Declaração de voto

Você não sabe em quem votar? Eu sei. Mas reconheço o seu direito a uma escolha, e, caso o seu voto não coincida com o meu, não vou pedir demissão da Folha (ahhh!!!!) nem sair por aí voando na vassoura da impostura, como Marilena Chaui, chamando-o, por isso, de ignorante. A democracia existe também para os ignorantes, e ela sabe disso. Os que tentaram civilizar a humanidade segundo suas luzes produziram tiranias e cadáveres.

Vote, por exemplo, na pessoa disposta a não flertar com a inflação. Você é uma pessoa que se preocupa com os pobres. Não é uma escolha ideológica, embora não houvesse mal nenhum em fazê-la. É matemática. Se você achar que é Dilma, então é Dilma; se achar que é Aécio, então é Aécio. Os dois já se disseram contra a inflação. Você tem ainda o direito de votar contra a matemática e os pobres. A democracia é generosa.

Inflação não é tudo, eu sei. Então faça o seguinte: vote em quem não alimenta projetos delirantes de controle da imprensa, com mecanismos paralelos ou oficiais de patrulha e censura. Não é ideologia, mas respeito aos Artigos 5º e 220 da Constituição, que resultou de um processo constituinte democrático. Se é Aécio, então é Aécio; se é Dilma, então é Dilma. Os dois prometem respeitar a liberdade de imprensa. Você tem o direito, sim, de votar em branco, de votar nulo ou de nem comparecer, abstendo-se e arcando com as consequências. Quem disse que, na democracia, deixar de optar também não é optar? Eu não faria isso. Mas não sou dono da sua opinião.

Proponho que você avalie outro critério: o respeito à democracia representativa. Que candidatura lhe parece mais alinhada com o sistema que produziu, até hoje, os regimes mais civilizados da Terra, conciliando liberdade com justiça social? É respeito à história. Se é Dilma, então é Dilma; se é Aécio, então é Aécio. Os dois dizem acatar esse regime. Mas é claro que você tem o direito de mandar a história às favas, e meus critérios, para a ponta do pavio. Não vou atirar fogo às vestes por isso nem posar de vítima. Vítimas profissionais e triunfantes me embrulham o estômago.

Você, como eu, pode estar com o saco cheio da roubalheira organizada e transformada em categoria política (“Rouba, mas produz justiça social”), que é “rouba, mas faz” que deixou a era do produtivismo e aderiu à onda do distributivismo. Se é Dilma que tem menos compromissos com a máquina institucionalizada do assalto aos cofres, seu nome é Dilma. Se é Aécio, então é Aécio. Ambos prometem ser duros com a corrupção.

Que tal escolher, então, a candidatura avessa a hordas de intolerância, que não excita a imaginação dos que se consideram donos da opinião alheia? Se é Aécio, Aécio. Se Dilma, Dilma. “Nesse caso, Reinaldo, a democracia permite que a gente seja intolerante e resolva as pendengas no braço?” Não, a democracia não permite isso, e, se é assim que você pretende agir, o seu regime é outro, e eu não tenho nada a lhe dizer, e você não tem por que perder seu tempo comigo. Se é assim que você pensa, vá se catar. Quase me esqueço: os dois candidatos dizem representar forças tolerantes.

Você ainda não escolheu? Seja livre e feliz e mande à merda os que se pretendem donos do seu voto. A democracia permite.

 

 

Originalmente publicado aqui.

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