O problema do divórcio e da segunda união: A ditadura da misericórdia

Os sínodos de bispos raramente atraíram tanta atenção quanto este último. Muito do interesse, é claro, deve-se à proposta, anterior ao sínodo, do cardeal alemão Walter Kasper a respeito do divórcio, segundas uniões e da recepção da Santa Eucaristia, amplamente difundidas por meio de viagens de divulgação de seu livro e das várias entrevistas antes e durante o sínodo.

A proposta do cardeal Kasper está centrada na preocupação pastoral de estender a misericórdia para aquelas pessoas que se divorciaram e contraíram segunda união e criar um ambiente mais acolhedor na Igreja. Esses são, evidentemente, assuntos muito importantes que precisam ser tratados. Católicos divorciados e em segunda união precisam estar na Igreja como qualquer um. No entanto, a misericórdia separada da verdade, e desvinculada da prudência, pode acabar gerando grandes problemas.

Já existem comentários excelentes apontando alguns dos problemas fundamentais na tese do cardeal Kasper. Entre eles, podem ser destacados comentários que apontam para o fato de que sua tese está em contradição com o ensinamento inequívoco de Jesus nos Evangelhos sobre o casamento, e também na tradição da Igreja Católica sobre a necessidade de estar em estado de graça antes da recepção da Sagrada Eucaristia. No entanto, gostaria de dar maior enfoque aos efeitos pastorais da proposta do cardeal e em que medida seu plano é prejudicial para a família e para as pessoas que ele supostamente está tentando ajudar.

Ao ver parte dos primeiros textos oriundos deste sínodo, lembrei-me de uma frase de Sâo Tomás de Aquino que dizia que a injustiça vem não somente dos atos violentos dos homens no poder, mas também da “falsa prudência dos sábios”. Lembrei-me também dos órfãos no Haiti.

Orfanato no Haiti

Quando estive no Haiti, conheci Shelly e Corrigan Clay, um casal americano que estava lá para adotar uma criança orfã. Quando estavam prestes a adotar, o diretor do orfanato lhes perguntou se eles não gostariam de se encontrar com a mãe biológica. Eles ficaram surpresos, pois pensavam que a criança tinha sido abandonada. Ao falar com a mãe, ficou claro que ela amava a criança, e eles perguntaram por que motivo ela estava dando a criança para adoção. Ela disse que não tinha condições financeiras para sustentá-la. “Foi um choque”, disse Shelly, “estou disposta a gastar vinte mil dólares para adotar uma criança que esta mãe quer… e a injustiça de toda aquela situação me comoveu profundamente”.

Depois de trabalharem em um orfanato, eles descobriram que 22 de 24 crianças ainda tinham pelo menos um dos pais vivos. E isso não era incomum. Um antropólogo explicou que “um órfão está em uma posição cobiçada porque ser adotado significa ter acesso à escola, livros e, talvez, até a um visto”. O governo haitiano divulgou que 80% das crianças haitianas em orfanatos tem pelo menos um dos pais vivos. Corrigan explicou que o desejo de famílias em países desenvolvidos de ajudar orfanatos estava, na realidade, multiplicando-os. A caridade sem a prudência pode produzir injustiças.

Vamos pensar agora no efeito da proposta de Kasper sobre milhões de homens e mulheres casados – especialmente naqueles que estão lutando para manter o casamento. Há muitos casamentos em todos os lugares do mundo que enfrentam momentos de dificuldade e em que marido e mulher precisam se empenhar para permanecer unidos. Em certos casos, talvez estejam lutando para superar crises financeiras. Em outros, talvez tenham sido atingidos por uma tragédia, ou talvez estejam simplesmente passado por momentos duros por não se darem muito bem um com o outro. No entanto, apesar disso, eles sabem que não há outra opção. Eles entendem que estabeleceram um compromisso com o outro, e com Deus, de permanecer unidos durante toda a vida e, por isso, lutam para superar as dificuldades – não necessariamente porque eles gostam um do outro, mas porque fizeram uma promessa. Frequentemente, eles permanecem juntos por um simples motivo: por causa do ensinamento claro de Jesus. De que modo a misericórdia do cardeal se aplicaria a esses casais?

É tentador sentir pena dessas pessoas – vidas e aspirações que foram por água abaixo por causa de um casamento sem paixão – e imaginá-los como figuras trágicas em um romance de Graham Greene: “ah, se eles pudessem simplesmente se libertar e encontrar um amor verdadeiro…” Mas esse sentimentalismo tem causado enormes tragédias e tristezas não só para os casais envolvidos, mas também para milhões de crianças. E quanto piores são as condições materiais, pior é a tragédia. Hoje está claro que um casamento monótono – e talvez até infeliz – é melhor para as crianças do que nenhum casamento.

Em contraste com a falsa narrativa de exaltação das paixões pessoais, a realidade é muito diferente. Os dados mostram cada vez mais claramente que aqueles que superam as dificuldades e permanecem casados tem melhores indicadores de saúde, satisfação pessoal, sucesso na carreira, e longevidade – isso sem mencionar as muitas vantagens para as crianças. O divórcio não resolveu o problema da satisfação sexual. O prêmio foi para as mulheres católicas devotas em casamentos estáveis – que em média relatam ter o maior nível de satisfação sexual em comparação com qualquer outro grupo de mulheres, de acordo com esta pesquisa. Deve ter sido um choque para os secularistas do mundo ilustrado nas costas oeste e leste dos EUA verem que a mãe do meio-oeste, conservadora, tem uma satisfação sexual muito maior do que a deles.

Há inúmeras razões para isso, algumas das quais o papa João Paulo II menciona na sua teologia do corpo, descrita no livro “Amor e Responsabilidade”. Uma razão óbvia, ou que deveria ser óbvia, é o senso profundo de confiança que vem de um compromisso público em que cada marido e mulher sentem-se seguros, na certeza de que não importa o que ocorra no casamento, eles permanecerão juntos.

Se a proposta do Cardeal Kasper for aceita, é ingênuo pensar que ela terá pouco ou nenhum efeito naqueles que estão lutando para permanecer casados. Imagine se a Igreja dissesse a você que o divórcio e a segunda união não são desejáveis, mas, bem, que nós padres entendemos que de vez em quando as coisas simplesmente não dão certo e que também não é fácil ficar sozinho — e, mesmo que você possa tentar viver como irmão e irmã, isso não é de fato uma exigência para o cristão comum, apenas para os heróicos. Então, você poderia receber a Comunhão, para não se sentir excluído. Será que o cardeal Kasper não se dá conta de que isso abriria as portas para mais pessoas se divorciarem e buscarem segundas uniões?

E não nos esqueçamos o efeito sobre muitos homens e mulheres que, depois do divórcio, nunca se casam, não porque estejam felizes por estarem sós, mas simplesmente porque desejam ser fiéis aos ensinamentos de Cristo. Por que outro motivo eles fariam isso? Eles se sacrificam e oferecem sua solidão para Deus de modo que estejam em condições de receber o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. Pessoas divorciadas que não contraem segunda união dão testemunho da beleza e da indissolubilidade do matrimônio e também da realidade e veracidade do Santíssimo Sacramento. Será que seu sacrifício e testemunho não contam para nada? Ou será que contou no passado, mas agora não mais?

Uma das marcas da sociedade democrática moderna é pensar que se podemos todos concordar com um assunto, então tudo ficará bem. Se todos concordarmos em fingir que algo que antes era considerado ruim e perigoso não é mais — então tudo ficará bem. A cultura democrática tende a abraçar a noção equivocada de que o estigma deriva de normas sociais artificiais, dissociando o prejuízo pessoal do prejuízo social. Daí emerge a ideia de que o divórcio e a segunda união só é prejudicial porque assim os consideramos, não porque seja de fato prejudicial. Então, o modo de resolver o problema é mudar o consenso e declarar o divórcio normal e necessário para a plenitude pessoal.

O que o cardeal Kasper está sugerindo, em poucas palavras, é estabelecer o divórcio católico“sem culpa”. Estou convencido de que a proposta do cardeal Kasper, se implementada, irá certamente conduzir a um aumento de divórcios e segundas uniões entre católicos. Os “beneficiários” serão predominantemente homens de meia-idade, e os que sofrerão mais serão mulheres e crianças.

Os efeitos negativos, no entanto, não vão se restringir ao casamento e à família. Terá profundas consequências sobre como as pessoas entendem a Eucaristia. Se a proposta do cardeal for aceita e aqueles que persistem em relações adúlteras puderem receber a Eucaristia, por que não poderiam também recebê-la outras pessoas em situação de pecado público e permanente? Por que deveria haver qualquer restrição com relação ao acesso à Comunhão pelos políticos pró-aborto? Será que não vamos mais precisar confessar certos pecados mortais, mas apenas alguns tipos de relações adúlteras? Se as exigências para a recepção da Santa Comunhão já não fossem necessárias para alguns, então seria muito estranho conservá-las para outros.

Seria um erro pensar que a proposta do Cardeal Kasper apenas falha no terreno da doutrina e das Sagradas Escrituras. Também falha pastoralmente. Por quê? Porque misericórdia, caridade, e cuidado pastoral só são eficazes quando fundamentados na verdade. “Sem a verdade”, lembra-nos Bento 16, “a caridade degenera em sentimentalismo” e o que resulta não é a misericórdia, mas a “tirania da misericórdia”.

(Publicado em 18/10/2014 na revista eletrônica Catholic World Report)

Michael Matheson Miller é diretor de Programas e Educação do Instituto Acton. E é diretor do documentárioPoverty, Inc.

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