“Estelionato eleitoral em 13 atos”, análise do ITV

BRASIL REAL – CARTAS DE CONJUNTURA ITV – Nº 121, DEZEMBRO/2014

Dilma Rousseff prepara-se para tomar posse de seu segundo mandato presidencial dentro de poucos dias. Assim como sucedeu durante toda a campanha, a petista continua sem revelar aos brasileiros quais são seus reais planos e suas verdadeiras intenções. O que ficou bastante claro desde a eleição de 26 de outubro é que a presidente da República obteve mais quatro anos com base em compromissos falsificados e em promessas irrealistas. Seus atos posteriores são a mais clara expressão das contradições entre o discurso e a prática petista.

Tudo, simplesmente tudo, o que Dilma e sua equipe fizeram a partir de fins de outubro colide com o que ela pregou ao longo da disputa eleitoral. A presidente faz o que acusava os adversários de pretender fazer. Mas paga – e pagará – um preço muito mais alto para obter os resultados que seu governo até agora não alcançou. Pela simples razão de que sua palavra ressente-se da falta de credibilidade, sua postura inspira pouca confiança e sua má gestão recomenda a cautela. A seguir, um rosário das contradições de Dilma, as evidências de que sua vitória nas urnas representou um estelionato eleitoral, encenado em 13 atos.

  1. Juros

Na campanha, a petista afirmou durante debate na TV Record, em 18/10: “O senhor [Aécio] vai elevar a taxa de juros porque esse é o seu receituário. E o resultado vai ser desemprego, arrocho salarial e altas taxas de juros. A quem serve isso? À população é que não é”.

Três dias depois das eleições, em 29/10, o Banco Central aumentou a taxa básica de juros. Na reunião seguinte, em dezembro, voltou a subi-la. Dilma terminará seu atual mandato com a Selic em 11,75%, um ponto percentual acima do que estava quando ela assumiu o cargo.

As taxas de longo prazo e as aplicadas no Programa de Sustentação dos Investimentos, usadas nos empréstimos do BNDES, também foram aumentadas. A promessa de reduzir os juros reais a 2% ao ano ficou no caminho; hoje, estão acima de 6%. O Brasil só não se manteve como campeão mundial da usura porque os apuros da Rússia a levaram ao inglório posto. 

  1. Rombo fiscal

Em encontro na CNA, em agosto, a candidata oficial afiançou: “Teremos condições de cumprir o superávit primário previsto no começo do ano”. Em 25/9, numa visita à Bahia, reafirmou: “O Brasil não está desequilibrado. Nós não acreditamos em choque fiscal. Isso é uma forma incorreta de tratar a questão fiscal no Brasil”. Em entrevista concedida no Palácio do Planalto, em 1/10, reiterou: “Temos tido um desempenho na área fiscal inquestionável. Inquestionável!”

Um mês depois do segundo turno, o governo do PT anunciou que não conseguiria alcançar o superávit previsto para este ano. Em seguida, mandou projeto de lei ao Congresso baixando a meta fiscal e permitindo que o governo sequer a cumpra. Transformou rombo em saldo. Agora, o governo reeleito anuncia a intenção de promover um arrocho fiscal que pode chegar a R$ 100 bilhões no próximo ano.

Evolução da taxa básica de juros – 2011/2014 (em %)

grafico

  1. Inflação

Em reiteradas oportunidades, em especial nos debates na TV, Dilma sustentou que a inflação estava “sob controle”. Também desdenhou de medidas para controlar a subida dos preços ao longo de seu primeiro mandato e alimentou o temor de que continuaria leniente com a carestia.

Embora o Banco Central já tenha tido que aumentar os juros duas vezes para fazer frente à ameaça de alta dos preços, a inflação tanto deste ano quanto do próximo deverá beirar ou até superar o teto da meta (6,5%). Dilma será a primeira presidente desde a estabilização a entregar uma taxa maior do que recebeu: em 2010, quando ela assumiu, a inflação estava em 5,9%.

  1. PIB

Em visita a Salvador em 29/8, data em que foi divulgado que o PIB brasileiro encolhera 0,6% no segundo trimestre do ano, Dilma argumentou: “Acho que o resultado é algo momentâneo. Acho que no segundo semestre teremos uma grande recuperação”. A candidata também culpou “feriados da Copa” e o “quadro externo” pelo péssimo número, que mostrou o país em recessão.

No terceiro trimestre, ao contrário do que Dilma previra, a economia brasileira continuou estagnada, sem crescer quase nada (0,1%). Neste ano, o crescimento será perto de zero, fazendo do governo atual o de pior desempenho desde Fernando Collor e um dos três de pior média em toda a história republicana brasileira, com alta de apenas 1,6% ao ano.

  1. Impostos

Quando foi ao SBT participar do debate entre os presidenciáveis no primeiro turno, Dilma afirmou: “[A oposição] pensa em uma forma de visão que é desempregar, arrochar, aumentar preço de tarifa e aumentar impostos”.

No fim de novembro, já com a nova equipe econômica do novo governo anunciada, o Palácio do Planalto fez circular a informação de que, para fechar as contas públicas no ano que vem, alguns tributos deverão ser aumentados. A lista de reajustes é extensa: Cide sobre combustíveis, volta da CPMF, tributação de importados e aumento da taxação sobre distribuição de lucros e dividendos. Com Dilma, a carga tributária brasileira subiu quase 2,5 pontos percentuais do PIB. É uma das mais altas do mundo em desenvolvimento.

  1. Bancos públicos

Quando participou de sabatina promovida pelo jornal O Globo, em 12/9, a candidata Dilma Rousseff afirmou: “Diminuir o papel dos bancos públicos vai acabar com o financiamento do investimento, da agricultura, de todas as obras de infraestrutura. É uma irresponsabilidade”. Sua campanha acusava os adversários de querer desidratar o BNDES, privatizar a Caixa e o Banco do Brasil.

Os juros para financiamentos de longo prazo praticados pelo BNDES já foram aumentados. O novo ministro da Fazenda defende que os repasses para os bancos públicos cessem e o novo ministro de Desenvolvimento diz que agora as grandes empresas do país terão que buscar alternativas de financiamento. O governo já anuncia oficialmente a intenção de vender parte das ações que tem na Caixa.

A “bolsa-empresário” deixa, porém, uma conta salgada: desde 2009, o Tesouro transferiu R$ 441 bilhões para o BNDES, sem resultados visíveis. No mesmo período, a taxa de investimentos do país caiu, o PIB brasileiro minguou e o emprego não mostrou desempenho apreciável nos setores beneficiados.

  1. Banqueiros

Em 9/9, a candidata oficial foi a Belo Horizonte, cidade que ela só trata como sua terra natal em época de eleição. Na intenção de alvejar Marina Silva, então em alta nas pesquisas de intenção de voto, acusou: “Não tenho banqueiro me apoiando e me sustentando”. Sua campanha na TV fez coro: “[A vitória da oposição] significaria entregar aos banqueiros um grande poder de decisão sobre sua vida e de sua família.”

Uma vez eleita, Dilma correu à cata de um banqueiro que aceitasse o desafio de consertar seu governo. Depois de algumas negativas, sendo a mais fragorosa delas a de Luis Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, em 21/11 a presidente anunciou seu novo ministro da Fazenda: Joaquim Levy, oriundo do mesmo banco. Nunca é demais lembrar que, durante oito anos, Lula teve no Banco Central o também banqueiro Henrique Meirelles. 

  1. Petrobras

Em julho de 2014, com a Petrobras já atolada em denúncias de corrupção, a petista afirmou: “Quem olhar o que aconteceu com a Petrobras nos últimos dez anos e projetar para o futuro conclui que fizemos um grande ciclo. Eu estive presente em todos os momentos”. Durante oito anos, Dilma, primeiro como ministra de Minas e Energia e depois como ministra-chefe da Casa Civil, presidiu o conselho de administração da estatal. Foi a época em que mais ocorreram casos de corrupção na companhia.

A Operação Lava-Jato vem revelando que a teia de corrupção na Petrobras pode ter surrupiado R$ 20 bilhões. Alguns dos envolvidos já afirmaram que parte dos recursos foi dada em doação à campanha de Dilma em 2010, parte foi remetida ao exterior e parte foi entregue em espécie ao PT. Órgãos como a CGU e o TCU já concluíram que a compra da refinaria de Pasadena, aprovada pelo conselho presidido por Dilma, gerou prejuízo próximo a US$ 700 milhões. Revelações recentes mostram que há muito tempo a diretoria da companhia sabia das irregularidades que se passavam por lá.

  1. Tarifaço

Em fins de julho, Dilma foi à CNI falar a industriais e empresários brasileiros. Sobre o risco de aumento de tarifas públicas, estrilou: “O que justifica essa hipótese do tarifaço? Significa a determinação em criar um movimento para instaurar o pessimismo, comprometendo o crescimento do país”.

Onze dias após as eleições, a Petrobras anunciou reajuste de 3% na gasolina e de 5% no diesel. Hoje, os brasileiros pagam pelos combustíveis, em média, cerca de 25% mais caro do que o preço praticado no mercado internacional. As contas de luz também ficaram muito mais salgadas.

  1. Energia elétrica

Pouco antes de iniciar o período eleitoral, Dilma fez pronunciamento na TV em que garantiu: “Os investimentos feitos em geração e transmissão de energia permitem hoje ao Brasil superar as dificuldades momentâneas, mantendo a política de tarifas baixas”. Em 2012, ela já fora à TV garantir “a mais forte redução de tarifa elétrica já vista neste país”. Na campanha, manteve o discurso falso de que o país não corre risco de apagões.

Logo após a eleição, a Aneel informou oficialmente que as tarifas de energia subiram 17% neste ano e estima que devem subir mais 25% em 2015. A redução que Dilma prometeu em rede nacional de rádio e TV virou fumaça, não sem antes desestruturar por completo o setor elétrico brasileiro, vítima da truculenta intervenção determinada pela presidente em 2012. Além disso, em 5/11, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico elevou para 5% o risco de faltar energia em 2015. No setor privado, a chance estimada é de 20%.

  1. Direitos trabalhistas

Em setembro, a campanha dilmista juntou dezenas de sindicalistas para a gravação de um dos programas eleitorais da candidata. Nas imagens, Dilma reitera o que havia dito poucos dias antes a empresários reunidos em Campinas: “Eu não mudo os direitos trabalhistas nem que a vaca tussa”. Recebeu efusivos aplausos da plateia como resposta e produziu uma reluzente peça de campanha.

A retórica não resistiu, contudo, nem alguns dias após a vitória nas urnas. Em 7/11, apenas 12 dias após a eleição o governo anunciou a intenção – e desde então a vem reiterando – de cortar despesas com pagamento de pensões, seguro-desemprego, auxílio-doença e abono salarial.

Com o apoio da CUT, o governo também divulgou que estuda medidas para reduzir o salário dos trabalhadores para evitar demissões. A geração de empregos no país caiu em todos os anos do governo Dilma; 2014 será o de pior desempenho para a criação de vagas desde o início do século. 

  1. Miséria

Em 17/9, Dilma participou, em Aparecida (SP), de debate com os demais presidenciáveis promovido pela CNBB. Lá disse: “Quem vai ganhar essas eleições é quem mudou o Brasil, quem reduziu a miséria”. E transpôs para sua campanha o slogan de seu governo: “O fim da miséria é só um começo”.

Em 5/11, apenas dez dias após a eleição, o Ipea revelou que a miséria no país aumentou 3,7% em 2013, a primeira alta desde 2003. O contingente de miseráveis ganhou 370 mil novas pessoas. O número chegou a circular durante a campanha eleitoral, mas o governo do PT impediu os pesquisadores do Ipea de o publicarem oficialmente.

  1. Pessimismo

Numa noite de maio passado, Dilma juntou um grupo de mulheres jornalistas no Palácio da Alvorada. Entre uma ou outra frase para tentar criar efeito e quebrar o gelo com a opinião pública – na época, a popularidade da presidente desceu a seu mais baixo nível – ela disse: “É absurda essa história de o Brasil explodir em 2015. É ridículo. Pelo contrário, o Brasil vai bombar”.

Por tudo o que se prevê para 2015, nem é preciso mostrar quão contraditório é o que Dilma disse às mulheres jornalistas e a realidade do país que desponta no horizonte a partir do próximo ano. As bombas que a presidente anteviu são, na realidade, de natureza bem distinta e já estão estourando – e bem no colo da população brasileira, parte dela enganada pela petista na eleição.

*ITV

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O segredo sobre o inferno

Padre Gabriele Amorth conta a vez em que o diabo discutiu com o Padre Candido sobre o inferno

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Está em andamento a causa da beatificação do Padre Candido Amantini, sacerdote passionista, exorcista de Roma durante 36 anos. O seu mais célebre estudante (considerado também seu sucessor) é o Padre Gabriele Amorth, 89 anos. Padre Amorth, autor do livro “O último Exorcista”, relembra quando o diabo começou a discutir com o Padre Candido sobre o inferno. Eis a entrevista.
Padre Amorth, o senhor está feliz com a abertura do processo de beatificação do Padre Candido?

É uma grande alegria, porque o Padre Candido era um homem de Deus! Sempre sereno, sempre sorridente, nunca bravo, nem mesmo com o demônio! Ele estava na boca de todos, muito conhecido em Roma, exorcizou por 36 anos sem nunca parar.

O que o senhor lembra do seu mestre?

Ele era cheio de carismas especiais. Por exemplo, para ele bastava olhar uma fotografia para entender se uma pessoa precisava deexorcismo ou de um tratamento médico.

Em qual sentido?

Eu te conto um exemplo. Um dia eu estava com ele, e me mostrou três fotos que lhe levaram. Pegou a primeira, que tinha um homem e me disse: “Vê, Padre Amorth?”, e eu: “Não vejo nada, Padre Candido”. Ele me respondeu: “Vê? Este homem aqui não precisa de nada”. Depois pegou uma foto de uma mulher e me perguntou de novo: “Vê, Padre Amorth?”, e eu ainda repeti: “Eu não estou entendendo nada, Padre Candido”. A resposta foi: “esta mulher precisa de muitas curas médicas, deve ir aos médicos, não aosexorcistas”. Por fim pegou a terceira foto que tinha uma jovem e novamente me perguntou: “Vê, Padre Amorth? Esta jovem precisa de um exorcista, vê?”, e lhe respondi: “Padre Candido. eu não vejo nada! Vejo somente se uma pessoa é bonita ou feita. E, se devo ser sincero, esta menina não é tão má assim!”, e ele sorriu. Fiz uma brincadeira, mas ele tinha entendido que aquela jovem precisava deDeus.

Antes o senhor disse que o Padre Candido nunca ficava bravo, nem com o diabo. Satanás tinha medo dele?

É como se tivesse medo, tremia diante dele e escapava rápido. O diabo na verdade tem medo de todos nós, basta que uma pessoa viva na graça de Deus!

O senhor obviamente assistiu aos exorcismos do Padre Candido…

Claro! Estive com ele por 6 anos. Fui nomeado exorcista em 1986 e desde aquele ano comecei a exorcizar junto com ele. Depois, em 1990, dois anos antes que ele morresse, iniciei a exorcizar sozinho porque ele não praticava mais. Quando alguém ia até ele, respondia: “Vai até o Padre Amorth”. Por isso sou considerado seu sucessor.

O Padre Candido era irônico com o diabo?

Quero lhe contar um episódio muito importante para você compreender a verdade. Você precisa saber que quando existe uma possessão diabólica, entre o exorcista e o demônio existe um diálogo. Satanás é um grande mentiroso, mas às vezes o Senhor o obriga a dizer a verdade. Uma vez o Padre Candido estava libertando uma pessoa após tantos exorcismos e com a sua veia irônica disse ao diabo: “Saia daí que o Senhor preparou para você uma casa bem quentinha, preparou-lhe uma casa onde não sentirá frio”. Mas o demônio o interrompeu e respondeu: “Você não sabe de nada”.

O que ele queria dizer?

Quando o diabo interrompeu o sacerdote com uma frase assim, quer dizer que Deus o obrigou a dizer a verdade. E desta vez era importantíssimo. Frequentemente eu sinto de perguntar aos fiéis: “Mas como é possível que Deus tenha criado o inferno, por que pensou em um lugar de sofrimento?”. E naquela vez o demôniorespondeu às provocações do Padre Candido revelando uma verdade importante sobre o inferno: “Não foi Ele, Deus, que criou o inferno! Fomos nós. Ele nem mesmo tinha pensado!”. Ou seja, no plano de criação de Deus não existia a criação do inferno. Quem o criou foram os demônios. Até eu, muitas vezes durante os exorcismos, perguntei ao demônio: “Você também criou o inferno?”. E a resposta é sempre a mesma: “Todos nós colaboramos”.

Quais conselhos o Padre Candido lhe deu?

Ele me deu muitos conselhos, sobretudo nos últimos dois anos de vida. O mais importante? Ser um homem de fé, rezar e pedir sempre a intercessão de Maria Santíssima. E depois, ser sempre humilde, porque o exorcista deve ser consciente de não valer nada sem Deus. Quem traz a eficácia ao exorcismo é o Senhor. Se Ele não fizer a intervenção, o exorcismo não vale nada.

[FONTE: http://stanzevaticane.tgcom24.it%5D

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Decadência do debate e da persuasão

Por muito tempo tenho notado uma questão intrigante no palco dos debates brasileiros. Temos demagogos aos montes, péssimos sofistas, retóricos sofríveis e lógico-racionais incapazes de passar sua mensagem. Cada um padece de suas próprias fragilidades. Os demagogos não encontram o mesmo eco do passado, pois a disseminação do conhecimento e a exposição midiática os deixou perdidos. Os sofistas e retóricos vivem de uma escola antiga, mas não têm a consciência de que seu discurso é apenas uma parcela de toda miríade que envolve a transmissão de conhecimento e da comunicação. Os racionais, por sua vez, não escondem seu fetiche absoluto pelo rigor lógico, deixando de lado boa parte da natureza humana – acabam pregando para convertido.

Tudo isso pode parecer meramente formal, mas é extremamente relevante. Uma peça importantíssima do “quebra cabeças” do debate está perdida ou é usada de forma empírica. Mas, afinal de contas, que peça é essa? Ela, meu senhores, é a liga fundamental do debate. É a diferença entre um sim, um não ou um talvez. Trata-se da persuasão, jogada a escanteio como coisa menor. Mas, sem ela, é impossível transmitir ideias de forma minimamente satisfatória.

Quando estudei negociação na University of Pennsylvania, o Professor Stuart Diamond fez algumas ponderações que, aos poucos, vêm mudando a minha forma de encarar a realidade. Em primeiro lugar, ele perguntou o que persuadia alguém. Após anos estudando dialética, retórica e lógica respondi, em alto e bom som: “argumentos”! Fiquei absolutamente desconcertado com o que ouvi, de bate pronto. O notável Professor esclareceu que argumentos não convencem ninguém, são apenas o colchão no qual a pessoa se deita confortavelmente com a sua decisão emocional. Em segundo lugar, afirmou que: “não há diferença entre negociação, vendas, comunicação ou persuasão. Sempre alguém esta tentando convencer outra de algo”.

Essas duas constatações destruíram anos de convicção com o peso de uma bigorna. Mas, ao mesmo tempo, fizeram com que eu iniciasse uma longa jornada que dura até hoje. Por exemplo, me lembrei da obra “Seis propostas para o novo milênio” de Ítalo Calvino, que enuncia qualidades essenciais para a escrita: leveza; rapidez; exatidão; visibilidade; multiplicidade; e, consistência. Continuei procurando tudo que eu podia encontrar nos livros americanos sobre a psicologia da persuasão. Encontrei verdadeiras pérolas, que, em nosso país, foram catalogadas como “Auto Ajuda”.

Infelizmente, tenho de concordar com os que enunciam a falta de limites da prepotência e arrogância do brasileiro. O estudo da persuasão é assunto sério e muito pesquisado nos Estados Unidos, sendo ensinado nas principais Universidades americanas. Encontra-se de tudo, persuasão para política, para o mundo dos negócios, para a advocacia e por aí vai. É fundamental que seja dado um tratamento sistemático para o estudo desse elemento essencial do debate e da vida em sociedade.

Para terminar, é importante deixar claro que a persuasão pode ser usada para o bem e para o mal. Minha proposta é a sua utilização com o intuito de facilitar a interação entre as pessoas. Seria, tal qual, uma abertura de portas para permitir o debate sadio. Além disso, espero que as pessoas apreendam a se defender dos mascates da influência. Gente que usa as ferramentas de persuasão para o mal.

Como não somos máquinas, possuímos coração e sangue nas veias, a persuasão nunca deixará de ter um papel marcante em nosso dia a dia. Espero, portanto, que paremos um pouco para aprimorar o debate com o estudo da persuasão. Mas, aviso aos navegantes, quem tentar usar as técnicas persuasivas de forma perversa, será, mais cedo ou mais tarde, destruído por um dos maiores elementos da persuasão: a credibilidade. Nunca mais uma palavra que sair de sua boca será levada a sério.

Leonardo Corrêa
Advogado

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7 bilionários que continuam agindo como se ainda fossem pobres

Lista, compilada pela Business Insider, mostra nomes conhecidos, como Mark Zuckerberg, e desconhecidos como David Cheriton

Por Felipe Moreno  

|9h30 | 07-08-2014 //

A lista, compilada pela Business Insider, mostra nomes conhecidos, como Mark Zuckerberg, e desconhecidos, como David Cheriton, o professor da Universidade de Stanford que assinou o primeiro cheque para financiar o Google e provavelmente o maior pão-duro da lista. 

Pode ser que alguns deles possuam algumas excentricidades financeiras, como Sergey Brin, fundador do Google e dono de alguns jatinhos. Mas todos eles ainda vivem o dia a dia como se não tivessem dinheiro no bolso. 

Confira a lista: 

Nome: Mark Zuckerberg
Origem da Fortuna: Facebook
Fortuna: US$ 32,4 bilhões
O que (não) faz com o dinheiro: Zuckerberg é um fenômeno financeiro, com mais bilhões na conta bancária do que anos de vida. Mas é pão duro também: dirigia um Acura TSX e recentemente trocou por um Volkswagen GTI, dois modelos que custam apenas US$ 30 mil. Usualmente usa camisa e um casaco bastante populares. 

Nome: Sergey Brin
Origem: Google
Fortuna:US$ 30,9 bilhões
O que (não) faz: Mesmo sendo dono de alguns jatinhos, Brin é bastante controlado no seu dia a dia. Se sente mal se deixa resto nos seus pratos de comida, compara preços constantemente e faz compras em lojas de desconto. Admite que gostaria de ser menos pão-duro.

Nome: Charlie Ergen
Origem: Dish Networks
Fortuna: US$ 16,3 bilhões
O que (não) faz: Controla todas as despesas dua sua empresa, leva um sanduíche de casa para o trabalho com Gatorade (ele mesmo embrulha) e divide seus quartos de hotel com colegas. Acredita que é pão-duro por conta da infância da mãe na Grande Depressão.

Nome: Azim Premji
Origem: Wipro Limited
Fortuna: US$ 15,4 bilhões
O que (não) faz com dinheiro: O indiano voa de classe econômica e toma taxis de três rodas para o escritório (mais baratos do que carros). Dentro da sua empresa, monitora até o papel higiênico e sempre lembra os funcionários de desligar as luzes antes de sair. Algumas pessoas dizem que Premji faz o Tio Patinhas parecer generoso.

Nome: Pierre Omidyar
Origem: eBay
Fortuna: US$ 8,1 bilhões
O que (não) faz com dinheiro: Depois que percebeu que poderia comprar centenas de carros de luxo, perdeu o interesse em gastar o seu dinheiro.

Nome: Jam Koum
Origem: WhatsApp
Fortuna: US$ 6,8 bilhões
O que (não) faz com dinheiro: Nascido na Ucrânia, sua família teve problemas após emigrar para os Estados Unidos e ele chegou a se alimentar apenas com ajuda do governo. Este ano, quando estava vendendo o WhatsApp para o Facebook, Koum apressou o negócio para não perder uma viagem para Barcelona. Que ele pagou com milhagens.

Nome: David Cheriton
Origem: Primeiro financiador do Google
US$ 3 bilhões
O que (não) faz com dinheiro: Vive na mesma casa há 30 anos, ainda usa um carro de 1986 da Volkswagen, corta o próprio cabelo e até reutiliza seus pacotes de chá antigos. Acredita que quem tem casas muito luxuosas “possui algum problema”.

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Dilma afirma que ‘parceria’ com Kátia Abreu ‘está apenas começando’

Ela discursou na posse da presidente da Confederação da Agricultura.
Senadora Kátia Abreu (PMDB) é apontada como futura ministra do setor.

Nathalia Passarinho e Filipe Matoso

Do G1, em Brasília

A presidente Dilma Rousseff na cerimônia de posse de Kátia Abreu na CNA, ao lado da senadora e do presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (Foto: Ricardo Stuckert Filho / Presidência )
A presidente Dilma Rousseff na cerimônia de posse de Kátia Abreu na CNA, ao lado da senadora e do presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (Foto: Ricardo Stuckert Filho / Presidência )

A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta segunda-feira (15), durante a posse da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) como presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que a parceria com a parlamentar “está apenas começando”.

Kátia Abreu foi convidada por Dilma para assumir o cargo de ministra da Agricultura no segundo mandato da presidente, segundo informou o Blog do Camarotti. A escolha ainda não foi confirmada oficialmente pelo Palácio do Planalto.

“Quando estive aqui em agosto, no encontro dos presidenciáveis, falei do meu orgulho de ter dialogado com o setor agroecopecuário. Hoje, Kátia Abreu, quero dizer que nossa parceria está apenas começando, temos quatro anos pela frente”, afirmou a presidente. “Quero a CNA ao meu lado, preservada a sua autonomia e independência”, declarou Dilma.

Segundo ela, no segundo mandato, o produtor rural não será “apenas ouvido e consultado”. “Proponho mais que isso. Quero o produtor rural tomando decisões junto comigo, participando do governo e atuando diretamente na definição de novas políticas”, declarou.

No novo mandato que se inicia, o produtor rural não será apenas ouvido e consultado. Proponho mais que isso. Quero o produtor rural tomando decisões junto comigo, participando do governo e atuando diretamente na definição de novas políticas.”
Dilma Rousseff, presidente da República

Dilma iniciou e encerrou o discurso com elogios a Kátia Abreu, destacando que compareceu pessoalmente à posse para homenagear “uma mulher que se distinguiu na direção da CNA e que honra o país”. “[Kátia Abreu] honra as mulheres desse país pela sua capacidade de trabalho e por ser uma lutadora incansável por esse segmento que é muito importante para o nosso país”, disse.

Segundo a presidente, diferenças políticas e ideológicas não podem impedir que todos trabalhem pelo objetivo comum de desenvolver o país e o agronegócio.

“As bandeiras da produtividade e preservação estão nas mãos de todos. Por isso, eu digo que nós temos um imenso conjunto, aqui representado, dos empresários do agronegócio, dos trabalhadores rurais, dos ambientalistas, e de todos eles, sem exceção, sem considerar diferenças políticas ou ideológicas.”

Em sua fala, Dilma procurou reforçar que está disposta a ampliar o diálogo com o setor agropecuário e citou investimentos públicos em produção agrícola.

“Desde 2011, participo das reuniões que minha equipe elabora para concluir e propor o Plano Safra. Em todos os anos, a CNA foi ouvida, suas sugestões foram quase todas elas acatadas e seus pleitos sempre foram levados em consideração”, disse.

Segundo a presidente, o governo sempre tentou atender os pleitos dos produtores rurais. “Meu governo zelou por isso e posso dizer tranquilamente: buscamos garantir especial atenção a alguns elos da cadeira produtiva por serem prioritárias ou porque até então não tinham recebido apoio suficiente do Estado”, disse.

Dilma afirmou também considerar possível ampliar a produção agrícola sem descuidar da preservação do meio ambiente. “O sucesso do nosso plano agrícola é fácil de ser mensurado. Na safra de 2001-2002, produzimos 96,8 milhões de toneladas, em 40,2 milhões de hectares. Na safra deste ano, devemos ultrapassar 200 milhões de toneladas, em 58 milhões de hectares, ou seja, mais que dobramos a produção. Cito estes dados porque estamos dando as melhores respostas a um dos maiores desafios, alimentar o mundo sem destruir o planeta.”

Indicação polêmica
A possível indicação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura é criticada por ambientalistas, líderes de movimentos sociais e pequenos produtores rurais.

Ainda nesta terça, após reunião com a presidente Dilma, o integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Alexandre Conceição afirmou que a possível nomeação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura seria uma medida “equivocada”.

Segundo ele, a presidente da CNA representa “mais veneno na mesa, mais trabalho escravo e mais repressão a indígenas e quilombolas.”

Na semana passada, após reunião com Dilma, o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Alberto Broch, classificou como “péssima” a possibilidade de Kátia Abreu assumir o comando do ministério.

Paradigmas da esquerda
No discurso de posse, Kátia Abreu defendeu superar “paradigmas” da esquerda e da direita, como forma de garantir o desenvolvimento do país, sobretudo na área agropecuária.

Algumas horas antes da cerimônia, cerca de 70 manifestantes ligados ao Movimento Brasileiro dos Sem Terra (MBST), à Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) e à Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer) derrubaram a grade da sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em protesto contra a possibilidade de a senadora assumir o Ministério da Agricultura.

Eles tentaram invadir o prédio, mas foram impedidos pela segurança. “Temos que superar paradigmas de grupos da esquerda e da direita que desservem ao país. Como o [grupo] de hoje que, de forma desrespeitosa, invadiu este prédio”, disse Kátia Abreu.

A senadora destacou que a agricultura brasileira impulsiona a geração de empregos e, diante de Dilma, disse que, apesar dos avanços, os investimentos públicos ainda são aquém do esperado. Ela afirmou ainda que as diferenças partidárias não podem influenciar as entidades representativas dos agricultores, como a CNA.

“A CNA não é uma casa partidária. A disputa ideológica, legítima, necessária se exerce nos partidos políticos. Nossa entidade deve continuar sendo uma reunião de homens e mulheres que colocam a nação brasileira acima de tudo”, disse.

‘Especulações’
Após a cerimônia na CNA, Kátia Abreu afirmou a jornalistas, durante coquetel, que são “especulações” as notícias de que será nomeada ministra da Agricultura. Segundo ela, não houve convite da presidente.

Ao ser questionada sobre a fala em que a presidente afirmou que a “parceria” com ela está “apenas começando”, Kátia Abreu disse que nos últimos quatro anos houve proximidade “bastante interessante” entre a CNA e o governo e que Dilma tem “confiança” na entidade.

“Com certeza estaremos mais próximas, eu como presidente da CNA e como uma pessoa que aprendeu a admirá-la justamente pela vontade dela de aprender e atender as demandas do setor. Por isso, essa reciprocidade, essa afinidade. […] Isso [indicação para o ministério] são só especulações, apenas especulações. Eu continuo senadora e presidente da CNA”, disse.

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Fim da linha

BRASÍLIA – Esgotaram-se as condições políticas para a manutenção de Graça Foster à frente da Petrobras, e quaisquer protelações adicionais por parte do Planalto só trarão o escândalo para a mesa de Dilma Rousseff –circulando por seu gabinete ele já se encontra.

O fato de a Petrobras não negar o conteúdo das denúncias da ex-gerente Venina da Fonseca sobre falcatruas na famigerada Diretoria de Abastecimento, ainda que seja omissa sobre os alertas que ela diz ter feito a Graça, é revelador.

A estatal, em soberba típica dos tempos em que se achava o farol do futuro, disse que apurou e “encaminhou às autoridades competentes” seus achados. Mesmo? Enquanto isso, por exemplo, a refinaria de Abreu e Lima viu seu custo explodir.

A questão é que até o procurador-geral da República, nem de longe um quadro antipetista, já pediu a cabeça de Graça e dos diretores da estatal. Com Venina e seus e-mails, naturalmente a depender de apuração judicial, parece ser o fim da linha para a presidente da Petrobras.

É um pesadelo dentro de um sonho ruim para o governo. Graça é a última linha de defesa de Dilma. Presidente, a ex-ministra colocou a executiva como um “doppelgänger”, seu duplo no comando da megaestatal na qual mandava e desmandava. Graça encarnava o mito Rousseff, a gerente dura e implacável. Simbolicamente, ela era Dilma.

A maré da crise é implacável. No começo da Lava Jato, ministros enchiam a boca para dizer que Graça havia “limpado” diretorias da Petrobras sob ordens dilmistas. Era enfim uma má explicação, já que tudo indica que, se ocorreu, foi uma faxina interna e ineficaz. O Ministério Público demonstrou que a roubalheira estava em curso até o mês passado.

Nada disso é inédito. Lula escapou do mensalão com a cabeça de José Dirceu na algibeira. Irão ele e Dilma sobreviver agora ao caso Petrobras? Corta para o próximo capítulo.

Originalmente publicado aqui.

As Paixões por São Tomás de Aquino

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Para São Tomás de Aquino, as paixões são aquelas da alma, são sofridas e vividas pelo homem. Define paixão tudo que o sujeito recebe do exterior, e que sobrevém e o modifica: sentir, compreender. No plano da afetividade, tudo que o sujeito recebe do exterior e faz com que ele sofra uma mudança em função da atração que o objeto exerce sobre ele, quer o aceite ou o recuse. Ele considera por paixão tudo que chamamos de afetividade, carência e desejo, e que distingue da percepção sensível e da inteligência. Na paixão o paciente é atraído para aquilo que é próprio do agente. A alma é mais atraída pela potência apetitiva do que pela apreensiva, pois a apetitiva coloca as coisas em relação tais como são, e a apreensiva não é atraída para as coisas em si mesmas e sim pela sua intenção. Existe paixão onde há transmutação do corpo que se encontra nos atos do apetite sensível. Já no ato do apetite intelectivo não ocorre nenhuma transmutação no corpo. Com isso, podemos perceber que a paixão está mais presente no apetite sensitivo do que no intelectivo. São Tomás distingue duas potências da afetividade sensível a concupiscível e irascível. As duas têm como objetivo se aproximar do bem e afastar-se do mal, entretanto, as irascíveis possuem um maior grau de dificuldade na apreensão do bem e na evitação do mal. São Tomás considera a existência de onze paixões, seis concupiscíveis e cinco irascíveis. Nas paixões há duas contrariedades, a primeira com relação ao objeto, que é do bem e do mal; e a segunda é com relação ao afastamento ou a aproximação do mesmo. Nas paixões do concupiscível se encontra a primeira contrariedade, e na do irascível encontra-se as duas contrariedades. Dessa forma ficam claros os três pares de paixões do concupiscível: amor e ódio, desejo e fuga (aversão), alegria e tristeza. E os pares do irascível: esperança e desespero, audácia e temor, e a ira, que não possui nenhuma outra paixão, se opõe.

A ordem das paixões segundo a geração começa pelo amor e o ódio, depois o desejo e a fuga, depois a esperança e o desespero, logo o temor e a audácia, em seguida a ira, e enfim a alegria e a tristeza, pois são elas que completam ou terminam de modo absoluto todas as paixões.

Para São Tomás de Aquino o amor é algo próprio do apetite, isso deve-se porque ambos tem o bem como objeto. Ele distingue três tipos de apetites humanos: “natural” (escapam da influência da razão), “sensível” (que é despertado pela percepção dos sentidos), e existe um apetite conseqüente à apreensão do que apetece, por juízo livre, e tal é o apetite racional ou intelectivo, e este se chama vontade. Há quatro palavras que se referem, de certo, a mesma coisa: amor, dileção, caridade e amizade. Diferem, contudo, em que a amizade é “quase um hábito”, enquanto que o amor e a dileção se fazem compreender a modo de ato ou paixão, ao passo que caridade pode ser entendida de ambos os modos. Elas enfim, exprimem o ato de diversas maneiras, a mais geral delas é o amor, pois toda dileção ou caridade é amor, mas não inversamente. A dileção acrescenta ao amor uma eleição precedente. Por isso, a dileção não está no concupiscível, mas somente na vontade, e apenas na natureza racional. A caridade, por sua vez, acrescenta ao amor certa perfeição, na medida em que se tem grande apreço por aquilo que se ama. Assim, nota-se que a dileção é a forma de amor mais qualificada, pois é precedida por uma escolha, e a caridade refere-se à atração, ou ainda ao apelo, ao convite, enfim, a influência do amor e da caridade se exerce na forma de um treinamento dinâmico.

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Não existe nenhuma outra paixão da alma que não pressuponha algum amor. A razão disto é que qualquer outra paixão implica em movimento ou descanso em relação a alguma coisa. Ora, todo movimento ou repouso procede de certa conaturalidade ou adequação, que pertence á razão do amor. Para Sto. Tomás de Aquino, o ciúme é sim efeito do amor. Para ele, qualquer que seja o sentido do ciúme, provém da intensidade do amor, onde o amor intenso procura excluir tudo o que lhe é contrário. Logo, tudo que age, só age porque ama.

São Tomás de Aquino descreve que o mal é objeto do ódio. O ódio é causado pelo amor, porque é necessário que o amor seja anterior ao ódio, e que só se odeie o que é contrário ao bem conveniente que se ama. Assim, não se pode dizer de maneira alguma que o ódio é mais forte que o amor, pois é impossível que o efeito seja mais forte que a causa. Não obstante, ás vezes, o ódio parece mais forte que o amor por duas razões. Primeiro, porque o ódio é mais sensível que o amor; segundo, porque não se compara o ódio ao amor que lhe corresponde. Nota-se também que é impossível alguém poder odiar a si mesmo. Porque de fato, cada um deseja naturalmente o bem, e ninguém pode desejar algo para si senão sob a razão do bem, pois “o mal é contrário à vontade”.

São Tomás de Aquino caracteriza que o movimento apetite sensitivo se chama propriamente paixão. E toda afeição que procede de uma apreensão sensível é movimento do apetite sensitivo. Implicando-se necessariamente ao prazer; conseqüentemente o prazer é paixão. Pode-se dizer que a alegria é uma espécie de prazer, pois, tudo o que desejamos segundo a natureza, podemos também desejá-lo com o prazer da razão; mas o contrário não é verdadeiro. Assim, tudo que é objeto de prazer pode também ser objeto de alegria para os que são dotados de razão. Por isso, é claro, que o prazer tem mais amplitude que a alegria. O prazer tem por causa a união com o bem conveniente, união sentida ou conhecida. Nas ações da alma, sobretudo da alma sensitiva e intelectiva, deve-se considerar que por não passarem para uma matéria exterior, essas operações são atos e perfeições daquele que age: a saber, conhecer, sentir, querer, etc. as ações que passam para uma matéria exterior são antes atos e perfeições da matéria transformada: pois o movimento é do móvel pelo movente.

A tristeza pode-se considerar-se de dois modos: segundo existe em ato, ou segundo existe na memória. E de ambos os modos, a tristeza pode ser causa de prazer. Com efeito, a tristeza existente em ato é causa de prazer enquanto faz lembrar a coisa amada cuja ausência entristece. Quanto à memória da tristeza, ela é também causa de prazer pela liberação subseqüente, porque carecer de um mal é entendido como um bem: assim, saber que se liberou de coisas tristes e dolorosas aumenta no homem os motivos de alegria. Tristeza é uma espécie de dor, como alegria uma espécie de prazer, conclui-se que a dor e o prazer são contrários. A dor sensível leva para si fortemente a atenção da alma, também é evidente que para aprender algo novo se exige esforço com grande atenção; por isso, se a dor for intensa, o homem é impedido de poder aprender. Contudo, a dor atrai mais atenção da alma que o prazer.

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Por isso, se a dor interior, for muito intensa, atrai de tal modo a atenção que pode impedir que se aprenda algo de novo. São Tomás de Aquino afirma que a tristeza impede qualquer ação, porque nunca fazemos tão bem o que fazemos com tristeza, como o que fazemos com prazer, ou sem tristeza. A razão disso é que a vontade é causa da ação humana, e assim se a ação versa sobre algo que entristece, é necessário que a ação se enfraqueça. A tristeza, às vezes, faz perder o uso da razão, como se vê naqueles que, por causa da dor, caem na melancolia ou na loucura.

Em relação a esperança, São Tómas de Aquino diz que é anterior ao desespero, pois a esperança é o movimento de para o bem, e o desespero por outro lado é o afastamento do bem. A causa do desespero é quando o bem desejado fica fora de alcance. Quando o objeto se torna impossível de ser obtido, ele passa a ser repulsivo. O desespero é contrário à esperança apenas pela contrariedade da aproximação e do afastamento. O desespero não visa o mal pela razão do mal, mas por acidente, às vezes, visa o mal pela impossibilidade de alcançar o bem. O desespero não implica só a privação da esperança, mas um afastamento da coisa desejada, por conta da impossibilidade de alcançá-lo. O desespero e a esperança pressupõem do desejo, não há esperança nem desespero do que não é objeto do nosso desejo. Por isso os dois se referem ao bem, que é o objeto do nosso desejo. O desespero é conseqüência do temor, pois alguém desespera porque teme a dificuldade a respeito do bem a esperar.

O temor se refere ao mal, implica também na relação que o mal vence de algum modo o bem. O temor é o mal futuro difícil ao qual não se pode resistir. Ele nasce da fuga do mal, como a fuga pertence ao mal o temor também visa ao mal. Entretanto ele pode visar, quando o mal está primando o bem ou quando o mal que está fugindo do mal por ser mal. Como o temor provém da imaginação que o entristece. Assim temor é um mal futuro árduo e não se pode ser evitado facilmente. O temor em parte precede a nossa vontade. Existem vários tipos de temores, como a angústia, a vergonha, a infâmia e etc. O amor pode ser a causa do temor, quando por amar certo bem, e há um mal que priva esse bem, teme-se como a um mal.

A audácia é contraria ao temor, pois a audácia afronta o perigo, porque acredita na sua vitória. Ele é conseqüência da esperança, pelo fato de que alguém espera triunfar de um mal terrível iminente, por isso o afronta audazmente. Ela se segue à esperança e se opõe ao temor, então tudo que causa a esperança ou exclui o temor é causa da audácia. O objeto da audácia é formado por bem e mal; e o movimento da audácia para o mal pressupõe o movimento da esperança para o bem. Quando maior é o perigo, maior se julgará a audácia.

Em relação a esperança, São Tómas de Aquino diz que é anterior ao desespero, pois a esperança é o movimento para o bem, e o desespero por outro lado, é o afastamento do bem. A causa do desespero é quando o bem desejado fica fora de alcance. Quando o objeto se torna impossível de ser obtido, ele passa a ser repulsivo. O desespero é contrário à esperança apenas pela contrariedade da aproximação e do afastamento. O desespero não visa o mal pela razão do mal, mas por acidente, às vezes, visa o mal pela impossibilidade de alcançar o bem. O desespero não implica só a privação da esperança, mas um afastamento da coisa desejada, por conta da impossibilidade de alcançá-lo. O desespero e a esperança pressupõem do desejo, não há esperança nem desespero do que não é objeto do nosso desejo. Por isso os dois se referem ao bem, que é o objeto do nosso desejo. O desespero é conseqüência do temor, pois alguém desespera porque teme a dificuldade a respeito do bem a esperar. São Tomás considera que a esperança é uma necessidade vital do homem. Os jovens pela falta de experiências de vida têm mais esperança que os mais velhos. Considera-se que a velhice enfraquece a esperança. A esperança tanto pode ser a causa do amor, como o amor pode ser a causa da esperança. Pois o ser amado faz que nele esperemos, mas é a esperança que nele depositamos que faz que o amemos.  A esperança intensifica a ação por dois motivos, o primeiro por ser um bem árduo tem que haver um esforço, uma excitação sempre para que continue havendo esperança, e a segunda é que a esperança causa prazer e esse prazer favorece a ação.

Sobre a ira, o que é especifico da ira é que ela surge a partir de uma tristeza sofrida e do desejo e da esperança da vingança, por isso se diz que ela é causada por muitas paixões. Não possui nem uma paixão que seja contraria a ela. A ira tende tanto para o bem como para o mal, pois há a vingança, que deseja e espera como se fosse um bem, e por isso tem prazer de vingança; e há a pessoa que procura se vingar, como se fosse contrária e nociva, o que a faz pertencer à razão do mal. A ira visa sempre dois objetos, ao contrario de muitas outras paixões que visam um único objeto. A ira acompanha a razão, pois a existência da ira esta por conta de uma injustiça cometida e para que a pessoa tenha consciência dessa injustiça precisa haver razão. É uma paixão que muitas vezes é transmitida de pais para filhos. Para São Tomás de Aquino a ira só deseja um mal, pois ela tem uma vingança, mas como a vingança pode ser um ato de justiça, a ira pode ser considerada moralmente boa.

Originalmente publicado aqui.