Gasto brasileiro com ciência é muito pouco eficiente, diz ‘Nature’

Segundo ranking da revista “Nature”, o Brasil é um dos países com menor eficiência no gasto com ciência. Ele figura em 50º entre 53 avaliados, atrás de países como Irã, Paquistão e Ucrânia. O país, no quesito, só é melhor que Egito, Turquia e Malásia.

A medida é feita pela divisão do número de artigos publicados em 68 revistas científicas internacionais de alto prestígio pelo total de investimentos em pesquisa.

Em 2013, segundo a Nature, o Brasil publicou 670 artigos nessas revistas. Seu gasto com ciência e desenvolvimento é da ordem de US$ 30 bilhões ao ano.

Em comparação, o Chile publicou mais que o Brasil (717 artigos), gastando menos de US$ 2 bilhões, um desempenho muito bom. Israel publicou 1.008 artigos gastando cerca de US$ 9 bilhões.

O país mais eficiente é a Arábia Saudita, que tem conseguido um ótimo retorno com estudos da área de energia e gás. Publicou 288 artigos gastando, segundo o último dado disponível, cerca de US$ 500 milhões ao ano –os dados incluem dinheiro público e privado.

Como algumas revistas científicas especializadas em física publicam uma quantidade muito grande de artigos, a metodologia da “Nature”, que dá origem ao ranking ao lado, conta ainda com um fator de ponderação para corrigir essa distorção, entre outros ajustes metodológicos.

Assim, artigos de ciências biológicas e de química valem mais, para que países fortes em exatas não fiquem artificialmente melhor colocados.

DESEMPENHO

Nem tudo é má notícia: o desempenho brasileiro –calculado para o ano de 2013– comparado ao de 2012 melhorou em 17,3%. Antes, o Brasil ocupava a 26º posição.

José Eduardo Krieger, pró-reitor de pesquisa da USP, avalia o desempenho como “inadequado perante a grandeza do país”, já que o Brasil, se tivesse um desempenho de acordo com sua economia, deveria figurar entre os sete melhores do mundo.

Rogério Meneghini, diretor científico do SciELO –banco virtual de dados bibliográficos–, avalia positivamente a iniciativa da “Nature”.

Segundo ele, o ranking cobre artigos de projeção muito grande, e que certamente terão em média um alto índice de citações –outra maneira de medir a relevância científica de um trabalho.

Em avaliações que analisam uma quantidade maior de revistas, a participação brasileira em porcentagem de artigos publicados está em 2,5%. No ranking da “Nature”, o país tem só 1,1% (13º lugar).

Em termos brutos, é o país com maior publicação científica da América Latina. Quando se analisa, porém, o volume de pesquisa produzido a cada mil pesquisadores, o Chile lidera a região com um índice cinco vezes maior que o do Brasil, que fica atrás também de México e Argentina.

O ranking da Nature também classifica as instituições por produtividade em pesquisa. Dentre as 200 melhores, não há nenhuma latino-americana. O ranking é liderado pela Academia Chinesa de Ciências, seguida por Harvard (EUA) e pela Sociedade Max Planck (Alemanha).

A universidade latino-americana mais bem colocada é a USP, também primeira colocada entre as universidades brasileiras no Ranking Universitário Folha. Ela aparece em 271º lugar na “Nature”, seguida por UFRJ (557º), Unesp (574º) e Unicamp (613º).

Krieger considera que a USP, assim como a ciência brasileira, precisa aumentar não só a quantidade, mas principalmente a qualidade de sua produção científica. Segundo ele, o Nature Index pode ser um bom indicador da qualidade da pesquisa nas áreas que ela avalia.

Segundo Krieger, falta “estimular a vocação de cada universidade” e abandonar a ideia de gigantismo de que uma instituição tem que ser boa em todas as áreas.

 

 

Originalmente publicado aqui.

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