As tolices dos nossos partidos

G.K. Chesterton: The Illustrated London News, 19 de abril de 1924.

Tradução: Pedro Gontijo Menezes

Todas as notas são do tradutor.

O sistema partidário britânico foi fundado sob a ideia inglesa de jogo justo. Segundo ela, a tolice e a futilidade deveriam ser divididas igualmente entre dois lados. Não haveria espírito esportivo em acumular ricamente um dos lados com besteiras e deixar o outro com nada além da verdade nua. Não seria um jogo justo se um combatente vestisse uma brilhante armadura de enganações e mentiras, enquanto o outro ficasse aleijado pela nudez da verdade. O jogo não poderia ser bem jogado até que as várias peças da falta de noção e da hipocrisia fossem cuidadosa e igualitariamente distribuídas. Não deveria haver vantagens no discurso vazio e nenhum privilégio arrogante para o absurdo. Cada competidor carregaria seu peso com o mesmo grau de gravidade e inconveniência; cada um foi dotado com o fardo da estupidez ou coisa parecida, o qual é proibido largar. Largá-lo seria ganhar uma vantagem injusta sobre o oponente, ainda resistindo como um cavalheiro sob seu próprio amontoado de bobagem. No entanto, alguns dirão que esses pesos-mortos raramente tem algo a ver com as ideias originais ou os propósitos dos dois combatentes: o Tory[1], ou o tradicionalista, teve de professar até o fim um ódio mórbido e sem sentido contra a Irlanda católica e agrícola. O liberal, um campeão da liberdade, teve de abrir uma exceção em favor do tabu supersticioso e selvagem contra uma bebida popular como a cerveja. Não foi que ele achou injusto minar a popularidade do Tory, e sim porque é um dos notórios pré-requisitos do Tory angariar do público tanto apoio quanto ele poderia conseguir do bar[2]. Da mesma forma, o nobre Tory considerou que causar vexame aos Whigs[3] tratando os irlandeses decentemente seria um truque indigno de um cavalheiro. Era seu dever, como bom colega, governar mal e dar chance às críticas. Este arranjo parece extraordinário, mas era de fato o arranjo feito entre dois partidos.

Esta era a característica superficial, ou esportiva, do sistema partidário — algo do mesmo tipo das paixões divididas entre o Azul Claro e o Azul Escuro nas Corridas de Remo[4]. Porém, agora que a estrutura formal do sistema bipartidário foi tirada do equilíbrio e superada, é muito curioso perguntar se havia uma espécie de princípio real por trás de tudo isso e se esse princípio persistiu. E é justo dizer que houve uma diferença mais profunda e que permaneceu de fato. Da mesma forma que há diferenças reais entre dois tons de azul, embora ambos sejam azul, ou entre Oxford e Cambridge, embora ambos sejam parquinhos refinados, existe ao final das contas algo por trás da atitude do Tory com seu oponente, seja ele liberal ou trabalhista. É algo interessante, como explico adiante.

Todo o mundo moderno está dividido entre conservadores e progressistas. O papel dos progressistas é continuar cometendo erros. O papel dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando o revolucionário se arrependesse da revolução, o tradicionalista já a estaria defendendo como parte de sua tradição. Portanto, temos dois grandes tipos de pessoas: a avançada que se precipita para a ruína, e a retrospectiva que aprecia as ruínas. Ela as aprecia especialmente sob o luar, para não dizer em meio à conversa tola[5]. Cada tolice do progressista e do arrogante transforma-se imediatamente em lenda de antiguidade imemorial para o esnobe. Em nossa Constituição isto se chama freio e contrapeso[6].

Ao longo da história, o trabalho dos Tories era se contrapor às ações dos Whigs. Um velho unionista discursando sobre Ulster[7] provavelmente ficaria surpreso se fosse chamado de revolucionário. Mas ele estaria assumindo uma posição nos princípios da Revolução – a Revolução de 1688[8].  Em suma, o conservador de dois ou três anos atrás existiu para proteger o que o conservador de duzentos anos atrás tentava evitar. E da mesma forma como aconteceu com a Revolução de 1688, aconteceu com a Revolução Industrial. Quando o conservador médio, o constitucionalista, sai em defesa do capitalismo, ele sai em defesa do resultado deplorável da última trapalhada dos radicais. Foram os radicais que criaram a Revolução Industrial, com suas fábricas e suas favelas, seus milionários e seus milhões de escravos assalariados. Assim que os progressistas criaram essa felicidade, instantaneamente veio a tarefa dos conservadores de evitar que fosse desfeita. O capitalismo é simplesmente o caos que se seguiu ao fracasso do individualismo. Porém, estes mesmos tradicionalistas, que nunca caíram no erro do individualismo, estão proibidos de acusar o fracasso do individualismo. O sucesso da política de Manchester[9] foi aceito de forma tão abjeta que seus oponentes derrotados sequer ousaram ver que ela fracassou. Torna-se dever do Tory defender o triunfo dos radicais mesmo quando termina em derrota. Da mesma forma, é um fato inacreditável que alguns continuem falando da eficiência alemã, embora estejam olhando de frente aquilo que os alemães realizaram. Uma pessoa respeitável considera meio bolchevista[10] falar do colapso do capitalismo. Mas se os bolcheviques resolvessem explodir a Cidade de Londres com dinamite, lançando a cruz da Catedral de São Paulo para além do Tâmisa e mandando o Monumento[11] pelos ares para além das colinas de Highgate, seria dever do respeitável conservador conservar esses fragmentos nos locais exatos onde caíram, e resistir a qualquer tentativa revolucionária para devolvê-los a seus lugares.

De qualquer forma, estou convencido de que queremos colocar as coisas no lugar certo, não importa quanto tempo elas estiveram no lugar errado. Estou convencido de que a maldição dos últimos dois ou três séculos sempre veio dessa forma e seguiu este caminho. Sempre houve quem se precipitasse com impaciência para o Dilúvio, e então o congelasse cuidadosamente numa espécie de Idade do Gelo e de um Círculo Ártico sem fim. Desde sempre os homens moveram quando deviam permanecer parados, e pararam imediatamente quando realmente deveriam se mover. O espírito de inovação sempre foi longe demais até virar confusão, e então o espírito da estabilidade retornava incongruentemente e exortava a manter-se na confusão. Isso pode ser notado pela centésima vez no curioso beco sem saída em que a Rússia bolchevique — ou melhor, na Rússia que supostamente seria bolchevique — parece ter entrado. Aparentemente, a Rússia ficará presa por tempo indefinido em um estranho acordo entre o comunismo decadente e o capitalismo forasteiro, entre o trabalho servil e forçado e a propriedade camponesa desafiadora, naquela indescritível colcha de retalhos em que a sociedade se tornou depois da Revolução. Ela teve energia para pular no fogo e não teve energia para pular fora. Isso talvez seja um pouco mais confortável, porém dificilmente compreensível, porque agora o fogo é praticamente cinzas. Todavia, não é somente na Rússia que tudo está sufocado nas cinzas das coisas incineradas. O mesmo acontece de maneira bem menos caótica na história recente da mais ordenada civilização Ocidental. Há um monte de revoluções mortas pesando sobre nós feito um fardo. Nós também somos oprimidos por velhas novidades. Estaria tudo bem se os inovadores realmente tivessem novas ideias que adotaram recentemente, e que os tradicionalistas realmente tivessem velhas ideias que ainda guardassem. Mas o reacionário está apenas se agarrando a revoluções das quais até o revolucionário se cansou. Ele é somente um homem atrasado em uma geração da desilusão geral com a última descoberta. O único tipo de reforma proposta é aquela que os conservadores vão tratar como convenção assim que for estabelecida, e que os reformistas já estão tratando como convenção antes mesmo de estabelecê-la. De certa forma, é verdade dizer que as coisas irão piorar antes de melhorar. Porém, é mais verdadeiro dizer que devemos voltar ainda mais atrás antes que possamos avançar.

[1] Partido conservador inglês.

[2] Trocadilho de Chesterton entre apoio do público (public) e bar (public-house), ou pub.

[3] Partido liberal inglês.

[4] As Corridas de Remo são uma disputa anual entre os clubes de remo das universidades de Oxford e Cambridge, no rio Tâmisa, em Londres. O barco e os remos do clube de Oxford são pintados em azul-escuro, enquanto o clube de Cambridge é representado pelo azul-claro.

[5] Trocadilho entre moonlight e moonshine: as palavras são sinônimas e significam luar, masmoonshine também pode significar baboseira, conversa sem sentido (Collins English Dictionary, 2009).

[6] “Mutual checks and balances“, ou sistema de freios e contrapesos no Direito brasileiro: expressão comum nas ciências jurídicas e políticas para descrever o sistema de equilíbrio dos Poderes de Estado nos regimes constitucionais.

[7] O partido unionista defendia a união da Irlanda do Norte (Ulster) ao Reino Unido.

[8] A Revolução de 1688, ou Revolução Gloriosa, favoreceu os whigs em prejuízo dos tories ao coroar Guilherme de Orange e sua esposa Maria como rei e rainha da Inglaterra. Foi seguida dos Atos de União de 1707 que formalizaram o Reino Unido, e encerrou um longo período de disputa política.

[9] Manchester foi um dos primeiros grandes centros do capitalismo industrial da Inglaterra.

[10] Os bolcheviques foram o grupo vitorioso da Revolução Comunista de 1917 na Rússia, que deu origem à União Soviética.

[11] O Monumento ao Grande Incêndio de Londres é uma coluna erguida em memória do incêndio ocorrido em 1666, que durou quatro dias e devastou a maior parte da cidade. Ele se localiza próximo ao local onde incêndio se iniciou no centro de Londres, uma padaria em Pudding Lane.

Originalmente publicado aqui.

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