A hora e a história

O governo Dilma 2 acabou antes de começar. Batida pelo turbilhão da crise que ela mesma engendrou, a presidente perdeu, de fato, o poder, que é exercido por dois primeiros-ministros informais: Joaquim Levy comanda a economia; Eduardo Cunha controla as rédeas da política. Na oposição, entre setores da base aliada e, sobretudo, nas ruas, a palavra impeachment elevou-se, de murmúrio, à condição de grito ainda abafado. É melhor pensar de novo, para não transformar o Brasil num imenso Paraguai.

Nos sistemas parlamentares, um voto de desconfiança do Parlamento derruba o gabinete, provocando eleições antecipadas. No presidencialismo paraguaio, regras vagas de impeachment conferem aos congressistas a prerrogativa de depor um chefe de Estado que não enfrenta acusações criminais. Um parecer de Ives Gandra Martins sustenta a hipótese de impedimento presidencial por improbidade administrativa, mesmo sem dolo. Na prática, equivale a sugerir que Dilma poderia ser apeada com a facilidade com que se abreviou o mandato de Fernando Lugo. A adesão a essa tese faria o Brasil retroceder do estatuto de moderna democracia de massas ao de uma democracia oligárquica latino-americana.

Não são golpistas os cidadãos que fazem circular o grito abafado. Dilma Rousseff tornou-se um fardo pesado demais. Lula deu o beijo da morte no segundo mandato da presidente ao lançar sua candidatura para 2018 antes ainda da posse. No ato farsesco de “defesa da Petrobras”, o criador da criatura emitiu sinais evidentes de que, em nome de sua campanha plurianual, prepara-se para assumir o papel um tanto ridículo de crítico do governo. Diante de uma presidente envolta na mortalha da solidão, os partidos oposicionistas parecem aguardar uma decisão das ruas. Fariam melhor oferecendo um rumo político para a indignação popular.

Antes de tudo, seria preciso dizer que, na nossa democracia, a hipótese de impeachment só se aplica quando há culpa e dolo. O complemento honesto da sentença é a explicação de que, salvo novas, dramáticas, informações da Lava Jato, inexiste uma base política e jurídica sólida para abrir um processo de impedimento da presidente. Contudo, só isso não basta, pois o país não suportará mais quatro anos de “dilmismo”, essa mistura exótica de arrogância ideológica, incompetência e inoperância.

“Governe para todos –ou renuncie!”. No atual estágio de deterioração de seu governo, a saída realista para Dilma é extrair as consequências do fracasso, desligando-se do lulopetismo e convidando a parcela responsável do Congresso a compor um governo transitório de união nacional. O Brasil precisa enfrentar a crise econômica, definir a moldura de regras para um novo ciclo de investimentos, restaurar a credibilidade da Petrobras, resgatar a administração pública das quadrilhas político-empresariais que a sequestraram. É um programa e tanto, mas também a plataforma de um consenso possível.

“Governe para todos –ou renuncie!”. O repto é um exercício de pedagogia política, não uma aventura no reino encantado da ingenuidade. As probabilidades de Dilma romper com o lulopetismo são menores que as de despoluição da baía da Guanabara até a Olimpíada. Isso, porém, não forma uma justificativa suficiente para flertar com o atalho do impeachment. Se a presidente, cega e surda, prefere persistir no erro, resta apontar-lhe, e a seu vice, a alternativa da renúncia, o que abriria as portas à antecipação das eleições.

Dilma diz que a culpa é de FHC. Lula diz que é da imprensa, enquanto reúne-se com o cartel das empreiteiras. A inflação fará o ajuste fiscal. Por aqui, os camisas negras usam camisas vermelhas. A justa indignação da hora faz do impeachment uma solução sedutora. Mas a história não é a hora. Dilma vai passar, cedo ou tarde. Ela não vale o preço da redução do Brasil a um Paraguai.

Originalmente publicado aqui.

Os saqueadores da lógica

PUBLICADO EM 27.02.2015

Se o PT pusesse fogo em Brasília e alguém protestasse, a resposta viria rápida: onde você estava quando Nero incendiou Roma? Por que não protestou? Hipocrisia.

Com toda a paciência do mundo, você escreve que ainda não era nascido, e pode até defender uma ou outra tese sobre a importância histórica de Roma, manifestar simpatia pelos cristãos tornados bodes expiatórios. Mas é inútil.

Você está fazendo, exatamente, o que o governo espera. Ele joga migalhas de nonsense no ar para que todos se distraiam tentando catá-las e integrá-las num campo inteligível.

Vi muitas pessoas rindo da frase de Dilma que definiu a causa do escândalo da Petrobrás: a omissão do PSDB nos anos 1990. Nem o riso nem a indignação parecem ter a mínima importância para o governo.

Depois de trucidar os valores do movimento democrático que os elegeu, os detentores do poder avançaram sobre a língua e arrematam mandando a lógica elementar para o espaço. A tática se estende para o próprio campo de apoio. Protestar contra o dinheiro de Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, no carnaval carioca é hipocrisia: afinal, as escolas de samba sempre foram financiadas pela contravenção.

O intelectual da Guiné Juan Tomás Ávila Laurel escreveu uma carta aos cariocas dizendo que Obiang gastou no ensino médio e superior de seu país, em dez anos, menos o que investiu na apologia da Beija-Flor. E conclui alertando os cariocas para a demência que foi o desfile do carnaval de 2015.

O próprio Ávila afirma que não há números confiáveis na execução do orçamento da Guiné Equatorial. Obiang não deixa espaço para esse tipo de comparação. Tanto ele como Dilma, cada qual na sua esfera, constroem uma versão blindada às análises, comparações numéricas e ao próprio bom senso.

O mundo é um espaço de alegorias, truques e efeitos especiais. Nicolás Maduro e Cristina Kirchner também constroem um universo próprio, impermeável. Se for questionado sobre uma determinada estratégia, Maduro poderá dizer: um passarinho me contou. Cristina se afoga em 140 batidas do Twitter: um dia fala uma coisa, outro dia se desmente.

Numa intensidade menor do que na Guiné Equatorial, em nossa América as cabeças estão caindo. Um promotor morre, misteriosamente em Buenos Aires, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, só e indefeso, é arrastado por um pelotão da polícia política bolivariana.

Claro, é preciso denunciar, protestar, como fazem agora os argentinos e os venezuelanos. Mas a tarefa de escrever artigos, de argumentar racionalmente, parece-me, no Brasil de hoje, tão antiga como o ensino do latim ou o canto orfeônico.

Alguma evidência, no entanto, pode e deve sair da narrativa dos próprios bandoleiros. Quase tudo o que sabemos, apesar do excelente trabalho da Polícia Federal, veio das delações premiadas.

Alguns dos autores da trama estão dentro da cadeia. Não escrevem artigos, apenas mandam bilhetes indicando que podem falar o que sabem.

Ao mesmo tempo que rompe com a lógica elementar, o governo prepara sua defesa, organiza suas linhas e busca no fundo do colete um novo juiz do Supremo para aliviar sua carga punitiva. O relator Teori Zavascki, na prática, foi bastante compreensivo, liberando Renato Duque, o único que tinha vínculo direto com o PT.

Todas essas manobras e contramanobras ficarão marcadas na história moderna do Brasil. Essa talvez seja a razão principal para continuar escrevendo.

Dilmas, Obiangs, Maduros e Kirchners podem delirar no seu mundo fantástico. Mas vai chegar para eles o dia do vamos ver, do acabou a brincadeira, a Quarta-Feira de Cinzas do delírio autoritário.

Nesse dia as pessoas, creio, terão alguma complacência conosco que passamos todo esse tempo dizendo que dois e dois são quatro. Constrangidos com a obviedade do nosso discurso, seguimos o nosso caminho lembrando que a opressão da Guiné Equatorial é a história escondida no Sambódromo, que o esquema de corrupção na Petrobrás se tornou sistemático e vertical no governo petista.

Dilma voltou mais magra e diz que seu segredo foi fechar a boca. Talvez fosse melhor levar a tática para o campo político. Melhor do que dizer bobagens, cometer atos falhos.

O último foi confessar que nunca deixou de esconder seus projetos para ampliar o Imposto de Renda. Na Dinamarca (COP 15), foi um pouco mais longe, afirmando que o meio ambiente é um grande obstáculo ao desenvolvimento.

O País oficial parece enlouquecer calmamente. É um pouco redundante lembrar todas as roubalheiras do governo. Além de terem roubado também o espaço usual de argumentação, você tem de criticar politicamente alguém que não é político, lembrar o papel de estadista a uma simples marionete de um partido e de um esquema de marketing.

O governo decidiu fugir para a frente. Olho em torno e vejo muitas pessoas que o apoiam assim mesmo. Chegam a admitir a roubalheira, mas preferem um governo de esquerda. A direita, argumentam, é roubalheira, mas com retrocesso social. Alguns dos que pensam assim são intelectuais. Nem vou discutir a tese, apenas registrar sua grande dose de conformismo e resignação.

Essa resignação vai tornando o País estranho e inquietante, muito diferente dos sonhos de redemocratização. O rei do carnaval carioca é um ditador da Guiné e temos de achar natural porque os bicheiros financiam algumas escolas de samba.

A tática de definir como hipocrisia uma expectativa sincera sobre as possibilidades do Brasil é uma forma de queimar esperanças. Algo como uma introjeção do preconceito colonial que nos condena a um papel secundário.

Não compartilho a euforia de Darcy Ribeiro com uma exuberante civilização tropical. Entre ela e o atual colapso dos valores que o PT nos propõe, certamente, existe um caminho a percorrer.

Artigo publicado no Estadão em 27/02/2015

Originalmente publicado aqui.

A Face oculta da ONU

Entrevista de Michel Schooyans

Ao Il Mattino della Domenica Lugano, 24 de junho de 2001 Por Luca Fiore

  1. Durante o Congresso sobre Globalização, Economia e Família, realizado em Roma de 27 a 30 de novembro de 2000 pelo Pontifício Conselho para a Família, o senhor expôs a concepção da globalização segundo a ONU. Essa concepção é também longamente analisada no seu mais recente livro, A Face oculta da ONU, publicado pela editora Sarment/Fayard, Paris, 2001. Para o senhor, essa concepção tende a considerar que o meio ambiente tem mais valor do que a pessoa. Do que se trata? Qual é a sua preocupação?

Globalização, Mundialização: dois termos que entraram para a linguagem cotidiana; dois conceitos que se tornaram objeto de debates e discussões envolvendo o futuro da sociedade mundial. Esses termos significam antes de mais nada, que as sociedades humanas tornaram-se interdependentes: por exemplo, uma desvalorização do Yen japonês repercute em toda a economia mundial. Isso significa também que as sociedades mundiais estão integradas: as viagens e a mídia ensinam os homens a se conhecer melhor; a informação científica é amplamente divulgada e discutida em fóruns virtuais abertos 24 horas por dia. Em princípio, devemos evidentemente nos alegrar com essa evolução e é claro que ela demanda novos instrumentos de condução das relações internacionais.

Tradicionalmente essas relações internacionais se organizam a partir de dois modelos. De um lado, um modelo encarnado hoje pelos EUA. O globalismo é aí concebido a partir do projeto hegemônico da nação dominante, cujo objetivo é impor uma organização do mundo de inspiração neoliberal. Esse projeto tem de início uma forte conotação econômica: seu objetivo é a globalização do mercado; mas comporta também, evidentemente, uma vontade de gerir politicamente o mundo. Não pode ser realizado senão com a conivência das nações ricas. O outro modelo é herdeiro do internacionalismo socialista e, se insiste sobre as necessárias reformas econômicas, coloca em primeiro plano um objetivo político: limitar a soberania dos estados e submetê-los ao controle de um poder político mundial. O método para atingir esse fim não é mais revolucionário; no espírito de Gramsci, é reformista.

Quando fala em globalização, a ONU incorpora os significados dessa palavra tais como viemos de recordar. Mas aproveita-se da imagem positiva associada ao termo para imprimir-lhe novo significado. A globalização é interpretada à luz de uma nova visão de mundo e do lugar do homem no mundo. Essa visão “holística” considera que o mundo constitui um todo dotado de maior realidade e valor do que as partes que o compõem. Nesse todo, o surgimento do homem não é senão um avatar da evolução da matéria.

  1. 0 senhor igualmente manifestou sérias reservas quanto à Carta da Terra, um documento da ONU em preparação, a ser publicado proximamente. 0 senhor até afirma que nele encontramos a influência da New Age. Quais as ligações entre a New Age e esse texto?

Trata-se de um projeto de documento no qual um dos redatores não é outro senão o próprio senhor Mikhail Gorbatchev. O que frisa esse documento? Sendo apenas o produto de uma evolução material, o homem deve curvar-se aos imperativos de meio-ambiente, da Natureza, da ecologia. A influência do filósofo Thomas S. Khun, um dos grandes inspiradores da New Age, é aqui evidente e confirmada nos livros de Marilyn Ferguson sobre essa mesma corrente. O homem deve aceitar não ser mais o centro do mundo. Segundo essa leitura da natureza e do homem, a “lei natural”, não é mais aquela que está inscrita na inteligência e no coração do homem; é a lei implacável e violenta que a natureza impõe ao homem. Os ecologistas tisnados de New Age até apresentam o homem como predador. E como todas as populações de predadores, afirma-se que a população humana deve ser contida, limitada imperativamente, dentro dos limites do desenvolvimento sustentável.

  1. Qual a relação entre essa Carta da Terra e a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948?

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, inclina-se diante de uma verdade que se impõe para todos. Reconhece que todos os homens têm direito à vida; que nascem livres e iguais em dignidade; que são livres para se associarem, para se atribuírem um regime político de sua livre escolha, de se organizarem em sindicatos, de criarem uma família, aderirem a uma religião, etc. Todos os homens têm o direito de participar da vida política e da vida econômica, pois todos têm alguma coisa de único a oferecer aos outros homens. Todos os totalitarismos do século XX nasceram do desprezo a esses direitos inalienáveis. Promover esses direitos por todo o mundo é barrar o caminho aos sistemas que reduzem o homem a não ser senão uma engrenagem do Estado, um instrumento do Partido, um espécime de determinada raça. A grande originalidade dessa Declaração é conceber como fundamento das novas relações internacionais o reconhecimento, por todas Nações, dos direitos fundamentais de todos os homens.

A Carta da Terra abandona e mesmo combate o antropocentrismo judeu-cristão e romano, reforçado pelo Renascimento, e que foi levado a seu ponto de maior incandescência na Declaração de 1948. Ao documento caberia não somente superar a Declaração Universal, mas, para alguns, deveria mesmo suplantar o próprio Decálogo, modéstia à parte!

  1. O senhor chegou a falar do projeto da ONU de instaurar progressivamente um “supergoverno mundial” que suplantará os corpos intermediários, as nações, e imporá um pensamento único, através do controle da informação, da saúde, do comércio, da política e do direito. Não seria essa uma imagem do futuro muito à la George Orwell?

A argumentação ecológica desenvolvida na Carta da Terra, é na realidade um artifício ideológico para camuflar algo mais grave: entramos em uma nova revolução cultural. De fato, a ONU está em vias de formular uma nova concepção do direito. Essa concepção é mais anglo-saxã do que latina. As verdades fundadoras da ONU, referentes à centralidade do homem no mundo, são pouco a pouco desativadas. Segundo essa concepção, nenhuma verdade sobre o homem impõe-se a todos os homens: a cada um sua opinião. Os direitos do homem não são mais reconhecidos como verdades; são objeto de procedimentos, de decisões consensuais. Negociamos e ao termo de um procedimento pragmático, decidimos, por exemplo, que o respeito à vida se impõe em certos casos mas não em outros, que determinada manipulação genética justifica o sacrifício de embriões, que a eutanásia deve ser liberalizada, que as uniões homossexuais têm o mesmo direito que a família, etc. Daí nascem os assim chamados “novos direitos do homem”, sempre renegociáveis ao sabor dos interesses daqueles que podem fazer prevalecer sua vontade.

Para tornar palatáveis esses “novos direitos” e sobretudo a concepção do direito que lhes é subjacente, dois eixos de ação devem ser privilegiados. É preciso inicialmente enfraquecer as nações soberanas, pois são geralmente as primeiras a proteger os direitos inalienáveis de seus cidadãos. Em seguida, nas assembleias internacionais, é preciso obter-se o maior consenso possível, recorrendo se preciso à corrupção, à chantagem ou à ameaça. Uma vez alcançado, o consenso pode ser invocado para fazer adotar convenções internacionais que adquirem força de lei nos estados que as ratificaram. Esse tipo de globalização, sustentado por uma concepção puramente positivista do direito, justifica as mais intensas apreensões.

  1. O título de seu último livro é A Face oculta da ONU: que face é essa, e quem é que se esconde por detrás?

Em dossiês tão complexos quanto o da globalização segundo a ONU, a falta de transparência torna evidentemente difícil a prova direta e a demonstração matemática. A experiência recente, em França, das malversações e demais irregularidades confirma que nenhuma organização dispõe-se a reconhecer que está corroída pela ação de confrarias, pela presença em seu interior de “fraternidades” e de “redes”. Contudo, tais realidades existem sem sombra de dúvida. Nós as conhecemos não somente por suas ações, mas também pelo que alguns de seus membros dizem a seu respeito publicamente, por exemplo na televisão. Evidentemente, sempre há pessoas prontas a negar fervorosamente as evidências, incluso quando nem sequer sabem onde encontrar os dossiês. Mas será preciso esperar que os membros da DGSE francesa (Direção Geral de Segurança Exterior) desfilem com uma braçadeira para saber que a DGSE existe?

Na realidade, a ideologia onusiana da globalização está plasmada em referências livre-exaministas, agnósticas, utilitaristas e hedonistas. Se analisarmos pacientemente as recentes reuniões da ONU sobre questões tão diversas como saúde, população, meio-ambiente, habitat, economia mundial, informação, educação – para citar apenas esses exemplos, percebemos uma notável comunidade de inspiração e uma igualmente notável convergência de objetivos. É claro que sob instigação das nações soberanas que são seus membros, a ONU deveria proceder à uma auditoria interna, sem o que dará cada vez mais a impressão de estar sob influência de uma máfia tecnocrática. Tenho sobre outros a vantagem de chegar à essa conclusão após vários anos de pesquisa. Porém, se me perguntar se vi com meus próprios olhos a “mão invisível”, devo lhe responder que vi somente sua sombra. Mas no caso, isso é suficiente.

A Igreja e a sociedade

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney (RJ)

O tema da Campanha da Fraternidade desse ano “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, com o lema “Eu vim para servir” (cf. Mc 10, 45), escolhido para recordar a vocação e missão de todo o cristão e das comunidades de fé na sociedade, como sal da terra e luz do mundo, é propício para excelentes reflexões. Mas, infelizmente, pode também ser usado para favorecer a ideologias heterodoxas. A Igreja não é uma entidade apenas ou simplesmente filantrópica ou política. Ela vai muito além do corpo e da visão terrestre.

Em sua mensagem, o Papa Francisco recorda o principal da Quaresma, nossa união e identificação com Cristo, e a sua consequência, identificarmo-nos com os irmãos: “Um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo”. Como consequência, aprendemos que “neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações, porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n’Ele, um não olha com indiferença o outro. ‘Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria’ (1 Cor 12, 26)”.

Entre as manipulações possíveis do tema, está a de querer ressuscitar o viés marxista da Teologia da Libertação. Essa ideologia teológica surgiu como reação às escravidões sociais e econômicas, que todos lamentamos, mas muitas vezes enfatizou demasiadamente a linha social em detrimento da espiritual, tentando reduzir o Evangelho da salvação a um evangelho terrestre e, pior, dentro de uma análise marxista, com rejeição da doutrina social da Igreja.

Ao receber Bispos do Brasil em visita ad limina, em dezembro de 2009, o Papa Bento XVI recordou a “Instrução Libertatis nuntius da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da teologia da libertação, que sublinha o perigo que comportava a aceitação acrítica, realizada por alguns teólogos, de tese e metodologias provenientes do marxismo”. Bento XVI advertiu que as sequelas da teologia marxista da libertação “mais ou menos visíveis de rebelião, divisão, desacordo, ofensa, anarquia, ainda se fazem sentir, criando em suas comunidades diocesanas um grande sofrimento e grave perda de forças vivas”. Por essa razão, o Santo Padre exortou “aos que de algum modo se sintam atraídos, envolvidos e afetados no íntimo por certos princípios enganosos da teologia da libertação, que se confrontem novamente com a referida Instrução, acolhendo a luz benigna que a mesma oferece com mão estendida”.

No Credo do Povo de Deus, Paulo VI exprimiu bem o pensamento equilibrado da Igreja: “Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na Terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização…, mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens,… suas necessidades, alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços…”.

Originalmente publicado aqui.

A simbiose nefasta entre CNBB e PT: os bolivarianos infiltrados na igreja

A CNBB lançou sua campanha de 2015 com o tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, com direito à presença do presidente da OAB. Ambas as entidades se mostram cada vez mais ideologizadas, agindo em prol de uma agenda política. A mistura entre religião católica e socialismo não é nova, e a infiltração vermelha na CNBB já é praticamente total. O mesmo ocorre na Pastoral da Juventude, organização de jovens ligada à CNBB. O uso político dessas entidades foi tema de editorial do Estadão desta segunda-feira. O jornal diz:

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Eu mesmo já chamei a CNBB de Conferência Nacional dos Bispos Bolivarianos, tamanha a adesão da entidade à cartilha socialista. Ocorre que o cristianismo, ou mesmo o catolicismo, se bem entendido, não pode ser confundido com socialismo. Um legítimo cristão jamais endossaria a agenda autoritária e antagônica ao indivíduo como aquela dos bolivarianos, representados no Brasil pelo PT.

É verdade que passagens isoladas da Bíblia podem ser usadas para tal propósito, mas isso fala apenas da ambiguidade de algumas mensagens bíblicas. O socialismo é uma tentativa laica de se apropriar do conceito de solidariedade, até então presente nas diferentes religiões. Uma espécie de monopólio das virtudes, que tenta conquistar o seguidor com base nas supostas intenções, não nos atos concretos em prol dos demais.

Que a CNBB finalmente fale de corrupção nessa campanha nova já é um alento, mas ainda é muito pouco. Seu histórico tem sido de conluio com a esquerda nacional, especialmente o PT. Um afastamento político para voltar a focar em mensagens religiosas seria um ótimo passo para a CNBB.

A caridade não tem ideologia, mas uma coisa é certa: não faz sentido falar em “caridade compulsória”, o que anula justamente o precioso livre-arbírio cristão. Logo, defender a agenda confiscatória da esquerda em nome da “justiça social” não tem nada de católico ou cristão. É uma bandeira socialista autoritária, que não combina com a mensagem de Cristo.

O jornal conclui em tom mais otimista, mas confesso manter meu ceticismo quando se trata da CNBB. A explicação vai abaixo, em vídeo no qual Lula explica a estratégia de uso da Igreja para a tomada do poder:

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Agora vejam o que disse o ex-presidente Lula, citando a experiência do líder sindicalista polonês Lech Walesa:

Gramsci fala por trás desses “católicos bolivarianos”. Eles envergonham os verdadeiros católicos, aqueles que prezam o livre-arbítrio, o indivíduo como um fim em si mesmo. A Teologia da Libertação, ligada ao PT, é uma excrescência, um marxismo disfarçado de religião católica. E a CNBB também está totalmente poluída pelo petismo. Essa simbiose nefasta entre catolicismo distorcido e PT precisa acabar logo, pelo bem do Brasil.

Rodrigo Constantino

Originalmente publicado aqui.

Nunca poderá haver oposição entre “ação pastoral e doutrina”: Cardeal Piacenza refuta Kasper.

ROMA, 18 de fevereiro de 2015 – LifeSiteNews.com | Tradução: Fratres in Unum.com – Misericórdia e verdade nunca podem estar separadas, e certamente nunca devem ser contrapostas uma a outra, enfatizou o Cardeal Mauro Piacenza em seu discurso no mês passado a uma assistência de padres na Alemanha.

5f3b328dc9e5021d16da86c25a5b8dbeUma vez que diversos líderes da Igreja fazem pressão para que haja mudanças em sua com relação à distribuição da Comunhão, o cardeal refutou a noção de que os ensinamentos morais católicos devam ser ignorados, a fim de que a Igreja dispense “misericórdia”.

O Cardeal Piacenza, que atua como chefe da Penitenciaria Apostólica, um dos três supremos tribunais da Igreja, afirmou: “Quando no cristianismo misericórdia e verdade são apresentados como antagônicas ou, ao menos, como contraditórias, isso resulta sempre em uma percepção parcial.”

“Dificilmente se pode conceber que poderia haver uma ênfase tão forte sobre a misericórdia em detrimento da verdade. Ou, seu oposto, uma forte ênfase na verdade em detrimento da misericórdia.”

O cardeal rejeitou a proposta apresentada pelo Cardeal Walter Kasper e seus seguidores no Sínodo dos Bispos, em outubro, de que é possível existir uma “oposição artificial entre doutrina e atividade pastoral.”

“No cristianismo”, disse ele, “misericórdia e verdade são co-inerentes e inseparáveis, de modo que não podem ser propriamente distinguíveis”. A misericórdia e a verdade, acrescentou, “estão unidas sem confusão e são distintas sem separação… Uma misericórdia sem verdade não é cristã e, ao mesmo tempo, verdade sem a misericórdia não é cristã”.

“A cada caso em que a atividade pastoral se contrapõe à doutrina — uma atividade pastoral que está cheia de misericórdia em oposição à doutrina repleta de uma verdade fria e impiedosa – nós nos revelamos prisioneiros de uma estrutura pré-cristã, em que a verdade e a novidade radical do Verbo encarnado [Cristo] ainda não estão suficiente e adequadamente integradas.”

Ele afirmou que essa “polarização ocorre” com “certa legitimidade”, mas ela deve ser entendida “dentro dos limites de ‘uma e outra’” sem cair de “maneira destrutiva na dicotomia ‘ou uma ou outra’, o que não é católico.”

Em seu discurso, intitulado “A misericórdia e a verdade se encontrarão”, Piacenza citou os salmos para ilustrar o verdadeiro significado da doutrina católica, dizendo: “’O Amor e a Verdade se encontrarão.’ Temos uma nova realidade, que não é feita por mãos humanas; é algo a ser almejado e intensamente esperado, mas que somente se concretizará como dom de Deus.”

Ao abordar o tema favorito do Cardeal Walter Kasper e seus seguidores da ala “progressista” da Igreja, Piacenza disse: “Devemos reconhecer o primado da consciência”, mas acrescentou que isso se deve entender no contexto do “primado da verdade”.

“Apesar da negação dramática da verdade objetiva em nossa época”, disse o cardeal, “… podemos perceber a necessidade dramática da verdade no coração de cada homem, uma necessidade irreprimível e inevitável, porque ela é colocada pelo próprio Deus no coração do ser humano, quando ele disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.’ … À imagem de Deus Ele o criou.”

Segundo ele, “o sacramento da confissão é aquele encontro supremo com a misericórdia oferecida por Deus ao homem e a verdade sobre o homem e sua relação com Deus, a quem ele é chamado a reconhecer.”

O Cardeal Piacenza disse que um “bom confessor guiará” o penitente para reconhecer “uma verdade objetiva que vem de fora de si mesmo, porque ela é dada e revela-se como a condição para uma experiência autêntica e objetiva da misericórdia.”

O gabinte de Piacenza é responsável pela concessão ou indeferimento de dispensas às disciplinas sacramentais da Igreja. Alguns pecados são considerados tão graves pela Igreja que não podem ser tratados ao nível local do pároco ou até mesmo do bispo, mas estão “reservados à Santa Sé”, incluindo a profanação da Sagrada Eucaristia, considerada como verdadeiramente o corpo e sangue de Cristo.

A Penitenciaria Apostólica, chamada de “tribunal da misericórdia”, é o órgão do Vaticano responsável por conceder ou negar dispensas às disciplinas sacramentais da Igreja, tal como determinar como e quando conceder a absolvição para aqueles que foram automaticamente excomungados “latae sententiae” ou por suas próprias ações. Este é o caso de pecados graves como o aborto.

Seu gabinete talvez seja o mais próximo, em um nível humano, das questões que causaram uma polêmica mundial no ano passado, em particular, a proposta de permitir que católicos divorciados e recasados ​​civilmente recebam a Sagrada Comunhão sem mudar seu modo de vida. Um católico em um estado de pecado grave ou “mortal” não pode receber a Comunhão até fazer uma confissão sacramental válida, o que implica, pelo menos, na intenção declarada de nunca mais cometer o pecado novamente.

Alguns bispos e cardeais que se opuseram à proposta do Cardeal Kasper salientaram que isso obrigaria os sacerdotes a distribuir, de maneira consciente, a Comunhão a pessoas em condição objetivamente pecaminosa, o que constituiria um ato de profanação deliberada.

A verdade cristã, disse ele, nunca é “uma vara empunhada contra o outro”, mas sim um “chamado para uma relação autêntica, que seja capaz de levar o homem à realização de si mesmo: seu relacionamento com Deus”.

Originalmente publicado aqui.