Como posso melhorar a cultura geral da equipe?

Trabalho em um grande grupo financeiro e lidero uma equipe de seis pessoas. Um desses funcionários tem pouco mais de 30 anos, boa formação, fala inglês fluentemente e atende uma importante carteira de clientes corporativos brasileiros e do exterior. Ele é bastante competente tecnicamente e também uma pessoa flexível e fácil de lidar – o que conta muito no cargo que ocupa. O problema é que esse colaborador só consegue conversar sobre trabalho e, ao que tudo indica, não tem nenhuma cultura geral. Isso é motivo de brincadeiras entre os colegas e todos levam a situação na brincadeira. Mas já presenciei, por exemplo, ele dizendo verdadeiros absurdos ou se passando por um completo desinformado em reuniões, almoços e encontros com clientes ou diretores. Afinal, nunca se fala só sobre negócios 100% do tempo. Isso acaba me envergonhando e, em último caso, pode até prejudicar a empresa. Como devo abordar esse assunto com ele? O que devo fazer?

Diretor, 47 anos

Resposta:
Essa sua constatação mostra claramente um fenômeno atual. No Brasil, pouco a pouco, por falta de exemplos e modelos, estamos abandonando o interesse pelo estudo e pelo desenvolvimento cultural e social. Pessoas famosas, como líderes políticos, artistas e futebolistas, vencedores que se tornam modelos para nossa juventude, normalmente são pessoas que não valorizam a cultura nem a educação. Muito até pelo contrário. Alguns até se vangloriam da sua pouca escolaridade, cultura e educação. Aliás, a qualidade das nossas escolas vem se degradando rapidamente. Como consequência disso, o nível cultural baixo e o pouco conhecimento, são características marcantes dessa nossa geração de profissionais. Apesar da maior facilidade de acesso a informações e de mais oportunidades de viajar e conhecer outros povos e lugares, as pessoas continuam a não dar muito valor ao seu desenvolvimento cultural. Fazem “selfie” para mostrar que estavam lá, mas não sabem o que viram. Cinema, televisão, internet e viagens rápidas e baratas abriram enormes janelas para o mundo e criaram oportunidades e facilidades para o conhecimento. Mas não é isto que resolve. Na verdade cultura e conhecimento são resultados do ambiente social e familiar das pessoas. É na família, na valorização da cultura pelos pais, parentes e amigos que as crianças adquirem gosto e prazer na busca deste tipo de conhecimento. Quando isto não ocorre na infância e na adolescência fica difícil depois incentivar as pessoas a valorizarem a cultura. Mesmo assim, no seu caso, você deve insistir. O seu jovem executivo vale o esforço e o investimento, pois, segundo você, ele é bastante competente tecnicamente e também uma pessoa flexível e fácil de lidar. Essas características são raras e importantes. O que você poderia fazer é, primeiramente, ter uma longa conversa com ele, , amiga e franca, colocando o problema e ressaltando a importância da cultura e do conhecimento político e social para a evolução da carreira dele. Mostre a ele que altos executivos e grandes líderes precisam ser bem formados e informados. No entanto, apenas conversa sem ação tem pouca consequência, portanto, proponha a ele uma sequencia de ações para ajudá-lo a se desenvolver. Faca uma lista de assuntos, temas e autores fundamentais. Mostre como ter acesso a eles. Monte um grupo de estudo com ele e com outros profissionais da empresa, inclusive você e proponha a esse grupo uma agenda de eventos para discutir esses temas e autores propostos. Por exemplo, temas como; sistemas sociais comparados, estruturas politicas, conservadorismo, unificação européia, politicas energéticas e o cartel do petróleo, impressionismo, surrealismo, Edmund Burke, Russell Kirk, Freud, Mozart, Pissarro, etc. Convide ou contrate professores, palestrantes, conferencistas para participarem e animarem esses eventos do grupo de estudo. Faça reuniões quinzenais, ao final do expediente, num local agradável, com clima descontraído que facilite as discussões, em um “happy hour”, com comidas e aperitivos. Faça com que leiam antes artigos sobre o tema que será discutido no próximo encontro. Chame seu pessoal de informática e peça para criarem um fórum de debates informatizado na rede interna da empresa ou em redes sociais. Permita e incentive que os seus profissionais internos convidem amigos e parentes para participarem do grupo de estudo e do fórum de debate. Uma vez por ano organize uma viagem curta, de pouco mais de um fim de semana, de participação voluntária, cujo objetivo será aprofundar um tema, assunto ou um autor em uma visita a um país, cidade, escola ou museu. Por exemplo, Mariana e as obras do Aleijadinho, as Missões e a sua estrutura política e social, Paraty e o período colonial, etc. Faça com que cada membro do grupo crie com a sua própria equipe, reuniões de discussões sobre os temas trabalhados no fórum de debates. Peça ao RH para incluir o autodesenvolvimento cultural nos critérios de fixação de metas, objetivos e avaliação de desempenho. Este processo vai trazer benefícios muito além do desenvolvimento cultural. Isso vai criar em sua equipe um conceito forte de pertencimento a uma comunidade, muito além de se sentirem apenas como colegas de trabalho que disputam vagas, promoções e sucesso.

Gilberto Guimarães

Originalmente publicado aqui.
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