Um colegial preparado vale mais do que um diplomado analfabeto

Pergunte a Dilma sobre a educação no Brasil e ela dirá que está tudo ótimo: construiu muitas creches, os inscritos no Pro-Uni aumentaram, criou o Pronatec, o Ciência sem Fronteiras e sancionou o Plano Nacional da Educação, cuja principal bandeira é tornar obrigatórios os 10% do PIB para o setor.

Pergunte a Aécio e ele mostrará o sucesso de Minas no ensino básico, ficando em primeiro lugar do Ideb.

Independentemente de possíveis distorções de análise de ambos os lados, temos aí duas filosofias opostas de como olhar para um problema: Dilma mede o esforço dispendido. Aécio, o resultado.

Quem, seguindo a lógica estatal tradicional, acredita que o sucesso se mede pelo gasto, que carta de intenções substitui resultados, prefere Dilma. Quem acredita que o objetivo da educação é aumentar o conhecimento do máximo de alunos com a maior eficiência possível, vota em Aécio.

Para Dilma, gastar mais com educação é um fim em si mesmo. Não importa que a meta de 10% seja arbitrária, discrepante com a experiência internacional e ainda que estudos indiquem que jogar dinheiro não resolve o problema da educação. Nessa ótica, gastar mais em educação é, por definição, melhorar a educação, posto que o gasto é a própria medida da melhora.

Para Aécio, o sucesso está em fazer mais; gerar resultados melhores. Se possível, gastando menos. A máquina estatal não é finalidade em si mesma; precisa se justificar à luz do que entrega. Cada Real gasto sem gerar resultados é um Real que falta a outras prioridades.

É engraçado que tantos admirem, por exemplo, o Ciência Sem Fronteiras. Sinal de total ausência de análise de custo/benefício e de custo de oportunidade. O CsF só é sucesso para quem olha o gasto: de fato, estamos gastando mais com educação e alunos têm se beneficiado do intercâmbio.

Para quem se preocupa com a melhora da educação no país, é um fracasso. Primeiro que não há nenhuma tentativa de medir resultado nenhum. Segundo que, obviamente, por mais transformador que o intercâmbio seja (e aqui nem entramos na questão de quantos o levam a sério; isto é, não fazem, do intercâmbio, mochilão), a educação tem lacunas mais urgentes e nas quais o ganho por Real gasto seria muito maior.

Com a educação básica sôfrega, com lacunas gritantes na base (38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais!), o governo Dilma achou por bem gastar R$ 3 bilhões em graduações-sanduíche no exterior. O Brasil já tem um descompasso brutal entre gastos no ensino básico (que deveria ser prioridade) e no superior, que recebe proporcionalmente muito mais; o CsF vem para agravar esse quadro. O governo Dilma considera um avanço colocar mais gente em universidade, não importa a qualidade ou o aproveitamento (crítica similar se faz, com razão, à expansão da USP).

O desempenho brasileiro em testes internacionais permanece nas últimas colocações. Nada mudou. Isso não é compromisso com educação; é compromisso com a própria imagem, que investe no que é mais visível (e que gera mais voto) e despreza sistematicamente o principal. O Pronatec, que é até uma boa ideia, dá dinheiro a instituições com pouco controle sobre quantos alunos estão de fato concluindo o curso; medir o aprendizado e o posterior incremento na renda, então, nem pensar!

Com Aécio, é possível que haja menos brilho. A remuneração variável (que nem sequer pune os ruins; só premia os bons) e o foco nas avaliações produzirá algum chiado dos sindicatos. Com o tempo, eles mesmos entrarão no barco e virarão parceiros do projeto de modernização. Teremos mais creche, mais ensino básico, que é onde está o buraco. Os gastos com educação serão menos vistosos e mais direcionados, nossa cultura talvez fique um pouco menos presa ao fetiche do diploma incentivado pelo governo federal. Mas o resultado será gerações que leem melhor, sabem fazer conta e aprendem o básico de ciência e de história. E isso sim será um ganho transformador.

Um colegial preparado vale mais do que um diplomado analfabeto.

 

 

Publicado originalmente aqui.

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