Discurso que Dom Edmilson faria em audiência na Câmara Municipal sobre a “Ideologia de Gênero”

Discurso que Dom Edmilson faria em audiência na Câmara Municipal sobre a “Ideologia de Gênero”

MAI 22, 2015 0

Fui convidado para falar na Audiência pública do último dia 20 de maio, na Câmara Municipal de Guarulhos. Antes de falar e duas vezes no início da minha fala fui interrompido por vaias de um pequeno grupo favorável à inserção da chamada ideologia de gênero no plano de educação do nosso município. Acabei comparando o grupo que só gritava a um bando de cachorros. Não os chamei de cachorros. Quando você se encontra diante de cachorros que latem e avançam, não adianta falar, os cachorros não se acalmam. Não queriam me ouvir, então não falei. Entretanto, disponho de outros canais para falar para quem quer ouvir, como a nossa Folha Diocesana. Abaixo, então, o texto do que deveria ter pronunciado na Câmara Municipal.

Senhoras, Senhores, irmãos e irmãs.

Agradeço a oportunidade de poder falar nesta audiência pública.

Não tenho competência para falar de todos os pontos do PNE. Entretanto, aquilo que nos preocupa enquanto Igreja é a questão da chamada educação sexual. Não tive contato com o argumento próprio para o nosso município, mas como o PNE foi passado à responsabilidade dos Estados e municípios já com o conteúdo que vinha sendo proposto a nível federal, achamos por bem abrir um espaço para a reflexão. Esta audiência pública é uma boa oportunidade.

Primeiramente estou aqui por causa da minha fé em Jesus Cristo e a missão que Ele deixou à sua Igreja. A minha fé não está em contraste com a razão e a ciência. Na fé cristã acreditamos que Deus criou o homem à sua imagem, homem e mulher. O Criador não tem sexo, mas Deus é comunhão de pessoas (a Trindade). Assim a diferenciação dos sexos é para que o ser humano possa perfazer esta sua vocação de ser imagem de Deus: comunhão de amor. Uma das formas sublimes deste amor se manifestar, amor este que é espiritual, é na união sexual que não está voltada para si mesma, mas aberta à doação para o outro e aberta à vida que pode ser gerada. Na fé também acredito que esta obra maravilhosa de Deus foi danificada pelo pecado que inverte todas as coisas e é contrário ao amor.

Peço desculpas por usar certas categorias filosóficas que não fazem parte do nosso falar cotidiano. Por causa desta fé acredito que a essência precede a existência. Ser masculino ou feminino é algo essencial, seja do ponto de vista fisiológico, bioquímico e psicológico. Não há como ser neutro. Se aparece na existência algum acidente, ele é posterior à essência. Muda, sim, o concreto da existência, mas é posterior. Em alguns pontos da educação sexual pretende-se mudar esta ordem, de modo que caberia à pessoa escolher a sua orientação sexual. Por detrás desta configuração existe um aspecto da corrente do existencialismo ateu sartriano que propaga que a existência precede a essência.

Ser masculino ou feminino nos dá uma identidade. Ser masculino ou feminino não difere na dignidade. Como vivenciar o ser masculino ou feminino acarreta consequências morais e éticas.

Grande parte da natureza manifesta esta dupla de identidade de gênero, não como pobreza, mas como riqueza.

Ainda que a chamada ideologia de gênero não trate especifica e exclusivamente da questão da homossexualidade, quero inserir aqui uma breve reflexão. Acredito que nenhum de nós, aqui presente, tenha escolhido a própria orientação sexual. Acredito também que, não somente por questões culturais e sociais, as pessoas com orientação homossexual tenham se sentido angustiadas, mas na vivência da própria existência travaram e travam conflitos consigo mesmas. Este conflito existe exatamente porque não se trata de uma escolha pessoal, mas um ou vários acidentes tornaram assim a situação.

Quero também afirmar que a pessoa humana é muito, muito mais que a sua orientação sexual. Neste sentido é importante educar para a grandeza da dignidade da pessoa humana, que encontra sua plena realização no amor. Amor que significa ser para o outro, não buscando simplesmente a si mesmo. Compreender a orientação sexual como uma situação e não como uma opção ajuda e muito a respeitar o outro e desbaratar tantas atitudes chamadas homofóbicas que tem feito muitas pessoas sofrerem. Acredito que todos estamos concordes em não aceitar a violência contra as pessoas.

Peço que o PNE em nosso município saiba encontrar estruturas que eduquem não só para o respeito, mas principalmente para amor-doação. A nossa sexualidade é dom de Deus e o sermos seres sexuados é que nos faz capazes de amar. Educar para virtude da castidade também é importante, pois esta virtude libera o amor de manifestações egoístas. Peço que se tenha cuidado para não reduzir a educação sexual a educação genital. A nossa sexualidade é muito mais que genitalidade.

Obrigado pela atenção.

 

 

+Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

bispo diocesano de Guarulhos

Originalmente publicado aqui.

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