Os evangélicos são mais católicos do que eles imaginam

Todos os cristãos se baseiam na tradição e não apenas na Bíblia

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Jeffrey-Bruno
A tradição é importante.
Como declaração sobre as bases da doutrina da Igreja, este comentário pode não soar muito surpreendente. Aliás, ele é bastante óbvio para os fiéis católicos e ortodoxos. Mas ele também evoca um grande paradoxo que existe no pensamento de uma numerosa e influente parcela dos cristãos do mundo inteiro: os evangélicos. Por mais surpresos e até chocados que eles possam ficar ao ouvir ou ler isto, o fato é que os evangélicos são muito mais católicos do que eles imaginam.

Os evangélicos se orgulham do alicerçar a sua fé somente na Bíblia. Este, afinal, é o núcleo da doutrina da “sola scriptura”, proposta pela reforma protestante. Se você acompanhar um debate evangélico, verá que esta questão não demora quase nada para surgir: “Onde é que esta afirmação consta na Bíblia? Indique o capítulo e o versículo”.

E aí é que está o problema. Os evangélicos acreditam de modo irrenunciável em doutrinas centrais da fé que não podem se basear simplesmente na escritura, pois se desenvolveram na tradição da Igreja. Depois de formulada uma crença, caso se queira, é possível pinçar versículos bíblicos para ampará-la, mas nunca se chegaria a essas posições doutrinárias por meio das escrituras sozinhas.

O exemplo mais óbvio é a própria Trindade, que os evangélicos consideram uma crença fundamental para qualquer cristão. No entanto, ela não aparece explicitamente na Bíblia. A sua única base bíblica é aquilo que ficou conhecido como “os parênteses joaninos”, uma menção abertamente trinitária feita em 1 Jo 5, 7-8, passagem consagrada no texto da Bíblia do rei James, de 1611. Mas os estudiosos sabem há séculos que aquelas palavras foram inseridas muito tardiamente no texto original. Nenhum escritor sério as cita hoje como autênticas.

Deixar esses parênteses de lado não gera dificuldade alguma para quem acredita na Trindade, que é uma doutrina muito arraigada na tradição da Igreja. A doutrina foi abraçada pelos cristãos no segundo século, em especial por padres apostólicos como Inácio e Justino Mártir. Falar de tradição da Igreja não significa, é claro, que tais figuras inventaram doutrinas para satisfazer os seus próprios propósitos obscuros. Ao contrário, como os teólogos católicos e ortodoxos sempre destacaram, a Igreja foi e é guiada pelo Espírito Santo. Sem essa crença no poder da tradição contínua, porém, como é que se poderia justificar a própria doutrina da Trindade?

Sem tradição da Igreja, sem Trindade.

Também é fundamental para os evangélicos a crença na encarnação de Cristo. O Novo Testamento nos permite formar ideias, é claro, sobre a divindade de Cristo e sobre o fato de Ele ter se tornado homem. No entanto, basear-se nesses textos bíblicos deu aos primeiros crentes uma enorme margem de manobra no tocante ao entendimento de qual seria a relação entre o humano e o divino. Cristo era literalmente Deus caminhando sobre a terra em forma humana? Ou será que a divindade “desceu” sobre Jesus em algum momento da sua vida terrena, presumivelmente no batismo, para depois abandoná-lo na hora da crucificação? Os cristãos discutiram sobre essas doutrinas complexas ao longo de séculos e só as estabeleceram no Concílio de Calcedônia, no ano de 451. Em outras palavras, trata-se uma doutrina definida por meio do debate no seio da Igreja, com base na escritura e na tradição, sob a orientação do Espírito Santo.

Sem tradição da Igreja, sem doutrina da Encarnação.

Os protestantes sempre tiveram a Igreja primitiva em alta estima. Ilustres estudiosos evangélicos publicaram obras sobre os primeiros padres. Em língua inglesa, por exemplo, a editora evangélica IVP apresentou uma série maravilhosa de volumes sob o título “Ancient Christian Commentary on Scripture” [“Comentários do cristianismo primitivo sobre as escrituras”]. Dito isso, os evangélicos ainda rejeitam o uso da sabedoria da Igreja dos primeiros séculos para estabelecer a doutrina.

Mas suponhamos que eles reconheçam a realidade e admitam que as doutrinas fundamentais, como a da Trindade, estão de fato fundamentadas na tradição da Igreja primitiva. E como é que eles definem o significado desse “primitiva”? Eles veem a obra do Espírito Santo ainda em ação antes do Concílio de Niceia, em 325, ou estendem esse período até o de Calcedônia, em 451, como é necessário caso queiram aceitar a Encarnação? E se aceitarem também as ideias de Santo Agostinho como dotadas de autoridade, isso nos leva a considerar que a etapa da história da Igreja considerada como primitiva se estende até o quinto século.

Se os evangélicos se aventuram pelo quarto e pelo quinto séculos, porém, significa que há, diante deles, uma Igreja “perturbadoramente” medieval e até católica. Tratava-se de uma Igreja hierárquica, com ideias já sólidas sobre a constituição do clero e com regras definidas sobre o celibato clerical e sobre o monaquismo. A partir do segundo século, além disso, as ideias sobre o papel da Virgem Maria na história da Redenção foram se tornando cada vez mais populares e tradicionais na Igreja. Essas ideias, por acaso, seriam menos dotadas de autoridade do que outras doutrinas como a da Trindade?

Então, por que não Maria?

Os evangélicos, creio eu, deveriam ser mais explícitos quanto à sua visão da tradição. Ao abordar este ponto, eu não estou pretendendo colocar os evangélicos contra a parede, mas sugerir que nós, cristãos de todos os matizes, já estamos muito mais próximos da unidade doutrinária do que se costuma imaginar.

Originalmente publicado aqui.
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