Desculpe-me, mas a cobertura da mídia dada ao Papa Francisco é um lixo

A notícia de que o Papa Francisco endossa a teoria da evolução é o último exemplo das frequentes interpretações equivocadas da imprensa sobre a Igreja Católica

             Por Elizabeth Dias

Papa Francisco em uma conversa com jornalistas, na viagem de volta da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (2013)

É oficial: a mídia chutou o balde na sua cobertura dada ao Papa Francisco.

A notícia muito difundida nos últimos dois dias é apenas o último exemplo disso. Quase toda banca de jornal, grande ou pequena, colocou em destaque as manchetes com o nome do Papa dizendo que ele finalmente firmou o lado em que a Igreja Católica está no debate entre criacionismo e evolucionismo. Mas qual é o problema? Em quase todos os casos, foi veiculada uma notícia equivocada, comprovando mais uma vez que a grande mídia não tem praticamente nenhum conhecimento a respeito da Igreja. E essa loucura parece não dar sinais de um dia chegar a um fim.

Truth (verdade); Lies (mentiras). Muitas vezes a mídia constrói a sua “verdade” juntando uma boa quantidade de mentiras

O verdadeiro papel do Papa Francisco nesse caso foi pequeno. Ele falou, como é de costume, para a academia pontifícia de ciências na segunda-feira, 27 de outubro, a qual se reuniu para discutir o tema “tópicos evolutivos na ciência”, e apenas afirmou o que a Igreja tem ensinado a décadas. O que ele disse foi: “Deus não é uma criatura divina ou um mago, mas o Criador que trouxe todas as coisas à vida. A evolução na natureza não é inconsistente com a noção da criação, pois a evolução requer a criação dos seres que evoluem”.

Pio XII, João Paulo II e Bento XVI, antes do Papa Francisco, já haviam se manifestado sobre a teoria da Evolução

Qualquer um que saiba qualquer coisa sobre a história da Igreja Católica sabe também que uma afirmação desse tipo não é algo nada novo. O Papa Pio XII escreveu a encíclica Humani Generis em 1950 afirmando que não há conflito entre a teoria da evolução e a fé católica. O Papa João Paulo II reafirmou isso 1996, dando ênfase ao fato de que a evolução é mais do que uma mera hipótese. O Papa Bento XVI organizou em 2006 uma conferência sobre as nuances da relação entre criação e evolução. Há um livro oficial sobre o evento para qualquer um que queira se informar melhor. Tenha-se em conta também que os comentários do Papa Francisco foram proferidos por ocasião da inauguração de uma estátua em homenagem ao Papa Bento XVI.

Nada disso parece importar para a mídia; o mesmo pode-se dizer da internet. Vários sites, um após o outro, pinçou as palavras do Papa e depois as divulgou fora do contexto[nota do tradutor: são citados a seguir vários veículos da imprensa de língua inglesa]. Manchetes como esta ainda dão certo toque dramático: NPR: “Papa diz que Deus não é ‘um mágico, com uma varinha mágica’”. Salon:“Papa Francisco instrui criacionistas”. U.S. News and World Report: “Papa Francisco defende o Big Bang e a teoria da Evolução” (ainda com o subtítulo: “O pontífice ainda diz que ele não é um comunista”). Huffington Post. Sydney Morning Herald. Telegraph. USA Today. New York Post. A lista ainda vai mais longe. Apenas o Slate fez sua lição de casa corretamente.

Na quarta de manhã as notícias continuaram a ser veiculadas, agora com um teor mais analítico. O The New Republic apareceu com uma notícia intitulada “O Papa tem mais fé na ciência do que o comitê nacional republicano”. O Washington Post publicou: “o Papa Francisco pode acreditar na evolução, mas 42% dos americanos não”. Parece não importar o fato de que em 2007 o Papa Bento XVI considerou o debate entre a teoria da evolução e o criacionismo um absurdo. O MSNBC inicia a notícia dizendo: “O Papa Francisco iniciou uma ruptura significativa com a tradição católica na segunda-feira ao declarar que as teorias da evolução e o Big Bang são reais.” O NBCNews considerou a afirmação do Papa “uma ruptura teológica com o seu predecessor Bento XVI, um forte expoente do criacionismo”.

Essa narrativa embaraçosa se repete continuamente na cobertura dada ao Papa Francisco. Aconteceu semana passada quando o Papa, mais uma vez, declarou a oposição já de longa data da Igreja à pena de morte (tendo declarado também em junho; além disso João Paulo II discutiu extensivamente esse tópico em uma encíclica consistentemente pró-vida em 1995). Ocorreu o mesmo no sínodo dos bispos sobre a família, quando a Igreja falou sobre o acolhimento dos homossexuais e a mídia distorceu a realidade apresentando uma notícia inexata sobre uma enorme mudança de política em direção ao casamento gay.

Isso é perigoso, especialmente porque esse furor parece ocorrer mais frequentemente quando a agenda política ocidental dominante na grande mídia pode ser amarrada às afirmações do Papa — evolução, pena de morte, casamento gay. Na quarta de manhã, o Papa Francisco pediu orações para 43 estudantes mexicanos que foram enterrados vivos por traficantes de droga. É improvável que isso receba a mesma atenção da mídia.

Moral da história: não acredite na maior parte das coisas que você lê sobre o Vaticano na grande mídia. A cobertura dada ao Papa enlouqueceu selvagemente.

(Texto publicado em 29/10/2014 na revista americana Time)

               Elizabeth Dias é repórter da Time Magazine

Originalmente publicado aqui.

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