Semelhança de programas deixou pleito polarizado, diz historiador

A polarização da campanha presidencial é resultado da semelhança entre os programais dos dois candidatos, segundo o historiador José Murilo de Carvalho, 75, autor de “Cidadania no Brasil: O Longo Caminho”. “Aí entra a tática dos marqueteiros para marcar a diferença e mobilizar os fiéis: agredir, insultar, criar factoides”, diz.

A divisão do país vai arrefecer, diz ele, porque problemas reais terão de ser enfrentados, como o baixo crescimento da economia: “Não há política social que se sustente com crescimento zero”.

Zanone Fraissat – 16.ago.2013/Folhapress
O historiador José Murilo de Carvalho
O historiador José Murilo de Carvalho

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Folha – Por que Dilma Rousseff venceu as eleições?

José Murilo de Carvalho – No duelo de insultos em que se transformou a campanha, ganhou quem conseguiu convencer a maioria dos eleitores de que o adversário era pior. Dito isso, cabe acrescentar que a vencedora terá que levar em conta que o eleitorado se dividiu ao meio, que seu novo mandato exigirá menos voluntarismo e mais negociação e que, sem retomar o crescimento, todas as conquistas estarão ameaçadas.

Por que essas eleições foram tão polarizadas, com um grau de agressividade que não se via desde a disputa entre Collor e Lula, em 1989?

Meu primeiro trabalho publicado foi sobre uma feroz luta política de família em uma cidade mineira no século 20. Fiquei arrasado quando um espírito maquiaveliano local ironizou meu trabalho. Tudo é planejado, disse ele, os dois chefes beligerantes são casados com duas irmãs. A polarização, mesmo violenta, continuou ele, é essencial para a manutenção da lealdade dos seguidores. Sem saber, ele formulava uma lei da dinâmica do conflito social.

Quem viu o último debate dos candidatos deve ter notado que nos blocos em que se enfrentavam eram lobos agressivos. Nos blocos em que respondiam perguntas de eleitores eram cordeiros que concordavam em tudo. Boa parte da polarização deve-se à semelhança entre os programas dos candidatos. Aí entra a tática dos marqueteiros para marcar a diferença e mobilizar os fiéis: agredir, insultar, criar factoides.

Pelo lado positivo, diferentemente das polarizações de 1954 e 1964, que levaram a uma tragédia e a um golpe, ninguém apelou para solução extraconstitucional. Aos trancos e barrancos, vamos em frente.

As mentiras usadas tanto pelo PT quanto pelo PSDB são aceitáveis numa democracia?

A baixaria é típica de democracia imatura. Em matéria de etiqueta política, ainda comemos com a mão. O fato deve-se em parte ao atraso de nossa democratização política. Há pouco mais de meio século é que o povo começou a entrar na política, antes comandada por bacharéis. A invasão do povo, como eleitor e como eleito, não poderia deixar de ter consequência para o comportamento político, sobretudo com as facilidades da internet. Não é para elogiar, mas é um progresso. Imagino que prática mais alongada de competição fará com que haja mais “fair play”.

O que explica o grau de violência na campanha?

Uma das causas é o fato de o mesmo grupo político estar no controle do poder há 12 anos. No Brasil republicano, só durante as duas ditaduras tivemos grupos que ficaram no poder mais tempo do que isso. Nossa longa tradição estatista e patrimonialista faz com que enorme prêmio seja colocado no controle do Estado. Ele é a principal fonte de poder, prestígio e riqueza. São muitas as vantagens materiais que traz em termos de empregos, cargos de confiança, diretorias de estatais, contratos milionários, favorecimentos de amigos. Quem está dentro não quer sair, quem está fora quer entrar.

O sr. acha que o país sairá dividido da eleição ou a agressividade é passageira?

Sairá dividido, mas a intensidade da agressão diminuirá no dia a dia da política. Algum conflito permanecerá. Ao lado de muitas convergências, devidamente ocultadas, há divergência real entre os dois principais partidos, sobretudo no que diz respeito às políticas econômica, financeira e à política externa. Na política econômica, mais controle e estatismo de um lado, mais mercado e autorregulação do outro. Na financeira, o oposto, mais frouxidão versus mais controle. No setor externo, mais política de governo num campo, mais política de Estado no outro. Em termos amplos, mais ênfase na igualdade de um lado, mais na liberdade, do outro.

Qual seria a melhor maneira de refrear os ânimos?

PT e PMDB não têm condições de governar sozinhos, precisarão de alianças, como sempre precisaram. Isso já será um fator de arrefecimentos de ânimos. O PMDB continuará como o maior partido no Congresso e com o maior número de governadores. Continuará como árbitro da política e fator de moderação. Além disso, a realidade se imporá. Certos problemas terão de ser enfrentados. O mais importante é o do crescimento da economia. Não há política social ou nível baixo de desemprego que se sustente com crescimento zero.

O Brasil tem 50 milhões que recebem o Bolsa Família. Esse contingente provocou alguma mudança nas eleições?

Desde a segunda eleição de Lula, o número de pessoas com Bolsa Família em determinado Estado tem apresentado correlação positiva com o voto no PT. O Bolsa Família, embora necessário e justificável, dadas nossas condições sociais, criou uma grande clientela eleitoral. As acusações de que o adversário acabaria com a bolsa assustaram muita gente.

O PT martelou na tecla de que a eleição era uma disputa de ricos contra pobres. Isso terá impacto num futuro próximo?

Como toda polarização, é uma estratégia arriscada, inclusive para o PT. Primeiro porque é difícil saber onde termina o pobre, onde começa o rico. Depois, acabar com a pobreza é acabar com o PT eleitoralmente falando.

Por que a corrupção foi um dos temas dominantes da campanha, mas não teve efeito decisivo no pleito?

A sensibilidade para a corrupção reduz-se quando entra em jogo a percepção de interesses. Ela é maior entre os que menos dependem do governo, menor entre os que dependem mais.

O Brasil foi palco de grandes manifestações em 2013. Por que essas questões não foram discutidas na campanha?

A tática de polarização teve êxito. Votos brancos e nulos não foram significativos. Mesmo os eleitores de Marina, que poderiam ser considerados votos de protesto contra a polarização, acabaram optando por um lado ou outro. Mas não nos enganemos. As causas dos protestos não sumiram. Os dois partidos terão que se reinventar, sob pena de terem que enfrentar a probabilidade cada vez maior do surgimento de uma terceira via que acabe com a polarização, liderada por Marina ou outro líder.

 

 

Publicado originalmente aqui.

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