Leviana

No segundo debate pela sucessão presidencial, o do SBT, Aécio Neves chamou Dilma Rousseff de “leviana”. Referia-se, naturalmente, à maneira airosa, volátil e inconsistente (vide “Aurélio” e “Houaiss”) com que a candidata manipulava os dados da economia. Ao ouvir aquilo, Dilma não ficou estarrecida. Na verdade, nem acusou recebimento. Mas Lula indignou-se. Bradou que não era coisa que se dissesse de uma mulher de mais de 60 anos, mãe e avó.

A princípio, atribuiu-se a reação de Lula à criatividade do ex-presidente, craque em submeter as palavras a tantos contorcionismos semânticos quanto as conveniências exigirem. Não era para tanto, pensou-se. Muito menos para que, a partir dali, se pintasse o adversário como um homem que não respeitava as mulheres. Mas, embora os dicionários não o registrem, alega-se agora que, em algumas regiões do Nordeste, “leviana” significa “mulher da vida”. Donde, sem saber, Aécio Neves terá cometido suicídio linguístico.

Foi a vingança de Lula a uma acusação que sempre lhe fizeram: a de ser, quando muito, monolíngue. Opinião de que nunca compartilhei porque Lula é mestre em, pelo menos, duas línguas: a de uso corrente e a que lhe convém. O difícil é saber qual delas ele está falando.

É possível que o uso leviano de “leviana” não tenha tirado muitos votos de Aécio Neves –já estavam perdidos do mesmo jeito. Mas ficou claro que, nas próximas eleições, não será suficiente contratar um marqueteiro. Será preciso convocar também um linguista, para repassar com o candidato os pontos principais de sua argumentação e certificar-se de que nenhuma palavra se constituirá numa involuntária gafe regionalista, passível de exploração política.

Evidente que as mentiras, as ameaças e os golpes baixos, desde que bem urdidos e propositais, continuarão valendo.

 

 

Originalmente publicado aqui.

Anúncios

“Também estou morrendo, mas me suicidar não é a resposta”

Mãe de quatro filhos com tumor em fase terminal pede a Brittany Maynard, a americana que escolheu a eutanásia, reconsiderar sua decisão

Kara Tippetts 2
mundanefaithfulness.com
Kara Tippetts é esposa de um pastor e mãe de quatro filhos. Ela é autora do livro “The Hardest Peace” (A paz mais difícil), além de ter um blog. Após saber da história de Brittany Maynard, a norte-americana de 29 anos que decidiu realizar a eutanásia logo após descobrir que um tumor no cérebro poderia matá-la em dois meses, resolveu escrever uma carta. Eis a carta:O meu oncologista e eu permanecemos com o meu coração entristecido pela sua história. Falamos do difícil caminho que nos foi pedido percorrer.Cheguei em casa, eu e meu amigo nos sentamos na cama da minha filha de cinco anos e rezamos por você. Rezamos simplesmente para que você pudesse escutar minhas palavras, que nascem do lugar mais sensível do meu coração.

Rezamos para que pudesse escutar as palavras que escrevi, que partem de um lugar de amor sensível e sábio. Sabendo o que quer dizer o horizonte dos seus dias que, um dia pareciam ilimitados, e agora parecem escurecer.

Escute estas palavras de um coração cheio de amor por você. Brittany, a sua vida é importante, a sua história e o seu sofrimento são importantes. Obrigada por ter saído da privacidade da sua história e tê-la compartilhado abertamente.

Nós a vemos, vemos a sua história, e existem inúmeras pessoas que a amam e estão rezando para que você mude de ideia.

Brittany, amo você e sinto muito por você estar morrendo. Sinto muito que a ambas de nós tenha sido pedido seguir uma estrada que parece simplesmente impossível de percorrer.

Acredito que contar a sua história seja importante. Acredito que seja positivo para a nossa cultura saber o que está acontecendo em Oregon.

É uma discussão que deve ser levada além dos pontos de vista cômodos e levada à luz. Compartilhando a sua história aconteceu isto. É imensamente importante. Obrigada.

Digo de forma muito simples que não concordamos. O sofrimento não é inexistência da bondade, não é inexistência da beleza, mas talvez pode ser o lugar onde conhecer a verdadeira beleza.

Escolhendo a sua morte, você está retirando daqueles que a amam com tanta ternura a oportunidade de estar com você nos seus últimos momentos e de poder lhe oferecer amor no último suspiro.

Enquanto eu estava sentada na cama da minha filha rezando por você, perguntei-me sobre a impossibilidade de entender que um dia a história da minha pequena será bonita, porque presenciou a minha morte.

Aquele último beijo, aquela última carícia, aquele último respiro contam, mas nunca pensamos em decidir quando seria exalado o último respiro.

Conhecer Jesus, saber que Ele conhece o meu difícil partir, que Ele caminha comigo na minha agonia, meu coração deseja que você O conheça na Sua morte. Porque na Sua morte, Ele protegeu a minha vida. A minha vida para além deste mundo.

Brittany, quando confiamos no fato de que Jesus toma sobre Si, protege e redime o nosso coração, a morte não é mais uma agonia. O meu coração deseja que você conheça esta verdade, este amor, esta vida eterna.

Eu lhe disse uma mentira. Uma terrível mentira. Que a sua morte não será bonita. Que o sofrimento será muito grande.

O meu oncologista e eu falamos hoje da sua agonia, da minha e da bela colaboração que tenho com os meus médicos, que me acompanham nestes últimos momentos com cuidados amorosos. Por dois mil anos os médicos estiveram ao lado da defesa da vida, cuidando com amor dos pacientes que morrem na graça.

O médico que lhe prescreveu a pílula que irá acelerar a sua morte se desviou do Juramento de Hipócrates, que diz que primeiramente não se deve fazer o mal. Ele, ou ela, se desviou do juramento que defende a vida e o morrer bem que nos é concedido.

Há pessoas que falam, em tons desagradáveis, que nós que acreditamos em Jesus nos sentimos inseguros, não desejados e não amados. Mas no meu sussurro, na minha súplica, minha querida, escutará o meu coração que lhe pede, lhe pede por favor, lhe suplica, para não tomar esta pílula. Sim, a sua morte será difícil, mas não será privada de beleza.Por favor, você confiaria em mim nesta verdade? E, algo ainda mais importante, você escutará do seu coração que Jesus a ama? Ama. Sofreu uma morte horrível sobre uma cruz para que você o conhecesse hoje, para que nós não precisássemos viver separados Dele na nossa morte. Morreu e a Sua morte aconteceu; não é simplesmente uma história.Morreu e venceu a morte três dias depois, e vencendo a morte venceu a morte que você e eu estamos enfrentando com o nosso câncer. Quer lhe conhecer, guiá-la na sua agonia e lhe dar vida e em abundância: a vida eterna.

Para cada ser vivente a morte é iminente – todos a enfrentarão um dia -, e a pergunta mais importante é: “Quem é este Jesus, e o que tem a ver com a minha agonia?” Por favor, não tome esta pílula antes de se fazer esta pergunta. É uma pergunta que precisamos fazer, visto que todos morreremos.

Recentemente escrevi um livro: The Hardest Peace (A paz mais difícil), e escrevi também em meu blog sobre meu percurso de vida e minha viagem em direção ao meu último respiro. Não é simplesmente uma história sobre o fato de morrer de câncer, mas de viver aquele respiro. É um livro sobre cada um de nós que tem ainda a possibilidade de respirar, de abraçar a vida e de olhar a morte com graça. Viver no Grande Amor e encontrar meu fim no amor. Surpreendente, importante, o amor.

Subiria em um a avião amanhã mesmo para ir vê-la e compartilhar minha história e encontrar-lhe na sua casa, se você quiser me receber.

Rezo para que estas palavras cheguem até você. Rezo para que cheguem a multidões que estão olhando a sua história e acreditando na mentira de que o sofrimento é um erro, que morrer não é ser corajoso, mas que escolher a nossa morte é ser corajoso.

Não, acelerar a morte nunca foi a intenção de Deus. Mas na nossa agonia, Ele nos doa a Sua graça.

O Juramento de Hipócrates é importante, e aqueles que escolhem se afastar precisam ser desafiados. Me faz mal ao coração saber que decidiram se afastar da proximidade da graça que protege a nossa vida e a nossa morte.

Decidi cooperar com o meu médico na minha agonia, e será uma viagem bela e dolorosa para todos nós. Mas me escute: não é um erro. A beleza nos encontrará no nosso último suspiro.

Originalmente publicado aqui.

Vídeo sugere que Sarney, aliado de Dilma, votou em Aécio no 2º turno

Um vídeo feito no segundo turno das eleições sugere que o senador e ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP), aliado da presidente reeleita Dilma Rousseff, tenha votado no candidato opositor, o tucano Aécio Neves.

Uma reportagem da TV Amapá –que pertence à Rede Amazônica e é retransmissora da Rede Globo no Estado– acompanhou Sarney no dia da votação no segundo turno da eleição e filmou o momento em que o senador estava diante da urna.

Não é possível identificar o rosto que aparece no visor, mas o vídeo mostra que o ex-presidente digitou as teclas 4 e 5 antes de apertar o botão “confirma”. Em seguida, a urna exibiu a palavra “fim”, indicando que ele havia concluído a votação.

O número 45 era de Aécio. Ao votar, Sarney estava com um adesivo da campanha de Dilma colado por cima da roupa perto do ombro direito.

O senador, por meio de sua assessoria de imprensa, negou veementemente que tenha votado no Aécio. De acordo com a assessoria, “essa imagem é uma sordidez” e “faz parte do jogo sujo da campanha”.

 

 

 

 

 

Originalmente publicado aqui.

O Marxismo Cultural e a Destruição da Linguagem

Autor: Robert F. Beaudine, Freedom Advocates, 6 de junho de 2011.

Em toda a história, as ideias têm sido usadas para o bem ou para o mal. Elas também levam ao maior mal de todos — a guerra. Isto se reflete na linguagem de uma nação.

Por volta do fim de 1932, a Alemanha estava em turbulência; a taxa de desemprego atingia 43%. Quando os nazistas chegaram ao poder, novas ideias emergiram, novas palavras foram introduzidas no vocabulário, palavras antigas foram descartadas e outras foram modificadas. Juden verboten tornou-se uma frase popular, à medida que os judeus foram responsabilizados por todos os males que afligiam o país. Os judeus tiveram seus direitos básicos de cidadãos negados e a maioria de suas atividades se tornou verboten (proibida).

Em 1933, quando Adolf Hitler consolidou o poder com a Lei Habilitante, a arte e a arquitetura modernas foram condenadas. Muitos artistas fugiram do país, pois a arte se tornou um instrumento do regime. Privadamente, as pessoas zombavam do Reichstag, chamando-o de o mais caro clube da alegria, pois os membros do Parlamento cantavam loas ao Führer.

Joseph Goebbles, ministro nazista da Propaganda, definiu a nova ordem e predisse as consequências: “Quando ouço a palavra ‘cultura’, procuro logo minha pistola.”

O regime era “fascista”, uma palavra cunhada em 1921. Isto obscurecia a ideologia — “Nacional Socialismo” — um termo inteligente que era mais palatável para os nacionalistas nas forças armadas e na indústria. Eles compactavam as duas palavras e usavam a forma “nazista” para esconder ainda mais suas origens do mundo. Quando os eruditos afirmam que o nazismo era um regime de extrema direita, eles estão enganados, ou estão sendo desonestos.

Dentro do nazismo, os líderes proeminentes eram bem instruídos. Goebbels se orgulhava de sua biblioteca, que tinha todas as obras de Edward Bernays, mais notavelmente sua Propaganda. Ele implementou o programa de Bernays com grande sucesso. Quando isto foi descoberto após a guerra, propaganda foi redefinida como “relações públicas”. Entretanto, para os seguidores fanáticos e para o restante das massas que decidiram ficar, o anti-intelectualismo foi decretado. Livros foram queimados e a mídia censurada. As palavras francesas foram expurgadas do vocabulário. A livre expressão tornou-se perigosa, pois até as crianças espionavam os pais para o Estado. As universidades tornaram-se centros para a mentalidade de regimento. Em um país aclamado por sua erudição acadêmica, isto manifesta a loucura ou uma agenda diabólica — o modelo usado por todos os ditadores totalitários. Eventualmente, muitos eruditos renomados fugiram do país e levaram sua singular herança para os EUA.

Engenharia Verbal

Em 1949, George Orwell expôs sua visão de um pesadelo futuro em seu livro 1984. “Você não vê que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a abrangência do pensamento? No fim, tornaremos o crime de pensamento literalmente impossível porque não haverá palavras para expressá-lo.” O protagonista de Orwell, Winston Smith, aprendeu algo sobre seu mundo: Quando as palavras são eliminadas do vocabulário comum, o pensamento da população se torna limitado.

Posteriormente, seu livro mostrou como as percepções são manipuladas quando as definições das palavras fundamentais são modificadas. Por exemplo, paz se torna defesa, que então se torna guerra — uma ilustração clássica da Dialética de Hegel. Aqui, a tese — ou o status quo — refere-se ao uso atual da palavra. Quando ela passa por uma leve transformação em significado em direção à sua antítese, nasce uma nova síntese. Se mudanças incrementais suficientes ocorrerem, eventualmente a antítese se estabelece.

Como o termo “Dialética Hegeliana” está ausente do nosso vocabulário comum, muitas pessoas não estão cientes desse processo de transformação contínua. Em vez disso, elas acham que a mudança ocorre de forma natural. Por definição, uma mudança em direção à antítese é adversa ao elemento da sociedade que gostaria de conservar o status quo — os conservadores que reverenciam suas tradições e instituições.

No mundo atual, muitas de nossas mais importantes instituições e tradições — e as palavras fundamentais associadas com elas — foram tão dramaticamente modificadas em direção às antíteses que os conservadores não mais apoiam o status quo.

As Raízes Filosóficas das Ciências Sociais

Abrangendo quase todo o século 18 na Civilização Ocidental, o Iluminismo foi uma revolução intelectual baseada na razão. Ele produziu dois tipos predominantes: aqueles que rejeitavam toda a autoridade fora da razão humana, incluindo a religião e seu direito divino dos reis, e aqueles que permaneceram fiéis ao cristianismo. Como a livre expressão não era um direito naquele tempo, os autores mais radicais publicavam seus livros anonimamente.

A ciência rapidamente desvendou os mistérios na Terra e no espaço e levou à crença que descobertas contínuas permitiriam o triunfo da humanidade sobre a natureza. Isto também criou desespero para alguns cristãos. À medida que a ciência florescia, muitas “verdades” medievais, como a crença que o sol gira em torno da Terra, foram provadas como mitos. Alguns cristãos perderam a fé. Entretanto, muitos cientistas importantes mantiveram a fé. A ciência não tinha destruído a autoridade da Bíblia, somente as más interpretações.

Em 1751, o primeiro volume da Enciclopédia foi publicado na França. Ao longo dos próximos vinte e um anos, 27 outros volumes foram publicados, editados pelos brilhantes ateístas franceses Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert. Diderot admitiu que o objetivo deles era “mudar o modo como as pessoas pensavam”.

Em The Closing of the American Mind, Allan Bloom escreveu: “Este projeto foi uma conspiração, como d’Alembert disse no Discurso Preliminar da Enciclopédia, o documento principal do Iluminismo. Ele precisava ser, pois, de modo a ter governantes que fossem racionais, muitos dos antigos governantes teriam de ser substituídos, em particular aqueles cuja autoridade estava na revelação. Os padres eram os inimigos, pois rejeitavam a afirmação da razão e baseavam a política e a moral em textos sagrados e nas autoridades eclesiásticas.”

Em 1798, o professor britânico John Robison escreveu Proofs of a Conspiracy (Provas de uma Conspiração): “Uma conspiração formal e sistemática contra a religião foi formada e seguida zelosamente por Voltaire, d’Alembert e Diderot, auxiliados por Frederico II, rei da Prússia… o projeto do coração deles era destruir o cristianismo e produzir uma transformação total no governo.”

Esses conspiradores afirmavam que a Enciclopédia tinha reunido todo o conhecimento acumulado ao longo dos tempos. Após a censura inicial, ela se tornou a principal fonte de referência para o conhecimento, o que propagou as ideias dos conspiradores e solapou as autoridades civis e cristãs.

August Comte, o filósofo francês do século 19 que é considerado o fundador da Sociologia moderna, adotou o pensamento do Iluminismo, do tipo que rejeitava a religião. Sua filosofia, o Positivismo, afirmava que a ciência era a única abordagem confiável para se chegar à verdade. A observação empírica leva à confirmação, o que leva à verdade. A religião tinha de ser abandonada.

O filósofo americano Thomas Ellis Katen, explicou: “Assim, o reino positivista torna-se o reino das coisas materiais e uma placa ‘entrada proibida’ é colocada nas áreas da vida mais significativas para os homens… quando as almas humanas clamam por uma imagem de unidade, a filosofia Positivista oferece somente mais fragmentação.”

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche também não ofereceu ajuda. Ele atacou a metafísica no fim do século 19 e terminou com a tradição ocidental da Alemanha na filosofia. Nietzsche anunciou para o mundo que “Deus está morto!”, o que dava à humanidade a liberdade de criar seus próprios valores. Ele disse que os filósofos tinham um dever moral de criar os novos mitos para a sociedade. Ele também declarou que todas as realizações científicas eram o resultado de uma “vontade de poder”.

Allan Bloom escreveu: “A história do pensamento liberal desde Locke e Smith tem sido a história de um declínio praticamente ininterrupto na substância filosófica.”

A Ciência Que Está Por Trás das Ciências Sociais

As ciências sociais mais conhecidas — a Sociologia e a Psicologia — foram concebidas como ciências, porém não se assemelham às ciências em sua concepção popular, exceto em um aspecto — a revelação foi rejeitada como fonte de conhecimento. Cada uma delas se expande com cada nova teoria postulada sozinha ou associada com um estudo estatístico e/ou observável. Mas, há pouca ciência por trás de todas as suas vastas proclamações. Inumeráveis definições, generalizações, abstrações e pressuposições mascaram a verdade que a maior parte de suas construções causais é hipotética. Essas ciências sociais foram criadas e ocupadas por progressistas e se tornaram seu refúgio acadêmico.

Os dois pensadores fundamentais mais influentes foram os sociólogos Max Weber e o psicólogo Sigmund Freud. Na tradição alemã, Max Weber escrevia frases convolutas, tipicamente com mais de dez linhas de tamanho e inventava ou redefinia as palavras. Ele cunhou os termos “ética protestante” e “estilo de vida” e ajudou a alterar a definição de “carisma”. Com sua definição, autoridade carismática se tornou a nova força para mudança dentro de qualquer organização.

Weber estudou todas as grandes religiões, as economias resultantes e os valores que elas promoveram. Quando ele afirmou que todas as religiões eram mitos, os valores delas se tornaram relativos. Isto levou, décadas mais tarde, à abordagem da Clarificação dos Valores, utilizada hoje no sistema público de ensino.

Weber era uma antipositivista que pensava que o ethos (NT: o caráter fundamental, ou o espírito de uma cultura; o sentimento subjacente que informa as crenças, costumes ou práticas de um grupo ou sociedade) precisa rejeitar aquilo que a razão exige por causa da generalizada irracionalidade da sociedade. Em Economy and Society (Economia e Sociedade), ele escreveu: “Sob as condições da democracia das massas, a opinião pública é uma conduta coletiva que nasce de ‘sentimentos’ irracionais. Normalmente, ela é criada ou dirigida pelos líderes políticos e pela imprensa.”

Ele também escreveu: “Não conhecemos ideais que possam ser determinados cientificamente. Com certeza, isto torna nossos esforços mais árduos do que no passado, pois devemos criar nossos ideais a partir de dentro de nosso próprio peito nesta era de cultura subjetivista.”

Freud também estava preocupado com o irracional. Ele investigou o inconsciente à procura de respostas para nossos comportamentos brutais. Ele usou o termo alemão para “alma”, mas sua concepção era secularizada, não religiosa. Para Freud, a religião era um mito.

O psicanalista britânico James Strachey parece justificado por ter traduzido incorretamente a “alma” referenciada por Freud como “mente” — levando os psicólogos britânicos e americanos e acharem que a Psicologia deveria ser categorizada como uma ciência médica e que a “alma” era distintamente não científica. A tradução de Strachey redefiniu Freud com uma consistência científica espúria, típica da enganação progressista.

Sigmund Freud tinha uma visão bastante negativa das massas humanas, com suas neuroses não tratadas e instintos animais. Em The Future of an Illusion (O Futuro de uma Ilusão), ele escreveu: “Entre esses desejos instintivos estão o incesto, o canibalismo e o desejo de matar.” Anteriormente ele tinha escrito: “As massas são preguiçosas e pouco inteligentes; elas não têm amor pela renúncia instintiva, e não podem ser convencidas por argumentos de sua inevitabilidade, e os indivíduos que compõem as massas apoiam uns aos outros em dar livre vazão à sua indisciplina.” Ele acrescentou: “É somente por meio da influência de indivíduos que podem definir um exemplo e que sejam reconhecidos como líderes pelas massas é que estas podem ser induzidas a realizar o trabalho e aceitar as renúncias necessárias para a existência da civilização.”

Freud também afirmava que os meninos crescem com um complexo de Édipo e um temor da castração por parte de seus pais, enquanto que as meninas crescem com inveja do pênis. A maior parte do que Freud escreveu está em disputa, mas nada pode ser provado cientificamente como falso ou verdadeiro.

Quando os psicólogos observam e descrevem o comportamento humano, eles se assemelham aos cientistas, mas quando explicam esse comportamento, eles propagam uma opinião hipotética. Várias observações são aparentes. Quanto mais popular se torna a Psicologia, mais generalizados nossos problemas também estão se tornando. Quantos mais casais são encaminhados aos conselheiros matrimoniais, maior se torna a taxa de divórcios. Nossos problemas não estão sendo solucionados pelos nossos psicólogos, nem pelos promotores dessa pseudociência na grande mídia.

Pode haver uma simples razão para isto: Se Deus existe, a maior parte das afirmações das ciências sociais se torna uma bobagem teórica, o que significa que a sociedade está sendo prejudicada pela negligência da verdadeira “alma” e pelo desprezo dessas ciências à religião.

A Escola de Frankfurt

Outro evento funesto ocorreu em 1933. Com a ascensão do nazismo, a “Escola de Frankfurt” fugiu da Alemanha, estabeleceu-se em Genebra, na Suíça, por um ano, e depois transferiu-se temporariamente para Nova York, como uma afiliada da Universidade de Colúmbia. Fundada por marxistas em 1923 como Instituto de Pesquisa Social, na Universidade de Frankfurt, ela foi modelada com base no Instituto Marx-Engels, de Moscou.

A filosofia da Escola de Frankfurt foi construída com base em Hegel, Marx, Nietzsche e seu sucessor radical, Martin Heidegger, que levou adiante muito do extremismo de Nietzsche para o século 20. As ciências sociais da Escola de Frankfurt baseavam-se em Freud e Weber. Além disso, eles utilizavam as teorias revolucionárias do comunista italiano Antonio Gramsci e do socialista húngaro Georg Lukacs.

Gramsci ficou chocado ao ver que a Revolução Bolchevista não inspirava os oprimidos trabalhadores europeus a se levantarem em rebelião. Enquanto estava em sua cela na prisão, ele descobriu que os valores judaico-cristãos eram o problema, de modo que precisavam ser destruídos para que a revolução fosse possível.

Gramsci propôs uma abordagem metódica de infiltração, captura e reforma da educação, da imprensa, do cinema, do teatro, do governo e da igreja, o que ele chamava de “longa marcha pelas instituições”. Ele dizia que o capitalismo tinha uma hegemonia cultural por meio da violência e da coerção, tanto política quanto econômica, mas também ideologicamente, que era onde a batalha ocorria.

Lukacs, talvez o mais brilhante teórico marxista do século 20, tinha mais discernimento sobre as agitações das massas. Todas as revoluções bem-sucedidas foram planejadas por uma pequena elite de intelectuais. Em 1922, ele se reuniu com os fundadores originais da Escola de Frankfurt durante uma semana em Ilmenau, na Alemanha. Um ano mais tarde, a Escola de Frankfurt foi planejada como um centro de estudos e debates para treinar os agentes de transformação. Um dos diretores, Max Horkheimer, desenvolveu a Teoria Crítica, em oposição à Teoria Tradicional. A Teoria Crítica não oferece solução alguma. Em vez disso, ela critica em um ataque combinado até criar uma atmosfera de crise. A crise leva à mudanças — oportunidades de incrementalmente levar a sociedade em direção ao marxismo cultural.

A elite da Escola de Frankfurt, Horkheimer, Erich Fromm, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Theodor Adorno, Walter Benjamin e, mais tarde, Jurgen Habermas, usavam a engenharia verbal para facilitar sua engenharia social. Eles escreveram extensos ataques às instituições e tradições judaico-cristãs e as redefiniram como perniciosas. Eles estigmatizaram as palavras fundamentais: “Propriedade privada” e “lucro” se tornaram desejos egoístas. “Individualismo”, “esforço pessoal”, “depender de si mesmo” se tornaram opressivas, pois o mundo foi dividido em duas classes de pessoas: os “opressores” e as “vítimas”. A religião se tornou o maior mal de todos — uma superstição que levava à intolerância e à guerra. O nacionalismo era o segundo grande mal, pois também levava à guerra.

A Escola de Frankfurt estudou as técnicas psicológicas dos nazistas. Um resultado é que Adorno e três acadêmicos da Universidade de Berkeley escreveram The Authoritarian Personality (A Personalidade Autoritária), que foi amplamente aclamado pelos nossos cientistas sociais. Anos mais tarde, o livro foi desmistificado como propaganda esquerdista. Allan Bloom o chamou de “fabricação pretensiosa”. Entre outras heresias teóricas, o livro redefinia a paternidade como tirania. Isto foi um triunfo para o feminismo, pois as mulheres se tornaram uma classe oprimida. Toda esta engenharia verbal colocou em movimento a longa marcha para solapar o amor a Deus, à família e à pátria.

De 1937 a 1941, Adorno trabalhou para o Projeto Pesquisa do Rádio junto com o futuro presidente da CBS, Frank Stanton, e três outros cientistas sociais. O projeto foi financiado pela Fundação Rockefeller e tinha como propósito estudar os efeitos da mídia de massa e desenvolver métodos mais eficazes de persuasão das massas.

Enquanto isto, Edward Bernays, o maioral da Propaganda, usava a Psicologia de seu tio Sigmund Freud, acoplada com a de B. F. Skinner, para criar uma sociedade de consumo. Eventualmente, as massas se tornaram preocupadas demais com seus próprios interesses para terem tempo para as preocupações mais profundas, como o destino da civilização.

Em 1946, Kurt Lewin, o fundador da Psicologia Social, lançou os fundamentos para o Treinamento em Sensibilidade, ao se tornar um pioneiro na Psicologia Aplicada. Ele fez a sintonia fina dos métodos que superavam a “resistência à transformação”. Isto deu origem ao National Training Laboratories, em 1947, localizado em Bethel, Maine, longe da zona de conforto de todos. Em um ambiente de grupo, o treinamento segue três etapas para modificar a percepção do treinando. Primeiro, eles tentam contornar os mecanismos de defesa naturais e desmantelar a “mentalidade” usando a pressão do grupo e outras técnicas psicológicas. Isto leva à mudança, um período transitório de confusão. Em seguida, a nova mente é “congelada” na etapa 3 e os níveis de conforto retornam ao normal. O treinamento desorienta os indivíduos e depois os reorientam em um mundo relativo. Em 1962, em seu manual “Five Issues in Training”, o NTL definiu seu treinamento como “persuasão coercitiva na forma de reforma do pensamento, ou lavagem cerebral”. Desde então, o NTL expandiu e desenvolveu laboratórios especializados para as indústrias, universidades, igrejas e organizadores comunitários (ativistas). Lewin estava associado com os acadêmicos da Escola de Frankfurt, porém também foi diretor da Clínica Tavistock, em 1932.

O Instituto Tavistock

Em 1920, o sigiloso Instituto Tavistock de Psicologia Clínica foi fundado na Inglaterra; depois de pouco tempo ele foi renomeado como Clínica Tavistock. Existem poucos registros públicos, mas provavelmente Tavistock foi uma criação da Inteligência Britânica. Alguns pesquisadores afirmam que Sigmund Freud foi o primeiro diretor. Certamente, sua influência era suprema. Inicialmente, eles se especializaram no tratamento de soldados que sofriam de fadiga de combate, o que revelou compreensões sobre o ponto de ruptura da humanidade e se tornou um tópico de pesquisa intensiva.

Em junho de 1940, John Rawlings Rees, diretor da Clínica Tavistock, revelou a agenda deles em um discurso intitulado “Planejamentos Estratégicos para a Saúde Mental”. Ele disse:

“Portanto, podemos justificadamente enfatizar nosso ponto de vista particular com relação ao desenvolvimento apropriado da psiquê humana, embora nosso conhecimento ainda seja incompleto. Precisamos ter como alvo fazê-lo permear cada atividade educacional na nossa vida nacional… Fizemos um bom ataque contra diversas profissões. As duas mais fáceis, naturalmente, são a profissão de professor e a igreja; as duas mais difíceis são o direito e a medicina… A vida pública, a política e a indústria devem todas ficar dentro de nossa esfera de influência… Se queremos infiltrar as atividades profissionais e sociais das outras pessoas, acho que precisamos imitar os totalitários e organizar algum tipo de atividade de quinta coluna! Para que melhores ideias sobre saúde mental progridam e se disseminem, nós, como vendedores, precisamos perder nossa identidade… Portanto, sejamos todos nós, de forma muito secreta, ‘quintas colunas’.” (Veja Mental Health, Vol. 1, No. 4, outubro de 1940).

“Quinta-coluna” foi um termo cunhado em 1936 e se refere a uma conspiração que simpatiza com o inimigo e se envolve em subversão dentro de uma sociedade.

Em 1947, com financiamento da Fundação Rockefeller, o Instituto Tavistock das Relações Humanas foi criado como outra agência para a transformação. O interesse principal deles era a Psicologia Aplicada em uma escala global, o que também é chamado de “Operações Psicológicas” ou (Psy-Ops, no jargão militar). Eles estabeleceram centros de pesquisa em universidades e centros de estudos e debates nos EUA e em todo o mundo para analisar métodos de controle mental, incluindo hipnose, radiação eletromagnética, psicoterapia, farmacologia, propaganda, e drogas lícitas e ilícitas — eles trabalhavam com gigantes da indústria farmacêutica, como os laboratórios Sandoz e Eli Lily. A pesquisa sobre controle mental que estava por trás do programa MK Ultra (também chamado de Programação Monarca) não teve sua origem na CIA. A Inteligência Britânica estava ativamente envolvida antes da criação da CIA e o Instituto Tavistock se tornou a ponte entre as duas agências de Inteligência.

Em 1955, Bernays escreveu The Engineering of Consent (A Engenharia do Consentimento), que detalhava a campanha de propaganda que levou a um golpe engendrado pelos serviços de Inteligência dos EUA na Guatemala. Esse livro de referência se tornou um manual do Instituto Tavistock para derrubar qualquer governo que não se alinhasse com seu objetivo de longo prazo de criar um governo mundial.

A elite de Tavistock analisava toda a mídia, incluindo o rádio, música, filmes, revistas, arte popular e a televisão. Em agosto de 1959, Fred Emery, um membro sênior da equipe de Tavistock, escreveu um artigo intitulado Working Hypotheses on the Psychology of Television (Hipóteses Funcionais Sobre a Psicologia da Televisão). Ele declarou: “Os efeitos psicológicos de assistir televisão são de interesse considerável para qualquer engenheiro social.”

Segundo o Dr. John Coleman, um agente de Inteligência que se tornou descontente, Tavistock criou o caso de amor entre a juventude e os Beatles. É impossível compreender o frenesi e a histeria de massa criada pelos Beatles sem conhecimento da psicologia e da manipulação das massas. Coleman afirmou que as multidões tinham sido criadas usando-se cenas de gravações anteriores do noticiário. Quando os Beatles desembarcaram no aeroporto JFK, em Nova York, em 1964, foram recebidos por dezenas de adolescentes de uma escola do bairro do Bronx que tinham sido pagas para gritar histericamente. O mesmo artifício foi repetido nos próximos eventos e a tendência se perpetuou, como acontece com todas as boas modas.

Se o Dr. Coleman estiver correto, então as incríveis coincidências que estão por trás das primeiras cenas da música Rock se tornam mais lógicas. Como o jornalista investigativo David McGowan documentou, todos os primeiros músicos evitaram os três centros da música em Detroit, New York e Nashville para se reunirem em Laurel Canyon, na Califórnia, onde não havia uma cena musical e nem produtores musicais. Eles eventualmente criaram sua própria cena, muito provavelmente com uma pequena ajuda de seus amigos em Tavistock.

O que é mais surpreendente — ou talvez não — é que a maioria desses músicos vinha de famílias imersas na Inteligência militar, incluindo Jim Morrison, cujo pai era um almirante. (Outros incluíam Frank Zappa, David Crosby, Stephen Stills, Cory Wells, Mike Nesmith, John Phillips, Cass Elliott, Joni Mitchell, e Jackson Browne, para citar somente alguns selecionados.)

Um dos fundadores da Rand Corporation, Albert Wohlstetter, também fez de Laurel Canyon seu lar e realizou seminários ali. Sem qualquer coincidência, a Rand Corp. é um centro de estudos e debates afiliada com o Instituto Tavistock.

Talvez um cientista social no futuro proponha uma teoria que explique como um tremendo despertar das massas ocorreu simultaneamente com a chegada da música Rock. Essa música revolucionária ajudou a transformar radicalmente toda uma geração… e cada geração seguinte.

A Tirania das Ciências Sociais

O filósofo positivista pode concordar com a afirmação de Henry Ford que a história é um amontoado de bobagens, porque ela não pode ser confirmada empiricamente. O historiador dos eventos mundiais discordaria. A história é muito mais perigosa — ela pode ser usada como um agente de transformação. Tipicamente, a história é escrita pelos vitoriosos. À medida que cada vencedor a revisa, a história pode perder sua validade e se tornar propaganda para o Estado.

Orwell retratou isto em seu livro 1984, quando o protagonista Winston Smith é solicitado a repetir o lema do Partido: “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”

Por volta de 1960, a Sociologia era o curso mais procurado nas universidades americanas e as ideias progressistas se propagavam pelos campi. À medida que os cientistas sociais analisavam novos territórios, a história americana teve de ser radicalmente reescrita. Eles descobriram que os pais fundadores não tinham sido combatentes da liberdade coisa alguma. Eles certamente correram o risco de serem acusados de alta traição — e serem pendurados até se tornarem inconscientes, depois reanimados, estripados, decapitados, esquartejados e cozidos em óleo. Mas, eles arriscaram suas vidas porque eram opressores que ambicionavam o poder.

Nos EUA, não foram necessárias fogueiras para destruir os livros que apoiavam a herança cultural da nação. Cada geração tinha rejeitado as revisões históricas nos anos 1940s e 1950s, mas desta vez o público estava atarefado demais para observar.

Em 1960, foi criada a expressão “Branco, Anglo-Saxão e Protestante”, mas ninguém reivindicou a autoria. A expressão começou a ser usada alguns anos antes como um insulto entre os cientistas sociais. Em 1964, o acrônimo WASP (de “White Anglo-Saxon Protestant”) foi popularizado quando E. Digby Baltzell publicou sua obra crítica The Protestant Establishment: Aristocracy and Caste in America (O Sistema de Poder Protestante: Aristocracia e Castas na América).

A criação e a negatividade que existe por trás do termo WASP é uma manifestação das regras de linguagem que se tornou conhecida como Correção Política. Durante várias décadas, a correção política esteve indefinida e permaneceu oculta. Mas, sua ideologia estava bem-definida. Nos anos 1960s, ela ajudou a moldar a contracultura.

A Escola de Frankfurt forneceu as ideias para o novo movimento dos jovens, enquanto que o Instituto Tavistock forneceu as distrações — os filmes, a música e as drogas. A música Rock reforçou a rebelião dos jovens, deu-lhes uma nova linguagem e a liberdade de todas as restrições. Parece que Freud estava com a razão. As massas não têm amor algum pela renúncia instintiva.

Herbert Marcuse, um membro da Escola de Frankfurt, tornou-se o pensador mais popular da Nova Esquerda. Como Allan Bloom observou, “Herbert Marcuse apelava aos estudantes universitários nos anos 1960s com uma combinação de Marx e Freud. Em Eros e Civilizaçãoe O Homem Unidimensional ele prometeu que a superação do capitalismo e de sua falsa consciência resultarão em uma sociedade em que as grandes satisfações serão as sexuais, de um tipo que o moralista burguês Freud chamava de polimorfo e infantil.”

Em 1965, Marcuse justificou a intolerância quando escreveu Tolerância Repressiva: “A conclusão alcançada é que a realização do objetivo de tolerância propõe a intolerância com relação às políticas, atitudes e opiniões predominantes, e a extensão da tolerância às políticas, atitudes e opiniões que são proibidas ou suprimidas… o que é proclamado e praticado como tolerância hoje está, em muitas de suas manifestações mais efetivas, servindo como causa de opressão.” Nossas universidades levaram isto adiante e se recusaram a contratar professores conservadores.

Em 1946, quando Hans Gerth e C. Wright Mills traduziram alguns ensaios de Weber, “estilo de vida” se tornou uma expressão comum nos EUA. Na verdade, eles traduziram duas palavras alemãs como “estilo de vida”, mas esta é uma questão semântica. No início dos anos 1960s, “estilo de vida” se tornou popular, pois legitimava uma variedade de comportamentos antes considerados como desvios. Todos se tornaram livres para fazer tudo o que quisessem. Desde que houvesse um rótulo, havia um estilo de vida válido. Como não mais estudamos a “etimologia” — a origem das palavras — não estamos cientes da engenharia social que resultou da engenharia verbal.

Competição e Tolerância no Estilo Americano

O “complexo de inferioridade” foi descoberto em 1922 pelo psiquiatra austríaco Alfred Adler. Levou tempo até ele se filtrar para dentro da nossa sociedade. Recentemente, nossos diretores de esportes na comunidade descobriram que a “competição” cria vencedores e perdedores, e ser rotulado de um perdedor era cruel. Portanto, quando muitas crianças iniciam os esportes organizados, algumas equipes não atualizam o placar, todos recebem um troféu e ninguém tem sua autoestima diminuída.

As notas obtidas pelas nossas crianças nas competições de matemática ilustram este fenômeno. Em 2006, as crianças americanas ficaram em vigésimo quinto lugar em uma competição internacional, muito longe da supremacia. Mas, isto não as deixa preocupadas, porque sua autoestima nas questões matemáticas é suprema. Elas acreditam que sejam brilhantes!

Quando o mercado de trabalho provar a inadequação delas, elas instintivamente acusarão o mercado como sendo o problema. Os professores dessas crianças ensinaram que o “capitalismo” era a raiz de muitos dos problemas modernos: a exploração, o materialismo, a poluição e a ganância. Os livros-textos retrataram um tipo de “competição” em que um cachorro come outro cachorro.

Assim, a competição — um dos fundamentos da vida — se tornou uma palavra negativa entre nossos jovens. Sua substituição — a mediocridade — é a palavra que está construindo a estrutura baseada no Socialismo.

É ilógico instilar nos nossos jovens uma confiança exagerada em suas capacidades e tolice ensiná-los que nosso sistema econômico fundamental é o problema — a não ser que outro resultado seja desejado. Charlotte Iserbyt demonstra isto muito bem em seu livro, apropriadamente intitulado The Deliberate Dumbing Down of America (O Emburrecimento Deliberado da América).

Nossos jovens estão sendo ensinados a serem tolerantes com todos os estilos de vida diferentes. Por meio do sistema público de ensino, nossas crianças são expostas a um amplo mundo de culturas variadas e vibrantes, cada uma com seus próprios valores, verdades e modos de vida. A “verdade” se torna relativa, semelhante a uma “crença”, o que extingue qualquer desejo por iluminação pessoal, porque nenhuma verdade é válida.

Para garantir que esta lição seja aprendida, os alunos têm de passar por um treinamento psicológico chamado Clarificação de Valores. Os especialistas afirmam que os alunos chegam com confusão de valores. A Clarificação de Valores dá às crianças a autoridade de criarem seus próprios valores a partir de um conjunto disponível. Seja lá o que elas gostem, elas são autônomas, livres da autoridade paterna e de quaisquer valores tradicionais. Os vícios se tornam virtudes, desde que eles sejam valorizados.

O antigo historiador grego Heródoto estabeleceu a tradição oposta. Ele viajou pelo mundo para encontrar o bom e o mau em cada cultura. Essas verdades, ele raciocinou, trariam esclarecimento à sua própria cultura. Os pedagogos atuais afirmam que essa abordagem é absurda. Como não existe uma autoridade final que julga o que é bom ou mau, precisamos respeitar todos os modos de vida.

O Politicamente Correto

Nos anos 1930s, tanto Stalin quanto Hitler aperfeiçoaram as regras de linguagem do politicamente correto. As pessoas literalmente arriscavam suas vidas quando abriam a boca para falar.

No início dos anos 1990s, quando a mídia declarada e avidamente adotou as novas regras de linguagem chamadas de “politicamente corretas”, os infratores da regra arriscavam perder seus empregos e incorrer na ira da mídia. Patrick Buchanan explicou a ideologia que está por trás dessas regras: “O politicamente correto é Marxismo Cultural, um regime para punir os dissidentes e estigmatizar a heresia social, como a Inquisição punia a heresia religiosa. Sua marca registrada é a intolerância.”

O Dr. Gerald L. Atkinson escreveu: “A Teoria Crítica, como a Psicologia das massas aplicada, produziu uma revolução psíquica silenciosa’ que facilitou uma revolução física real, que se tornou visível em toda a parte nos EUA.”

O multiculturalismo é um produto do politicamente correto que produz diversidade e divide a nação. Nos EUA, o cadinho cultural costumava transformar os imigrantes em americanos. Hoje, exceto pela classe governante opressiva, a maioria dos cidadãos se define como um “americano hifenizado”, como hispano-americano, sino-americano, afro-americano, nativo-americano, etc. A nação americana não está mais unida por um idioma e uma cultura.

Os Pais Fundadores planejaram uma comunidade da liberdade, que se estenderia da costa leste até a costa oeste. As comunidades, por definição, são estabelecidas para o “bem comum”, que os fundadores da nação definiram como liberdade da tirania e proteção para os direitos inalienáveis — os direitos concedidos por Deus — os direitos de vida, liberdade e a busca da felicidade. Isto significa que havia limites naturais, por causa da Lei Natural. A busca dos frutos do trabalho ficava limitada quando infringia os direitos inalienáveis dos outros.

O multiculturalismo requer uma nova definição de “bem comum”, uma definição para uma sociedade secularizada em que os direitos são concedidos pelos governos. O centro de estudos e debates Center for American Progress, afirma que o governo é essencial quando as pessoas buscam seus sonhos. Eles redefiniram o bem comum como políticas governamentais que beneficiam a todos, ao mesmo tempo que equilibram o interesse pessoal com as necessidades de toda a sociedade. Talvez isto explique por que o governo estadual do Texas removeu o “bem comum” dos livros-texto das escolas públicas. O bem comum se tornou um termo progressista que se refere aos direitos para aqueles que estão em desvantagens, mas também inclui os grandes socorros financeiros para as grandes empresas.

Educação Superior no Estilo Americano

Quando nossas universidades abertamente endossaram a correção política, a livre expressão de um setor da sociedade ficou verboten. Aqueles que levantavam a bandeira constitucional se tornaram chauvinistas preconceituosos, cujas ideias eram perigosas e não mais bem-vindas — eles apoiavam o nacionalismo, o capitalismo e o domínio tradicional dos homens brancos da elite. No reino da tolerância, isto era intolerável. As universidades baniram as ideias deles.

Os dois principais objetivos de todos os governos totalitários são reduzir o pensamento crítico independente e eliminar a responsabilidade moral individual. Nossas universidades estão sendo usadas como instrumentos neste processo. Mais de 20 anos atrás, Bloom lamentou: “Aquilo que aconteceu nas universidades na Alemanha nos anos 1930s é o que está acontecendo por toda a parte.”

À medida que nossas universidades fizeram essa evolução para o pior, elas estão se tornando irrelevantes. No passado distante, os alunos da graduação universitária estudavam o amplo espectro de conhecimentos — filosofia, teologia, história, ciência e as artes. Eles investigavam os registros humanos em busca das gemas produzidas pelos gênios. Os grandes livros dos grandes pensadores eram comumente discutidos: Homero, Heródoto, Isaías, Jeremias, Platão, Aristóteles, Cícero, Orígenes, Justino Mártir, Tertuliano, Eusébio, Agostinho, Tomás de Aquino, Dante, Milton, Lutero, Pascal, Descartes, Swift, Hobbes, Hume, Locke, Shakespeare, Rousseau, Voltaire, Goethe, para citar alguns dos tempos antigos.

Como eliminamos vários ramos do aprendizado de nossas universidades, nossa conscientização ficou prejudicada. Uma educação liberal ensinava antigamente o pensamento independente, o que levava muitos alunos a continuarem sua educação por toda a vida, o que expandia sua capacidade de pensar crítica e criativamente. Isto é intolerável hoje, pois criaria discordância da tirania da opinião pública, o que desestabiliza o Estado totalitário.

Sexo no Estilo Americano

Em toda a história da América, o sexo fora do casamento era considerado imoral. Nos anos 1960s, o sexo foi liberado entre os jovens. Eventualmente, grande parte do restante da sociedade foi sendo levada a aceitar essa mudança. (Autores muito mais qualificados do que eu já expuseram os detalhes específicos.)

Hoje, o sexo é um aspecto natural da vida moderna e um termo comum de discussão. Nós nos tornamos sofisticados e discutimos o sexo abertamente em todos os detalhes, independente das pessoas que estejam por perto. Algo que era privado foi tornado público e, no processo, o “amor” se transformou em “lascívia”. Por causa dessa preocupação, a maioria das conversas é espiritualmente sem vida, focada em dois tópicos: assuntos triviais e sexo.

Os psicólogos estudaram o apelo dos contos eróticos. No passado, os homens se separavam das mulheres e poucos falavam aos outros a respeito de suas experiências. À medida que os gêneros foram redefinidos, naturalmente as mulheres tiveram de ser incluídas e aquelas que são mais atrevidas tentam superar os homens.

A Destruição da Linguagem

Nossos mais proeminentes psicólogos e sociólogos estão deliberadamente recriando nossa sociedade e levando-a em direção ao marxismo cultural por meio da transformação das nossas mais importantes instituições e tradições — e da linguagem associada com elas. Eles estão criando uma cultura de total falta de esperança e de desespero. Eles assumem que quando o niilismo prevaler, estaremos prontos para a solução socialista que eles têm a nos oferecer.

Eles usam suas descobertas para aperfeiçoar os métodos de persuasão das massas e de controle mental. Isto se reflete nas ideias e na linguagem que eles nos dão. As ideias podem ser mais poderosas quando as massas não têm pista alguma, como todos os ditadores bem-sucedidos já demonstraram. As mudanças podem ser manipuladas bem diante dos olhos das massas. Quando novas ideias se tornam populares, as palavras são criadas para expressar as mudanças, enquanto outras são modificadas ou descartadas. As palavras mudam naturalmente, mas algumas vezes, elas mudam de forma deliberada para promover uma agenda cultural.

Hoje, a “verdade” se tornou relativa. Os valores podem ser adaptados por cada pessoa. Além disso, a “automação sem alma” de Eric Fromm é epidêmica. A “culpa” não é mais uma motivação para a mudança; ela é considerada não saudável. A “sublimação” de Freud, com sua associação com a “repressão” foi finalmente liberada. O “homem” era um animal e tinha aprendido a se comportar como tal.

A “alma” foi banida da educação, da mídia e da arte moderna e é raramente cultivada. O escritor americano Saul Bellow lamentou que “Vivemos em um mundo das ideias e a imaginação se tornou realmente muito má.”

“Carisma” foi transformada em seu oposto. Ela costumava ser uma palavra com sentido espiritual, derivada da palavra grega charis, que significa “graça” de Deus. Algumas vezes essa graça vinha sobre um líder, capacitando-o para liderar com a sanção divina e expressar suas opiniões de forma mais poderosa. Hoje, muitos dos nossos líderes se esforçam para enriquecerem. Alguns deles são chamados de carismáticos por que despertam as emoções e nos motivam a segui-los. Eles rejeitaram o “serviço ao público” em favor do “autosserviço” e não recebem qualquer inspiração do nosso Deus doador de graça.

Quando o vocabulário comum não contém mais as palavras vitais e as ideias dos grandes livros dos gênios, a conscientização permanecerá muito pequena. E aqueles que negligenciam seu idioma e sua herança não estarão cientes que perderam alguma coisa. Cada palavra acrescentada na memória e cada etimologia estudada aumenta a conscientização. A leitura de bons livros ajuda a expandir a conscientização. O adjetivo “Orwelliano” pode ser compreendido superficialmente por uma consulta ao dicionário, mas a verdadeira jornada para compreender seu significado começa com a leitura da obra de George Orwell.

As palavras nobres dos nossos antepassados se tornaram silenciosas. No passado, as mentes inquiridoras se reuniam e discutiam a religião e a política à luz de suas tradições históricas. Hoje, não há mais investigação, não há mais curiosidade, e não há vergonha por esses tópicos terem sido banidos das conversas comuns por serem considerados controversos.

Nossos cientistas sociais estudaram muitos anos atrás o comportamento humano, nossa linguagem, nossas crenças e nossos hábitos. Alguns deles se venderam à indústria e usam seu conhecimento para desenvolverem melhores campanhas de propaganda e publicidade. Outros, são mais perversos e trabalham com os progressistas da Escola de Frankfurt e do Instituto Tavistock para criarem métodos mais poderosos para influenciar nosso comportamento e nosso pensamento. Eles se infiltraram no sistema educacional, no governo, na mídia de massa, nas artes e até em nossas igrejas.

Recentemente, muitos patriotas despertaram do sono e estão agora lutando na arena política com algum sucesso aparente, mas isto parece ter pouco efeito geral. À medida que eles lutam nessa escaramuça, a guerra total ocorre em torno deles em todas as outras arenas da vida. Podemos estar cercados, mas este não é um tempo para fraquejar. Não há tempo para recuar. Nossos bravos combatentes não podem lutar em apenas uma frente; é hora de ocupar todo o campo de batalha com toda a nossa força, mente e espírito e esperar que o Senhor nos conduza à vitória.

Nos dias antigos, a linguagem comum nunca era tratada de forma descuidada. Muitos aprendiam a ler especificamente para que pudessem estudar as Escrituras Sagradas. A vida era mais difícil naquele tempo, mas as mentes das pessoas eram mais puras. A Bíblia inspirou muitos dos grandes heróis da história. Alguns deles foram abençoados com carisma — em seu sentido original. Se um número maior de pessoas hoje se dedicar ao estudo e meditação deste que é o maior de todos os livros, produziremos mais líderes que seguirão os heróis do passado nessa grande tradição e nossa nação será novamente abençoada.


Autor: Robert F. Beaudine, artigo original em http://www.FreedomAdvocates.org,
Data da publicação: 2/8/2011
Transferido para a área pública em 16/1/2013
Revisão: http://www.TextoExato.com
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/marxcultural.asp

Publicado originalmente aqui.

Dilma ‘melhor’, só vendo

Contados os votos, resta ao País avaliar se, reeleita, Dilma Rousseff conseguirá ser a presidente “muito melhor do que fui até agora” e uma pessoa “ainda melhor”, como disse desejar no discurso de vitória. Sem isso, o diálogo que ela anunciou como “primeiro compromisso do segundo mandato” terá como interlocutor apenas o seu espelho. A transfiguração prometida é indissociável da aspiração nacional por mudança, “a palavra dominante” da campanha, conforme reconheceu. Para que venha a dominar também os seus atos nos próximos quatro anos, Dilma não deveria perder de vista que as urnas de domingo foram muito mais severas consigo do que as de 2010. Desde a redemocratização, aliás, nenhum candidato ao Planalto levou a melhor por tão escassa vantagem – 3,2 pontos porcentuais, ou 3,5 milhões de votos, em 105 milhões validados.

A apertada aritmética talvez nem sequer exprima suficientemente o amargor dos antagonismos entre os brasileiros divididos entre manter ou remover o PT do poder – a questão de fundo da disputa recém-concluída que passará para a história, entre outras ignomínias, pela maneira feroz com que a incumbente e o seu partido se lançaram sobre a candidata Marina Silva para estraçalhar as suas chances de chegar ao segundo turno. O fato impossível de desconhecer é que, de tanto ser agredida pela estridente retórica petista de que o Brasil vive um permanente confronto à morte entre “nós e eles”, a oposição só teve a alternativa de responder na mesma moeda, contaminando, afinal, o seu próprio eleitorado. A inescapável conclusão é de que o País saiu da sucessão presidencial mais crispado do que nela entrou. Diante disso, ainda que tomando pelo valor de face a sua fala aparentemente conciliadora, será um feito de enormes proporções ela construir uma liderança que dê conta dessa realidade adversa e, a partir daí, comandar o seu desmanche.

De resto, ela mesma já começou dando motivos para o ceticismo. A Dilma de sempre confinou ao palavrório o chamamento à abertura e disposição para o diálogo. De um lado, porque não teve a decência política elementar – para não falar em mera cortesia pessoal – de mencionar o nome do adversário Aécio Neves, a quem superou a duras penas na incerta jornada de horas antes e que, por sua vez, não hesitou em lhe telefonar tão logo se tornaram conhecidos os resultados da disputa. De outro lado, porque voltou atrás no tempo, aos idos de 2013, quando tentou responder ao clamor por mudanças que ecoava pelo País com a proposta de reforma política mediante plebiscito. Qual reforma seria essa e quais seriam os termos de uma consulta popular sobre um tema que não pode ser reduzido a umas poucas disjuntivas a presidente não se deu ao trabalho de esclarecer.

Nem o PMDB, que vinha sendo o esteio da base governista no Congresso, abriu espaço para tal. Abateu sumariamente a tentativa de impor ao Legislativo a agenda petista das regras do jogo político-eleitoral, começando pelo financiamento público das campanhas e a adoção do voto para deputado em listas fechadas, compostas pelas cúpulas partidárias. Agora, a legenda do seu vice, Michel Temer – o qual, à época, manifestou à titular o seu desagrado com o lance oportunista -, só pode se sentir injuriado com a sua exumação. Mesmo que, numa tentativa de dourar a pílula, Dilma tenha concedido que a reforma é de “responsabilidade constitucional do Congresso”, como se esta fosse complementar à consulta a resultar de uma discussão do governo “com todos os movimentos sociais e as forças da sociedade civil”.

Nesse momento, ademais, a sociedade está de olhos postos em outra questão – os escândalos da Petrobrás. No ano que se aproxima, os desdobramentos judiciais das delações premiadas do ex-diretor de abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e do seu comparsa, o megadoleiro Alberto Youssef, com a provável identificação da trintena de políticos que teria citado em conexão com a lambança – e que deve incluir parlamentares do PT, PMDB e PP, pelo menos -, representarão um obstáculo de monta para a distensão política que Dilma apregoa. Nesse clima, não convém esperar o advento de uma presidente “muito melhor do que fui até agora”.

 

 

Originalmente publicado aqui.

Campanha de Aécio Neves pregou para convertidos’, diz ex-marqueteiro

Responsável pela pré-campanha do senador Aécio Neves (PSDB) até dezembro de 2013, o antropólogo Renato Pereira, 54, diz que a derrota do tucano se deve à estratégia não ter saído da “zona de conforto do PSDB”.

Para ele, a sigla demonstrou visão “patrimonialista” ao focar em acordos políticos e declarações de celebridades no fim da campanha. Diz que Aécio “pregou para convertidos” ao centrar no discurso contra a corrupção.

A parceria acabou por divergências na pré-campanha. Para ele, o tucano deveria sair do “teatro da política” para a “agenda [da vida] real”.

“Os comerciais da Dilma são os compromissos dela com o eleitor, com o alvo da eleição. Sabe com quem precisa falar. A visão do Aécio e da cúpula do PSDB ainda é antiquada, com políticos e celebridades que supostamente influenciam as pessoas.”

O marqueteiro também apontou como erros o anúncio do economista Armínio Fraga como futuro ministro da Fazenda, chamar a presidente reeleita Dilma Rousseff de “leviana” num debate e apostar nas críticas de corrupção na Petrobras.

Vitorioso na disputa no Rio, onde comandou a campanha do governador reeleito Luiz Fernando Pezão (PMDB), Pereira defende as críticas pessoais, a tática da desconstrução e criticou o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por tentar impor programas de TVs propositivos. “É um campo aberto para o populismo”, diz.

Ele se absteve nos dois turnos, mas disse que votaria em Marina Silva (PSB) no primeiro e não quis declarar preferência no segundo.

Paula Giolito/Folhapress
Entrevista exclusiva com Renato Pereira, marqueteiro do governador Luiz Fernando Pezão
Entrevista exclusiva com Renato Pereira, marqueteiro do governador Luiz Fernando Pezão

*

Folha – Por que a presidente Dilma foi reeleita?

Renato Pereira – A campanha dela soube perceber com mais nitidez em que país está vivendo. O PSDB demonstra ter ainda uma visão muito patrimonialista da política. Na última semana de eleição, os principais comerciais do PSDB têm Neymar e Romário.

Os comerciais da Dilma são os compromissos dela com o eleitor, com o alvo da eleição. Sabe com quem precisa falar. A visão do Aécio e da cúpula do PSDB ainda é antiquada, com composições, com políticos que supostamente têm os seus currais eleitorais e celebridades que supostamente influenciam as pessoas. Isso se traduz em peças publicitárias completamente inadequadas numa eleição tão apertada como essa.

Quais os principais erros?

O primeiro foi anunciar o Armínio [Fraga como ministro da Fazenda], o que propiciou ao PT tornar tangível a narrativa do governo de ricos versus de pobres.

O problema foi anunciar um ministro ou o Armínio?

Ao anunciar o Armínio ele busca ganhar credibilidade. Mas só entre quem já votava nele. O PT conseguiu uma tangibilidade para o discurso deles. Isso deu credibilidade à história [petista]. O segundo foi ter chamado a Dilma de leviana. No Nordeste, leviana tem o sentido de “mulher da vida”. Ficou particularmente agressivo. Do lado do PT, tem esse erro inacreditável, não da coordenação da campanha, mas de uma parte da militância, fazendo aquela ataque à sede da “Veja”. Multiplicou o alcance da matéria. Virou matéria no “Jornal Nacional”. Mas acho que não deu tempo [de influir no resultado].

O caso Petrobras permeou a campanha toda e o Aécio apostou nisso. Foi um erro?

[A corrupção] É um tema relevante para o eleitor que já priorizava o voto contra o PT. Aécio foi muito eficiente em pregar para os convertidos, mas para ganhar a eleição ele tinha que converter novos eleitores. O tema central é a economia do cotidiano, poder de consumo, mais e melhores empregos e perspectivas melhores de futuro.

O foco da Dilma o tempo todo é economia. A tradução do caso Armínio é muito vida real. “No passado esse cara disse que vai mudar política dos bancos públicos. A prestação do Minha Casa Minha Vida, por regras de mercado, deveria ser cerca de R$ 900. Só é cerca de R$ 100 para quem ganha até dois salários mínimos porque o governo subsidia. Com o Armínio vai acabar esse subsídio”. É uma tradução muito vida como ela é. A campanha do Aécio falava de um conjunto de temas e dentro de uma zona de conforto do PSDB: o discurso da ética e da eficiência. O PSDB, ao contrário do PT, não procurou modular sua mensagem ao Brasil atual.

O PSDB não quis abandonar essa zona de conforto?

Não quis ou não soube. No fim dos anos 90, o PT consegue se adaptar a um país em transformação, conquista a classe média. Ganha novos nichos eleitorais. Antes, o eleitor do PT era um voto ideológico. O PT consegue mudar isso. O PSDB continua muito fiel e preso a um discurso tradicional.

É possível ganhar uma eleição com um eleitorado de mais renda e escolaridade?

O que eu dizia quando estava com Aécio era que a única chance de ganhar com esse discurso é se o PT se suicidar. O que quase aconteceu com o ataque ao prédio da Abril.

O Aécio pode mudar sua imagem para 2018?

Houve uma diferença de visão. Vi no Aécio e na cúpula do PSDB uma história muito clubista. A razão da candidatura era tirar o PT do poder. Não é um discurso eficiente com o eleitor que definiria a eleição, a classe C.

Não era algo do Aécio, mas da cúpula do partido. Mesmo alguns mais sensíveis na análise, como o Tasso Jereissati, o próprio Fernando Henrique. Essa disputa com o PT torna o discurso eminentemente moldado por esse antagonismo. Isso acaba estreitando o alcance da mensagem. Mas também deveria haver gestos. Defendia que o Aécio tinha que sair do teatro da política, com um agenda real próxima do cidadão. Viajasse, tivesse encontros.

Semelhante à Caravana da Cidadania do Lula?

Também, mas o Lula há algum tempo conseguiu transmitir a mensagem de que parece um cara parecido com o brasileiro médio. O PSDB é percebido como um partido de elite distanciado da população. Em parte por obra do PT, mas também pelos gestos de seus principais líderes.

A eleição apertada prejudica a governabilidade?

Acho que o Brasil já é suficientemente maduro, com instituição para absorver esse choque.

Por que as manifestações de junho de 2013 não provocaram mudança nas eleições?

A Marina encarnava essa agenda, mas não foi suficiente por causa da fragilidade. No Rio, tudo o que fizemos na campanha [do Pezão] era o que eu pregava para a campanha do Aécio. O que eu pregava? Atitude, comportamento. [No RJ] Tinha um cara que era quase um antipolítico, sem boa retórica, sucedendo um governador mal avaliado. O jeito era mostrar que aquele cara com um jeito simples estava interessado em ouvir. A campanha do Pezão é o tempo inteiro ele conversando com as pessoas.

Qual foi o erro da Marina?

Houve uma coleção de erros, mas também de fragilidades estruturais. O PSB ainda é muito frágil como partido, com pouca capilaridade e estrutura nos principais Estados. Tinha uma história um pouco artesanal. Mas a trajetória de vida dela era o grande trunfo. Quando ela entra em cena tem a configuração de uma pessoa que parece o brasileiro médio, uma empregada doméstica, do outro lado a Dilma que parece uma patroa, na postura e a maneira de ser, e o Aécio é classicamente o doutor. A Marina era a única dos três que fazia o que o Lula conseguia fazer. Mas ela não articula isso bem, com muitos improvisos. Houve erros bobos, como lançar o programa de governo, trata a economia de forma academicamente, como no caso da independência do Banco Central. E o João Santana traduz isso de forma mais simples do jeito dele. Ela tinha que deixar claro que o Banco Central independente seria um guardião para os preços não subir.

Por que divulgar o programa de governo foi um erro?

Ninguém divulga. Ela lança como se fosse um trunfo, mas tanto Aécio quanto Dilma trabalham fortemente contra o que ela lançou.

Ele não ajuda o eleitor a ter uma decisão mais consciente?

Uma coisa é dizer quais são suas ideias e compromissos centrais. Outra é entrar no nível de detalhe que obviamente permite um trabalho de desconstrução. Quanto mais detalhe, mais se enrola.

Não seria transparência?

Mas é uma transparência que não existe em nenhum lugar do planeta. Entrar em detalhes permite que adversários distorçam, desconstruam ou revelem em detalhes coisas que do ponto de vista eleitoral são nocivas.

Essa eleição foi marcada pelas desconstruções, distorções e ataques pessoais?

Eleição é para ser seleção natural. Tem competidores, partidos e seus representantes que precisam passar por um processo em que suas vantagens e desvantagens competitivas têm que aparecer. O que o TSE começa a dizer, que eleição tem que ser só proposta, é uma piada. Os comportamentos que você teve ao longo da sua vida revelam os seus valores. Você pode até se arrepender, e terá a oportunidade de dizer isso. Mas achar que um adversário ou a imprensa não podem discutir o que você fez de errado ou polêmico como cidadão ou político no passado é um absurdo total. Distorções são coisas relativas. Tem gente que considerou a peça do João Santana sobre a independência do Banco Central independente uma distorção. Eu não acho. Pessoalmente sou a favor do Banco Central independente, mas compreendo que uma leitura de esquerda veja o BC independente como uma gestão mais permeável aos interesses do mercado financeiro.

Não é possível uma campanha mais propositiva?

OK, vamos fazer uma campanha eleitoral em que as pessoas aparecem num estúdio falando. Quem ganha? Qualquer cara carismático, que fale bem, seja bom comunicador… É um campo aberto para o populismo. Vira um programa de auditório. O artifício da publicidade vale para todo mundo.

No Rio, os adversários erraram ao não aproveitarem a má avaliação do ex-governador Sérgio Cabral?

Acho que não. Foi a incapacidade de dialogar com junho de 2013. O Lindbergh [Farias] fez uma candidatura arcaica, da narrativa do nós contra eles. Tentou acusar o Pezão de governar para os ricos sem ter como mostrar. Achou que o Lula ia transferir voto, com uma leitura patrimonialista da política. O [deputado Anthony] Garotinho fez uma campanha boa, porque a única chance dele era mostrar os programas sociais do passado. Fez uma campanha sem radicalismo, mas tinha um teto muito baixo. Mas o Pezão comeu [os votos d]o Garotinho. O Crivella não subiu nada. A campanha do Crivella, do ponto de vista de comunicação, foi muito fraca. Mas tinha uma baixa rejeição e conseguiu atrair voto dos insatisfeitos com o governo. Mas foi só lembrar quem ele era para limitar o potencial de crescimento. O Lindbergh tinha tudo para mostrar que tinha a história do diálogo com seu passado de líder estudantil. Mas começou a campanha com um comício fake.

 

 

Originalmente publicado aqui.

Semelhança de programas deixou pleito polarizado, diz historiador

A polarização da campanha presidencial é resultado da semelhança entre os programais dos dois candidatos, segundo o historiador José Murilo de Carvalho, 75, autor de “Cidadania no Brasil: O Longo Caminho”. “Aí entra a tática dos marqueteiros para marcar a diferença e mobilizar os fiéis: agredir, insultar, criar factoides”, diz.

A divisão do país vai arrefecer, diz ele, porque problemas reais terão de ser enfrentados, como o baixo crescimento da economia: “Não há política social que se sustente com crescimento zero”.

Zanone Fraissat – 16.ago.2013/Folhapress
O historiador José Murilo de Carvalho
O historiador José Murilo de Carvalho

*

Folha – Por que Dilma Rousseff venceu as eleições?

José Murilo de Carvalho – No duelo de insultos em que se transformou a campanha, ganhou quem conseguiu convencer a maioria dos eleitores de que o adversário era pior. Dito isso, cabe acrescentar que a vencedora terá que levar em conta que o eleitorado se dividiu ao meio, que seu novo mandato exigirá menos voluntarismo e mais negociação e que, sem retomar o crescimento, todas as conquistas estarão ameaçadas.

Por que essas eleições foram tão polarizadas, com um grau de agressividade que não se via desde a disputa entre Collor e Lula, em 1989?

Meu primeiro trabalho publicado foi sobre uma feroz luta política de família em uma cidade mineira no século 20. Fiquei arrasado quando um espírito maquiaveliano local ironizou meu trabalho. Tudo é planejado, disse ele, os dois chefes beligerantes são casados com duas irmãs. A polarização, mesmo violenta, continuou ele, é essencial para a manutenção da lealdade dos seguidores. Sem saber, ele formulava uma lei da dinâmica do conflito social.

Quem viu o último debate dos candidatos deve ter notado que nos blocos em que se enfrentavam eram lobos agressivos. Nos blocos em que respondiam perguntas de eleitores eram cordeiros que concordavam em tudo. Boa parte da polarização deve-se à semelhança entre os programas dos candidatos. Aí entra a tática dos marqueteiros para marcar a diferença e mobilizar os fiéis: agredir, insultar, criar factoides.

Pelo lado positivo, diferentemente das polarizações de 1954 e 1964, que levaram a uma tragédia e a um golpe, ninguém apelou para solução extraconstitucional. Aos trancos e barrancos, vamos em frente.

As mentiras usadas tanto pelo PT quanto pelo PSDB são aceitáveis numa democracia?

A baixaria é típica de democracia imatura. Em matéria de etiqueta política, ainda comemos com a mão. O fato deve-se em parte ao atraso de nossa democratização política. Há pouco mais de meio século é que o povo começou a entrar na política, antes comandada por bacharéis. A invasão do povo, como eleitor e como eleito, não poderia deixar de ter consequência para o comportamento político, sobretudo com as facilidades da internet. Não é para elogiar, mas é um progresso. Imagino que prática mais alongada de competição fará com que haja mais “fair play”.

O que explica o grau de violência na campanha?

Uma das causas é o fato de o mesmo grupo político estar no controle do poder há 12 anos. No Brasil republicano, só durante as duas ditaduras tivemos grupos que ficaram no poder mais tempo do que isso. Nossa longa tradição estatista e patrimonialista faz com que enorme prêmio seja colocado no controle do Estado. Ele é a principal fonte de poder, prestígio e riqueza. São muitas as vantagens materiais que traz em termos de empregos, cargos de confiança, diretorias de estatais, contratos milionários, favorecimentos de amigos. Quem está dentro não quer sair, quem está fora quer entrar.

O sr. acha que o país sairá dividido da eleição ou a agressividade é passageira?

Sairá dividido, mas a intensidade da agressão diminuirá no dia a dia da política. Algum conflito permanecerá. Ao lado de muitas convergências, devidamente ocultadas, há divergência real entre os dois principais partidos, sobretudo no que diz respeito às políticas econômica, financeira e à política externa. Na política econômica, mais controle e estatismo de um lado, mais mercado e autorregulação do outro. Na financeira, o oposto, mais frouxidão versus mais controle. No setor externo, mais política de governo num campo, mais política de Estado no outro. Em termos amplos, mais ênfase na igualdade de um lado, mais na liberdade, do outro.

Qual seria a melhor maneira de refrear os ânimos?

PT e PMDB não têm condições de governar sozinhos, precisarão de alianças, como sempre precisaram. Isso já será um fator de arrefecimentos de ânimos. O PMDB continuará como o maior partido no Congresso e com o maior número de governadores. Continuará como árbitro da política e fator de moderação. Além disso, a realidade se imporá. Certos problemas terão de ser enfrentados. O mais importante é o do crescimento da economia. Não há política social ou nível baixo de desemprego que se sustente com crescimento zero.

O Brasil tem 50 milhões que recebem o Bolsa Família. Esse contingente provocou alguma mudança nas eleições?

Desde a segunda eleição de Lula, o número de pessoas com Bolsa Família em determinado Estado tem apresentado correlação positiva com o voto no PT. O Bolsa Família, embora necessário e justificável, dadas nossas condições sociais, criou uma grande clientela eleitoral. As acusações de que o adversário acabaria com a bolsa assustaram muita gente.

O PT martelou na tecla de que a eleição era uma disputa de ricos contra pobres. Isso terá impacto num futuro próximo?

Como toda polarização, é uma estratégia arriscada, inclusive para o PT. Primeiro porque é difícil saber onde termina o pobre, onde começa o rico. Depois, acabar com a pobreza é acabar com o PT eleitoralmente falando.

Por que a corrupção foi um dos temas dominantes da campanha, mas não teve efeito decisivo no pleito?

A sensibilidade para a corrupção reduz-se quando entra em jogo a percepção de interesses. Ela é maior entre os que menos dependem do governo, menor entre os que dependem mais.

O Brasil foi palco de grandes manifestações em 2013. Por que essas questões não foram discutidas na campanha?

A tática de polarização teve êxito. Votos brancos e nulos não foram significativos. Mesmo os eleitores de Marina, que poderiam ser considerados votos de protesto contra a polarização, acabaram optando por um lado ou outro. Mas não nos enganemos. As causas dos protestos não sumiram. Os dois partidos terão que se reinventar, sob pena de terem que enfrentar a probabilidade cada vez maior do surgimento de uma terceira via que acabe com a polarização, liderada por Marina ou outro líder.

 

 

Publicado originalmente aqui.