A Revolução dos Bichos

A decepção com o stalinismo ou com o autoritarismo ditatorial que desvirtuou os propósitos da Revolução soviética atingiu vários intelectuais europeus que foram comunistas ou simpatizantes do comunismo em meados do século 20. Foi exatamente essa decepção que levou o inglês George Orwell a escrever as duas obras que o colocariam na história da literatura universal: “1984” e “A Revolução dos Bichos”.

Neste último o autor tematiza exatamente o fracasso da Revolução e a ascenção do stalinismo, recorrendo ao velho expediente das fábulas tradicionais, ou seja, utilizando-se de animais para representar os homens. O ponto de partida são as reflexões de um velho porco (que representa Karl Marx), o qual constata que os animais, apesar de superiores aos homens, são explorados por eles. Propõe, então, uma revolução que modifique esse estado das coisas.

O porco morre, mas outros porcos decidem levar seus ideais adiante, promovendo a revolução na fazenda onde vivem. Com o auxílio de outros animais, subjugam o dono da propriedade, que passam a administrar, teoricamente em benefício da coletividade animal. Porém, com o passar do tempo, os porcos vão se impondo aos outros bichos e assumem, na prática, o papel que era exercido pelos homens.

Na visão orwelliana do processo revolucionário, os porcos representam os bolchevistas e o desenvolvimento da trama vai mostrá-los assumindo o mesmo papel de domínio e exploração anteriormente exercido pelos homens, que se identificariam com a burguesia.

É impossível discordar do autor no que se refere ao chamado socialismo real. Em todos os lugares do mundo onde ele foi implantado ao longo da história, um partido – e via de regra o líder desse partido – tomaram o lugar da classe social que deveria comandar o processo revolucionário, substituindo a “ditadura do proletariado” proposta por Marx por uma ditadura do partido. Foi assim na União Soviética e em seus satélites do Leste Europeu, na China, no Camboja, em Cuba e na Coréia do Norte.

Dada a difusão das idéias socialistas em toda a América do Sul, a leitura de “A Revolução dos Bichos” continua atual e oportuna, ajudando o leitor a refletir sobre utopias e realidade, bem como a questionar a retórica da construção de uma sociedade mais justa e igualitária, em nome da qual “os fins justificam os meios” (veja plano de aula).

A Revolução dos Bichos

George Orwell

Companhia das Letras

126 págs.

Originalmente publicado aqui.

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As tolices dos nossos partidos

G.K. Chesterton: The Illustrated London News, 19 de abril de 1924.

Tradução: Pedro Gontijo Menezes

Todas as notas são do tradutor.

O sistema partidário britânico foi fundado sob a ideia inglesa de jogo justo. Segundo ela, a tolice e a futilidade deveriam ser divididas igualmente entre dois lados. Não haveria espírito esportivo em acumular ricamente um dos lados com besteiras e deixar o outro com nada além da verdade nua. Não seria um jogo justo se um combatente vestisse uma brilhante armadura de enganações e mentiras, enquanto o outro ficasse aleijado pela nudez da verdade. O jogo não poderia ser bem jogado até que as várias peças da falta de noção e da hipocrisia fossem cuidadosa e igualitariamente distribuídas. Não deveria haver vantagens no discurso vazio e nenhum privilégio arrogante para o absurdo. Cada competidor carregaria seu peso com o mesmo grau de gravidade e inconveniência; cada um foi dotado com o fardo da estupidez ou coisa parecida, o qual é proibido largar. Largá-lo seria ganhar uma vantagem injusta sobre o oponente, ainda resistindo como um cavalheiro sob seu próprio amontoado de bobagem. No entanto, alguns dirão que esses pesos-mortos raramente tem algo a ver com as ideias originais ou os propósitos dos dois combatentes: o Tory[1], ou o tradicionalista, teve de professar até o fim um ódio mórbido e sem sentido contra a Irlanda católica e agrícola. O liberal, um campeão da liberdade, teve de abrir uma exceção em favor do tabu supersticioso e selvagem contra uma bebida popular como a cerveja. Não foi que ele achou injusto minar a popularidade do Tory, e sim porque é um dos notórios pré-requisitos do Tory angariar do público tanto apoio quanto ele poderia conseguir do bar[2]. Da mesma forma, o nobre Tory considerou que causar vexame aos Whigs[3] tratando os irlandeses decentemente seria um truque indigno de um cavalheiro. Era seu dever, como bom colega, governar mal e dar chance às críticas. Este arranjo parece extraordinário, mas era de fato o arranjo feito entre dois partidos.

Esta era a característica superficial, ou esportiva, do sistema partidário — algo do mesmo tipo das paixões divididas entre o Azul Claro e o Azul Escuro nas Corridas de Remo[4]. Porém, agora que a estrutura formal do sistema bipartidário foi tirada do equilíbrio e superada, é muito curioso perguntar se havia uma espécie de princípio real por trás de tudo isso e se esse princípio persistiu. E é justo dizer que houve uma diferença mais profunda e que permaneceu de fato. Da mesma forma que há diferenças reais entre dois tons de azul, embora ambos sejam azul, ou entre Oxford e Cambridge, embora ambos sejam parquinhos refinados, existe ao final das contas algo por trás da atitude do Tory com seu oponente, seja ele liberal ou trabalhista. É algo interessante, como explico adiante.

Todo o mundo moderno está dividido entre conservadores e progressistas. O papel dos progressistas é continuar cometendo erros. O papel dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando o revolucionário se arrependesse da revolução, o tradicionalista já a estaria defendendo como parte de sua tradição. Portanto, temos dois grandes tipos de pessoas: a avançada que se precipita para a ruína, e a retrospectiva que aprecia as ruínas. Ela as aprecia especialmente sob o luar, para não dizer em meio à conversa tola[5]. Cada tolice do progressista e do arrogante transforma-se imediatamente em lenda de antiguidade imemorial para o esnobe. Em nossa Constituição isto se chama freio e contrapeso[6].

Ao longo da história, o trabalho dos Tories era se contrapor às ações dos Whigs. Um velho unionista discursando sobre Ulster[7] provavelmente ficaria surpreso se fosse chamado de revolucionário. Mas ele estaria assumindo uma posição nos princípios da Revolução – a Revolução de 1688[8].  Em suma, o conservador de dois ou três anos atrás existiu para proteger o que o conservador de duzentos anos atrás tentava evitar. E da mesma forma como aconteceu com a Revolução de 1688, aconteceu com a Revolução Industrial. Quando o conservador médio, o constitucionalista, sai em defesa do capitalismo, ele sai em defesa do resultado deplorável da última trapalhada dos radicais. Foram os radicais que criaram a Revolução Industrial, com suas fábricas e suas favelas, seus milionários e seus milhões de escravos assalariados. Assim que os progressistas criaram essa felicidade, instantaneamente veio a tarefa dos conservadores de evitar que fosse desfeita. O capitalismo é simplesmente o caos que se seguiu ao fracasso do individualismo. Porém, estes mesmos tradicionalistas, que nunca caíram no erro do individualismo, estão proibidos de acusar o fracasso do individualismo. O sucesso da política de Manchester[9] foi aceito de forma tão abjeta que seus oponentes derrotados sequer ousaram ver que ela fracassou. Torna-se dever do Tory defender o triunfo dos radicais mesmo quando termina em derrota. Da mesma forma, é um fato inacreditável que alguns continuem falando da eficiência alemã, embora estejam olhando de frente aquilo que os alemães realizaram. Uma pessoa respeitável considera meio bolchevista[10] falar do colapso do capitalismo. Mas se os bolcheviques resolvessem explodir a Cidade de Londres com dinamite, lançando a cruz da Catedral de São Paulo para além do Tâmisa e mandando o Monumento[11] pelos ares para além das colinas de Highgate, seria dever do respeitável conservador conservar esses fragmentos nos locais exatos onde caíram, e resistir a qualquer tentativa revolucionária para devolvê-los a seus lugares.

De qualquer forma, estou convencido de que queremos colocar as coisas no lugar certo, não importa quanto tempo elas estiveram no lugar errado. Estou convencido de que a maldição dos últimos dois ou três séculos sempre veio dessa forma e seguiu este caminho. Sempre houve quem se precipitasse com impaciência para o Dilúvio, e então o congelasse cuidadosamente numa espécie de Idade do Gelo e de um Círculo Ártico sem fim. Desde sempre os homens moveram quando deviam permanecer parados, e pararam imediatamente quando realmente deveriam se mover. O espírito de inovação sempre foi longe demais até virar confusão, e então o espírito da estabilidade retornava incongruentemente e exortava a manter-se na confusão. Isso pode ser notado pela centésima vez no curioso beco sem saída em que a Rússia bolchevique — ou melhor, na Rússia que supostamente seria bolchevique — parece ter entrado. Aparentemente, a Rússia ficará presa por tempo indefinido em um estranho acordo entre o comunismo decadente e o capitalismo forasteiro, entre o trabalho servil e forçado e a propriedade camponesa desafiadora, naquela indescritível colcha de retalhos em que a sociedade se tornou depois da Revolução. Ela teve energia para pular no fogo e não teve energia para pular fora. Isso talvez seja um pouco mais confortável, porém dificilmente compreensível, porque agora o fogo é praticamente cinzas. Todavia, não é somente na Rússia que tudo está sufocado nas cinzas das coisas incineradas. O mesmo acontece de maneira bem menos caótica na história recente da mais ordenada civilização Ocidental. Há um monte de revoluções mortas pesando sobre nós feito um fardo. Nós também somos oprimidos por velhas novidades. Estaria tudo bem se os inovadores realmente tivessem novas ideias que adotaram recentemente, e que os tradicionalistas realmente tivessem velhas ideias que ainda guardassem. Mas o reacionário está apenas se agarrando a revoluções das quais até o revolucionário se cansou. Ele é somente um homem atrasado em uma geração da desilusão geral com a última descoberta. O único tipo de reforma proposta é aquela que os conservadores vão tratar como convenção assim que for estabelecida, e que os reformistas já estão tratando como convenção antes mesmo de estabelecê-la. De certa forma, é verdade dizer que as coisas irão piorar antes de melhorar. Porém, é mais verdadeiro dizer que devemos voltar ainda mais atrás antes que possamos avançar.

[1] Partido conservador inglês.

[2] Trocadilho de Chesterton entre apoio do público (public) e bar (public-house), ou pub.

[3] Partido liberal inglês.

[4] As Corridas de Remo são uma disputa anual entre os clubes de remo das universidades de Oxford e Cambridge, no rio Tâmisa, em Londres. O barco e os remos do clube de Oxford são pintados em azul-escuro, enquanto o clube de Cambridge é representado pelo azul-claro.

[5] Trocadilho entre moonlight e moonshine: as palavras são sinônimas e significam luar, masmoonshine também pode significar baboseira, conversa sem sentido (Collins English Dictionary, 2009).

[6] “Mutual checks and balances“, ou sistema de freios e contrapesos no Direito brasileiro: expressão comum nas ciências jurídicas e políticas para descrever o sistema de equilíbrio dos Poderes de Estado nos regimes constitucionais.

[7] O partido unionista defendia a união da Irlanda do Norte (Ulster) ao Reino Unido.

[8] A Revolução de 1688, ou Revolução Gloriosa, favoreceu os whigs em prejuízo dos tories ao coroar Guilherme de Orange e sua esposa Maria como rei e rainha da Inglaterra. Foi seguida dos Atos de União de 1707 que formalizaram o Reino Unido, e encerrou um longo período de disputa política.

[9] Manchester foi um dos primeiros grandes centros do capitalismo industrial da Inglaterra.

[10] Os bolcheviques foram o grupo vitorioso da Revolução Comunista de 1917 na Rússia, que deu origem à União Soviética.

[11] O Monumento ao Grande Incêndio de Londres é uma coluna erguida em memória do incêndio ocorrido em 1666, que durou quatro dias e devastou a maior parte da cidade. Ele se localiza próximo ao local onde incêndio se iniciou no centro de Londres, uma padaria em Pudding Lane.

Originalmente publicado aqui.

O “marketing” da Igreja funcionou durante séculos. Mudá-lo (para pior) foi um erro trágico. Palavras de especialista.

Na última semana da Assembléia dos Bispos da CNBB que ocorre em Aparecida, recordamos um relatório de 1977 pouquíssimo divulgado.

Por Messa in Latino | Tradução: Alexandre Oliveira – Fratres in Unum.com: Fiéis em fuga? O “príncipe” domarketing brasileiro (Alex Periscinoto) explicou aos bispos o valor da tradição (IlTimone) e analisou este fato à luz dos modernos conceitos de marketing: os sinos, a cruz, a torre do sino, as procissões, a orientação do sacerdote, a batina e o latim eram excelentes ferramentas para o reconhecimento, a lealdade, a “propaganda fide“, e, assim, para a manutenção dela.

“O Vaticano II abriu a Igreja”… “E o povo saiu!”.

Contratado pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – para estudar as causas do abandono da prática religiosa e para sugerir quais seriam os remédios, o especialista em comunicação corporativa, em seu relatório, deixou os prelados de boca aberta. E não pelo fato de terem gostado das conclusões.

“Vocês já tinham um sistema perfeito de marketing.” Ao mudá-lo, ao remover o latim, ao abandonar a batina, ao fazer igrejas semelhantes em edifícios civis – disse Periscinoto aos bispos – pensavam estar agradando aos fiéis, mas tudo isso foi um erro gigantesco. Mudar a liturgia foi um desastre”, acrescentou. Ele admitiu não falar como um teólogo, mas como especialista emmarketing.

Queridos bispos inflamados pelo espírito do Concílio, o que vocês têm a dizer agora? Para cada causa, há um efeito correspondente. E se o efeito era perder fiéis…

Claro: o discurso gira em torno da ideia de imagem, e não em torno da fé. Assim, ninguém se escandalize. Mas não podemos negar que muito da liturgia, dos atos de culto e na exteriorização da fé também têm um valor forte demarketing (pensemos no trevo de São Patrício ou no monograma São Berbardino de Siena, para citar apenas dois dos muitos exemplos de “logos” católicos).

Nunca como neste caso, pareceu-me apropriada a charge acima. “O Vaticano II abriu a Igreja…” “… e as pessoas saíram!”

Roberto – Messa in Latino

* * *

Pode-se baixar aqui o discurso aos bispos brasileiros: A Igreja e a Propaganda, por Criativa Marketing.

A Igreja e o Marketing – vence a Tradição

Por Julio Loredo – 13 de abril de 2015

Poucos países sofreram tanto as consequências do pós-concílio quanto o Brasil, onde o número de católicos caiu 35% ao longo dos últimos trinta anos. Há alguns anos, preocupado com a hemorragia dos fiéis, os bispos brasileiros contrataram uma importante empresa de marketing, o ALMAP, cujo presidente, Alex Periscinoto, é tido como o “melhor gestor de marketing” do Brasil.

Os membros do Comitê Executivo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil esperavam de Periscinoto conselhos sobre como definir uma pastoral da Igreja, oferecendo uma melhor imagem da instituição, a fim de parar o sangramento de fiéis que, em sua maior parte, estão passando para a comunidade evangélica.

O resultado foi surpreendente. Perissinotto apresentou os resultados de seu estudo para duzentas pessoas, entre bispos e padres ligados à pastoral. Dizer que ficaram chocados com o discurso do especialista em marketing seria pouco. Talvez eles esperassem ser aconselhados a pintar igrejas com cores vivas, a introduzir mais música pop, mais liturgias aggiornatte e assim por diante. Mas, aos invés disso…

“A primeira ferramenta de marketing na história do mundo foi o sino – disse Periscinoto logo de início – e era a melhor. Quando ele tocava, não só atingia 90% dos habitantes de uma cidade, mas mudava o comportamento pessoal deles. Vocês, então, inventaram uma ferramenta que ainda é usada em marketing comercial. É chamado de ‘display’. A tela é algo que usamos para enfatizar, propor algo com força para o público. Quando todas as casas eram baixas, vocês construíam igrejas com torres seis vezes maiores. Isso permitia que o reconhecimento imediato da igreja: ali está!

Vocês inventaram o primeiro logo da história. O logotipo é um símbolo usado para garantir que uma marca seja facilmente reconhecível. A de vocês era a melhor: a Cruz. Este logotipo foi sempre colocado sobre o ponto mais alto e visível do display. Ninguém poderia confundir: aquela era a Igreja Católica! Este logotipo inventado por vocês foi tão eficaz que até mesmo Hitler o utilizou, com pequenas modificações, para mobilizar as massas. E quase ganhou a guerra.

“Vocês também inventaram a campanha promocional. O que é uma procissão religiosa? Para uma cidade[1], ou mesmo para um bairro de uma cidade grande, nada é mais promocional do que uma procissão, por exemplo, em honra de Nossa Senhora. Quando nós, especialistas em marketing, organizamos um evento promocional, usamos muito do que a Igreja inventou. Nós desfraldamos bandeiras e banners, nós vestimos nossos representantes com trajes especiais de modo que eles possam ser facilmente reconhecidos. Procuramos criar uma mística comercial. Mas a nossa mística nunca será tão rica quanto a de vocês”.

Infelizmente, vocês mudaram a maneira em que a missa é celebrada. Hoje a missa já não é em latim e de costas para o fiel. Vocês pensavam que talvez fizessem algo de bom. Ao invés vez disso, tenho uma má notícia. Minha mãe nunca pensou que o padre estava de costas. Ela sempre pensou que todos, fiel e celebrante, estavam voltados para Deus. Ela gostava do latim, mesmo quando não entendia muito. Para ela, o latim era a língua mística com o qual os ministros da Igreja falavam com Deus. Ela se sentia privilegiada e recompensada por assistir de joelhos uma cerimônia tão importante. Na minha opinião, a mudança feita na liturgia da Missa foi um erro terrível. Posso estar errado. Eu não sou um teólogo. Analiso o problema do ponto de vista domarketing. E a partir deste ponto de vista, a mudança foi um desastre.

Vocês abandonaram seu traje particular, a batina, que identificava seus representantes comerciais, o sacerdote. Ao fazê-lo, jogaram fora uma marca.

Vocês desnaturaram o seu display, tornando igrejas cada vez mais parecidas com prédios civis.

“Tudo o que se inventa contém uma oferta, algo que se quer vender. O produto de vocês é chamado fé. Mas eu também tenho uma boa notícia. Esta, hoje, é uma demanda crescente. O mercado, talvez, nunca foi tão favorável para a fé. Vocês, no entanto, falam mais de política do que fé. Assim, vocês podem reclamar se suas igrejas estão cada vez mais vazias, enquanto que os salões de grupos evangélicos estão cada vez mais cheios? “.

[1]Paesedicampagna – no original

Fonte original do artigo: ATFP

Originalmente publicado aqui.

Famed German Catholic philosopher makes waves for criticizing Pope Francis’ ‘autocratic’ style

April 27, 2015 (LifeSiteNews.com)

Featured ImageJohn-Henry Westen / LifeSiteNews.com

In a recent lengthy interview with the German Catholic journal Herder Korrespondenz in an issue especially dedicated to the theme of Pope Francis, the renowned and arguably most prominent Catholic philosopher in Germany, Professor Robert Spaemann, a long-time friend of Pope Benedict, has gone public with a strong criticism of Pope Francis that is being discussed nation-wide.

At the beginning of this interview-discussion that included also another German Catholic philosopher, Professor Hans Joas, Spaemann in a calm and differentiated way first acknowledged Pope Francis’ strengths and especially what he calls his “traditional piety”: “He speaks like a Latin-American bishop who is fully rooted in the piety of his people.” Spaemann continues:

“On the other side, in my view, his cult of spontaneity is not helping. In the Vatican, some people are already sighing: ‘Today, he has already again another different idea from yesterday.’ One does not fully get rid of the impression of chaos. And it is irritating how he prepares the Synod. It is the intention that two parties meet at the synod which the Pope wants to lead into a dialogue whereby he himself plays the role of a moderator. In the same time, however, he takes sides already in advance by favoring the position of Cardinal Walter Kasper, he has excluded the John Paul II Institute for Studies on the Family from the pre-Synod consultations and tries with the help of explicit pressure to influence those consultations.”

Spaemann then also criticized Pope Francis for dismissing personnel who have been close to Pope Benedict XVI: “Pope Francis always stresses his close bond with Pope Benedict. In certain ways that certainly also exists. But I wonder why he throws so many people out of the Vatican who had been called in by Benedict.”

The 87-year old Spaemann who had taught at important universities such as the University of Heidelberg and the University of Munich, also criticized Pope Francis for his way of electing new cardinals:

“Take the recent elections of new cardinals. There have now entered into the government of the whole Church completely unknown bishops who at times only have 15,000 Catholics in their dioceses. Bishops with larger dioceses, however, were passed by, even though one must have seen in them a certain extraordinary quality when they were chosen to be archbishops. Why are they then not called to the top? I ask myself, what will be the result in the end – next to a fleeting symbolic gesture? The upcoming Synod will especially have to show what the Holy Father intends.”

The progressive Professor Hans Joas, Spaemann’s counterpart in this interview, largely supported Pope Francis, and even goes so far as to defend extramarital sexual commerce as such. But even he agreed with Spaemann in some of his criticism concerning the previous and the upcoming Synod on Marriage and the Family:

“The greater danger is, however – and here we agree – that, through this dynamic that he [Pope Francis] fosters, he could break loose massive conflicts and the bad centrifugal forces could put in danger the Church as a whole. The analogy to Mikhail Gorbachev comes to mind – with all its differences: There comes a reformer from above and the changes make the whole edifice sway. That has to be avoided at all cost.”

When Spaemann was then asked how he responded to the fact that the first words of the newly elected Pope Francis on the balcony were, “Buona sera [good evening],” Spaemann responded: “’O God, does this need to be?’ I said.”

Spaemann’s sharply critical view of Pope Francis becomes even clearer after he was asked about the possible future results of this papacy. In his critique, Spaemann refers to the teaching of the Gospels as his decisively formative guide:

“It can be that Francis’ way is perceived as a new start – or as a failure. I always try to find a standard with which to measure by reading the Gospels and the Letters of the Apostles. St. Paul says that there will come teachers who say things that sound beautiful for the ears and the people will follow them. But you, says St. Paul to Timothy, shall not be confounded. Pass on the treasure that you have received, in an unfalsified and unshortened manner.”

Spaemann especially insists in this interview that one should not separate doctrine from practice. When asked about Pope Francis’ warning against a Christendom of ideas and his favoring a Christendom of deeds, the philosopher replies:

“I find this formulation awkward. Both have to come together. Francis divides the two areas of the Church – theology and practice. And wants to keep them separate. The theologians shall do their work, but the shepherds shall not pay much attention to them. It seems to me that he does not read much, and does not care much about theology. However, in my view both have to be brought together. The theology becomes bloodless and abstract, when the pastoral experience does not flow into it. But vice versa, the pastoral care also becomes empty and does not know what it shall teach if it does not have a theological foundation.”

When asked whether the loving and liberating message of Christ should stand at the center of the Church’s teaching, Spaemann reminds us that Jesus Christ also warned us of the danger of the eternal loss of our souls:

“But the teaching of the catechism is unambiguous: Jesus does not only proclaim the loving God; He announces Himself to be the Judge of the living and the dead. The ones He will receive into His kingdom, the others He condemns. Therefore, the sermons of Jesus are filled with warnings. Do we want to ignore them? Does this mean to ignore the signs of the time?”

On looking back upon the papacy of Benedict XVI, Spaemann sees that Benedict gave the Church the gift of a greater spiritual freedom. He says: “There is a spiritual freedom that Benedict XVI has brought into the Church.” The German philosopher also praises Benedict XVI for having removed some grave injustices concerning the liturgy:

“He has tried to integrate into the Church the spiritual potential of those people who like to attend the old Mass. That is a great achievement. Francis sometimes turns up his nose at the friends of the old Mass. I consider this to be hurtful. […] In Buenos Aires it was of all people Bergoglio who one week after the publication of Summorum Pontificum gave a significant Church to the followers of the old Mass.”

Spaemann, as well as his colleague, Joas, both express in this interview their critique of Pope Francis’ sometimes “autocratic” methods and leadership. Spaemann says:

“The pope has the unrestricted power of definition and also the full jurisdiction, something that the Orthodoxy for example completely rejects. Francis stresses that he can directly intervene in every diocese of the world. If Benedict would have said something like that, there would have been an outcry. But with Francis, the powers of the Pope are again stressed in a stronger way. And no newspaper is upset.”

And at another place, Spaemann says: “This Pope is one of the most autocratic [popes] that we have had in a long time.”

Joas adds to this criticism:

“With regard to the changes in the Vatican, I considered the public humiliation of his employees in the speech of the Pope before Christmas to be problematic. A critique of such a manner has to happen either in a non-public form or there must be the possibility of expressed disagreement. To humiliate people publicly I consider to be autocratic in a negative sense.”

In relation to the last and to the upcoming Synod of Bishops on the Family, Spaemann shows clearly a concern that the pope could cause a split within the Church:

“There must be a true dialogue. […] But in the end, there will be the question of the outcome. Will the split within the Church grow larger, or can something be brought closer together? The Synod serves to take everybody along, that is a good thought, if only the pope omits to be moderator and partisan at the same time.”

Toward the end of the interview, Robert Spaemann makes some strong comments about the question of the “remarried” divorcees and about the fact that dioceses in the world treat this question in very different ways. Spaemann comments:

“No, it cannot be that in the one diocese it is dealt with in another fashion than in another one. Each bishop has authority in his diocese. But a true authority, for example, of a Bishop’s Conference does not exist. Therefore, unified solutions are needed. And especially, things have to fit together. I can not speak on the one hand of the indissolubility of marriage and of the sinfulness of extramarital sexual commerce, and then on the other hand give the Church’s blessing to a ‘new bed community’.”

Professor Spaemann insists that the Church needs to transmit the moral teaching in a new and adapted manner, but not to adapt the teaching itself:

“If a greater adaptation to the modern ‘way of life’ of the Church would be the way, then Protestantism which goes this way should have fewer losses than the Catholic Church, which is not the case. The approval of the true indissolubility of marriage has to be the condition for admitting someone to the Sacrament of Marriage. Only in this way can a marriage experience the happiness that binds itself with the consciousness that this bond has been written in the stars from whence nobody can call it down.”

In this context, Spaemann repeats the teaching of the Church concerning extramarital sexual commerce and refers back to the time of Jesus Christ where people were shocked about His teaching:

“The Gospels say so [that it is forbidden]. These are the words of Jesus. Then people say that it is too difficult for the people of today. Yes, it also became difficult for the people at the times of Jesus. When Jesus said that the marriage cannot be dissolved, the reaction of the Apostles was not enthusiasm; on the contrary, they were shocked and asked who then still wanted to marry. They were shocked, just the same as people are shocked today.”

With these words, the German philosopher Spaemann reminds all of us that Christ’s standard is always the same and will always remain the same and that the sinful and adulterous world of the time of Christ had to obey Him, just as our own world now has to adapt itself to Him Who came to redeem us and to save us.

Originalmente publicado aqui.

Mulher deve ser maternal e parar de culpar o homem, diz Camille Paglia

Camille Paglia, a mais antifeminista entre as feministas, aposta na revalorização do lado maternal da mulher como chave para um reencontro afetivo entre os sexos.

Para a ensaísta, enquanto a mulher de qualidade maternal exerce poder sobre os homens ao ter “pena de suas fraquezas”, a mulher de perfil profissional exige deles, em casa, a perfeição do mundo dos escritórios.

Em entrevista à Folha, Paglia se declara transexual, critica a produção da arte contemporânea e diz que Madonna deve parar de competir com as mulheres mais jovens.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Ilustração/André Toma
Ilustração da crítica e ensaísta americana Camille Paglia
A crítica e ensaísta americana Camille Paglia em ilustração feita por André Toma

Folha – Você é feminista ou antifeminista?

Camille Paglia – Eu certamente sou uma feminista. 100%. Os motivos pelos quais eu discordo de boa parte das feministas de hoje é que minha militância começou no início dos anos 60, antes da reviravolta que o movimento teve no final daquela década.

Eu dei uma aula na semana passada na qual eu falava sobre o filme “Núpcias de Escândalo”, com Katharine Hepburn. A mãe da atriz era uma das líderes da campanha pelo sufrágio das mulheres, e a própria atriz, antes da Segunda Guerra Mundial, estava participando das manifestações de sufragistas. Eu estava obcecada também por Amelia Earhart, pioneira da aviação e uma dessas mulheres emancipadas dos anos 20 e 30.

Eu admiro demais essa geração de mulheres. Porque elas não atacavam os homens, não insultavam os homens e não apontavam os homens como fonte de todos os problemas das mulheres. O que elas pediam era igualdade de condições no âmbito da carreira e da política e queriam demonstrar que podiam obter as mesmas conquistas dos homens. Era como dizer: somos como os homens, admiramos os homens, amamos os homens.

Hoje em dia, as feministas culpam os homens por tudo! Elas exigem que os homens mudem, querem que eles pensem e ajam como mulheres, almejam que o protagonismo dos homens seja reduzido. Esse é o terrível problema do feminismo contemporâneo, porque, em última instância, isso está fazendo as mulheres retrocederem e as está enfraquecendo.

As mulheres de hoje não são tão fortes como as grandes mulheres dos anos 20 e 30. Então as pessoas me chamam de antifeminista. Mas não: eu sou contrária à ideologia feminista do presente, que é doente, indiscriminada e neurótica. E, mais do que tudo, não permite à mulher ser feliz.

As mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas e parar de culpar os homens por seus problemas, que têm mais a ver com questões e estruturas sociais, e não são fruto de uma conspiração masculina.

Se os homens se parecessem mais com as mulheres, como você diz desejarem as feministas de hoje, o que aconteceria?

As mulheres querem que os homens se comuniquem como elas. Mas, em toda a história da humanidade, as mulheres viveram entre si e os homens viveram entre si. Eram dois mundos separados. A mulheres cuidavam das crianças, da casa, da alimentação, e os homens caçavam e faziam o trabalho pesado. Sei disso porque todos os meus quatro avós eram agricultores italianos, e meus pais nasceram neste ambiente. Sou a primeira geração que cresceu fora dessa estrutura.

O problema hoje é que as mulheres, educadas e ambiciosas, querem entrar no novo mundo burguês do trabalho em escritórios, que são parte do legado da Revolução Industrial. Então temos um novo mundo em que homens e mulheres trabalham lado a lado nos escritórios, em que a divisão do trabalho entre homens e mulheres não existe. Portanto, ambos têm de mudar suas personalidades para se encaixar nessa realidade porque ambos são uma unidade de trabalho, são a mesma coisa.

É muito frustrante para os dois porque, neste ambiente neutro, em que as mulheres ganharam muito poder, a sexualidade do homem ficou neutralizada. E essas mulheres querem se casar com um homem com quem seja fácil se comunicar. E fora do ambiente de trabalho, qualquer homem que se comporte como homem provoca reações negativas.

Eu vejo grande infelicidade entre mulheres profissionais porque elas querem que suas vidas amorosas tenham a comunicação maravilhosa que elas têm com outras mulheres. A mulher profissional casa com o homem profissional e espera que, ao chegar em casa de noite, ele se comunique com ela como suas amigas ou seus amigos gays. E os homens heterossexuais jamais serão capazes na arte da análise emocional. Não dá para cobrar perfeição dos homens, como se estivéssemos no escritório.

Homem e mulher têm de convergir numa unidade de trabalho. Há uma terrível desconexão para as mulheres entre suas vidas profissionais e amorosas. Para os homens não é tão difícil porque eles encontram sexo mais facilmente. Eles não precisam casar com uma mulher para fazer sexo com ela. Para mulheres, é um período terrível de infelicidade, porque elas têm muita dificuldade em ajustar a mulher do trabalho, que tem poder e conquistas, com a mulher emocional, uma arena na qual as habilidades exercidas no escritório não funcionam.

Para os homens é frustrante porque, se o trabalho que eles fazem pode também ser feito por uma mulher, no que consiste sua masculinidade, afinal? Se antes o homem tinha o trabalho pesado, braçal, hoje, eles estão se perguntando quem são.

Como essa crise masculina se manifesta?

Tenho me preocupado muito com a epidemia do jihadismo no mundo, que é um chamado da masculinidade e está atraindo jovens homens do mundo inteiro. É uma ideia de que ali, finalmente, homens podem ser homens e ter aventuras como homens costumavam ter.

A ideologia do jihad emerge numa era de vácuo da masculinidade, graças ao sucesso do mundo das carreiras. O Estado Islâmico, por exemplo, usa vídeos para projetar esse romance, esse sonho de que os jovens podem abandonar suas casas, integrar a irmandade e se lançar numa aventura masculina por meses, na qual correm risco de morte. Antes, havia muitas oportunidades de aventuras para homens jovens. Hoje, suas vidas são como as de prisioneiros: presos nos escritórios, sem oportunidade para ação física e aventura.

O sistema de carreiras ocidental se tornou tão elaborado e aprisionado, que está produzindo, como no Império Romano, bandos de vândalos. É difícil para a classe média entender o fascínio do risco e da morte, de fazer parte de uma irmandade.

Eu estou muito preocupada politicamente com a forma como as elites não sabem responder a esse movimento. E parte disso é uma revolta dos homens e uma busca dos homens por sentido para eles enquanto homens. O mundo ocidental se tornou tão materialista, e todos estão pensando no próximo apartamento, próximo carro ou próximo emprego, que somos lentos para entender e responder a esse tipo de fenômeno.

Como reverter o desencontro entre homens e mulheres hoje?

O feminismo cometeu um grande erro ao difamar a maternidade. Quando a segunda onda do feminismo começou no final dos anos 60 e início dos anos 70 e foi piorada pelas ideias de Gloria Steinem, que pregou a desvalorização da mulher como esposa e mãe, e a valorização da mulher profissional como aquela que é realmente livre e admirável.

Betty Friedan (1921-2006), que eu admiro, começou a segunda onda do feminismo ao co-fundar a Organização Nacional para as Mulheres, em 1967. Ela era casada e tinha filhos, e queria que o feminismo fosse uma grande tenda que incluísse e acolhesse a todos. Mas Gloria Steinem era parte de um grupo que só se casou no final da vida e não teve filhos, e havia um tom de insulto ao tratar da maternidade.

Minha análise das relações sexuais, no livro “Personas Sexuais”, é que a imagem da mãe é extremamente poderosa e que é o motivo pelo qual conexões entre os sexos é instável. Toda pessoa emerge do corpo feminino, do útero, e o feminismo cometeu um erro ao tentar apagar a importância disso, tornando o nascimento um processo mecânico. A imagem mitológica da mãe é muito poderosa para os homens no nível psicológico. Todo menino precisa se livrar da sua mãe. E todo heterossexual que penetra uma mulher retorna ao útero.

Há uma ansiedade e um perigo no ato sexual entre homem e mulher. O homem se sente em risco ao colocar seu pênis no que considera uma potencial armadilha. Por isso há e sempre haverá uma ambivalência na relação sexual entre homens e mulheres. Ele deseja a mulher, ele quer ser nutrido por ela, e quer se livrar dela ao mesmo tempo porque tem receio de ser preso novamente no útero.

Muitos dos comportamentos machistas, arrogantes e estúpidos, são formas tortas de o homem dizer que não está sob o poder da mulher, que não é mais um bebê. São parte do medo do poder da mulher, do útero e da criação. Qualquer pessoa que tentar racionalizar isso, não irá pelo caminho certo.

E é isso o que o feminismo está fazendo, na sua opinião?

Sim. O feminismo é muito racionalista. Está tentando consertar a mecanismos sociais, consertar a sociedade, passando leis contra a discriminação e a favor de cotas para as mulheres. Eu concordo que precisamos de igualdade de condições, mas isso não vai resolver os problemas entre os sexos porque o que existe aí é uma consequência direta da biologia, que não tem sido considerada.

Há todas essas pessoas com ideias estúpidas, que derivam de Michel Foucault (1926-1984), negando a existência dos gêneros. Dizem que o gênero é algo imposto pela sociedade, que não há base biológica para a ideia de gênero. Essas pessoas estão malucas? Elas não sabem que toda e qualquer pessoa que está na face da Terra nasceu do corpo feminino?

As mulheres têm um poder tremendo sobre os homens. Se as feministas não querem esse poder, e querem apenas ser iguais aos homens, ok. O que eu vejo como observadora e como professora é que os homens são muito frágeis psicologicamente em relação às mulheres. E quando as mulheres renunciam ao poder da maternidade, como aconteceu na segunda onda do feminismo, elas perderam uma parte enorme de seu poder sobre os homens.

As mulheres que entenderam seu poder sobre os homens são mais felizes. As mulheres que pedem que os homens mudem e se aproximem delas são mais nervosas, são brutais. Elas não têm confiança no seu poder como mulheres.

As mulheres que têm sucesso com os homens são aquelas que mantém uma certa qualidade maternal e entendem as fraquezas dos homens. E têm pena deles por isso. Elas tratam homens com humor e conseguem entender as necessidades dos homens e nutri-los de certa forma.

De que maneira o adiamento da maternidade das últimas gerações de mulheres é produto desse tipo de pensamento da segunda onda do feminismo?

Gloria Steinem é responsável por isso. Ela e seus problemas psicológicos. Ela teve uma infância terrível. Seu pai era negligente, abandonou a mãe, a mãe teve problemas psiquiátricos.

Steinem, então, mantinha aquele sorriso como se tivesse a resposta para tudo. E ela dizia: a mulher pode ter tudo. E dizia também: uma mulher precisa de um homem tanto quando um peixe de uma bicicleta. Mas em todas as festas que ela frequentava em Nova York ela tinha um homem nos braços.

Ela pregava que a mulher cuidasse de sua carreira e deixasse a maternidade para mais tarde. Só a completa ignorância da biologia permitiu isso, porque sabemos que a fertilidade feminina é maior quanto mais nova ela é, e que a gravidez é mais segura antes dos 35 anos. E há gerações inteiras de mulheres que foram convencidas de mentiras. O que eu digo é que a verdade sobre a biologia precisa ser dita para as meninas cedo.

A mulher tem de escolher entre carreira e maternidade?

Sem dúvida. O mecanismo da educação-treinamento será sacrificado de alguma maneira para as mulheres que escolherem ter filhos. Elas provavelmente podem alcançar sucesso profissional mais tarde, mas tem um grande valor em ter filhos mais cedo.

Por exemplo, eu nasci quando meus pais tinham 21 anos. Não tínhamos grana, mas eles tinham muita energia e eram otimistas. Catorze anos depois, minha irmã nasceu, e meus pais estavam com 35 anos, eles tinham uma casa e uma vida estável, com emprego e tudo mais. Os pais que eu tive foram completamente diferentes dos pais que minha irmã teve. Então minha irmã é muito diferente de mim. Ela tem modos (risos).

Então, mulheres que acham que vão ter filhos aos 45 anos terão energia para correr atrás de uma criança como os pais de 20 e tantos anos. Educação tem que se adaptar a essa realidade da biologia.

As universidades têm que ser mais flexíveis na oferta de cursos para mulheres e de berçários nos campi para que elas deixassem seus filhos por algum tempo. Deveria ser possível para uma mulher jovem decidir ter filhos cedo e continuar a estudar meio período ou fazendo uma disciplina por vez, levando mais tempo para se formar.

As universidades se beneficiariam muito pela presença de estudantes casados e com filhos. Muitas das besteiras que são ditas sobre gênero seriam melhor debatidas se houvessem jovens pais nas salas de aula.

Como essa flexibilidade para jovens mães poderia ser aplicada ao mundo do trabalho?

As empresas não existem para serem agentes de mudanças sociais. Elas existem para obter lucro. Aquelas criadas por investidores progressistas, como muitas firmas na Califórnia, disponibilizam berçários, mas é tudo muito caro. E mais: certos benefícios fazem com que funcionários que não têm filhos reclamem.

Então, isso precisa ser visto com cuidado porque precisa haver igualdade entre os profissionais. A verdade é que maternidade é uma escolha e você precisa aceitar que isso implica numa certa troca.

Há muitas dificuldades na carreira no início, mas não depois. Minha geração de mulheres, cuja maioria focava na carreira e nos salários, está quase se aposentando. De repente, a realidade vai bater: no momento em que deixarem seus empregos, elas não terão nada e serão rapidamente esquecidas. Poderão ter uma aposentadoria financeiramente confortável, mas é só. Enquanto as classes mais populares terão as crianças já crescidas e os netos e os bisnetos. E isso traz um novo sentido à vida.

Precisamos de um discurso melhor sobre o sentido da vida, que não é apenas algo materialista.

Você adotou um menino. Como se vê enquanto mãe?

Sempre deixei claro que eu sou sua parente, mas não sua mãe. Ele tem uma única mãe, que é sua mãe biológica, que é minha ex-companheira, que vive aqui perto e nós temos uma ótima relação centrada na criação dele. Eu estava lá no consultório médico quando ele foi concebido, no hospital quando ele nasceu, tenho sido parte da sua vida desde sempre.

Todas as minhas observações sobre meninos e homens têm sido confirmadas na experiência de ter um filho e de ter adentrado o mundo das mães. E vi com meus próprios olhos que as mulheres comandam a vida das crianças, da casa e do mundo emocional da família. E o marido, que antes era o número um, passa a ser mais um no sistema da mulher. A mulher cria toda a rotina e o homem executa o que ela diz.

Na contramão do discurso que nega os gêneros, há o debate sobre os transgêneros. De que maneira o feminismo pode incluir essas pessoas?

Vou dizer algo controverso, mas real: eu me identifico como transgênero. Quando era mais nova, esse termo não existia. Mas estava muito claro que eu era muito inibida em relação ao meu gênero biológico desde sempre. Eu demonstrava isso, ainda criança, no Halloween. Eu sempre escolhia um personagem masculino. Fui um soldado romano, fui Napoleão, fui Hamlet… E nenhuma menina se fantasiava assim. Eu me sentia alienada em ser uma menina.

Eu estou muito preocupada com essa tendência cirúrgica para mudança do corpo. Isso está por toda parte nos EUA. Dizem que a criança nasceu no corpo errado e já começam com hormônios até chegar à intervenção cirúrgica. Se essa ideia estivesse no ar quando eu era jovem, eu teria me tornado obcecada com isso. Eu teria sido convencida de que essa seria a resposta para todos os meus problemas com a sociedade contemporânea e sua rigidez sexual. E eu teria cometido um engano terrível.

Por quê?

Transformar o corpo cirurgicamente é uma ilusão. Há um número muito pequeno de pessoas realmente intersexuais. É uma anormalidade congênita. A maioria dos casos não é assim. Intervir no corpo, removendo o pênis ou os seios, é uma ilusão porque todas as células do seu corpo permanecem sendo o que elas sempre foram. Simplesmente não é verdade que você mudou de gênero.

Eu acredito que é preciso respeitar o desejo das pessoas de transformar seus corpos, seja por motivos cosméticos, médicos ou de gênero. Cada um tem poder sobre o próprio corpo e eu sou uma libertária neste sentido. Por outro lado, ninguém vai me convencer de que a Chaz Bono, a filha transgênero da atriz Cher, é um homem. Ele precisa tomar uma injeção de hormônios todos os dias para ser o que é, um transgênero, nunca um homem. Cada célula daquele corpo é uma célula feminina.

As pessoas que olham para esse debate e pensam que estamos caminhando para um futuro progressista estão enganadas. Nós vivemos em um período em que os gêneros são fluidos e ninguém se identifica com os papeis de cada um dos gêneros no passado. Mas a ideia de que isso é um sintoma de saúde social está errada. É o caos.

Estamos numa fase tardia da cultura, como ocorreu com outras civilizações, em que as definições dos sexos começam a se borrar e a se dissolver e surgem todos os tipos de androginia e de brincadeiras com trocas de papéis entre feminino e masculino. Eu adoro tudo isso, mas acho que não pode ser confundido com um sintoma de saúde e de progresso. Sinto muito. É um sintoma de declínio histórico da nossa cultura. E deveríamos nos preocupar porque isso indica ansiedade e algo errado.

Eu não noto, a propósito, nenhum avanço no campo das artes. Ninguém está em um período especialmente fértil. Pelo contrário, todos estão obcecados consigo próprios. O ego se tornou um trabalho artístico. As pessoas têm dez conceitos diferentes sobre o que elas são. Acho que a obsessão com gênero e com orientação sexual se tornou uma doença.

Eu sou ateia, mas acredito no poder da religião e de sua visão do universo. Vivemos essa transição da perspectiva religiosa para essa horrível perspectiva centrada no indivíduo, com o apoio da mídia. Isso não são os anos 60, quando se pregou o poder do indivíduo contra a autoridade, mas a destruição dessa ideia cósmica do lugar de cada um no universo. E isso tudo convergiu para a obsessão por gênero e orientação sexual. Isso virou uma loucura. É o novo narcisismo.

Há formas menos obsessivas de olhar para essas questões?

Eu apoio a união civil, mas nunca apoiei o casamento gay, por exemplo. Não acho que o governo deve se envolver em casamento, um termo circunscrito à Igreja. Perante a lei, deve haver igualdade de gêneros e orientações sexuais. Mas deve haver mais respeito por religião. Se você quer se casar, vá a uma igreja que aceite casá-lo. Mas a insistência de que o governo deve intervir neste sentido é muito juvenil.

As pessoas têm de assumir responsabilidade por sua identidade e estar preparadas para desaprovação e rejeição. Os liberais ofereceram a arte como substituto para religião, mas não vejo nenhuma criatividade relevante, mas um mundo de trivialidades. As pessoas hoje estão neste sonho, alucinando ao pensar que o mundo ocidental é eterno. Todos os grandes impérios caíram. Não somos diferentes.

Qual é a consequência do narcisismo nas artes?

Não vejo nada tão profundo sendo produzido hoje se compararmos àquilo produzido em culturas mais repressivas. Tennessee Williams, que eu admiro muito, era um artista gay quando isso não era fashion, e produziu trabalhos incríveis como “Um Bonde Chamado Desejo” e “Gata em Teto de Zinco Quente”. Quem é o grande escritor gay neste mundo tão permissivo? Parece que a repressão é um estímulo para a arte (risos).

O que você acha dos protestos topless, como a Marcha das Vadias e as ações do grupo Femen?

Eu adoro qualquer performance de rua, qualquer provocação pública, sejam manifestações ou brincadeiras. Adoro a ideia de pequenos grupos desafiando os poderes constituídos. Sempre participei de muitas delas até que fui disciplinada na universidade porque me colocaram em condicional por um semestre de tanto que eu aprontava.

No entanto, essas meninas são totalmente incoerentes ideologicamente. Femen não faz o menor sentido, é algo fabricado que não tem nenhum sentido político. Uma mulher bonita, com belos seios e palavras desenhadas pelo corpo deveria estar apoiando a indústria do sexo, a prostituição e a pornografia, e não protestando contra a indústria do sexo. É ridículo e demonstra o nível de insanidade do feminismo radical atual.

Como você vai expor seu corpo para protestar contra a indústria do sexo se o que você está fazendo é gerar excitação sexual? É maluco. Eu mostrei para meus alunos o vídeo em que uma maluca do Femen agarrou o menino Jesus no presépio do Vaticano e a polícia a agarrou e ela ficou gritando (risos). Achei tudo muito divertido, mas fiquei com pena dos fiéis que estavam lá porque aquilo é profanação para eles.

A Marcha das Vadias é outra incoerência das meninas burguesas e universitárias de hoje. Fui uma das feministas que levantou a bandeira pró-sexo nos anos 90, mas essas manifestações estão equivocadas. Madonna expunha seu corpo ao mesmo tempo em que assumia a responsabilidade de se defender. Você tem o direito de se vestir como Madonna nas ruas às 3h da manhã e faz parte do comportamento da mulher liberada fazer isso. Só que essa mulher tem que saber se defender.

Se você vai provocar e usar roupas para demonstrar que está disponível sexualmente, porque é isso o que você está fazendo. Está dizendo: sou uma mulher que gosta de sexo e estou pronta para receber ofertas. Mesmo que as mulheres demandem o controle masculino, sempre vai haver um psicótico ou um criminoso que será impossível controlar. Não dá pra pedir para a sociedade a proteger o tempo todo. Se você é uma mulher livre, você tem que aceitar que, toda vez que se vestir de modo convidativo, está enviando uma mensagem e tem de se defender se for necessário.

E é claro que ninguém tem o direito de fazer nada com você, mas só uma idiota acha que vai para as ruas de vestimentas provocativas sem correr o risco de ser atacada, culpando o Estado por isso.

Uma pesquisa no Brasil apontou que 25% dos brasileiros concordam que uma mulher vestida de forma provocativa merecia ser atacada.

Ninguém merece ser atacada. Isso está totalmente errado. Ninguém tem o direito de colocar as mãos no seu corpo sem permissão. O que essas pessoas devem estar dizendo é que a vestimenta comunica uma mensagem e indica um nível de disponibilidade sexual.

Eu também acredito que roupas comunicam algo sobre você naquele momento. Roupas são uma linguagem. As mulheres não entendem como os homens as enxergam com determinadas roupas. Elas acham que estão se vestindo para elas mesmas, mas precisam saber que há um perigo em se vestir de certas formas.

Eu adoro exibição sexual, mas precisam saber que estão comunicando para uma certa audiência. E não necessariamente se pode culpar os homens por entenderem uma mensagem que, talvez inconscientemente, as mulheres estão enviando. Por isso chamo o meu feminismo de safo (“street smart”).

Por que você foi tão crítica ao ensaio fotográfico recente em que Madonna aparece com os seios à mostra?

Madonna é uma das figuras mais importantes da cultura pop e da cultura contemporânea. Ela mudou o mundo com sua atitude. Até hoje seus vídeos antigos são grandes obras de arte. Ela tornou possível para as mulheres assumirem o comando de suas sexualidades. Ela nunca foi uma vítima. Ela sempre controlou a transação entre homem e mulher. Ela era extremamente sexy, mas estava no controle da situação.

Mas acho que esse ensaio ficou feio, acho que ela está se repetindo. Nós já vimos seu corpo no auge da forma e era magnífico. O que ela está fazendo agora? Por que expor o corpo na sua idade em fotografias horrorosas? Sinto muito, mas foi uma desgraça artística. Madonna não deveria estar competindo com mulheres jovens, cujos corpos são belos. Marlene Dietrich, que é um modelo para Madonna, nunca fez isso.

Você acha que mulheres mais maduras não devem mostrar o corpo?

Se você o mostra de um modo belo e sexy, ok. Mas aquelas fotos da Madonna eram revoltantes. Era embaraçoso. Hediondo. Ela parecia uma prostituta decadente que não sabe que está na sarjeta.

Madonna é uma estrela global e não deveria se expor assim. Se você quer seduzir, há outras formas de transmitir isso. Jeanne Moreau é sexy na idade dela sem mostrar nada, e Catherine Deneuve, apesar de ter ganhado peso, continua sexy. Não é digno de uma mulher de tantas conquistas se mostrar assim.

As mulheres têm que superar o envelhecimento. Não dá para dizer que o corpo de uma mulher de idade é tão bonito como o de uma jovem mulher. Não é! Os hormônios não permitem, a pele fica fina, desidratada, etc. Temos de parar de tentar glamurizar a beleza da mulher madura.

O que precisamos é deixar as mulheres jovens dominarem o mundo da beleza e buscar novos papéis para as mulheres mais velhas. Aquelas que são mães ganham poder à medida que a idade avança e encontram novas colocações para si. Precisamos aprender a mudar para o próximo estágio da vida. O que precisamos é criar uma persona para as mulheres na cultura de hoje, e isso tem a ver com desapegar de algo. Senão, elas só têm a perder. Como não há como congelar o processo de envelhecimento, quanto mais as mulheres lutarem contra ele, mais infelizes serão.

Originalmente publicado aqui.

Terceirização: Maioria dos ministros do TST pede rejeição do PL 4.330/2004

Notícia publicada em:3 de setembro de 2013

Dezenove dos 26 ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST) manifestaram formalmente ao Congresso Nacional críticas ao Projeto de Lei nº 4.330/2004, que trata da regulamentação da terceirização no Brasil.

Em ofício, dirigido ao deputado Décio Lima (PT/SC), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, os ministros enfatizam diversos problemas do projeto, a exemplo da possibilidade da prática da terceirização em todos os setores da economia. Para os ministros, isso deflagrará uma “impressionante redução de valores, direitos e garantias trabalhistas e sociais”.

A visão dos ministros também é compartilhada pela Anamatra, que trabalha pela rejeição da proposta desde a sua apresentação ao Congresso ainda em 2004. Ontem, a Associação encaminhou aos deputados da CCJ carta aberta pedindo a integral rejeição do PL 4.330/2004 (clique aqui para ler mais).

O presidente da Anamatra, Paulo Luiz Schmidt, saudou o gesto coletivo e inédito dos ministros e enfatizou que a iniciativa revela a preocupação dos magistrados, de todas as instâncias da Justiça do Trabalho, com a regulamentação da terceirização nos moldes como vem sendo discutida no Congresso. “O projeto é umaafronta aos princípios do Direito do Trabalho e à própria dignidade do trabalhador, prevista na Constituição Federal, conduzindo a nação a um futuro de empresas sem empregados, em que a terceirização vai ocorrer em qualquer etapa da cadeira produtiva”, alerta.

Confira abaixo o ofício dos ministros do TST:

Brasília, 27 de agosto de 2013

Excelentíssimo Senhor deputado Décio Lima

Presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania

A sociedade civil, por meio de suas instituições, e os órgãos e instituições do Estado, especializados no exame das questões e matérias trabalhistas, foram chamados a opinar sobre o Projeto de Lei nº 4.330/2004, que trata da terceirização no Direito brasileiro.

Em vista desse chamamento, os Ministros do Tribunal Superior do Trabalho, infra-assinados, com a experiência de várias décadas na análise de milhares de processos relativos à terceirização trabalhista, vêm, respeitosamente, apresentar suas ponderações acerca do referido Projeto de Lei:

I. O PL autoriza a generalização plena e irrefreável da terceirização na economia e na sociedade brasileiras, no âmbito privado e no âmbito público, podendo atingir quaisquer segmentos econômicos ou profissionais, quaisquer atividades ou funções, desde que a empresa terceirizada seja especializada.

II. O PL negligencia e abandona os limites à terceirização já sedimentados no Direito brasileiro, que consagra a terceirização em quatro hipóteses:

1 – Contratação de trabalhadores por empresa de trabalho temporário (Lei nº 6.019, de 03.06.1974);

2 – Contratação de serviços de vigilância (Lei n 7.102, de 20.06.1983);

3 – Contratação de serviços de conservação e limpeza;

4 – Contratação de serviços especializados ligados a atividades-meio do tomador, desde que inexista a personalidade e a subordinação direta;

III. A diretriz acolhida pelo PL nº 4.330-A/2004, ao permitir a generalização da terceirização para toda a economia e a sociedade, certamente provocará gravíssima lesão social de direitos sociais, trabalhistas e previdenciários no País, com a potencialidade de provocar a migração massiva de milhões de trabalhadores hoje enquadrados como efetivos das empresas e instituições tomadoras de serviços em direção a um novo enquadramento, como trabalhadores terceirizados, deflagrando impressionante redução de valores, direitos e garantias trabalhistas e sociais.

Neste sentido, o Projeto de Lei esvazia o conceito constitucional e legal de categoria, permitindo transformar a grande maioria de trabalhadores simplesmente em ´prestadores de serviços´ e não mais ´bancários´, ´metalúrgicos´, ´comerciários´, etc.

Como se sabe que os direitos e garantias dos trabalhadores terceirizados são manifestamente inferiores aos dos empregados efetivos, principalmente pelos níveis de remuneração e contratação significativamente mais modestos, o resultado será o profundo e rápido rebaixamento do valor social do trabalho na vida econômica e social brasileira, envolvendo potencialmente milhões de pessoas.

IV. O rebaixamento dramático da remuneração contratual de milhões de concidadãos, além de comprometer o bem estar individual e social de seres humanos e famílias brasileiras, afetará fortemente, de maneira negativa, o mercado interno de trabalho e de consumo, comprometendo um dos principais elementos de destaque no desenvolvimento do País. Com o decréscimo significativo da renda do trabalho ficará comprometida a pujança do mercado interno no Brasil.

V. Essa redução geral e grave da renda do trabalhador brasileiro – injustificável, a todos os títulos – irá provocar também, obviamente, severo problema fiscal para o Estado, ao diminuir, de modo substantivo, a arrecadação previdenciária e tributária no Brasil.

A repercussão fiscal negativa será acentuada pelo fato de o PL provocar o esvaziamento, via terceirização potencializada, das grandes empresas brasileiras, que irão transferir seus antigos empregados para milhares de pequenas e médias empresas – todas especializadas, naturalmente -, que serão as agentes do novo processo de terceirização generalizado.

Esvaziadas de trabalhadores as grandes empresas – responsáveis por parte relevante da arrecadação tributária no Brasil -, o déficit fiscal tornar-se-á também incontrolável e dramático, já que se sabe que as micro, pequenas e médias empresas possuem muito mais proteções e incentivos fiscais do que as grandes empresas. A perda fiscal do Estado brasileiro será, consequentemente, por mais uma razão, também impressionante. Dessa maneira, a política trabalhista extremada proposta pelo PL 4.330-A/2004, aprofundando, generalizando e descontrolando a terceirização no País, não apenas reduzirá acentuadamente a renda de dezenas de milhões de trabalhadores brasileiros, como também reduzirá, de maneira inapelável, a arrecadação previdenciária e fiscal da União no País.

VI. A generalização e o aprofundamento da terceirização trabalhista, estimulados pelo Projeto de Lei, provocarão também sobrecarga adicional e significativa ao Sistema Único de Saúde (SUS), já fortemente sobrecarregado. É que os trabalhadores terceirizados são vítimas de acidentes do trabalho e doenças ocupacionais/profissionais em proporção muito superior aos empregados efetivos das empresas tomadoras de serviços. Com a explosão da terceirização – caso aprovado o PL nº 4.330-A/2004 -, automaticamente irão se multiplicar as demandas perante o SUS e o INSS.

São essas as ponderações que apresentamos a Vossa Excelência a respeito do Projeto de Lei nº 4.330-A/2004, que trata da ‘Terceirização’.

Respeitosamente,

Seguem as assinaturas dos ministros Antonio José de Barros Levenhagen; João Oreste Dalazen; Emmanoel Pereira; Lelio Bentes Corrêas; Aloysio Silva Corrêa da Veiga; Luiz Philippe Vieira de Mello Filho; Alberto Luiz Bresciane de Fontan Pereira; Maria de Assis Calsing; Fernando Eizo Ono; Marcio Eurico Vitral Amaro; Walmir Oliveira da Costa; Maurício Godinho Delgado; Kátia Magalhães Arruda; Augusto Cesar Leite de Carvalho; José Roberto Freire Pimenta; Delaílde Alves Miranda Arantes; Hugo Carlos Sheurmann; Alexandre de Souza Agra Belmonte e Claudio Mascarenhas Brandão.

* Foto: Arquivo TST

Originalmente publicado aqui.