fica, não como algo lateral e concomitante, sim como produto ou frutificação amadurecida da matéria tratada nas salas de aula. É aprendendo Capitanias Hereditárias, Mem de Sá e D. João VI que se forma o espírito cívico e a estima (o amor) pela pátria. É aprendendo mecanismos matemáticos, que a máquina de calcular vai esvaziar de qualquer utilização prática visável que se apura o senso lógico e se aviva o raciocínio. É decorando vocabulário e submetendo Camões à aparente agressão da análise lógica que o homem se torna mais homem – “Homo sapiens”- isto é, que ele dá vigor e plenitude à palavra e à linguagem e, por meio delas ou dentro delas, à faculdade de pensar. É aprendendo filosofia (o mais inútil dos conhecimentos), as regras do raciocínio que se chega à mente sadia. E que falar da língua estrangeira?

Nem tudo, diz o filósofo, se ensina na escola, mas tudo se aprende, ou, ao menos, se começa a aprender. Não se ensina a amizade, a intuição, à sabedoria, mas é ensinando matemática e geografia que se aprende o amor e a amizade; é aprendendo Machado de Assis que se abre a mente para os vôos intuitivos; é aprendendo de todas essas coisas esquecíveis e, não raro, penosas, que se sobe à sabedoria.

Há um tema muito em foco, nestes dias, que pode ajudar-nos a perceber que esse aprendizado das coisas, mais altas não se faz diretamente. É subindo por picadas pouco ensolaradas da floresta, que se chega ao sol claro do cume da montanha. Refiro-me à tão falada formação para a cidadania. Não há quem não sinta que há necessidade de um cuidado atento na formação para a cidadania. Entretanto, toda a tentativa de criar uma disciplina específica – chame educação cívica ou ensino da cidadania – tem acabado ou acaba num estudo estéril de cânticos ou símbolos patrióticos quando não se desvia para o mais grave: a imposição conscientizadora daquilo que o chefe pensa cuja conseqüência é a redução do “cidadão” a um escravo orgulhoso de o ser. A cidadania se aprende e precisa ser aprendida, mas não pode ser ensinada como uma disciplina. É estudando história, filosofia social ou a estrutura de um governo democrático, o que é uma lei, é, sobretudo, estudando o homem, a sua índole social, as suas postulações éticas naturais e o seu relacionamento com Deus, que se chega a homem capaz de viver e exigir a nobreza da cidadania.

Outro aspecto dessa tendência perversa a diminuir a sala de aula é a de colocar em ridículo a postura grave do professor. Essa prática corrosiva põe em risco essa riqueza da comunicação humana, em que os mais velhos ajudam os mais moços a conquistarem a sua plenitude, que é o trabalho escolar. E o aprendizado escolar é posto em ridículo e tido por inútil. A ninguém escapa que, seja por limitação dos participantes, desgaste da rotina, não faltam defeitos na sala de aula. Se há aspectos merecedores da crítica, investir contra a própria obra, não só é injusto, mas enfraquece um serviço sem o qual a cultura não vem e o homem, animal da cultura, não chega a ser homem.

A conclusão a que nos conduzem estas reflexões não se limita ao reconhecimento de que Aristóteles tinha razão quando dizia que o aprendizado das coisas inúteis é sumamente útil. Nem se esgotaria com uma explicação de que as coisas inúteis – a cultura, por exemplo (nada mais inútil) – são úteis, não só como portadoras de alegria mas porque é por aí que o homem conquista a sua plenitude humana, sem a qual, não haverá o bom jurista ou o bom médico.

Há um veneno desumano nessa falta de apreço para o aprendizado escolar fundamental e médio. É o veneno utilitarista e pragmatista. Em vez de colocar como meta a formação do homem, de sua mente sadia e descortinada, para que se torne um ser livre e tenha trabalho como um desdobramento disso, pensa-se na preparação direta de um emprego, graças a uma habilitação manualista. Além de reduzir o homem a um “torcedor de parafusos”, como Carlitos nas “Luzes da Cidade’’, fechando o seu horizonte às grandezas do pensamento e da beleza, essa orientação é contraproducente mesmo na direção ao prático ou utilitário. O trabalho humano não é um trabalho animal, mas um trabalho criativo que, ao contrário do robô, flui de uma inteligência que lhe dá vida e o torna jubiloso. Além disso, no mundo de hoje, em constante mutação, só a cultura e a formação básica permitem a adaptação a novos modelos e capacitam para a atualização permanente. Num tempo em que as novas profissões ou novas técnicas surgem, a cada instante, e outras tantas se extinguem, o utilitarismo conduz ao vazio e a preparação para o emprego acaba no desemprego.

Vem a propósito fechar estas reflexões referindo-me a uma forma muito espalhada de apresentar a convivência professor/aluno, na sala de aula: uma espécie de teatro de rigidez artificial, desmedida e fingida. Toma-se como sério e vultoso episódios normais da vida infantil. A malandragem infantil é tratada com severidade irreal. Ainda há dias, um jornal apresentou, com destaque, um poema em que o pretendido poeta não só se queixa de ter sido premido, na escola, a decorar as capitanias hereditárias (talvez devesse queixar-se ou nós poderíamos queixar-nos daquele que o ensinou a escrever permitindo-lhe o poema), mas critica a escola que o puniu por ter colado, por não ter feito o dever, por não querer ir à aula ou por não ter querido estudar. “Eu quero jogar botão, videogame, bola de gude’’, “eu não quero sair da minha cama”. Acha o poeta que nada disso devia ser tido como motivo de punição. Ridiculariza ou quer ridicularizar o mestre porque lhe deu zero ao surpreendê-lo colando. Que tem colar? Que tem não fazer o dever? Esquece-se de que é aproveitando as pequeninas coisas que se vai criando o senso de responsabilidade, que é corrigindo os pequenos erros que se forma o senso moral, o senso do certo e do errado e se evitam os grandes erros. A tolerância generosa para a malandragem infantil é a raiz do grande irresponsável.

(Texto publicado no Jornal Estado de São Paulo em 5/8/1995)

Dom Lourenço de Almeida Prado faleceu em 2009 aos 97 anos. Foi reitor do tradicional colégio para meninos São Bento, uma das mais renomadas instituições de ensino do país. Nasceu na cidade paulista de Bica da Pedra (hoje, Itapuí). Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1935. Também cursou Filosofia, Sociologia e Teologia. Entrou para o Mosteiro de São Bento em 1940, e se formou sacerdote em dezembro de 1946. Foi o reitor do Colégio São Bento que mais tempo ficou no cargo, por 46 anos.

Originalmente publicado aqui.

Justice Scalia Rips Apart Gay ‘Marriage’ Ruling

Justice Scalia Rips Apart Gay ‘Marriage’ Ruling

He authors his most sharply worded dissent yet

WASHINGTON, D.C., June 26, 2015 (ChurchMilitant.com) – Gay “marriage” is now the law of the land. The Obergefell v. Hodges decision was split along the expected lines: Justice Anthony Kennedy, writing for the majority, was joined by Justices Ginsburg, Breyer, Sotomayor and Kagan. The dissenting bloc consisted of Chief Justice John Roberts and Justices Scalia, Thomas and Alito, each who wrote their own separate dissents — a rarity that indicates a very strong reaction to the ruling.

Although Justice Scalia is known best for his articulate and scathing dissents, his dissent in Obergefell is his most sharply worded yet. In his very first sentence he warns about the “threat to American democracy” this decision represents. Referring to the majority opinion as “pretentious,” egotistic,” a “judicial Putsch” full of “silly extravagances” and “showy profundities,” he spends most of his complaint on one central theme: the abuse of the judicial branch demonstrated by the Supreme Court’s overreach in this case, which has stepped outside of the scope of its authority and usurped the authority of the legislative branch (and thus the will of the people) by dictating radical social policy to all American citizens — policy that rightly belongs within the democratic process to hammer out. Marriage, an issue traditionally left to the states to govern, has now become, by judicial fiat, a federal issue.

Today’s decree says that my Ruler, and the Ruler of 320 million Americans coast-to-coast, is a majority of the nine lawyers on the Supreme Court. The opinion in these cases is the furthest extension in fact — and the furthest extension one can even imagine — of the Court’s claimed power to create “liberties” that the Constitution and its Amendments neglect to mention. This practice of constitutional revision by an unelected committee of nine, always accompanied (as it is today) by extravagant praise of liberty, robs the People of the most important liberty they asserted in the Declaration of Independence and won in the Revolution of 1776: the freedom to govern themselves.

After explaining the appropriateness of the democratic process to determine the question of same-sex “marriage” — a process Scalia claims was working fine in the various states — he goes on to condemn today’s decision as “lacking even a thin veneer of law.” The ruling was nothing more than a “naked judicial claim to legislative — indeed, super-legislative — power; a claim fundamentally at odds with our system of government.”

“A system of government that makes the People subordinate to a committee of nine unelected lawyers does not deserve to be called a democracy.”

And in a scathing indictment of his fellow justices who voted in favor of this novel social right, Scalia continues, “[T]o allow the policy question of same-sex marriage to be considered and resolved by a select, patrician, highly unrepresentative panel of nine is to violate a principle even more fundamental than no taxation without representation: no social transformation without representation.”

Scalia predicts today’s ruling will further lower the Court’s credibility. “The stuff contained in today’s opinion has to diminish this Court’s reputation for clear thinking and sober analysis.”

He ends on a sobering note. “With each decision of ours that takes from the People a question properly left to them — with each decision that is unabashedly based not on law, but on the ‘reasoned judgment’ of a bare majority of this Court — we move one step closer to being reminded of our impotence.”

Read the full dissent here.

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O Papa Verde

O Papa Francisco lançou, semana passada, com grande entusiasmo e estardalhaço, sua mais recente Encíclica, voltada, desta vez, para os problemas ambientais.

Redigida provavelmente por seu staff mais à esquerda, a nova Encíclica ‘Laudato Si’ se confunde, em alguns tópicos, com aqueles velhos conhecidos manifestos do Greenpeace ou do Clube de Roma, tal a quantidade de clichês e fetiches ambientalistas. No referido documento, o Papa voltou artilharia contra os combustíveis fósseis, o consumismo desenfreado, assim como defendeu enfaticamente o uso sustentável dos recursos.

A Terra, nosso lar, está começando a parecer mais e mais como uma imensa pilha de sujeira. Em muitas partes do planeta, o lamento de idosos é que, algumas belas paisagens de outrora estão agora cobertas de lixo”, disse o Papa. Num outro trecho, Sua Santidade observa que “Nunca magoamos e maltratamos tanto o nosso lar comum, como nos últimos 200 anos.” No tocante à Sustentabilidade, Francisco foi também enfático: “A ideia de crescimento infinito ou ilimitado, que parece tão atraente para os economistas, financistas e especialistas em tecnologia … é baseada na mentira de que há um suprimento infinito de recursos na Terra, e isso leva à deterioração do planeta, que está sendo sugado e ressecado além de todos os limites.

Em vista da quantidade de incorreções, parece evidente que o Papa está sendo, no mínimo, muito mal assessorado, até porque maldizer o progresso e, principalmente, a utilização dos combustíveis fósseis é o mesmo que legar aos mais necessitados, objetos principais das preocupações papais, a pobreza eterna.

Ao contrário do que diz Francisco, depois da Revolução Industrial a humanidade progrediu de maneira excepcional, aprendeu a explorar os recursos naturais de forma muito mais eficiente, a produzir alimentos e distribuí-los como nunca antes na História. De acordo com dados recentes da FAO, o percentual de subnutridos nos países em desenvolvimento, em relação ao total da população, vem apresentando uma firme tendência declinante, tendo baixado de 33% em 1970 para 16% em 2004.  Tudo isso graças à crescente mecanização do campo e à utilização cada vez maior de fertilizantes químicos modernos, bem como a disseminação das sementes geneticamente modificadas.

Em relação aos recursos naturais não renováveis, diferentemente do que sustentam os próceres da sustentabilidade, mesmo com todo o progresso econômico havido nos últimos duzentos anos – e graças ao extraordinário avanço tecnológico -, as reservas provadas de petróleo, minério de ferro, carvão e muitos outros recursos só fizeram aumentar. Ou seja, não há nenhuma razão para acreditar que estamos “sugando e ressecando” os recursos do planeta “além dos limites”.

Sobre os “malditos” combustíveis fósseis, como bem colocou Roger Pielke, em artigo para o “Financial Times”, “Se quisermos reduzir as emissões sem condenar vastas áreas da humanidade à pobreza eterna, teremos de desenvolver tecnologias de energia de baixo custo e baixo teor de carbono que sejam apropriadas tanto aos EUA quanto à Bulgária, Nigéria ou Paquistão. Mas isto implicará sacrifício; exigirá investimentos de recursos significativos ao longo de muitas décadas. Até que estas tecnologias sejam trazidas à fruição, devemos trabalhar com o que temos. No mundo rico escolhemos crescimento econômico. É cruelmente hipócrita que nós tentemos impedir que os países pobres cresçam também. Se formos realmente forçados a nos adaptar a um planeta com clima menos hospitaleiro, os pobres, no mínimo, devem enfrentar o desafio com as mesmas vantagens de que hoje dispõem os ricos.

Ora, se os seres humanos consomem hidrocarbonetos, é porque eles nos garantem níveis de prosperidade, conforto e mobilidade como nenhum outro combustível.  A energia deles obtida melhora nossa saúde, reduz a pobreza, permite uma vida mais longa, segura e melhor.  Ademais, o petróleo não no fornece somente energia, mas também plásticos, fibras sintéticas, asfalto, lubrificantes, tintas e uma infinidade de outros produtos.

O petróleo talvez seja a mais flexível substância jamais descoberta,” escreveu Robert Bryce em “Power Hungry”, um livro iconoclástico sobre energia. “O petróleo”, diz ele, “mais do que qualquer outra substância, ajudou a encurtar distâncias.  Graças à sua alta densidade energética, ele é o combustível quase perfeito para a utilização em todos os tipos de veículos, de barcos a aviões, de carros a motocicletas.  Não importa se medido por peso ou volume, o petróleo refinado produz mais energia do que praticamente qualquer outra substância comumente disponível na natureza.  Essa energia é, além de tudo, fácil de manusear, relativamente barata e limpa”.  Caso o petróleo não existisse, brinca Bryce, “teríamos que inventá-lo”.

Algum dia, no futuro, certamente haverá fontes de energia tão ou mais abundantes, eficientes, limpas e economicamente viáveis que os hidrocarbonetos. Em termos de rendimento econômico e ambiental, essas novas fontes  deverão produzir o máximo de energia, em escala sustentável e, principalmente, no menor espaço possível, já que uma das maiores carências da humanidade é a terra utilizável.  Quanto mais terras nós ocupamos para produzir energia, menos espaço teremos para as florestas, a agricultura e a pecuária.  Mas esta revolução energética parece ainda distante.  O fato é que as ditas “energias verdes”, meninas dos olhos de ambientalistas – solar, eólica e biocombustíveis -, além de estarem bem longe de uma escala sustentável, precisam de grandes espaços para que sejam minimamente viáveis.

O Papa fala de “belas paisagens”, evocando provavelmente um suposto “Jardim do Éden” que, no entanto, lamento dizer, jamais existiu fora dos Livros Sagrados. O que teria sido esse paraíso maravilhoso do passado mítico?  Um tempo em que quatro crianças em cinco morriam antes dos cinco anos?  Quando uma mulher em seis morria no parto?  Quando a esperança média de vida era de 30 anos?  Ou quando pragas varriam o planeta e ondas de fome dizimavam milhões de uma só vez?

Como nos lembra Alex Epstein, o ambiente natural não é, nem nunca foi, um local seguro e saudável; não é outro o motivo por que os seres humanos historicamente tinham uma expectativa de vida tão baixa. Ao contrário do que dizem por aí os naturalistas, a “Mãe Natureza” nos ameaça permanentemente com microrganismos ansiosos para nos matar, além de forças naturais que podem facilmente nos esmagar.  Se não modificássemos o meio ambiente em nossa volta, se não procurássemos extrair dele os recursos necessários à nossa defesa e bem estar, provavelmente ainda estaríamos vivendo a Idade da Pedra – comparem, por exemplo, as taxas de mortalidade do temível vírus ebola na África Negra e em países desenvolvidos, como Alemanha e Estados Unidos.

Foi somente graças à nossa intervenção não natural e, principalmente, ao uso de energia barata, abundante e confiável (leia-se: hidrocarbonetos) que hoje vivemos em um ambiente onde a água que bebemos e os alimentos que comemos não vão nos fazer mal, e onde podemos lidar com um clima frequentemente hostil sem grandes conseqüências à nossa segurança.  Energia e recursos são essenciais para construir casas resistentes, purificar a água, produzir grandes quantidades de alimentos frescos, gerar calor e refrigeração, construir hospitais e fabricar produtos farmacêuticos, entre muitas outras coisas.

Ao contrário do que diz o Papa e malgrado toda propaganda ambientalóide, é justamente nos países mais ricos e desenvolvidos da Europa e da América do Norte que – apesar da utilização abundante de petróleo e derivados, além de um “consumismo” considerado exacerbado pelos arautos do catastrofismo ecológico – o meio ambiente é hoje menos poluído, graças principalmente ao desenvolvimento tecnológico.  Quem passeia pela Europa Ocidental ou pela América do Norte, não vê esse meio ambiente degradado mencionado pelo Papa, muito pelo contrário.  Já nos países mais pobres, com pouco acesso aos combustíveis fósseis e às novas tecnologias, e onde os mercados são quase inexistentes, a situação é muito diferente…

Com todo respeito que Sua Santidade merece, maldizer o progresso econômico e tecnológico alcançado pelo ser humano nos últimos duzentos anos chega a ser uma heresia.  Nossa expectativa de vida hoje é 2,5 vezes superior ao que era antes do advento da Revolução Industrial.  Não seria exagero dizer que, atualmente, há uma certa abundância de alimentos, remédios e inúmeras outras facilidades derivadas, principalmente, do desenvolvimento tecnológico acelerado havido nos últimos dois séculos.  Há 200 anos, nem mesmo o mais visionário dos ficcionistas poderia conceber que tantos homens estariam convivendo no mundo, em relativa harmonia e muito mais conforto do que era possível imaginar naquele tempo.

Apesar dessas evidências, os ambientalistas ainda insistem em maldizer o progresso humano.  Essa gente vê, por exemplo, na agricultura intensiva e mecanizada – atividade sem a qual, muito provavelmente, seria praticamente impossível alimentar um contingente tão numeroso – apenas uma ameaça ao meio ambiente.  Na sua visão doentia e deturpada da realidade, os automóveis estão destruindo a atmosfera e as indústrias, e irão transformar o planeta num enorme e estéril deserto.  Os idólatras do atraso enxergam cada nova descoberta tecnológica como uma ameaça macabra.

Não se conhece, por exemplo, qualquer forma de energia economicamente viável que os ecologistas aprovem.  Eles se opõem ao petróleo, ao gás, ao carvão, às hidroelétricas e à energia nuclear.  Concordam apenas com as matrizes eólica e solar, que juntas seriam capazes de produzir uma quantidade ínfima do que se consome atualmente no mundo.  Certamente, acreditam que a vida na Idade Média era melhor do que é hoje…

Que o Papa não se iluda: o principal objetivo dos ambientalistas a quem ele tem escutado é muito menos limpar o ar ou as águas do que demolir a civilização industrial.  Eles não visam à melhoria das condições de saúde da humanidade, mas à implantação de um modelo onde a natureza deve ser adorada como uma entidade sagrada, intocável, a exemplo de alguns totens idolatrados por povos primitivos.

A “Mãe Natureza”, segundo os fundamentalistas do meio ambiente, tem um valor “intrínseco” e deve ser venerada acima de qualquer coisa, inclusive do bem estar humano.  Como conseqüência desse dogmatismo, o homem deve abster-se de utilizar a natureza visando ao benefício ou ao conforto próprio.  Como estamos diante de uma entidade supostamente divina, qualquer ação humana que provoque mudanças no ambiente original seria, necessariamente, imoral.

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Habeas corpus preventivo pede que Lula não seja preso na Lava Jato

Um habeas corpus preventivo impetrado na Justiça Federal no Paraná, nesta quarta-feira (24), pede que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não seja preso na Operação Lava Jato, da Polícia Federal, caso o juiz federal Sergio Moro tome uma decisão nesse sentido.

O pedido foi feito às 16h20 de quarta e refere-se a um possível pedido de prisão preventiva. A assessoria de imprensa do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) confirmou.

O Instituto Lula disse que nega que o ex-presidente tenha entrado com o pedido. Segundo o instituto, qualquer cidadão poderia fazer esse pedido.

A assessoria de Lula encara a atitude como de “alguém preocupado com o ex-presidente” ou “como uma provocação”.

“O Instituto Lula estranha que sua divulgação parta do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO)”, afirma o instituto em nota à Folha. Caiado, um dos principais oposicionistas do Senado, divulgou em seu Twitter nesta quinta que Lula teria entrado com o pedido por receio de ser preso.

“O ex-presidente não é investigado na operação Lava-jato”, conclui o instituto.

Entre os assuntos relacionados na solicitação —feito em uma ação que envolve o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró— constam “‘lavagem’ ou ocultação de bens, direitos ou valores oriundos de corrupção” e “prisão preventiva”.

Lula tem dito a aliados que a prisão dos presidentes da Odebrecht e da Andrade Guiterrez é uma demonstração de que ele será o próximo alvo da operação que investiga um esquema de corrupção na Petrobras.

Nas conversas, ele se mostra preocupado pelo fato de não ter foro privilegiado, podendo ser chamado a depor a qualquer momento. Por isso, expressa insatisfação que o caso ainda esteja sob condução do juiz Sérgio Moro.

Apesar do argumento de que outros partidos podem ser afetados pelos desdobramentos da investigação, a tensão é maior entre petistas. Desde o fim de 2014, a informação, que circulava no meio empresarial e político, era de que Marcelo Odebrecht não “cairia sozinho” caso fosse preso.

A empresa sempre negou ameaças. Entre executivos e políticos, contudo, as supostas ameaças eram vistas como um recado ao PT dada a proximidade entre a Odebrecht e Lula -a empresa patrocinou viagens do ex-presidente ao exterior, para tentar fomentar negócios na África e América Latina.

Reprodução
Imagem da página da Justiça que mostra entrada do pedido de habeas corpus preventivo por Lula
Imagem da página da Justiça que mostra entrada do pedido de habeas corpus preventivo por Lula

ALEXANDRINO

Um dos presos é Alexandrino Alencar, diretor da Odebrecht que acompanhava Lula nessas viagens patrocinadas pela empreiteira. Integrantes dizem que “querem pegar Lula”. Lula também se encontrou com executivos da Odebrecht no exterior.

Em viagem à Guiné Equatorial em 2011, como representante do governo Dilma e chefe da delegação brasileira na Assembleia da União Africana, o ex-presidente colocou Alencar entre os integrantes de sua delegação oficial. A inclusão de Alencar no grupo causou estranheza no Itamaraty, que pediu informações sobre o caso à assessoria de Lula -o nome não estava em lista oficial enviada inicialmente ao ministério.

A Odebrecht entrou na Guiné Equatorial após a visita de Lula.

Lula e Alencar são conhecidos de longa data: no livro “Mais Louco do Bando”, Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, relata uma viagem em 2009 que Alexandrino fez a Brasília com Emílio Odebrecht, presidente do conselho de administração da empresa. Na época, Lula pediu ajuda à Odebrecht para o Corinthians construir seu estádio.

Esta não foi a única viagem internacional de Lula com participação do ex-executivo da Odebrecht (ele pediu demissão nesta semana). Em maio de 2011, o ex-presidente foi ao Panamá a convite da empresa. No roteiro, estavam previstos visitas a obras da empresa com ministros, o presidente Ricardo Martinelli e a primeira-dama.

Na ocasião, o ex-diretor ofereceu jantar em sua casa para Lula, Martinelli e os ministros da Economia, Obras Públicas e Assuntos do Canal.

Como revelou a Folha em 2013, o ex-presidente prometeu, após o jantar, levar três pedidos a Dilma, com quem teria encontro na mesma semana: maior presença da Petrobras no Panamá, um encontro entre os ministros dos dois países e a criação de um centro de manutenção da Embraer.

A Odebrecht obteve no Panamá contratos de US$ 3 bilhões. Cinco meses depois do jantar, engenheiros da construtora foram fotografados com um estudo de impacto ambiental sobre uma obra que só seria anexado à licitação três meses mais tarde.

Em depoimento à Polícia Federal na Operação Lava Jato, o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco disse ter recebido cerca de US$ 1 milhão de propina da Odebrecht por meio de contas no Panamá. Segundo ele, o executivo Rogério Araújo foi quem operou o pagamento.

Em junho e julho de 2011, Lula também viajou ao exterior com apoio da empresa. O ex-presidente viajou em jato da Odebrecht para Caracas, na Venezuela. Lá, encontrou-se com “grupo restrito de autoridades e representantes do setor privado”.

O ex-presidente também esteve em Angola para um evento patrocinado pela Odebrecht. Essas viagens constam de telegramas do Itamaraty, revelados pela Folha em 2013.

Originalmente publicado aqui.

Marcelo Odebrecht ameaça derrubar a República

“Terão de construir mais 3 celas: para mim, Lula e Dilma”, dizia Emilio Odebrecht, sobre possível prisão do filho. O presidente da Odebrecht, Marcelo, foi preso nesta sexta.

>> Trecho de reportagem de capa de ÉPOCA desta semana

Desde que o avançar inexorável das investigações da Lava Jato expôs ao Brasil o desfecho que, cedo ou tarde, certamente viria, o mercurial empresário Emilio Odebrecht, patriarca da família que ergueu a maior empreiteira da América Latina, começou a ter acessos de raiva. Nesses episódios, segundo pessoas próximas do empresário, a raiva – interpretada como ódio por algumas delas – recaía sobre os dois principais líderes do PT: a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A exemplo dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, outros dois poderosos alvos dos procuradores e delegados da Lava Jato, Emilio Odebrecht acredita, sem evidências, que o governo do PT está por trás das investigações lideradas pelo procurador-geral da República,Rodrigo Janot. “Se prenderem o Marcelo (Odebrecht, filho de Emilio e atual presidente da empresa), terão de arrumar mais três celas”, costuma repetir o patriarca, de acordo com esses relatos. “Uma para mim, outra para o Lula e outra ainda para a Dilma.”

Na manhã da sexta-feira, 19 de junho de 2015, 459 dias após o início da Operação Lava Jato, prenderam o Marcelo. Ele estava em sua casa, no Morumbi, em São Paulo, quando agentes e delegados da Polícia Federal chegaram com o mandado de prisão preventiva, decretada pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal da Justiça Federal do Paraná, responsável pelas investigações do petrolão na primeira instância. Estava na rua a 14ª fase da Lava Jato, preparada meticulosamente, há meses, pelos procuradores e delegados do Paraná, em parceria com a PGR. Quando ainda era um plano, chamava-se “Operação Apocalipse”. Para não assustar tanto, optou-se por batizá-la de Erga Omnes, expressão em latim, um jargão jurídico usado para expressar que uma regra vale para todos – ou seja, que ninguém, nem mesmo um dos donos da quinta maior empresa do Brasil, está acima da lei. Era uma operação contra a Odebrecht e, também, contra a Andrade Gutierrez, a segunda maior empreiteira do país. Eram as empresas, precisamente as maiores e mais poderosas, que ainda faltavam no cartel do petrolão. Um cartel que, segundo a força-tarefa da Lava Jato, fraudou licitações daPetrobras, desviou bilhões da estatal e pagou propina a executivos da empresa e políticos do PT, do PMDB e do PP, durante osmandatos de Lula e Dilma.

Os comentários de Emilio Odebrecht eram apenas bravata, um desabafo de pai preocupado, fazendo de tudo para proteger o filho e o patrimônio de uma família? Ou eram uma ameaça real a Dilma e a Lula? Os interlocutores não sabem dizer. Mas o patriarca tem temperamento forte, volátil e não tolera ser contrariado. Também repetia constantemente que o filho não “tinha condições psicológicas de aguentar uma prisão”. Marcelo Odebrecht parece muito com o pai. Nas últimas semanas, segundo fontes ouvidas por ÉPOCA, teveencontros secretos com petistas e advogados próximos a Dilma e a Lula. Transmitiu o mesmo recado: não cairia sozinho. Ao menos uma dessas mensagens foi repassada diretamente à presidente da República. Que nada fez.

Quando os policiais amanheceram em sua casa, Marcelo Odebrecht se descontrolou. Por mais que a iminência da prisão dele fosse comentada amiúde em Brasília, o empresário agia como se fosse intocável. Desde maio do ano passado, quando ÉPOCA revelara asprimeiras evidências da Lava Jato contra a Odebrecht, o empresário dedicava-se a desancar o trabalho dos procuradores. Conforme as provas se acumulavam, mais virulentas eram as respostas do empresário e da Odebrecht. Antes de ser levado pela PF, ele fez três ligações. Uma delas para um amigo que tem interlocução com Dilma e Lula – e influência nos tribunais superiores em Brasília. “É para resolver essa lambança”, disse Marcelo ao interlocutor, determinando que o recado chegasse à cúpula de todos os poderes. “Ou não haverá República na segunda-feira.”

>> A reportagem de maio de 2014 de ÉPOCA sobre evidências de corrupção e caixa dois num contrato da Petrobras com a Odebrecht

Antes mesmo de chegar à carceragem em Curitiba, Marcelo Odebrecht estava “agitado, revoltado”, nas palavras de quem o acompanhava. Era um comportamento bem diferente de outro preso ilustre: o presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo. Otávio Azevedo, como o clã Odebrecht, floresceu esplendorosamente nos governos de Lula e Dilma. Tem uma relação muito próxima com eles – e com o governador de Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel, também investigado por corrupção, embora em outra operação da PF. Otávio Azevedo se tornou compadre de Pimentel quando o petista era ministro do Desenvolvimento e, como tal, presidia o BNDES.

Não há como determinar com certeza se o patriarca dos Odebrechts ou seu filho levarão a cabo as ameaças contra Lula e Dilma. Mas elas metem medo nos petistas por uma razão simples: a Odebrecht se transformou numa empresa de R$ 100 bilhões graças, em parte, às boas relações que criou com ambos. Se executivos da empresa cometeram atos de corrupção na Petrobras e, talvez, em outros contratos estatais, é razoável supor que eles tenham o que contar contra Lula e Dilma.

A prisão de Marcelo Odebrecht encerra um ciclo – talvez o maior deles – da Lava Jato. Desde o começo, a investigação que revelou o maior esquema de corrupção já descoberto no Brasil mostrou que, em 2015, é finalmente possível sonhar com um país com menos impunidade. Pela primeira vez, suspeitos de ser corruptores foram presos – os executivos das empreiteiras. Antes, apenas corruptos, como políticos e burocratas, eram julgados e condenados. E foi precisamente esse lento acúmulo de prisões, e as delações premiadas associadas a elas, que permitiu a descoberta de evidências de corrupção contra Marcelo Odebrecht, o empreiteiro que melhor representa a era Lula. Foram necessárias seis delações premiadas, dezenas de buscas e apreensão em escritórios de empresas e doleiros e até a colaboração de paraísos fiscais para que o dia 19 de junho fosse, enfim, possível.

As provas contra a Odebrecht

Os documentos obtidos pela Lava Jato mostram como a empreiteira seguiu o roteiro de obras superfaturadas e obteve informações privilegiadas para acertar contratos com a Petrobras

E-mail do assessor de Marcelo Odebrecht fala em superfaturamento (Foto: Reprodução)Sobrepreço
Em e-mail, assessor de Marcelo Odebrecht fala em superfaturamento. O chefe não se fez de rogado. E respondeu: é para acelerar as tratativas com os concorrentes (Foto: Reprodução)
Diretor da Odebrecht Rogério Araújo avisa que sabia de orçamento interno da Petrobras (Foto: Reprodução)Informação privilegiada
O diretor da Odebrecht Rogério Araújo avisa que sabia de orçamento interno da Petrobras. Horas antes ele se encontrara com o diretor Paulo Roberto Costa (Foto: Reprodução)
A Polícia Federal anexou na investigação mensagens de outro empreiteiro, Léo Pinheiro, da OAS.  (Foto: Reprodução)Amigo do peito
A Polícia Federal anexou na investigação mensagens de outro empreiteiro, Léo Pinheiro, da OAS. Lula era sempre citado e tinha até apelido. E, claro, era sempre elogiado(Foto: Reprodução)

>> Continue lendo esta reportagem em ÉPOCA desta semana 

Revista ÉPOCA - capa edição 889 - Ele ameaça derrubar a República (Foto: Revista ÉPOCA/Divulgação)
Originalmente publicado aqui.

Ideologia de Gênero: neototalitarismo e a morte da famí­lia

O livro “Ideologia de Gênero: neototalitarismo e a morte da família”, cuja versão em português esteve aos cuidados da editora Katechesis, é um livro do advogado pró-vida, argentino, Jorge Scala, lançado no Brasil em Outubro do ano passado. Zenit entrevistou o autor, que nos explicou brevemente o significado do seu livro e os perigos desta ideologia nas nossas sociedades.

Por que um livro sobre a ideologia de gênero?

A razão é simples: a ONU criou uma Agência do Gênero. Essa agência se dedica a controlar que todos os organismos e programas da ONU incluam o gênero. Por sua vez, a União Européia e o Banco Mundial condicionam os empréstimos para o desenvolvimento dos países pobres, por cláusulas da difusão de Gênero. Finalmente, se incorporou o gênero no sistema educacional dos nossos países. Dado tudo isto, é necessário investigar o que é o gênero.

O que significa dizer que a ideologia de gênero é uma ideologia e não uma teoria ou uma descoberta científica?

Uma teoria é uma hipótese verificada experimentalmente. Uma ideologia é um corpo fechado de idéias, que parte de um pressuposto básico falso – que por isto deve impor-se evitando toda análise racional -, e então vão surgindo as conseqüências lógicas desse princípio falso. As ideologias se impõem utilizando o sistema educacional formal (escola e universidade) e não formal (meios de propaganda), como fizeram os nazistas e os marxistas.

O que é, então, a ideologia do gênero? Como você a descreveria para nossos leitores?

Seu fundamento principal e falso é este: o sexo seria o aspecto biológico do ser humano, e o gênero seria a construção social ou cultural do sexo. Ou seja, que cada um seria absolutamente livre, sem condicionamento algum, nem sequer o biológico -, para determinar seu próprio gênero, dando-lhe o conteúdo que quiser e mudando de gênero quantas vezes quiser.

Agora, se isso fosse verdade, não haveria diferenças entre homem e mulher – exceto as biológicas -; qualquer tipo de união entre os sexos seria social e moralmente boas, e todas seriam matrimônio; cada  tipo de matrimônio levaria a um novo tipo de família; o aborto seria um direito humano inalienável da mulher, já que somente ela é que fica grávida; etc. Tudo isso é tão absurdo, que só pode ser imposto com uma espécie de “lavagem cerebral” global.

Você, em seu livro, a chama de “ideologia totalitária”. Há alguma relação com as ideologias totalitárias que a humanidade tem experimentado na história? Ou é um passo para chegar a estas situações de políticas totalitárias?

O gênero destrói a estrutura antropológica íntima do ser humano, por tanto quem fique à mercê dessa ideologia o fará “voluntariamente”. Não é mais do que uma ferramenta de poder global que, se imposta, levará a um regime totalitário – ainda quando haja eleições e partidos políticos como na Alemanha nazista -. Em contraste, nas outras ideologias conhecidas, o Estado dominava – ou domina como na Coréia do Norte ou em Cuba – pela força bruta.

Parece uma ideologia que entra nos países pelo aspecto legal e jurisdicional. Não será a falta de reconhecer uma lei natural, e a adoção do positivismo, os alicerces deste totalitarismo?

O problema parece mais profundo e complexo. O ethos é aquilo que um povo estima o que está bem e o que está mal, desde as profundezas do seu coração, não importando o que digam as leis e até mesmo o que cada um faça na própria vida. O problema é que o Ocidente perdeu o seu ethos comum, até 30 ou 40 anos atrás, era o cristianismo. O liberalismo fez que muitas pessoas acreditassem que a moral fosse um assunto privado de cada pessoa. Então, para alguns, é bom mentir, roubar, matar e fornicar – em certas circunstâncias -; e como todas as opiniões são iguais, a única maneira de viver em sociedade é que as leis “imponham” um certo ethos, que deve ser aceito por todos, sob certas penalidades. Por isso, nos nossos parlamentos promove-se todos os tipos de leis de gênero. Busca-se com elas que – junto com a educação -, formem o novo ethos dos nossos povos. E se o gênero se converte em ethos, o sistema totalitário funcionará plenamente.

A teoria do gênero é totalitária, mas não vemos ninguém perdendo as suas vidas. Então, por que ter medo de algo que não passa de leis e de idéias? Não é melhor respeitar a opinião de cada um?

Em 2010 a Espanha reformou a sua lei do aborto conforme a ideologia do gênero, considerando-o “direito humano” essencial da mulher. Naquele ano houve 113.031 abortos na Espanha. Essa “lei” e essa “idéia” mataram – só na Espanha e só nesse ano -, muitas pessoas. Não é pra ter medo da ideologia do gênero, mas é necessário enfrentá-la no campo das idéias, que é onde ela pode ser vencida mais facilmente.

Sempre é necessário respeitar as pessoas – independentemente dos seus pensamentos-. No entanto, as opiniões não se respeitam: se discernem. O livro ajudará o leitor a fazer seu próprio discernimento sobre o gênero.

Qual é, então, as conseqüências para nossos filhos, para a próxima geração?

Eu respondo com um fato real. Dei uma palestra sobre esta ideologia, a todos os professores de uma cidade de 7.000 habitantes, numa área rural da minha província. Gente simples e trabalhadora. Ao concluí-la, uma professora comentou em voz alta: ‘Agora eu entendo porque há alguns dias atrás meu filho de 7 anos me perguntou: mamãe eu sou menino ou menina …? As pessoas formadas e maduras estão imunes dessa ideologia, mas se a permitirmos penetrar nas crianças desde tenra idade – cinema, rádio, TV, escola, revistas -, em muitos casos, teremos que lamentar com o tempo tragédias de todo tipo.

“Onde haja um homem – mulher ou varão – , sua inteligência buscará a verdade, sua vontade tentará amar e autodirigir-se para o bem “, é o que você afirma no seu livro. Qual seria a melhor maneira de combater esta e outras ideologias semelhantes que tendem a penetrar nas Constituições e leis dos países? É a formação de homens e mulheres verdadeiros? O que significa um homem ou uma mulher verdadeiros?

Ante todas as idéias insalubres ou absurdas que giram pelo mundo atual, o mais importante não são outras idéias que as combatam; Mas sim, testemunhas da verdade. Mulheres e homens sinceros, de carne e osso. A mulher é a mãe, ou seja: o amor incondicional e que sempre está presente. O varão é o pai, ou seja: a autoridade, o amor que põe limites e condições, para tirar o melhor de si de cada um. Ambos amores são necessários para chegar à maturidade humana. Conhecer um homem e uma mulher assim, é a melhor “vacina” contra a ideologia do gênero.

Todo o dinheiro da venda desse livro no Brasil é revertido para o movimento Pró-vida do Brasil. O livro é distribuído no Brasil pelo Prof Felipe Nery (proffnery@hotmail.com)

Jorge Scala – Argentino. Advogado. Professor de Bioética na Universidad Libre Internacional de las Américas. Professor honorário da Universidad Ricardo Palma. Prêmio Thomas More do Instituto Tomas Moro. Prêmio João Paulo II à defesa da vida da Universidad Fasta. Autor e co-autor de vários livros. Deu mais de 600 palestras em 17 países.

Originalmente publicado aqui.