Manobras pós-eleitorais e “frente de esquerda” sugerem que 2015 será tenso

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

12 Novembro 2014 | 11:25

Não só de especulações e expectativas sobre o novo ministério de Dilma Rousseff e a coalizão que sustentará seu segundo governo tem vivido a crônica política depois das eleições.

O momento é de acomodação. Os perdedores lambem as feridas, os vencedores arrefecem os ânimos, cálculos são feitos de todos os lados. As forças políticas – antes de tudo o PT e o PSDB – precisam se reposicionar e começam a fazer suas apostas. A vida não para, e em política isto não é somente um clichê.

Do lado do PSDB, anuncia-se que na próxima sexta-feira, Aécio Neves e Geraldo Alckmin tentarão dar uma demonstração pública de que o partido está mais unido do que nunca. Trata-se de um encontro articulado por Aécio para agradecer a votação que recebeu no maior colégio eleitoral do País e, assim, começar a pagar a dívida que contraiu com Alckmin. Faz sentido, já que não são poucos os que dão como certo que um deles será o candidato tucano às presidenciais de 2018. A demonstração de unidade também é importante para que Aécio possa crescer como líder oposicionista e para que o PSDB administre as disputas regionais que se abrirão tendo em vista as eleições municipais de 2016. Aécio também pretende conversar com os outros quatro governadores eleitos pelo PSDB (PR, GO, MS e PA).

Paralelamente, mas ainda na seara tucana, corre a questão de saber se as oposições caminharão unidas ou ao menos bem articuladas e que perfil político e ideológico assumirão.

Algo parecido se passa no PT. Mas com uma dose adicional de dramaticidade. Afinal, o partido perdeu força no Congresso e precisará se mexer com firmeza para reconquistar a lealdade do PMDB, por um lado, e para recuperar a identidade reformadora que saiu meio esgarçada das urnas, por outro. Na última década e meia, nunca como agora o partido conviveu tanto com seus fantasmas e suas dificuldades.

A Comissão Executiva Nacional do PT, semana passada, se apressou em marcar posição. E o fez em tom épico, disparando petardos para todos os lados. O candidato tucano foi simplesmente carimbado como tendo incorrido “nas piores práticas políticas: o machismo, o racismo, o preconceito, o ódio, a intolerância, a nostalgia da ditadura militar”. Para o PT, a oposição feita por Aécio foi apoiada “pela direita, pelo oligopólio da mídia, pelo grande capital e seus aliados internacionais”. A vitória de Dilma só aconteceu porque houve “consciência política de importantes parcelas de nosso povo, mobilização da antiga e da nova militância de esquerda, participação de partidos de esquerda e dedicação e liderança do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma”.

O partido acredita que chegou a hora de reaglutinar a tropa, definir “uma estratégia e um novo padrão de organização-atuação”. Reconhece que algo deixou de ser feito, que falhas ocorreram e que, agora, é preciso “construir hegemonia na sociedade”, processo que os petistas não esclarecem como será feito nem do que se trata efetivamente. Têm claro, porém, que se trata de “promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia”. O caminho para isto seria um só: “dialogar com o povo, condição vital para um partido de trabalhadores”. Para que o segundo mandato de Dilma seja melhor que o primeiro, “será necessário, em conjunto com partidos de esquerda, desencadear um amplo processo de mobilização e organização dos milhões de brasileiros e brasileiras que saíram às ruas para defender nossos direitos humanos, nossos direitos à democracia, ao bem-estar social, ao desenvolvimento, à soberania nacional”. Tarefa esta que cabe, antes de tudo, ao PT, “principal partido da esquerda brasileira”.

Em tom distinto, e com maior radicalidade, o governador gaúcho Tarso Genro caminhou na mesma direção. Em artigo publicado na Carta Maior (10/11/2014), foi direto ao ponto que lhe parece mais emblemático da presente situação: “Estamos chegando num novo momento de transição, no qual se revigora, de um lado, a questão democrática e, de outro, a questão da unidade da esquerda”.

Para Tarso Genro, o Brasil enveredou por uma clara tensão esquerda vs. direita que ameaça paralisar e eventualmente desconstruir o segundo governo Dilma. A “direita conservadora e o centrismo neoliberal” se tornaram mais agressivos e estão dispostos a ocupar espaços. Por isto, não se trata mais somente de “acalmar os mercados”, tarefa que não serviria para agregar as forças políticas em torno do governo. A questão é abrir “um novo ciclo frontal de combate às desigualdades sociais, que ainda persistem no Brasil de maneira dramática e vergonhosa”. Somente assim, acredita Tarso, seria possível dar atendimento aos novos sujeitos que surgiram das transformações postas em prática pelos governos petistas, sujeitos estes que se tornaram mais “exigentes” em relação a seus direitos e que não declararam, nas urnas, uma lealdade incondicional ao PT.

Na visão do governador gaúcho, as duras tarefas que o governo Dilma enfrentará poderão ser mais bem equacionadas caso se dê o pleno aproveitamento daquilo que emergiu das urnas de 2014: uma aliança que “permitiu que velhos e novos companheiros se reencontrassem para defender o país do retrocesso originário do ‘perigo Aécio’”. Uma aliança deste tipo será indispensável para completar o desarme deste “perigo”.

A proposta de Tarso aponta, assim, para a implosão do velho sistema de alianças que se originou da transição para a democracia e que se encontra ainda em plena vigência. Para bom entendedor, isto significaria romper com o PMDB: “O governo da presidenta Dilma deve não só ser defendido da direita tradicional dos tucanos, mas também da direita que integra a base parlamentar do seu próprio governo”, que tudo fará para tornar vitoriosa a agenda derrotada nas eleições.

Não haveria, portanto, outra opção: “A esquerda deve debater, desde logo, a formação de uma ampla Frente Política, já com vistas a 2018 e também para dar suporte, hoje (pelo menos aquela parte da esquerda que está comprometida com o não-retrocesso) ao Governo Dilma. O mero suporte político do governo atual, sem projeção da unidade da esquerda para o futuro, não travará o retrocesso que pode vir de dentro da própria aliança governamental”.

A imagem de uma “frente de esquerda, com uma plataforma mínima de unidade plural”, voltou assim a frequentar os documentos e as falas petistas.

Há, porém, quem pensa de outro modo. Numa longa entrevista concedida ao jornalista João Fellet, da BBC Brasil, o ministro Gilberto Carvalho, chefe da Secretaria Geral da Presidência, seguiu partitura mais cadenciada. Para ele, “o governo da presidenta Dilma deixou de fazer da maneira tão intensa, como era feito no tempo de Lula, esse diálogo de chamar os atores antes de tomar decisões. De ouvir com cuidado e ouvir muitos diferentes, para produzir sínteses que contemplassem os interesses diversos”.

Trata-se, em sua visão, de valorizar o diálogo tanto para “reunificar o país” quanto para sanar deficiências que se acumularam: “O governo praticou o diálogo nesses anos, mas, para o padrão da sociedade brasileira hoje, há muito que fazer”. No caso específico dos movimentos sociais, houve bastante diálogo, mas faltou atendimento das demandas. ”A reforma agrária e a questão indígena avançaram pouco. A reforma urbana – as estruturas de funcionamento das cidades, a mobilidade urbana – também não foi o que os movimentos esperavam”.

Será preciso, portanto, para Carvalho, imprimir outro curso ao governo, corrigir falha e erros. Mas sem implodir a base parlamentar duramente construída ao longo dos anos. Manter próximo e unido o PMDB, assim como os demais partidos conservadores que apoiam o governo. “O partido da Kátia Abreu está na nossa base. Se eu restringir minha base àqueles que pensam como nós, não aprovamos nenhuma lei. Fazer aliança significa trabalhar com o adversário, digo, com o diverso. Em nenhum momento foi por conta da Kátia Abreu que deixamos de avançar. Não avançamos porque faltou competência e clareza. Mas não dá para dizer que não foi feito nada”.

Carvalho é otimista. O Congresso ainda ecoa a disputa eleitoral. “Quando janeiro chegar, as coisas não serão iguais. A composição ministerial vai levar em conta a necessidade de contemplar essas forças no Congresso”. Além disso, há que se olhar para a movimentação social. “A eleição mostrou o quanto a militância social está disposta a ir para a luta. É um fator que teremos de trabalhar para fazer avançar processos, sobretudo a reforma política. Se não tiver rua, se não tiver mobilização, não tem nenhuma esperança de passar nesse Congresso”.

Como então ficamos? Qual PT prevalecerá? O da “frente de esquerda” ou o da aliança parlamentar à direita? A disputa política está mais aberta do que nunca.

Pode-se imaginar um modo de compor estas duas visões do processo político: o governo governa com a aliança à direita e o partido o pressiona pela esquerda, ativando os movimentos sociais. Seria uma espécie de “duplo poder”, o do governo e o do partido. Um pouco mais à direita na economia, um pouco mais à esquerda com os movimentos sociais. Se juntarmos a carta de demissão de Marta Suplicy – na qual diz que “o Brasil, ansiosamente, aguarda e espera” que a presidente seja iluminada para escolher “uma equipe econômica independente, experiente e comprovada, que resgate a confiança e credibilidade ao seu governo” – e a entrevista de Gilberto Carvalho o roteiro poderá está definido.

Diante disso, duas questões terão de ser respondidas.

A primeira é se o diagnóstico acerta ao constatar a ampla disponibilidade de forças e movimentos de esquerda para integrar uma frente como a pretendida. A dúvida pode ter duas inflexões: quantitativa e qualitativa, ou seja, terá de ser demonstrado que há mesmo forças de esquerda em bom número e com boa disposição de luta, assim como terá de ser demonstrado se o programa que as uniria é factível, dada a correlação de forças políticas e sociais.

A segunda é ainda mais importante. Tem a ver com o tratamento que esta “frente de esquerda” pretende dispensar aos progressistas, aos democratas liberais, à esquerda democrática não petista. Se empurrá-los em bloco para a “direita”, estará praticando uma infâmia e turbinando as oposições. O mais razoável seria tentar atrai-los e agregá-los ao “novo ciclo reformista” que se deseja inaugurar em 2015. Para isto, porém, a “frente de esquerda” precisaria ser convertida numa “frente democrática”, proposta para a qual a cultura petista não se mostra suficientemente preparada.

A ideia de se ter uma “frente de esquerda” para forçar o governo a fazer reformas estruturais não é nova. Enquanto palavra de ordem frequenta desde sempre o estoque ideológico das esquerdas. Já foi testada, com poucos resultados. Se há, como dizem os próceres petistas, uma direita encorpando a olhos vistos e tendo à disposição um terreno fértil, é de se perguntar se o melhor jeito de derrotá-la é pela agregação dos esquerdistas. A correlação de forças destacada pelo diagnóstico não se combina com a radicalização sugerida pela estratégia. Muito mais razoável seria fazer um apelo aos democratas e aos progressistas de todos os matizes. Não os da boca para fora, mas os de fato e raiz, que formam um contingente expressivo, generoso, que não se enquadra na dicotomia simplista direita/esquerda tão celebrada pelo PT.

Também aí chama atenção a entrevista de Gilberto Carvalho. Sua ênfase no diálogo construtivo oferece outra entonação, até mesmo porque em diálogos deste tipo não podem existir vetos ou exigências doutrinárias.

Águas rolarão.

 

 

Originalmente publicado aqui.

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